WebArtigos.com | Publicar Artigos, Monografias, Textos

maria angela mirault

MARIA ANGELA COELHO MIRAULT PINTO é Doutora (2002) e Mestre (1998) em Comunicação e Semiótica pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Especialista em Didática do Ensino Superior pela Universidade Católica Dom Bosco (1995) e Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Relações Públicas, pelas Faculdades Integradas de Comunicação e Turismo Hélio Alonso, no Rio de Janeiro (1976).

 Artigos publicados

CUIDADO COM A MARKETAGEM

Dia desses, recebi, via email, uma convocação. Tratava-se da realização de um encontro para arrecadação de itens para a confecção de kits de maquiagem e produtos de beleza com a finalidade de serem distribuídos às mulheres em bairros da Capital. O objetivo informado no texto era o “de acrescentar um elemento novo no processo de discussão sobre o papel da mulher na sociedade, presenteando-a com produtos que elevam a autoestima e fortalecem laços de inclusão social” (sic). Levei um susto. A mensagem não era compatível com a signatária, mas, levava sua assinatura, dando-lhe credibilidade. Aí, fiquei imaginando como é que aquela pessoa pode embarcar nessa furada e - pelo teor da mensagem - acreditar ser possível “acrescentar um elemento novo no processo de discussão sobre o papel da mulher na sociedade” presenteando-a com um kit de beleza, a título de comemorar a data? Aí, pensei no que teremos pela frente, nessa campanha eleitoral. E me estarreci. Se gente qualificada embarca nessa marketagem, o que esperar dos desqualificados (e dos descarados) que se candidatarão e até se elegerão? O que serão capazes de marketear?
Avatar não é um filme. É uma experiência absolutamente inovadora. Um marco na história do entrenimento. Não se pode assisti-lo e comentá-lo como a um filme, porque o que se apresenta à experienciação por intermédio do 3D é inusitado demais para permiti-lo. Estamos diante de uma nova híbrida mídia, que utiliza com a maior propriedade toda sua potencialidade. Estamos diante de uma apoteose limítrofe de todas as possibilidades de expressão. É pura arte plástica. É pura literatura. É possibilidade tecnológica-virtual levadas as últimas consequências.

Nem só de pão e circo pode viver o homem

O inglês (nascido na Índia), Eric Arthur Blair, sob o pseudônimo de George Orwell, certamente, não poderia prognosticar esse futuro. Em tempos de décima temporada do programa, vale a pena observar uma curiosidade. Pois, por mais que (cabeça boa!) tenhamos formado opinião da nefasta influência do Big Brother, parte de nós não deixa de assisti-lo. Parte de nós, que nos julgamos capazes do discernimento de pensamentos nobres, consciência crítica e conduta reta, submete-se, voluntaria e fielmente, à escravidão diária de acompanhar o maior espetáculo e exemplificação de inexistência de valores ético-morais que, no horário nobre, invade as salas de nossas casas e ensinam nossas crianças - sob a concupiscência dos adultos - a aprenderem que tudo vale a pena se os fins são recompensadores. Estamos diante de um triste espetáculo da arena romana. Do túmulo talvez se surpreenda e lamente ter inspirado a revelação dessa capacidade insidiosa do duplipensar humano, que revela e expõe muito mais quem, do recesso dos seus lares, assiste, e torce, e paga, e escolhe, e vota, do que o triste espetáculo oferecido pelos sequestrados – confinados – encarcerados – aliciados - vencidos e vendidos no circo romano nosso de cada dia.

SENHORAS E SENHORES, ACABOU O PAPEL!

Eles podem até pensar que voltarão, contando com o nosso esquecimento, com o nosso aquietamento. Mas, tudo mudou e nem sei se vai dar tempo de ligar o piloto automático. Nem sei mesmo se irão sobreviver para suas espúrias reeleições de 2010. Sem dúvida, eles cairão, é questão de tempo. Mas, na volta, uma coisa é preciso que suas excelências saibam. Nós não estamos mortos. Estamos cansados, é verdade, sem lágrimas, mas alertas.

E AGORA, JOSÉ (OU DUNGA)?

Não é que não se possa servir a dois senhores. Não se deve. Não se deve servir a dois senhores porque não é possível. Não é ético, não é moral e não é legal, porque confunde, porque deprava. A servidão, assim, aliena e infunde desesperança. E a desesperança leva ao desânimo e o desânimo à imobilidade, à desistência. E viver, persistir e lutar é preciso.
Muito do que aprendi na carreira, foi decorrência de uma práxi cotidiana, imposta pela própria dinamicidade da área. Sempre advoguei a tese de que os cursos da área profissional de comunicação deveriam constituir-se área de strito e lato senso, da pós-graduação. Amanhã, deveriam estar correndo em busca do tempo perdido. O mundo mudou, a demanda mudou, não dá mais pra se ir pra frente com os olhos no retrovisor da 02/84. A exigência do diploma de jornalismo é coisa do passado, nada mais.
Existe vida organizada antes do Marketing. Trabalho, organização, relacionamento e comunicação encontram raízes na gênese da própria espécie humana, o Marketing, não. Por isso, é a comunicação quem preside, ou deve presidir, as ações de Marketing e não o oposto, ou seja, toda ação de Marketing se institui e subordina-se às ingerências das necessidades intrínsecas que temos de nos comunicarmos e de nos relacionarmos.

Allan Kardec, O Semeador de Esperanças

Allan Kardec não vivenciou o encurtamento das distâncias e do tempo proporcionado pela invenção do automóvel (1885) e do avião (1906) que dirá o advento da internet e mesmo do celular, que nos conectam a tudo e a todos.
A liberdade de expressão é um imprescindível direito constitucional (Art. 5, IX), portanto, indiscutível.

QUE QUE É ISSO, MINHA GENTE (II)

Domingo passado foi comemorado o Dia das Mães. Bem sabemos uma data comercial, mais do que nunca, oportuna para alavancar a economia, fazer circular o dinheiro. Tudo bem, jogo aceito. Tentando equilibrar as contas, domar os cartões de crédito, correr atrás dos pré-datados, pagando impostos, esticando salários e segurando nossos empregos, já nos tornamos tão equilibristas quanto nossos concorrentes dos sinais, exercitando, como ninguém, nossa brasilidade e, por que não, procurando dar conta dos nossos destinos. Mas, será que, nesse exercício diário e individual de sobrevivência, a gente se dá conta do que acontece a nossa volta? Será que todo mundo reparou no que reparei?

ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO

O público e o privado não se reconhecem mais como distintos. A discussão pública de interesse privado, amplamente divulgada pelo canal televisivo do Supremo - com seus esgares e tiques nervosos midiatizados pela mídia fisionômica dos envolvidos - é um exemplo típico desse acoplamento e indistinção. Precisamos muito divergir, refletir, mas, precisamos, mais do que tudo, posicionarmo-nos diante dos fatos que nos dizem respeito, sem medo, omissão ou acovardamento.

QUE QUE É ISSO, MINHA GENTE

Quais são os significados da palavra honra, orgulho, para os senhores? Quais são seus valores? O que ensinam para os seus filhos? Já não bastava a colonização global que submete todo um povo, que, alienado, diante da tevê, anestesiado, ainda, paga pelo seu voto, para que alguém - sem ter praticado qualquer ato de heroísmo cidadão, sem possuir um diferencial de talento pessoal ou honradez - ganhe um milhão de reais custeados pelos nossos míseros centavos, por intermediação de uma empresa de telefonia, sócia dessa empreitada?
O artigo foi apresentado no II Simpósio Internacional sobre Religiões, Religiosidades e Cultura promovido pelo Departamento de História, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, na cidade de Dourados, em Mato Grosso do Sul, em abril de 2006 e intenta situar a contribuição do pedagogo francês em seu percurso filosófico-religioso que, hoje, inspira milhões de pessoas no mundo a encontrar na conciliação entre as matrizes filosóficas idealista-reacionalista e sensualista-empirista, proposta por Kardec, as explicações e consolações para suas inquietações existenciais.

Educação para o Consumo Consciente e Responsável

O consumismo é o senhor absoluto do desperdício.
As relações públicas habilitam-se a proporcionar as vias do entendimento e da compreensão mútua entre agentes sociais, promovendo o intercâmbio entre os interesses de uma organização e seus diferentes públicos. Faz dessa premissa sua própria razão de existir, ignorando que, por sua própria natureza funcionalista, o que propõe permite questionamento. Seriam as ações estratégicas utilizadas pelas relações públicas meios eficientes para se fazer cumprir a premissa de sua eficácia em possibilitar o entendimento e a compreensão mútua entre os agentes sociais que se comunicam e se inter-relacionam? Este texto, que se constitui de partes da dissertação de Mestrado da autora, apresenta o referencial teórico que subsidiou a reflexão sobre estas premissas, examinando os conceitos de “comunicação” e “entendimento” a partir do referencial da teoria da ação comunicativa habermasiana.

O HIPERTEXTO COMO MÍDIA SEMIÓTICA:

O hipertexto remete-nos para a vastidão ilimitada da informação, mobiliza-nos a trilhar caminhos não previsíveis e, mesmo irreconciliáveis com o passado, pela abertura que nos oferece para o campo das probabilidades, incontidas nesta mídia, mas absolutamente limitadas pelos suportes de papel, o mundo da escritura do livro e, também, das mídias eletrônicas de massa. Mas, uma visita a web dá-nos também a oportunidade da reconfiguração de repertório, pela instigação, oferecendo-nos a perspectiva da autonomia, da descoberta de variados caminhos, absolutamente singulares, às vezes criando uma trilha original, pela qual, nenhum outro navegador ainda passou, nem trilhará.A atividade da pesquisa, ou da navegação, no hipertexto, em si, é um fenômeno de caráter temporal. Cada decisão tomada, cada ação de acnase, desencadeia sempre um futuro imediato e sucessivo de episódios, desconhecidos enquanto não se realizam, já que possibilitam a abertura para outras escolhas e realizações. Estamos sempre na iminência de optar por trilhas e coisas que por sua vez desencadearão outras como sucessão ou conseqüências de múltiplas escolhas e decisões que tomamos ou poderíamos ter tomado, pelo uso do livre-arbítrio, na construção do conhecimento singular, em conformidade com a peculiaridade, o repertório e a potencialidade de cada um.

A PERMANÊNCIA DO MITO NO IMAGINÁRIO CULTURAL RELIGIOSO

Pode-se supor que o aparente resgate atual da figura angélica no imaginário humano tenha a significação da permanência de inúmeras experiências filosófico-religiosas do passado da humanidade. O simples sintonizar da TV pode significar um providencial auxílio terapêutico e a minimização dos sintomas da dor existencial. Alguns dos telespectadores poderão ter-se sentido contaminados por essa ação midiatizada da fé. Uma análise semiótica dos relatos de Lucas em Atos dos Apóstolos mostrar-nos-á outras significações do testemunho para a conversão de novos adeptos. De perseguidor dos cristãos, transformar-se-á em um dos mais importantes apóstolos do cristianismo, pelo qual morrerá crucificado. Segundo os princípios da Semiótica da Cultura poderíamos chegar a suposição da existência de signos invariantes- identificados e comuns a estes textos religiosos - mantidos através dos códigos terciários da Cultura. Fatores pré-culturais, como o medo do perigo e do desconhecido; a consciência existencial de si e o medo da morte condicionam tanto o indivíduo do passado quanto o homem do presente, impelindo-o na busca das explicações simbólicas, já que lhe é impossível agir na primeira realidade. Nesses ambientes, os fiéis encontrarão a acolhida necessária à individualização dos seus problemas, proporcionando também a preservação e a manutenção dos invariantes signos da fé.

VOCÊ TEM MEDO DA MORTE?

Sob as constatações de Kardec, embora ainda temerosos frente ao fenômeno da morte, podemos concebê-la sob outro paradigma que nos remete a continuidade da vida, da imortalidade e da reencarnação. A morte é, sob o paradigma da imortalidade e da reencarnação, um portal transitório para a mudança e o progresso. A milenar doutrina da reencarnação, postulada modernamente por Allan Kardec, amplamente difundida pelos estudiosos do nosso tempo, condicionam-nos como seres imortais e viajantes seculares entre dois mundos, fadados a continuar uma caminhada, que, iniciada antes do nascimento, não se interrompe no decurso da morte.

COSMOVISÃO - COMO PERCEBEMOS E AGIMOS NO MUNDO

Sob essa análise, o próprio conceito de totalidade é uma abstração limitadora e um equívoco epistemológico originado nas concepções provisórias e incompletas que o homem tem de si e do mundo. Assim, toda abordagem da realidade é pessoal, incompartilhável e única. Nossa realidade é circunscrita à cosmovisão que possuímos com relação ao todo, abrangendo sobremaneira também nossa concepção de gente. Percebemos, apreendemos, expressamos e suportamos o mundo pela filtragem da cosmovisão que temos de tudo. Qualquer tentativa de compreensão e expressão do mundo constitui-se teias de significações particulares que temos – sempre provisoriamente – sobre todas as coisas que, de algum modo, destacou-se do caos e nos afeta. Nesse contexto, o aprendizado é uma tarefa individual e resultante do esforço e da vontade pessoal de organização e sobrevivência.

O QUE DAR PARA SUA CRIANÇA EM TEMPO DE CRISE

Outubro, Mês da Criança! Lá fora, é Primavera. A natureza nos presenteia com flores, canto de pássaros, temperatura amena, noites estreladas, vida em abundância. As explicações de antes, de ontem, de agora a pouco, já não dão conta do fenômeno e do que está por vir. Na defesa da sobrevivência, vamos vivendo como lagostas colocadas vivas na panela, sem sequer se dar conta de que a água vai ferver e o fim que lhe aguarda é inevitável. Junto ao presente, que pode ser o mais simples, que se dê a certeza do companheirismo, o amor e a confiança de que estamos juntos, nós e elas, nos dias de Sol e nos dias de chuva, na bonança e na tormenta. No Dia da Criança, no Mês da Criança, não deixe de presentear as suas crianças, prepare-as para o mundo, para a vida, presenteie-as com sua atenção, seu carinho, suas orientações. Feliz comemorações do Mês da Criança!

O perfil do difusor da Doutrina Espírita

Todo aquele que se dispõe a difundir o legado kardequiano, deve, imediatamente, lembrar-se que o faz por livre iniciativa, devendo, portanto, estar ciente de suas qualificações na competência dessa responsabilidade. É de pleno conhecimento dos espíritas ser missão do homem inteligente na Terra utilizar os recursos de sua inteligência para desenvolver as retardatárias e conduzi-las a Deus. Constitui-se pré-requisito de sua mensagem, a crença em Jesus, além da fidelidade aos seus ensinamentos. Do difusor da mensagem espírita, espera-se que, evangelizando-se continuamente, saiba-se cristão e alvo da mensagem do Consolador. O difusor da mensagem espírita será aquele espírita sincero, preocupado, antes de tudo, com o seu aprimoramento moral. Será um convertido aos postulados Espíritas, (por isso, estudioso e conhecedor profundo) convicto daquilo que difunde e do seu papel na difusão, fiel aos postulados de Kardec e de Jesus, cuidadoso na formulação das idéias e conceitos que expõe em nome do Consolador. Crerá na afirmação do Espírito de Verdade, quando diz: “Venho instruir e consolar os pobres deserdados. O difusor da Doutrina Espírita falará com precisão e clareza, pois que a clareza – já nos esclareceu Kardec – “é da sua (da Doutrina Espírita) essência mesma e é donde lhe vem toda a força, porque faz ir direto à inteligência. O expositor da Doutrina Espírita saberá que, ao expô-la, por seu intermédio, assume sérias responsabilidades, não só diante de quem lhe convidou, ou delegou-lhe a tarefa, mas diante de Deus, de Jesus, de Kardec e dos Benfeitores Espirituais. Saber-se-á mídia e mensagem de um precioso legado.

POR QUE AINDA NOS MANTEMOS TÃO MEDÍOCRES

Nunca pareceu tão atual como agora a reflexão proposta pelo ensaísta alemão Hans Magnus Enzensberger1, a respeito da mediocridade.

SPAM URBANO

Quem se utiliza dos benefícios da internet e do correio eletrônico sabe da inconveniência em se receber mensagens indesejadas. É bem verdade que a liberdade da livre expressão é um direito assegurado aos cidadãos, inclusive, por normas internacionais. A Declaração de Direitos do Homem, de 1789, por exemplo, dispõe que “a livre comunicação dos pensamentos e das opiniões é um dos direitos mais preciosos do homem; todo cidadão pode, pois falar, escrever, exprimir-se livremente, sujeito a responder pelo abuso desta liberdade nos casos determinados pela lei”. da Constituição Federal. A questão é tão grave que alguns provedores têm mecanismos para inibir essa invasão de privacidade, e, assim, proteger seus usuários dos malefícios do spam virtual. Inadvertidamente, instituiu-se a prática da publicidade de rua como mídia para qualquer mensagem. janeiro de 2006 marcou, no Brasil, o início do combate ao spam urbano. A partir daquela data, a promulgação da Lei Municipal Paulistana 14.233/06 - Cidade Limpa - inibe os exageros e regulamenta o uso dos espaços públicos com relação à exposição de outdoors, pinturas em prédios com fins publicitários, painéis luminosos gigantes, telões eletrônicos, faixas, banners, propaganda em táxis e, ainda, a distribuição de panfletos na rua. A redação do texto inicial de autoria da diretora do meio ambiente e paisagem urbana da Empresa Municipal de Urbanização, já restritivo, foi enfatizada com mais rigor pelos vereadores.

A QUESTÃO ECOLÓGICA DA COMUNICAÇÃO

Aparentemente, a complexidade que envolve a problemática da comunicação não é percebida pelo censo comum do cidadão urbano. A complexidade da problemática da comunicação, contudo, não é um problema dos entendidos, dos estudiosos e acadêmicos; é um problema coletivo com implicações ecológicas, que tem início na pessoa, no cidadão, em seus direitos, mas, também, na salvaguarda de sua individualidade. O conflito diário proporcionado pela falta de discernimento, entre o que podemos e devemos adquirir e o volume do que nos é apresentado do que não podemos e não devemos consumir, vai se processando sutilmente, avolumando-se em nossa psiquê, transformando-nos em hordas de frustrados consumistas, aos quais - como escape - só resta a aquisição do produto similar, do falsificado, ou ao cometimento do araquiri da aquisição, em suaves e intermináveis prestações, de um bem muito além das possibilidades reais de consumo. Somos seres ecológicos e vulneráveis ao ecossistema das cidades. A depressão, esse mal do século que coloca o indivíduo em conflito consigo mesmo é retroalimentada pela incapacidade palpável de se alcançar os limites dos apelos que a publicidade impõe.

Não troque o velho pelo novo se não vai saber usar

Resistiu à oferta da operadora por quase três semanas. Acreditando-se ecologicamente correta, não via sentido em atender ao apelo do consumo irrefletido, alienado e irresponsável. Antes de ir embora, porém, lembrou-se de conferir à oferta da operadora. Resultado: saiu da loja com um novo e “gratuito” aparelho de celular. Antes de dormir, programou o despertador do celular, mas, praticamente, não dormiu, com medo de não tê-lo feito adequadamente, mas ele despertou. Na saída, esquecera o dito cujo. Voltou. Cumpriu os ritos do aeroporto e embarcou com a bendita maquininha em sua bolsa. Estava tudo bem, pensou. Porém, portas fechadas e as recomendações iniciais do comissário de bordo, trariam a tona um pequeno detalhe: a página do manual de como desligar o celular novo! Levantou-se apressadamente, abriu o bagageiro e buscou sua bolsa. Lá estava ele, lindo... Mas, ligado. O passageiro ao lado encarou-a brevemente. Teria notado ou era só uma paquera matinal? Mas, e se aquela não fosse a função adequada? E se o celular estivesse ligado? E, se, ligado, tocasse? Bem, seria um pouco improvável que alguém lhe ligasse às 5 da manhã. Ao chegar ao seu destino, foi, avidamente, buscar nas páginas do manual a instrução de como desligá-lo. Fácil, como a vida, antes do celular.