VERMELHO COMO O CÉU: SOCIABILIDADE E SUBJETIVIDADE - O INDIVÍDUO TRANSPONDO OS LIMITES SOCIAIS
 
VERMELHO COMO O CÉU: SOCIABILIDADE E SUBJETIVIDADE - O INDIVÍDUO TRANSPONDO OS LIMITES SOCIAIS
 


SOCIABILIDADE E SUBJETIVIDADE: O INDIVÍDUO TRANSPONDO OS LIMITES SOCIAIS[1]

Renata Shirley de Santana Barbosa[2]

RESUMO:

Este artigo comenta o filme italiano dirigido por Cristiano Bortone, em 2004, intitulado Vermelho como o Céu (Rosso Come il Cielo) e tem por objetivo produzir reflexões entre conteúdos estudados na disciplina Psicologia Social, ministrada pela Professora Wedna Galindo, na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e o filme, que é baseado na história de vida de Mirco Mencacci, compositor e renomado editor de som do cinema italiano, que ainda na infância, devido a um acidente, torna-se deficiente visual. Uma história envolvente de coragem, determinação e superação frente aos preconceitos enfrentados pelo jovem artista na sociedade dos anos 70.

PALAVRAS-CHAVE: determinação, preconceito, coragem, deficiência visual.

DIÁLOGO ENTRE O RELATO DO FILME E OS TEXTOS PROPOSTOS

Vermelho como o Céu inicia com cenas da vida cotidiana do Mirco (protagonista do filme) que morava com seus pais em uma vila da Toscana. Ele costumava brincar com seus amigos e, sempre que podia, seu pai o levava para o cinema criando assim não só o hábito como o encantamento do menino por este tipo de arte. Para ressaltar a importância da família e do contexto social na formação do indivíduo e na compreensão de suas ações, destacamos o seguinte:

"Indivíduo e sociedade são inseparáveis, segundo a dialética, pois o particular contem, em si o universal;deste modo, se desejamos conhecer cientificamente o ser humano, é necessário considera-lo dentro do contexto histórico, inserido em um processo constante de subjetivação/objetivação." (LANE, 1998, p. 15)

Para aprofundar a discussão trazemos a posição de Borsoi (2004, p.22) quando cita Marx para enfatizar o fato do indivíduo ser o produto da interação social: "Aqui Marx deixa claro que o indivíduo é o ser social porque não é antítese da sociedade, pelo contrário, o indivíduo é o produto da vida dos seres humanos em sociedade".

O enredo do filme começa a tomar sentido a partir de um acidente que ocorre ao Mirco quando ele, por curiosidade, brincava com uma espingarda antiga e, ao ouvir a voz do pai, se assusta deixando a arma cair causando disparo acidental que acaba por lhe atingir na cabeça, lesionando os seus olhos.

Após vários exames o médico explica aos pais que a criança necessita de cuidados especiais e, na época as escolas públicas não aceitavam crianças com deficiência visual e o pai de Mirco era de origem pobre, o que levou o médico a recomendar o Instituto Cassoni, um colégio interno, religioso e tradicional (com mais de 100 anos).

Sem mais alternativas os pais levaram Mirco para o Instituto e lá foram recebidos pelo diretor, padre Achille, que explicou que o instituto era referência em lidar com cegos e assim a criança teria a oportunidade de aprender o braile e um ofício manual, como empalhar cadeiras, ressaltando que, ficando lá até os 18 anos, aprenderá, com a disciplina, a ser "capaz" de viver em sociedade. Em se pensando na metodologia de ensino da instituição, onde era imposta severa disciplina, e o efeito dessa ação frente a subjetividade, citamos o seguinte:

"Embora essas disciplinas reduzam em muito efetivamente o campo de exercício das subjetividades privadas, impondo padrões e controles muito fortes às condutas, à imaginação, aos sentimentos, aos desejos e àsemoções individuais, faz parte de seu modo de funcionamento dissimular-se, esconder-se, deixando-nos crer que somos cada vez mais livres, profundos e singulares."(FIGUEIREDO & SANTI, 2007, p. 20)

A idéia de que a disciplina nos levaria a crer que somos livres "capazes", não foi absorvida na subjetividade de Mirco que não aceitava a condição de cego, visto que era capaz de enxergar vultos. E a idéia de se moldar às normas daquela instituição não lhe era bem aceita, gerando conflito interior, conforme nos mostra Lane (1998, p. 12):

"Sei que vivo em uma sociedade com normas, suas instituições, mas quem sou eu afinal? Um robô pré-planejado, uma pessoa bem ajustadas às normas vigentes, ou alguém capaz de sentir de pensar e de agir de acordo com a minha consciência?" .

O primeiro amigo que Mirco faz no Instituto é o Felice, cego de nascença, era uma criança que fugia da judiação dos outros meninos mais levados. Em parceria com Mirco pôde questionar sobre como são as cores, e comparando as cores com coisas da natureza, Mirco descrever a cor vermelha comparando com o céu, ao entardecer, o que origina o nome do filme.

Mirco não se adapta facilmente à escola e não está disposto a aprender o braile, o que gera conflitos internos, aguçados pela ausência da família o queFIGUEIREDO & SANTI (2007, p. 20) nos esclarece:

"A perda de referências coletivas, como a religião, a "raça", o "povo", a família (grifo nosso), ou uma lei confiável obriga o homem a construir referências internas. Surge um espaço para a experiência da subjetividade privada: quem sou eu, como sinto, o que desejo, o que considero justo e adequado? Nessa situação o homem descobre que é capaz de tomar suas próprias decisões e que é responsável por elas. A conseqüência desse contexto é o desenvolvimento da reflexão moral e do sentido da tragédia"

Nesse contexto, Mirco em sua revolta, isolado no quarto, acaba encontrando um velho gravador, e esse equipamento lhe abre um leque de possibilidade, frente ao seu isolamento, pois, "é característica do homem a individualização e é isto que estána base da construção de sua individualidade, um processo que, por sinal, só pode ocorrer porque, necessariamente, está atrelado à sociabilidade". (BORSOI, 2004, p. 26). Sendo assim Mirco resolve, com ajuda do Felice, fazer o trabalho sobre a natureza, proposto pelo seu Professor Don Giulio, através de gravações.

Porém, o trabalho não é bem recebido por parte do Diretor que o repreende severamente, acusando-o de roubar o gravador e as fitas da escola para finalidades ilícitas, sem considerar a grande inovação e criatividade do trabalho desenvolvido pela criança. A insensibilidade do diretor, também cego, nos leva a trazer a tona o questionamento de Lane (1998, p. 16): "o que aconteceu com a nossa subjetividade para perdemos a capacidade de sentir amizade, de ter/ser amigo?"

A partir desse momento Mirco passa a contar com o apoio do Professor Don Giulio que, com a sensibilidade de um educador, lhe presenteia com um gravador novo e o incentiva a utilizar outros sentidos e conseqüentemente aprender o braile. Nesse meio tempo Mirco conhece Francesca, uma garota ousada, filha da zeladora da instituição, que em parceria com Mirco vai viver diversas emoções, pois, o que chama a atenção da menina é que ele afirma que ainda consegue enxergar, diferente dos outros garotos que reconheciam sua condição de cegos. E essa aceitação (ou não aceitação) está relacionada às emoções, significados e experiências do indivíduo, como nos mostra González-Rey:

"As emoções tomam formas e relações que não estão definidas de maneira imediata por um significado. Algo que duas pessoas compartilham com um mesmo significado não vai ter um mesmo valor emocional para elas. (...) Esses sentidos por sua vez serão responsáveis pela trajetória de vida diferente dessas pessoas a partir da experiência que enfrentaram". (2004, p. 136)

Sendo assim, Mirco põe em questão seus próprios limites, como quando se submete a andar de bicicleta junto com a Francesca, às escondidas, saindo do instituto por uma passagem secreta. Estabelecendo assim uma relação de amizade e cooperação e "a noção de cooperação implica interação e remete à noção de sociedade, que, por sua vez, não significa antítese em relação ao indivíduo e muito menos pode ser vista como separada da natureza". (BORSOI, 2004, p. 22)

Em uma dessas saídas às escondidas, Mirco e Francesca conhecem Ettore, um estudante cego que participa de protestos políticos e é ex aluno do instituto, essa amizade vai ser mantida e bastante significativa no desfecho do filme. De uma forma geral Mirco passa a interagir mais com os colegas e a se dedicar aos estudos, assim podia manter seus encontros secretos e fazer as gravações que desejava, na interação com os amigos, atitude explicada no trecho seguinte:

"(...) o homem não pode desenvolver suas faculdades humanas na ausência de contato humano e também não pode fazê-lo se não houver condições biológicas para tal. Então, o homem é necessariamente, um ser social, inclusive, porque nasce biologicamente em aberto tanto para construir sua hominização como para construir-se indivíduo. É somente a partir de condições naturais e referências sociais que o animal humano, pode tornar-se Homem". (BORSOI, 2004, p. 32)

Mesmo sofrendo o risco de ser expulso pelo diretor, padre Achille, que acreditava que a criança cega não deveria se iludir devido a sua incapacidade visual, Mirco continua colocando em prática a sua subjetividade através das gravações, em áudio, de sons de diversas coisas. Com uma imaginação fascinante Mirco e Francesca começam a inventar uma história de uma princesa e vários irmãos que eram órfãos. Lane ilustra bem, no trecho abaixo, essa resistência de Mirco:

"Atividade, consciência, afetividade, identidade estão em processo de consolidação  elas podem se cristalizar e teremos um cidadão muito bem comportado, ou ela assumem o desafio de se reinventarem a partir de metamorfose da própria identidade, como propõe Ciampa (1987) " (LANE, 1998, p. 15)

As sensações trazidas pelos sons que Mirco conseguia captar acabaram envolvendo vários outros meninos que, sempre em sigilo, se reuniam para dar sentido e voz a história que estavam criando, sentido este explicado no seguinte:

"O sentido subjetivo é a integração de uma emocionalidade de origens diversas que se integra a formas simbólicas na delimitação de um espaço da experiência do sujeito. (...) As emoções associadas à condição de vida do sujeito se integram em sua produção de sentido". (GONZÁLEZ-REY, 2004, p. 127)

Em uma das suas saídas às escondidas do instituto, Mirco decide levar os amigos ao cinema. As crianças fazem cotas e inventam uma desculpa para assistirem ao cinema sem a presença dos pais. Ali encontramos uma das mais belas cenas do filme. A sensação vivida pelas crianças que podiam estar no cinema e ouvir seus sons, mesmo sem poder enxergar as cenas, fato este motivado pelas fantásticas experiências que Mirco já havia tido indo ao cinema com seu pai. Fazendo isso eles rompiam com as normas institucionais para viver uma sensação concreta, realimentando os sonhos perdidos dessas crianças. Trazendo o reconhecimento dessas crianças enquanto protagonistas de suas histórias de vida: "podemos dizer que há um sujeito quando há produção de sentido, quando há diferenciação e singularidade. Sem isso, o sujeito fica anulado por determinações objetivas externas". (GONZÁLEZ-REY, 2004, p. 138)

No desfecho do filme, veremos que a vivência dos meninos é descoberta pelo diretor que, como punição, decide expulsar o Mirco. Contudo há a apelação do Professor Don Giulio para que o menino não seja expulso, visto que reconhece a produção da criança como uma forma de expressão e questiona frente ao Diretor, os valores da instituição.

Em contrapartida, Francesa, a menina amiga de Mirco, procura Ettore, militante político que mobiliza toda a cidade e ameaça parar a metalúrgica se o Mirco não fosse readmitido.

Por fim, Mirco é readmitido e autorizado a apresentar sua história no espetáculo de final de ano da instituição, para os pais, compartilhando-o com os amigos. Mostrando uma nova forma de encarar a realidade por parte dos pais: "a subjetividade como produção de sentido estimula formas de racionalidade que facilitam assumir e compartilhar as produções de sentido em uma cultura". (REY, 2004, p. 133)

"A subjetividade representa um sistema aberto, que se expressa de forma permanente através da ação, seja a de sujeitos individuais ou a das diferentes instancias e instituições sociais. Portanto, ela se caracteriza por seu caráter processual e em nenhum momento representa um conjunto de entidades estáticas, situadas em uma essência que atua como determinante dos comportamentos do sistema". (REY, 2004, p. 133)

A ação de Mirco e as parcerias que ele foi capaz de estabelecer, em sua interação social, transformaram a tradicional instituição, confirmando o que nos diz Rey:

"Nenhum sistema na história da humanidade foi capaz de neutralizar os sujeitos individuais, por mais que se tenha investido no progresso de sua domesticação. Essa capacidade subversiva da ordem estabelecida é precisamente a que reivindica o valor da subjetividade para uma psicologia crítica e da libertação". (2004, p. 140)

No desfecho do filme o diretor, padre Achille, foi destituído do cargo e tempos depois o governo italiano baixou uma lei que integrou crianças cegas a rede pública de ensino. Mirco Moncacci direcionou sua carreira para a produção musical. Por muito tempo teve seu próprio estudo na cidade Pontedera (Toscana) e, depois, criou em Roma (1999) uma empresa de pós-graduação em som. Hoje é responsável pela edição de som de importantes filmes italianos, e tem planos de formar uma fundação que desenvolva e promova pesquisas no universo sonoro abrangendo o público em geral.

Não dá para terminar a discussão sem levantar tantos elementos que foram importantes para que Mirco pudesse ser protagonista de sua história. A perseverança, a determinação e a ousadia não foram castradas pela sua interação social. Os pais se mostram como fator motivador do desenvolvimento dele. Em uma das cenas iniciais podemos ver a mãe reclamando o fato dele quebrar (desmontar) todos os brinquedos para depois tornar a consertá-los. Apesar de ser uma coisa comum das crianças, essa curiosidade não foi castrada dele e, apesar das reclamações, os pais apoiavam as suas descobertas, o que pode ter facilitado o interesse dele por equipamentos, e o fato dele poder tornar útil um velho gravador. Quando Mirco vence os próprios medos e ousa, ele também fortalece a postura do Professor Don Giulio que, mesmo adepto de novas idéias educacionais, não tinha coragem de enfrentar o diretor. Mas não podemos esquecer o papel fundamental de Ettore que, através da movimentação popular, conseguiu que o Diretor fosse demitido, reiterando a força que a interação social em prol de fatores externos, que não lhe afeta diretamente, podem provocar transformações.

O filme nos leva a repensar nossa prática e os nossos medos de enfrentar os desafios frente às imposições estruturais e sociais, como diria Lane:

A subjetividade é construída na relação dialética entre o indivíduo e a sociedade e suas instituições, ambas utilizam as mediações das emoções, da linguagem, dos grupos a fim de apresentar uma objetividade questionável, responsável por uma subjetividade na qual estes códigos substituem a realidade. Assim, objetividade/subjetividade como unidade dialética é mediada por uma estrutura denominada Subjetividade Social, a qual, através de código afetivos e lingüísticos garantem a manutenção do status quo.Como enfrentar esta cilada?(1998, p. 17)

As reflexões e temáticas que o longa Vermelho como o Céu provocam são muitas. A cena que traz os pais com olhos vedados assistindo o espetáculo nos provoca a ter um olhar diferenciado e, assim como disse o Professor Don Giulio, a usar os outros sentidos e então perdermos o etnocentrismo frente à cultura do outro e as possíveis limitações físicas. O filme nós incita a questionar ate que ponto estamos deixando que as barreiras sociais e estruturais limitem a nossa subjetividade e o nosso poder de transformação. Quantas coisas não concordamos e nos submetemos? Quantas idéias não nos permitimos expor para não provocar a ira ou desconforto de alguém? O apelo fica no sentido de que resgatemos a nossa subjetividade e o poder de ação, dentro da interação social na busca de melhorar o que acreditamos ser possível.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BORSOI, Izabel Cristina Ferreira. O homem (não) é um ser social: um debate superado? In: SILVA, Maria de F. S. e AQUINO, Cássia A. B. (org).Psicologia Social: Desdobramentos e Aplicações. 1 Ed. São Paulo, Escrituras Editora, 2004.

FIGUEIREDO, Luís Cláudio M & SANTI, Pedro Luiz Ribeiro de. Psicologia uma (nova) introdução: uma visão histórica da psicologia como ciência. São Paulo, Editora Puc, 2007.

LANE, Silvia T. Mourer. A dialética da subjetividade versus objetividade. In: FURTADO, Odair & REY, Fernando L. Gozález (org). Por uma epistemologia da subjetividade: um debate entre a teoria sócio-histórica e a teoria das representações sociais. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002.

REY, Fernando Gozález. O Social na Psicologia e a Psicologia no Social. Petrópolis, Editora Vozes, 2004

Filme:

BORTONE, Cristiano. Filme Vermelho como o Céu (Rosso come il Cielo). Produção de Bortone, C. e Mazzocca, D., roteiro de Bortone, C., Zapelli, M. e Sassanelli, P., direção de Bortone, C., DVD, duração 95 minutos, gênero drama, classificação etária 12anos, distribuição nacional: California Filmes, Itália, 2004.

Site:

CINTRA, Regina; TEIXEIRA, Erika; PERASSOLO, João. & LEIDE, Daiane. Disponível em Vermelho como o Céu. Acessado em 24 de setembro de 2008.


[1] Este artigo foi orientado por Wedna Cristina Marinho Galindo, mestra em Sociologia pela UFPE, professora da Disciplina Psicologia Aplicada as Relações Sociais, na UFRPE, em 2008.2.

[2] Graduando Ciências Sociais (Bacharelado), pela UFRPE, 6º Período.

 
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Sobre este autor(a)
ESTUDANTE DE BACHARELADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS PELA UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DE PERNAMBUCO. FILHA DE PAULO GONÇALVES BARBOSA E JOCILENE DE SANTANA BARBOSA. NATURAL DE RECIFE-PE. [email protected]
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