Uma visão sistêmica do trabalhador - Parte I
 
Uma visão sistêmica do trabalhador - Parte I
 


Uma Visão Sistêmica do Trabalhador
Parte I

A sociedade atual necessita compreender o papel que o trabalhador ocupa junto a Empresa ou Organização que pertence. As inúmeras revoluções vivenciadas pelo homem, desde sua origem, sempre trouxeram questionamentos, até então, incompreendidos, destacando em especial as relações que mantêm o ser humano em suas atividades rotineiras de trabalho. Considerando os estudos voltados a valoração das relações humanas no trabalho, a proposta de um olhar sistêmica, perfaz-se em definir alguns conceitos atuais da administração, em termos de Empresa e Organização, bem como do trabalhador, hoje denominado colaborador, como forma de realçar sua participação na construção da sociedade em que vive.
A preocupação atual está voltada para as Empresas focadas nas relações humanas no trabalho, eis que vivenciamos tempos de grande oferta de empregos e ampla mão de obra no mercado de trabalho, porém sofremos com a escassez de pessoas que possuam condições de relacionamento saudáveis. O homem nasceu para ser útil, e quando consciente de sua função, se torna ferramenta indispensável para seu crescimento pessoal e do grupo.
A emergente preocupação de uma visão de qualidade de vida construída a partir do processo das interações humanas no cotidiano, integrando prática e teoria, ciência e senso comum, visando a diversidade e a complexidade das relações individuais e coletivas, sob uma perspectiva de relações humanas, objetiva transparecer as possibilidades de fraternidade no individual - coletivo pela interação sistêmica no cotidiano do ambiente de trabalho, no meio organizacional, e com todos os outros seres vivos.
O sucesso em uma organização, mais que estar vinculado às ferramentas de trabalho, está diretamente centrado em fatores como o comprometimento dos colaboradores. As mudanças na vida moderna, no comportamento do homem, estão sendo vivenciadas nas organizações, exigindo assim flexibilidade por parte de todos os envolvidos, desde a alta gerência, clientes internos e externos, até o meio social no qual a organização está inserida.
É imprescindível ampliar a visão e o conhecimento que se tem da empresa como um todo, o que irá permitir uma identificação dos diversos sistemas e subsistemas da instituição, bem como a respectiva interdependência e inter-relação entre eles. Considerar as tendências apontadas pelos fatores como a missão, visão e valores de determinada organização ou sociedade auxilia não somente ao colaborador mais toda uma geração de pessoas, frente a globalização do conhecimento e relacionamento humano que impulsiona uma realidade da qual não se pode escapar.
Estar preparado para o impacto destes fatores culturais, como a missão, a visão e os valores, sobre o mercado de trabalho e sobre as relações humanas no trabalho se torna condição importante para a sustentabilidade da Empresa, pois o desafio destes novos tempos é formarmos profissionais aptos e capazes de assimilarem as mudanças, de criarem e inovarem em situações adversas, exercitando continuamente a capacidade de compreender a dinâmica do mercado e do mundo como um ambiente extremamente mutável e competitivo, estando atento a detectar as oportunidades, gerenciar mudanças e, principalmente, implementarem ações.

Hoje, um profissional não pode ficar acomodado, pois independentemente do formato da relação que tem com a empresa, ele tem que participar de diversas atividades que possibilitem abrir um leque maior de oportunidades e de conhecimentos. Por isso, destaca-se a importância que as organizações, além de informar e capacitar, devem promover uma estrutura de apoio ao seu corpo de colaboradores. O profissional deve fazer a sua parte, que é buscar aprender e entender a realidade na qual está inserido.
Como diz Chiavenato "entender o capital humano não só pelo talento, mas também pelo ambiente em que ele se desenvolve", fazendo com que seja mensurável por meio de apreciações muito mais qualitativas do que quantitativas.
Através da visão sistêmica, é que se oportuniza enxergar o trabalhador por inteiro, inserido no contexto da empresa, no contexto social, familiar, em rede e contato efetivo com seu próximo e consigo mesmo.
A visão sistêmica está pautada através de vários prismas, que criam assim uma gama de possibilidades de soluções e ações, explorando e desenvolvendo o sentido da própria visão, propiciando a compreensão da contínua evolução dos cenários em que o trabalhador atua como personagem principal dentro da Empresa .
Assim, o trabalho exposto pretende auxiliar na indicação de soluções perante o questionamento :- " É possível, a Empresa desenvolver uma visão sistêmica do trabalhador, oportunizando que o mesmo desenvolva seus potenciais e sirva como ferramenta de participação, atuando como agente de mudanças ?
As organizações devem procurar uma participação mais efetiva do colaborador, possibilitando aos mesmos que possam entender que o mundo não é feito de forças separadas, mas sim que o "todo" de uma empresa é muito mais eficaz do que a "soma de suas partes". Tudo isso, viabilizará uma grande fonte para a obtenção e manutenção dos verdadeiros talentos humanos que asseguram vantagens competitivas.
Espera-se que o pensamento sistêmico efetuado pela Empresa em relação ao Colaborador seja focado em aspectos importantes e necessários para que não se perca a noção do todo, quando da resolução dos problemas, na tomada de decisões, inovando e aprendendo continuamente, sendo imperioso esteja também o colaborador acompanhando toda essa evolução integrado com a Organização, uma vez que na pratica atual observamos a preocupação desenfreada muitas vezes na busca pelo crescimento material em detrimento do crescimento pessoal.
"Os cientistas serão levados a abandonar suas posições não por fenômenos espirituais, místicos, por qualquer fenômeno físico ou mental, mas simplesmente pelos enormes abismos que se abrem diariamente e que continuarão a abrir-se diante deles, à medida que uma descoberta segue-se à outra, até que eles serão finalmente derrubados por uma simples questão de bom senso." (BLAVATSKY em a Doutrina Secreta - 1887 apud CRANSTON, 1997, p.477).
Os pioneiros do pensamento sistêmico foram os biólogos, que enfatizavam a concepção dos organismos vivos como totalidades integradas. Eles ajudaram a dar a luz um novo modo de pensar em termos de conexidade, de relações, de contexto. De acordo com a visão sistêmica, as propriedades essenciais de um organismo, ou sistema vivo, são propriedades do todo, que nenhuma das partes possui.
O pensamento sistêmico, pode ser definido como uma nova forma de percepção da realidade. Deve-se sempre partir do princípio de que o todo é mais que a soma das partes, tendo desta forma o sistema como um todo integrado cujas propriedades essenciais surgem das inter-relações entre suas partes. Entender a realidade de forma sistêmica, significa, literalmente, colocá-la dentro de um contexto e estabelecer a natureza de suas relações.
Capra (1996) apresenta a idéia de inter-relação entre os objetos e seres vivos, as coisas não são separadas, apenas ficam separadas momentaneamente ou mesmo aparentam estar separadas, no entanto temos que ter cuidado com a ilusão, pois a realidade pode ser outra. Os objetos e os seres vivos estão em constante relação, ha uma troca tanto subjetiva como objetiva nessas relações, não podendo ser estudadas, vistas, analisadas, entendidas separadamente.
Maturana (2000) complementa este pensamento ao afirmar que "o atributo definitivo de uma entidade sistêmica é o conjunto de relações entre os componentes que constituem sua forma em um dado momento e servem como núcleo de identidade que é mantido, a despeito das mudanças dinâmicas ao longo do tempo".
A visão da empresa como um todo e a identificação de seus sistemas com respectivos desdobramentos, auxilia na sensibilização dos colaboradores permitindo interações entre os envolvidos dentro e fora da organização, otimizando o desenvolvimento de relações humanas.
Para Iêda Patrício Novais, diretora-presidente da FNQ ? Fundação Nacional da Qualidade e diretora-geral da BDO Trevisan, "ter uma visão sistêmica da gestão organizacional deve-se levar em conta o Modelo de Excelência da Gestão que envolve liderança, estratégias e planos, pessoas, processos, clientes e sociedade. Ou seja, ele alinha de forma harmônica e integrada pessoas com processos voltados para a geração de resultados e conhecimento para a organização". Esse modelo também envolve a liderança enquanto negócio ou marca, ou liderança enquanto gestor. Exige que a empresa seja capaz de atender as necessidades de seus clientes, bem como satisfazer as necessidades da sociedade e das comunidades com as quais interage, sempre agindo de forma ética na busca da sustentabilidade social, ambiental e econômica. Hoje, já se sabe que não terá sucesso a organização que não for transparente em todos os públicos e não se preocupar com as questões ambientais . A visão sistêmica, enfim, é o olhar que permite enxergar de modo claro cada processo e cada negócio. É a visão do todo, buscando a excelência naquilo que diz respeito à organização, tanto no que se refere às coisas tangíveis (produtos, por exemplo) quanto intangíveis (marca, imagem, talentos), contemplando todas as partes interessadas.
Padoveze (1998, p.30) entende as organizações como "um sistema aberto, pois interagem com o ambiente e a sociedade de maneira completa". Afirma o autor que uma empresa é considerada um sistema aberto em razão da sua interação com a sociedade e o ambiente onde ela atua. Entretanto, como conseqüência dessa interação com a sociedade a empresa/organização acaba influenciando o comportamento das pessoas, aumentando os padrões de vida e desenvolvendo a sociedade
Já segundo GUIMARÃES (1995) a administração participativa é vista como o canal mais adequado, pois trabalha focado em estratégia gerencial correlacionada aos modelos participativos, gerência/gestão participativa e Teoria Z. Sendo que ao invés de esquemas formais, ela vale-se das relações informais de negociações e decisões informais, num clima de cooperação entre superiores e subordinados, criando ambiente propicio para instalação da visão sistêmica na organização, contribuindo para a efetiva participação do trabalhador.
As organizações possuem as suas necessidades e a sua visão; os colaboradores também possuem as suas. Inicialmente, essas visões e necessidades são contraditórias, considerando o grande desafio destes novos tempos, ao qual estão expostos não somente a organização mais também o trabalhador.
A expectativa do colaborador/trabalhador nas questões da capacidade de adaptação, de criação e inovação diante de problemáticas cotidianas no trabalho, exigem de forma expressiva a capacidade de interação com o meio laboral e social, e principalmente na implantação de novas ações, confirmando assim que a base para a transformação dos envolvimentos no mecanismo laboral é a visão sistêmica da vida, a idéia de entrelaçamento, de integração, de totalidade.
As necessidades, definidas como desejos, aspirações, intenção dirigida para um fim e que determina a ação, tornam-se limites para os homens em relação ao meio que vivem, pois ao mesmo tempo em que o desenvolvimento do capitalismo impõe à classe operária a luta somente pelas necessidades existenciais básicas, faz com que as necessidades de realização pessoal tomem a dianteira .
Para Maslow as necessidades básicas são aquelas ligadas à interesses da sobrevivência fisiológica ? roupa, abrigo, conforto físico, alimentação, sexo, etc. Satisfeitas essas necessidades o homem evoluirá para outra como: benefícios para si e seus familiares (com plano de aposentadoria e assistência médica, política salarial, condições de higiene e segurança de trabalho, etc.), segurança sua, de seus familiares, de seus bens, estabilidade de emprego, etc. Após estas necessidades estarem satisfeitas, ele passa a se preocupar com as relações do grupo de um modo geral.
Na verdade, com o futuro ameaçado e em busca de um desenvolvimento sustentável que satisfaça as demandas do presente sem prejudicar as necessidades do futuro, os desafios tornam-se comuns e a tarefa do trabalhador está mais voltada em agregar valores ao seu lado pessoal e profissional, do que, continuar sendo, velozmente degradado pelo meio empresarial.
Assim deve-se criar no homem o ideal de viver em harmonia com o seu meio laboral, pois é parte integrante deste, de quem é reflexo e a quem modifica, humanizando esta necessidade de que se crie uma nova consciência da real participação do trabalhador junto a Empresa e se desenvolva uma nova postura ética perante a tarefa do crescimento organizacional.
Compreender a organização e o trabalhador a partir da visão sistêmica, somente é possível na medida em que se estabelece observação dos envolvidos, que conhece e se conhece as condutas de toda estrutura organizacional.
Como conduta se compreende uma estrutura, como um sistema dialético e significativo, em permanente interação, de modificação mútua, de inter relação intrasistêmica ( o mundo interno do sujeito) e intersistêmica (relação do mundo do sujeito com o mundo externo). Assim, toda conduta é resultante de vários critérios situacionais, vivenciados num processo de aprendizagem e comunicação que se realimentam mutuamente.
Maturana nos ensina que "todas as condutas humanas, já que somos seres na linguagem, surgem desde uma rede de conversações que é a cultura a qual pertencemos". Vivemos, todos, imersos na cultura que possibilita a ocorrência de comportamentos diversos entre seus membros. E viver imersos na diversidade significa que cotidianamente agimos no sentido de manter, conservar comportamentos como resposta possível aos conflitos gerados pela convivência.
O meio no qual está inserido o trabalhador contribui neste aprendizado, pois sua vivência cotidiana com vários sujeitos de condutas diversas aprimoram sua bagagem pessoal, quer seja elevando sua auto estima ou mesmo propiciando uma distorção de sua própria imagem.
Consoante propõe a visão sistêmica, deve a observação estar voltada para o entendimento que cada sujeito é um sistema em si mesmo, assim como a organização possui seu próprio sistema em movimento continuo.
Na visão dos trabalhadores o desemprego, ou o medo dele, ou a extrema competitividade, gera uma busca desenfreada por competências, sejam aqueles que permaneceram nas organizações e que precisaram se tornar mais especialistas ou mais generalistas, sejam aqueles que perderam seus postos de trabalho e precisaram voltar aos bancos de escola para se reciclarem e então encontrar outras ocupações. Já na visão organizacional se pretende envolver todos os níveis da empresa, na tentativa conjunta de causar grandes mudanças nas organizações, ou seja, mudanças radicais nos velhos métodos dos processos de trabalho e com isso conseguir reduzir custos de produção, prazo de entrega aumentando com isto a qualidade de seus produtos, se tornando mais competitiva, operando de forma mais rápida e respondendo rapidamente as exigências do mercado.
O compromisso está na construção de novas visões, de modelo de gestão de empresas que vêem pessoas como o seu principal diferencial. Vincular essas visões as mudanças necessárias à melhoria da performance empresarial requer ampliar as possibilidades de intervir no meio organizacional, de forma a criar oportunidades para todos, e buscar a sinergia necessária ao sucesso.
Como nos diz Pakman, "a noção de visão sistêmica é um convite a ver-se a si mesmo como um participante reflexivo e não como o objeto social de uma massa humana?", sendo assim a organização que pretenda adotar os princípios da Visão Sistêmica, deve criar, desde o início da sua concepção conceitos claros quanto a Valores, Missão, Visão e Código de Conduta e Ética, pois são fatores imprescindíveis ao início de um processo deste tipo. A definição clara de um pequeno conjunto de valores a partilhar com toda a empresa constitui um fator importante na definição de estratégias, metas e aspirações, assim como no relacionamento da empresa com os seus diferentes públicos, sendo fundamental a partilha com o trabalhador/ colaborador, clientes, investidores e fornecedores.
Somente com esforço de entendimento mútuo dentro da empresa, de maneira a garantir uma estrutura consistente e com ritmo de produtividade, poderá tanto a organização como seu trabalhador gerarem respostas rápidas e eficientes. Se as diversidades forem integradas em torno de um único compromisso, a empresa estará sempre pronta para administrar as mudanças que forem necessárias, envolvendo pessoas com valores e princípios de forma clara, onde todos possuam orgulho de fazer parte de uma organização transparente e focada no sucesso e crescimento pessoal.





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Revisado por Editor do Webartigos.com


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