Um ensaio sobre o objeto de estudo da teologia
 
Um ensaio sobre o objeto de estudo da teologia
 


Teologia e ciência: o objeto de estudo da teologia


Toda ciência tem um objeto de estudo, seja ela especulativa, natural ou social. Com a teologia não é diferente. Semelhante às demais ciências, a teologia também tem seu objeto de estudo. Entretanto, no processo de estudo das outras ciências, geralmente o/a pesquisador/a se coloca acima do objeto de sua investigação para extrair o conhecimento pelo método que lhe seja mais apropriado. Na teologia cristã, ocorre o inverso: o/a teólogo/a não pode colocar-se acima do objeto, e sim, sob o objeto do seu conhecimento. Em outras palavras, na teologia cristã, o ser humano só pode conhecer Deus na medida em que este ativamente se faz conhecido por meio da revelação. "E, mesmo depois de Deus ter-se revelado objetivamente, não é a razão humana que descobre Deus, mas é Deus que se descerra aos olhos da fé".
Para a concepção cristã clássica, a teologia é o estudo de Deus e sua relação com o ser humano através da sua ?Palavra? revelada por meio de Jesus Cristo. Sobre o objeto de estudo da teologia, o teólogo Clodovis Boff faz a seguinte observação:

"O objeto material da teologia é, em primeiro lugar, Deus e depois tudo o mais. Portanto, nada há que não seja em princípio teologizável. O objeto formal da teologia é Deus enquanto revelado e toda e qualquer realidade na medida em que se relaciona com o Deus revelado [...] Portanto, faz-se teologia sempre que reflete algo "à luz da fé" ou da revelação" (BOFF,1998. p.21).


Além de investigar as "verdades" acerca de Deus, a teologia também procura estudar outros assuntos. É comum se pensar que a teologia ocupa-se apenas com elementos ligados ao "mundo espiritual". De fato a teologia trabalha a partir da realidade do mundo da fé, mas ela não ignora as necessidades do mundo visível. A teologia é o produto de uma reflexão permanente a partir de uma situação concreta estabelecendo um ponto entre a informação bíblica e a realidade social. A teologia analisa e propõe alternativas de mudanças com o objetivo de resolver as situações de injustiça que ocorrem no meio social. É dessa forma que a teologia serve tanto a esfera eclesial quanto à esfera social. Nas palavras do teólogo argentino Alberto Roldan: "Somente uma teologia que dialoga com a cultura é capaz de tornar-se relevante para o mundo e para a sociedade" .
Embora a teologia tenha Deus como "objeto de estudo", não há como observar Deus dentro de um tubo de ensaio em um laboratório e analisá-lo através de experimentos como requer a ciência moderna . Não se estuda sobre Deus da mesma maneira que se estuda um elemento químico, por exemplo. A teologia reconhece que existem outras maneiras e meios para falar acerca da realidade de Deus de modo adequado. "Deus é Espírito" (Jo 4:24). Ele É, e não há como experimentá-lo ou prová-lo através das ferramentas que a ciência moderna empírica propõe. Deus se mistura na história humana! Aqui não se pretendem provar ou negar a sua existência, apenas constatar que, para muitas pessoas, há um personagem, uma força, uma energia, um mistério que parece fazer caminho na história humana. Deus está aí, ?Ele É? o que é, é ?Aquele? que se torna conhecido por meio da experiência individual e coletiva do ser humano. Como disse acertadamente o teólogo Hermilo Pretto: "quem está acostumado a assegurar a credibilidade ao pensamento lógico e a acreditar somente naquilo que é passível de demonstração sempre terá dificuldade em captar a relevância do olhar contemplativo" .
A "Palavra" de Deus revelada por meio dos textos sagrados, a beleza da natureza, o mistério do universo, as artes, as poesias, as músicas, o silêncio, a meditação, etc., constituem expressões capazes de elevar a alma humana para a contemplação do que é divino. Sob o ponto de vista do discurso teológico, a existência divina é evidente, e evidência não se demonstra, mas se analisa, interpreta e explica. Isto, porém, não quer dizer que a teologia não precise de uma reflexão sistemática e crítica para falar sobre Deus . Nas palavras do teólogo Afonso Murad, "A teologia é um saber organizado, com regras próprias. Não se limita a repetir, mas pensa, cria, organiza e elabora" . Nesse sentido a teologia não é um saber aleatório, feito de qualquer forma, mas um saber organizado e sistêmico como uma ciência. Afonso Murad observa que a teologia tem em comum com o saber científico os seguintes aspectos:

. Possui objeto próprio, um método e a linguagem correspondente, e elabora conceitos e termos técnicos.
. Pauta-se pelas normas da metodologia científica para gerar e difundir seu saber.
. Possui um grupo de pesquisa e produz novos conhecimentos: os teólogos (as) profissionais.
. Difunde o ensino e promove a especialização em instituições de ensino superior.
. Tem um espaço prático de validação de seus conhecimentos, que é a ação evangelizadora.
. Serve-se das contribuições das ciências humanas afins .


A teologia está aberta às demais ciências, e as utilizam para elaborar seu discurso. Para realizar a sua tarefa, a teologia lança mão de vários recursos do saber humano. A teologia não vive em conflito com a ciência como foi propagado no correr da história . A teologia utiliza o conhecimento científico, pois ela também precisa da ciência para organizar os seus discursos. A teologia, mesmo estando no seu grau de excelência por tratar do absoluto que é Deus, sempre desce à terra dos "mortais" para se servir dos outros saberes. Conforme observou João Batista Libanio "A teologia é chamada, cada vez mais, a articular seu saber com as ciências humanas, a serviço de uma reflexão mordente, que fale das realidades terrestres e divinas, na perspectiva da fé" .
A relação de aprendizado da teologia para com a filosofia, por exemplo, demonstra claramente o quanto a teologia é aberta a outros saberes. Essa relação da teologia com a filosofia existe há cerca de dezoito séculos, desde quando os primeiros cristãos viram na filosofia uma ferramenta importante para elaborar o pensamento do que hoje se conhece como teologia cristã . O mesmo ocorreu mais tarde com a sociologia e as demais ciências humanas, como a Antropologia, a História ou mesmo a Psicologia. Como define muito bem o teólogo Clodovis Boff:

"A relação da teologia com as ciências não é do tipo ditatorial, mas democrático. Ou seja, a teologia serve-se dos recursos das ciências, respeitando sempre sua autonomia específica, mas também reservando-se o direito, que lhe dá a transcendência da fé sobre toda forma de razão, de criticar as pretensões pseudofilosóficas ou pseudoteológicas da chamada ?razão moderna" (BOFF, 1998, p. 67).

Portanto, a teologia é uma ciência. Sendo ciência, seu "objeto" primeiro é Deus e depois o ser humano e sua relação com o sagrado. O relacionamento da teologia com outros saberes é profícuo. Contudo, mesmo assim, a teologia procura manter-se independente. Talvez o diferencial da teologia para com as demais ciências é que a ciência teológica procura ir além da experiência e da razão. Enquanto que as demais ciências trabalham somente a partir da razão humana, que é falível. As certezas da teologia como ciência, deriva de sua relação com a "ciência divina" que não pode falhar. "A excelência de seu objeto mostra-se ao tratar de assuntos que transcendem a razão humana, enquanto que as demais ciências se restringem aos limites que a razão consegue captar" .




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Referências Bibliográficas

BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. 3. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2007.

BOFF, Clodovis. Teoria do Método Teológico: versão didática. 5. ed. Petrópolis:Vozes, 1998.

BRAKEMEIER, Gottfried. Ciência ou religião: quem vai conduzir a história? São Leopoldo: Sinodal, 2006.

FABRI DOS ANJOS, Marcio. Teologia: Profissão. São Paulo: Loyola/Soter, [1996 ?].

LIBANIO, J.B; MURAD, Afonso. Introdução à teologia: perfil, enfoques, tarefas. 3. ed. São Paulo: Loyola, 1996.

MCGRATH, Alister. O deus de Dawkins: genes, memes e o sentido da vida. São Paulo: Shedd Publicações, 2008.

MCGRATH, Alister; MCGRATH, Joana. O Delírio de Dawkins: uma resposta ao fundamentalismo ateísta de Richard Dawkins. São Paulo: Mundo Cristão. 2007.

KUNG, Hans. O Principio de todas as coisas: ciência naturais e religião. Petrópolis: Vozes. 2005.

PRETTO, Hermilo. A teologia tem algo a dizer a respeito do ser humano? São Paulo: Paulus, 2003.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. 3. ed. São Paulo: Paulus, 1990. p. 554. (vol. 1).

REZENDE, Antonio (org). Curso de Filosofia: para professores e alunos(...). 13. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zarrar, 2005

ROLDAN, Alberto. Para que serve a Teologia?. Curitiba: Descoberta, 2000.

TILLICH, Paul. Panorama do Pensamento Cristão.4. Ed. São Paulo: ASTE, 2007.
 
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Sobre este autor(a)
Bacharel em Teologia e Licenciado em Filosofia pela Faculdade Batista Brasileira. Pós-Graduado em 'Ética, Teologia e Educação' pela Escola Superior de Teologia de São Leopoldo-RS (Faculdades EST ). Possui também especialização em "Ensino de Filosofia" pela Universidade Cândido Mendes. Atualmente cur...
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