Situação atual da ovinocultura em Roraima
 
Situação atual da ovinocultura em Roraima
 


Situação atual da ovinocultura em Roraima*

Há dez anos atrás, a oferta de carne de carneiro na cidade de Boa Vista, Roraima era proveniente de animais com elevada idade ao abate. Abatiam-se animais com mais de dois anos de idade, tais como machos inteiros ou castrados, além de fêmeas de descarte.

Até a década de noventa prevalecia a criação extensiva em áreas com pastagem nativa. O rebanho era formado por animais mestiços sem padrão racial definido. O manejo adotado consistia em prender todos os animais ao final da tarde, em aprisco no chão, cercado por madeira roliça e coberto com palha de buriti. Dentro do aprisco o esterco acumulava formando uma camada superior a 20 cm. Pela manhã os animais eram soltos, não havia fornecimento sequer de sal comum, nem tratamento para a verminose. O máximo que se fazia era o uso da creolina para o tratamento de bicheira.

Por se tratarem de animais criados extensivamente em pastagem com baixo valor nutritivo, as carcaças pesavam cerca de 20 kg. Levando-se em consideração o modelo europeu de classificação de carcaça ovina (União Européia, 2008), poder-se-ia classificar como medíocre ou fraca quanto à sua conformação (desenvolvimento muscular) e magra em relação ao acabamento (percentagem de gordura), além de que, por ser provenientes de animais adultos apresentavam uma carne muito dura (menor teor de água), com pouco sabor e odor mais intenso se comparada a carne de cordeiros (animais abatidos com menos de um ano de idade).

No início da década de 80, por iniciativa do Governo do então Território Federal de Roraima foram introduzidos reprodutores e matrizes das raças Morada Nova e Santa Inês (predominantemente de pelagem branca). Naquela ocasião a Embrapa Roraima passou a acompanhar e avaliar aspectos produtivos e reprodutivos das duas raças, incluindo-se, nessas avaliações, animais da raça Barriga Negra adquiridos em propriedades com criação de ovinos. A introdução da Barriga Negra em Roraima ocorria pelas fronteiras com a Venezuela e Guiana.

Na década seguinte, observava-se a introdução de animais da raça Santa Inês realizada por criadores que buscavam na ovinocultura alternativa de exploração, notadamente dentre aqueles de origem nordestina. Mais recentemente, tem-se observado a presença de animais da raça Dorper sendo introduzidos com a finalidade de melhorar a carcaça por ocasião do abate.

Diante dessa realidade iniciava-se uma nova fase na criação onde se observa a construção de apriscos suspensos, utilização de pastagens, maior preocupação com aspectos de manejo, suplementação alimentar e com a sanidade.

O objetivo deste artigo é relatar os dados mais recentes sobre o desempenho dos ovinos nos diversos sistemas de criação e ecossistemas. Trata-se de informações obtidas em áreas experimentais da Embrapa Roraima, bem como em propriedades particulares onde se pode ter acesso a dados referentes a observações feitas por pesquisadores e pelos próprios criadores.








Tabela 1. Peso ao nascer e aos 90 dias de ovinos Santa Inês em diferentes ambientes em Roraima.
Ecossistema Ano Pastagem Tipo racial Peso (kg)
Nascer 90 dias
Savana 1988 Nativa Santa Inês 2,99 10,4
Savana 2009 Nativa Mestiços Santa Inês 3,60 10,5
Savana 2008 Brachiaria humidicola Santa Inês 4,20 19,0
Savana 2008 Brachiaria humidicola Mestiço S. Inês x B. Negra 2,94 11,8
Floresta 2008 Brachiaria humidicola Santa Inês 3,50 16,80

Para as condições de Roraima estima-se que o peso ano nascer seja inferior a 2,5 kg. Comparando-se as informações existentes, para a raça Santa Inês referente aos anos de 1988 e 2009, em ambiente de savana (pastagem nativa), o peso ao nascer passou de 2,99 para 3,60 kg, sendo que em 1988 utilizaram-se animais Santa Inês, predominantemente, com pelagem branca, enquanto que em 2009 as informações referem-se a animais mestiços com o uso de reprodutores Santa Inês com bom padrão racial (Tabela 1).

Para o peso aos 90 dias, apesar do melhor padrão racial dos animais em 2009, não houve diferença com relação ao peso para os dados referentes a 1988. Essa situação demonstra haver a necessidade da adoção de práticas ligadas a alimentação que possibilitem aos animais expressarem o potencial genético. Isso pode ser constatado quando, em 2008, mantiveram-se os ovinos Santa Inês em pastagem de B. humidicola, cujo peso atingia 19,0 kg (90 dias). Tabela 1.

Ainda de acordo com a Tabela 1, para o ano de 2008 e, comparando-se ovinos Santa Inês mantidos em pastagem de B. humidicola, em ambiente de savana e floresta, o melhor desempenho na savana deveu-se ao melhor padrão racial dos animais utilizados.

Com relação ao desempenho dos animais, para as condições de Roraima, estima-se que a média de ganho de peso, do nascimento ao abate, seja da ordem de 72 g/animal/dia (abate aos 360 dias com 30 kg de peso vivo). Nas áreas de savana, em pastagem nativa, os criadores utilizando-se de Santa Inês obtém 92 g/a/d, entretanto, ao fazerem uso de pastagem de B. humidicola com o uso de suplementação tem-se obtido ganhos, na terminação, da ordem de 150 g/a/d. No ambiente de floresta, em B. humidicola, ainda com a Santa Inês, para atingirem 30 kg de peso vivo são necessários cerca de sete meses, equivalente a 140 g/a/d, entretanto, quando utilizam animais Dorper ocorre redução para cinco meses (30 kg) com ganho da ordem de 194g/a/d. Essas informações foram obtidas junto a criadores havendo, entretanto, a necessidade de confirmação com base em registros formais. Em experimento realizado com ovinos Barriga Negra, com oito meses de idade e, mantidos em confinamento, observou-se o ganho de 167 g/a/d (Muniz et al., 2004).

Apenas para efeito comparativo, com dados existentes na literatura, ovinos mestiços Santa Inês cruzados com raças lanadas tipo carne (Suffolk, Texel e Ile de France) terminados em confinamento ganharam 260 g/a/d (Veríssimo et al., 2002) e, 369 g/a/d quando utilizaram cordeiros Suffolk confinados (Ribeiro et al, 2005).

Pelos dados apresentados é possível observar que, nos últimos anos, a ovinocultura apresenta ganhos nos índices produtivos. Embora a maioria das informações disponíveis para as condições de Roraima seja informal pode-se destacar:

Elevação no peso ao nascer onde sob condições extensivas, com uso de animais mestiços, era inferior a 2,5 kg existem diversos criadores obtendo 3,5 a 4,0 kg;

Diminuição na idade ao abate passando-se dos 12 meses para 7 a 10 meses, ou seja, as carcaças de carneiros adultos e de ovelhas de descarte estão sendo substituídas por de cordeiros e borregos;

O mercado consumidor tende a exigir carcaças de animais jovens com cerca de 15 kg e com pequena camada de gordura (carcaças medianas) em substituição carcaças magras. Além disso, tem-se observado a comercialização de cortes diferenciados e embalados à vácuo, demonstrando existir nichos de mercado para produtos da ovinocultura.

Das considerações apresentadas constata-se que o maior ganho produtivo ocorreu devido a utilização de animais com melhor padrão racial, pela introdução maciça e predominante da Santa Inês, entretanto, alguns criadores estão preocupados em utilizar raças que permitam maior velocidade de ganho de peso (abate mais precoce) e que apresentem carcaças com melhor conformação e acabamento. Neste sentido, a raça Dorper vem sendo introduzida, porém, acredita-se ser possível a utilização de raças lanadas tipo carne conforme vem ocorrendo em outros estados da região Norte e Centro Oeste.

Como pontos fracos destacam-se o manejo inadequado das pastagens; a falta de estratégias para conservação de forragem para o período com menor precipitação; a não adoção de manejo alimentar diferenciado em função da categoria animal; a falta de critérios para seleção e descarte de animais com base no desempenho individual; não existência de escrituração zootécnica; mão-de-obra pouco qualificada e gestão da atividade praticamente inexistente.

Referências bibliográficas

Muniz, E.N.; Silva, A.V.C.; Mourão Junior, M.; Kaminski, P.E. Confinamento de cordeiros Barriga Negra. Boa Vista: Embrapa Roraima, 2004. 2p. (Embrapa Roraima, Comunicado Técnico, 3).

Ribeiro, T.M.D.; Poli, C.H.E.C.; Monteiro, A.L.G. Produtividade animal em diferentes sistemas de terminação de cordeiros. REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 42., 2005, Goiânia. Anais... Goiânia: Universidade Federal de Goiás, 2005. (CD-ROM).

UNIÃO EUROPÉIA. Regulamento (CE) N.° 22/2008 da Comissão, de 11 de janeiro de 2008, que estabelece as regras de execução da grelha comunitária de classificação das carcaças de ovinos. Jornal Oficial, n° L 9 de 12/01/2008, p. 6-11.

*Ramayana Menezes Braga, médico veterinário, pesquisador da Embrapa Roraima.
ramayana@cpafrr.embrapa.br. Tel. (95) 4009-7166. Boa Vista, Roraima, Brasil (junho/2011)
 
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