Risco biológico : relato de experiência
 
Risco biológico : relato de experiência
 


Introdução

Trabalho e saúde demonstram uma grande diferença, sendo fonte de constantes estudos e transformações. A Saúde do Trabalhador no Brasil permanece em construção, trazendo uma nova e ampliada perspectiva do processo de trabalho 1,2. Mesmo com esforços dos profissionais de saúde, ainda são preocupantes os registros de acidentes de trabalho e doenças profissionais no Brasil. A carga de trabalho dos servidores de saúde é extensa chegando a gerar processos de desgaste, deixando propícia a ocorrência de acidentes 2.

No Brasil, os acidentes ocorridos com material biológico são comuns, não há atualmente um real número de profissionais de enfermagem acidentados e das consequências ocorridas por essas exposições, o que tem atrapalhado o planejamento e a adoção de medidas preventivas. A Rede de Prevenção de Acidentes do Trabalho com Material Biológico em hospitais brasileiros que trata de uma rede colaborativa de pesquisas e intercâmbio de informações envolvendo 14 hospitais de várias regiões do país, integrando pesquisadores e especialistas em saúde do trabalhador. Foi criada com objetivo de alcançar o controle e a prevenção de acidentes de trabalho com exposição à material biológico 3.

Os acidentes de trabalho podem estar relacionados a vários fatores. Dentre esses se destacam, os fatores biológicos, físicos, fisiológicos, químicos e psicossociais 4. Os fatores biológicos oferecem risco de contato com material contaminado, como sangue e outros fluídos orgânicos que podem estar veiculando agentes causadores de problemas de saúde. Os profissionais de saúde que atuam diretamente na assistência ao paciente estão mais expostos a esse risco 5.

Existem vários patógenos que podem ser veiculado pelo sangue e fluidos orgânicos sendo que o mais preocupante são os Vírus da imunodeficiência humana (HIV) e os Vírus da hepatite B e C 6.

Os profissionais de enfermagem trabalham constantemente expostos ao risco de acidentar-se com material biológico contaminado uma vez que o seu trabalho envolve contato direto e frequente com sangue e fluidos orgânicos 7.As consequências destes acidentes vãos além do comprometimento físico e podem afetar outros aspectos da saúde do profissional como o controle emocional, social e até o financeiro 8. Devido conhecer a complexidade e dinâmica do serviço, o enfermeiro pode desenvolver estratégias de prevenção à exposição ocupacional mais eficaz, e conscientizar sua equipe quanto aos riscos biológicos 7.

Devido à grande exposição dos trabalhadores de saúde, os estudos buscam meios para minimizar risco de acidentes com material contaminado, para minimizar esses riscos propõem como principal recomendação à adoção das precauções padrão. Essa adoção trazem mais segurança para o profissional que manuseia resíduos que oferecem risco biológico, são medidas básicas de proteção, como luvas, óculos, máscaras, toucas, realização da lavagem das mãos, capacitação e treinamento das equipes, entre outros cuidados 9.

Toda instituição que preste assistência à saúde deve ter disponíveis para uso os Equipamento de Proteção Individual (EPI) e os Equipamentos de Proteção Coletiva (EPC), necessários a cada procedimento específico, e os funcionários devem ser capacitados para seu uso, para a realização adequada dos procedimentos técnicos, para desempenhar suas atividades de forma segura para que assim possam diminuir os riscos ocupacionais provenientes do ambiente de trabalho 10.

Este relato de experiência tem como objetivo observar e discutir os riscos biológicos aos quais os profissionais estão expostos e buscar ações necessárias para minimizá-los.

Métodos

Trata-se de um relato de experiência do tipo observacional realizado nos locais de estágio no período de fevereiro a setembro de 2011 por um grupo de quatro alunas, graduandas do curso de enfermagem, da Universidade Paulista (UNIP).

Durante a permanência no campo de estágio observamos a adoção ou não das precauções padrão por parte da equipe de enfermagem ao realizarem procedimentos de assistência ao paciente que oferecia algum tipo de risco biológico.

Inicialmente foi realizado um levantamento bibliográfico através de artigos publicados entre 1999 e 2011. Foram consultadas as seguintes bases: SciELO (Scientific Eletronic Library Online) e LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde).

Foram selecionados artigos que estavam de acordo com o tema proposto, a busca foi realizada com os descritores; acidente de trabalho, risco biológico, prevenção.

Os relatos das observações foram no período de fevereiro a setembro de 2011 em sete instituições onde atuam equipes de enfermagem, com o intuito de relacionar observação em campo com a teoria.

Durante o curso de graduação em enfermagem são desenvolvidas atividades práticas em Unidades de Saúde. No decorrer das atividades observou-se as equipes de enfermagem, analisou os riscos biológicos aos quais estão expostos, assim foi possível realizar correlações entre o referencial teórico e as situações vivenciadas em campo.

Optam por realizar o trabalho com a equipe de enfermagem, pois encontra rotineiramente em contato com agentes biológicos, ao prestar assistência direta ao paciente.

Relato de Experiência

Quando um profissional deixa de usar corretamente os EPIs necessários ao procedimento realizado, está dessa forma expondo sua saúde a fatores de riscos ocupacionais. No entanto, quando há falhas no uso de EPI, durante a administração de medicamentos por via intramuscular e endovenosa, estes trabalhadores colocam-se diante do risco de acidentar-se com material biológico ou de expor ao risco biológico a saúde do cliente.

Um estudo realizado em um hospital universitário de Brasília obteve como resultados 22,2% dos trabalhadores acidentados em 2003 e 17% em 2004 que referiram a falta do uso EPI quando houve a ocorrência dos acidentes de trabalho. No entanto, 77,8% em 2003 e 83% em 2004 usavam os equipamentos de segurança no momento do acidente 3.

Vários trabalhadores de saúde devido à falta de informações crêem que o uso de EPI não diminui a inoculação de sangue ao se acidentarem o que tem sido uma barreira para a adequada utilização de luvas principalmente na administração de medicações 11.

Para se evitar a exposição há material biológico, todo profissional deve ter à sua disposição EPI, instrumentos de uso pessoal, cuja finalidade é reduzir risco de acidentes que podem causar lesões no trabalhador e protegê-lo contra prováveis danos à saúde causada pelas condições de trabalho 10.

Os trabalhadores além de conhecer os riscos a que estão expostos no ambiente de trabalho, também precisam conhecer as legislações trabalhistas no sentido de identificar seus direitos e deveres e se integrar efetivamente no campo da Saúde do Trabalhador 1.

Foi possível observar que alguns profissionais de nível técnico ao realizarem hemoglicoteste não tiveram a preocupação de realizar a troca de luvas, usando as mesmas luvas em todos os pacientes de uma mesma enfermaria, a lavagem das mãos também não foi realizada. As luvas são para proteção do profissional e do paciente, ao realizar hemoglicoteste mesmo sendo na mesma enfermaria deve-se usar corretamente os EPIs, não reutilizar a mesma luva para dois ou mais pacientes e deve-se lavar as mãos antes e após o procedimento.  Atuando desse modo, esse trabalhador poderia estar prevenindo riscos de contaminação que podem trazer a esses clientes.

Um estudo realizado com profissionais de enfermagem em dez Unidades de Saúde da Família (USF) do município de São Carlos, SP. Detectou que na realização de 101 coletas de sangue observadas, foi utilizado o sistema de coleta a vácuo em apenas 19,6% das vezes, nos demais casos utilizou-se seringa e agulha com posterior transferência para o frasco de exame. Foram utilizadas luvas em 74,3% das punções, entretanto, as mesmas não foram trocadas entre o atendimento de um usuário e outro. Não houve higienização prévia das mãos em 92,1% das vezes e o descarte do perfurocortantes foi considerado adequado em 99% das coletas 9. Procurar goiania

Isso mostra que cabe a instituição monitorar e orientar estes profissionais, para que possam reduzir o número de erros. A duplicidade de emprego está tornando necessária nos dias atuais, em virtude dos baixos salários. Assim deixa o servidor com carga horária excessiva provocando desgaste físico e psíquico, deixando propício o risco de se acidentar durante o trabalho 9.

O reencape de agulha utilizada é um ato desnecessário que pode causar um Acidente de Trabalho (AT). Dessa forma o enfermeiro deve seguir as orientações do Centers for Diseases Control and Prevention (CDC) buscando minimizar os riscos de acidentes com perfurocortantes orientando sua equipe para que tenha o máximo de atenção durante a realização dos procedimentos observados e obedecendo a capacidade máxima do descartex e jamais realizar o reencape de agulhas 8.

Certas atitudes no trabalho da equipe de enfermagem trazem a solução, mas tornam estes profissionais vulneráveis a se acidentar com perfurocortantes. Observou-se salas destinadas à vacinação em que os profissionais usam a criatividade como meio para atender os pacientes, o espaço é pequeno e apertado. Realiza o descarte de material, perfurocortante em caixa comum de papelão com identificação do lado de fora, depositada no piso. Saco preto armazenando material contaminado, também com a identificação de infectante. Além desses trabalhadores correrem riscos de acidentar-se com material biológico colocam em risco a saúde de colegas que atuam em áreas afins.

O espaço físico delimitado pode acarretar uma série de AT, como na colisão com outro trabalhador que esteja manipulando um perfurocortante, também causa dificuldade na diluição de medicações e às vezes o profissional é obrigado a realizar procedimentos incorretos.

Trabalhar com lesões de pele e/ou mucosa exposta, aumenta o risco de contaminação com fluidos orgânicos. Deve-se ter cuidado quando apresenta lesões de pele, é mais indicado esperar a recuperação e autorização médica para voltar ao trabalho.

Não foi observando nenhum acidente com material biológico durante o estudo. Notamos que a equipe de enfermagem encontra diversas dificuldades, como agir após o acidente com material biológico, principalmente quando se trata dos primeiros procedimentos a serem adotados após o acidente.

Nesse sentido percebem que a necessidade de ampliar o conhecimento desses profissionais e trazer para essas unidades estratégias de prevenção e conscientização. A vulnerabilidade do pessoal de saúde está ligada às atividades, aos comportamentos e às vivências relativas à organização e ao processo de trabalho, como também às condições sociais mais amplas, ao acesso aos serviços e à existência de políticas públicas de biossegurança 12.

 O cuidado é baseado em um conjunto de valores humanos universais, como a bondade, o interesse e o amor por si e pelos outros. Tais valores emergem de seu comprometimento e da satisfação em ajudar o outro. O profissional de enfermagem, ao possuir um sistema de valores humanista-altruísta, é capaz de se autoconhecer e avaliar, e consequentemente de crescer e se transformar 13,14.

É comum em todas as áreas encontrar trabalhadores que atuam insatisfeitos. Na enfermagem não é diferente há cuidadores que não tem nenhum apego à profissão. Trabalham sem dedicação e atenção, estes essenciais para auxiliar na recuperação de um cliente enfermo. O compromisso é primordial para realizar uma assistência de qualidade nos serviços de saúde.

Conclusão

Através destas observações, verificou que a enfermagem é essencial na recuperação de um cliente, no entanto deve ter cautela ao realizar os cuidados necessários, buscando estar sempre garantindo a própria saúde e a saúde do cliente. Atuar sempre usado os EPIs adequadamente é uma das orientações indicadas pelo Centers for Diseases Control and Prevention (CDC).

Observam por meio deste estudo a necessidade de programar ações educativas nestas unidades, de incentivar a participação em palestras e capacitações sempre que ocorrer mudanças nas condições de exposição dos trabalhadores aos agentes biológicos patogênicos.

As Instituições observadas dispunham de materiais básicos, como luvas, máscaras e toucas, porém nem todos os profissionais faziam o uso. A saúde no Brasil está em construção, sendo necessário implantar mudanças, principalmente sobre a aderência dos profissionais diante do uso de equipamentos de proteção individual e na realização de ações seguras no ambiente de trabalho. 

Apesar do conhecimento sobre risco biológico, introduzir mudanças na vida prática desses trabalhadores é aceito por minoria, sendo insuficiente para obter um resultado satisfatório.

Referências

  1. Galon T, Marziale MHP, Souza WL. A legislação brasileira e as recomendações internacionais sobre a exposição ocupacional aos agentes. Rev. Bras. Enf. 2011; 64(1): 160-167.
  2. Pinho DLM, Rodrigues CM, Gomes GP. Perfil dos acidentes de trabalho no Hospital Universitário de Brasília. Rev. Bras. Enf. 2007; 60(3): 291-294.
  3. Marziale MHP, Silva EJ, Haas VJ, Robazzi MLCC. Acidentes com material biológico em hospital da Rede de Prevenção de Acidentes do Trabalho – REPAT. Rev. Bras. de Saúde Ocupacional, São Paulo, 2007; 32(115): 109-119 .
  4. Chiodi MB, Marziale MHP, Robazzi MLCC. Acidentes de trabalho com material biológico entre trabalhadores de unidades de saúde pública. Rev. Latino-Am.  2007; 15(4): 632-638.
  5. Marziale MHP, Rodrigues CM. A produção científica sobre os acidentes de trabalho com material perfurocortante entre trabalhadores de enfermagem. Rev. Latino-Am. 2002; 10(4) 571-577.
  6. Rapparini C, Reinhardt EL. Programa de prevenção de acidentes com materiais perfurocortantes em serviços de saúde. Manual de Implementação São Paulo: Ministério do trabalho e emprego; 2010.
  7. Marziale MHP, Nishimura KYN, Ferreira MM. Riscos de contaminação ocasionados por acidentes de trabalho com material perfurocortante entre trabalhadores de enfermagem. Rev. Latino-Am. Enfermagem. 2004; 12(1) 36-42.
  8. Damasceno AP, Pereira MS, Souza ACS, Tipple ASV, Prado MA. Acidentes ocupacionais com material biológico: A percepção do profissional acidentado. Rev. Bras. Enf. 2006; 59(1): 72-77.
  9. Cardoso ACM, Figueiredo RM. Situações de risco biológico presentes na assistência de enfermagem nas unidades de saúde da família (USF). Rev. Latino-Am Enfermagem, 2010; São Paulo, 18(3).
  10. Ministério da Saúde (BR). Manual de DST. 2009; acesso em 2009 Ago. Disponível: http://www.aids.gov.br/assistencia/manualdst/item11.htm.
  11. Zapparoli AS, Marziale MHP, Robazzi MLCC. Práctica segura Del uso de guantes em La puncion venosa por los trabajadores de enfermeria. Ciencia y enfermeria, 2006; 12(2): 63-72.
  12. ALMEIDA, MJ. Ensino médico e o perfil do profissional de saúde para o século XXI. Interface– Comunicação, Saúde, Educação.1999; 3(4)
  13. Watson J. Postmodern nursing and beyond. London (UK): Churchill Livingstone; 1999.

 14. Oliniske SR, Lacerda MR. Cuidando do cuidador no ambiente    de  Trabalho: Uma proposta de ação. Rev. Bras. Enf. 2006; 59(1)100-10

 
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Acadêmica de enfermagem, da universidade paulista UNIP, campus em goiânia.
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