RESENHA DO FILME ''KINSEY, VAMOS FALAR DE SEXO''
 
RESENHA DO FILME ''KINSEY, VAMOS FALAR DE SEXO''
 


O filme "Kinsey, Vamos Falar de Sexo" levanta uma série de questionamentos sobre a necessidade biológica do sexo, da manifestação da sexualidade individual e das muitas outras questões relacionadas à manifestação do desejo em suas diversas maneiras, além de afirmar que o ato de se relacionar sexualmente extrapola o horizonte da mera procriação e não deveria ser encarada como degradação ou algo impuro. A sexualidade, como parte constitutiva de todos, está e estará presente em suas varias formas e representações nas mais diferentes áreas da experiência e existência humana, tais como, corporal, emocional, social, religiosa, moral, ética entre outras.
A sexualidade humana é ampla e abarca muito mais que o genital ou biológico, sendo esta estudada e usada por muitos séculos como forma de castração ou impureza em religiões e/ ou culturas, dando-lhe um valor que tangia os valores morais e respeitosos na construção de uma sociedade (HEILBORN, 2006).

O autor James Farris (2003) acrescenta afirmando que os entendimentos sociais da sexualidade precisam ser compreendidos no contexto histórico. O significado de ser seres sexuais tem mudado durante vários períodos históricos, mas as imagens culturais continuam influenciando atitudes atuais a respeito da sexualidade e do comportamento sexual. As atitudes Puritanas, Vitorianas e de liberdade sexual a respeito de sexualidade continuam tiveram e continuam tendo influência nas sociedades ocidentais. As atitudes e moralidades puritanas a respeito da sexualidade humana são freqüentemente identificadas com a repressão da sexualidade. As crenças e éticas sexuais Puritanas que se originaram em diversos países da Europa espalharam-se pela Inglaterra, foram transmitidas para a America do norte e via dos missionários norte americanos influenciaram quase todas os países da America Central e do Sul.
Ele ainda complementa dizendo que a moralidade vitoriana negava, ou reprimia o prazer sexual em todo qualquer contexto. A sexualidade foi vista como ameaça as estruturas sociais. Isso dentro e fora da relação conjugal. No entanto é interessante notar que os códigos sexuais vitorianos permitiam pelo menos informalmente uma dupla moralidade. Os homens eram vistos como seres sexuais com grandes dificuldades em controlar seus desejos. As mulheres eram consideradas acima de tais necessidades e desejos, o que levava aos homens a satisfação sexual com prostitutas.


Alfred Kinsey dedicou boa parte de sua vida a compreender o mecanismo do sexo. Sua pesquisa em sexualidade humana influenciou social e culturalmente os valores acerca da sexualidade nos Estados Unidos, especialmente nos anos 60, quando suas idéias foram importantes na chamada "Sexual Revolution".
Movido pelo desejo científico de registrar, classificar e decodificar o comportamento sexual dos seres humanos, Kinsey atraiu a atenção, o carinho e, acima de tudo, numa sociedade puritana como a norte-americana, o ódio. A pesquisa de Kinsey influenciou a cultura e as políticas públicas das últimas décadas, onde a "revolução sexual" iniciada por ele, ainda hoje incomoda a vida de muitas pessoas e famílias, pois ela exige como resposta uma vigorosa afirmação do verdadeiro significado da sexualidade humana.

Falar e/ou discutir sobre sexo, sexualidade e questões que envolvem gênero no século XXI é muito mais sem obstáculos (porém, não completamente sem uma carga de pudor), mas, em 1950, o gesto desse cientista foi um abalo nos alicerces da moralidade. Ele desafiou todas as convenções, bateu de frente contra um pai castrador e repressor, viveu experiências homossexuais, entrevistou homens, mulheres, gays, lésbicas, pedófilos, zoófilos, sado masoquistas e toda sorte de orientações, taras e inclinações sexuais, chegando aos limites sua pesquisa, vivendo ele mesmo o objeto de seus estudos. Ele juntamente com os seus colaboradores pretendeu mudar os valores morais tradicionais, dividindo o ocidente em duas fases antes e depois da revolução sexual.

Seus estudos revelaram grandes surpresas, e justificaram a Educação Sexual de base científica para prevenir problemas sexuais (como DSTs) ao invés da abstinência de fundamentação moralista como estratégia única para lidar com a questão. A grande inovação de Kinsey foi dizer que o comportamento sexual era algo natural, tão natural quanto falar andar, comer, e como tudo na natureza está passível de variedade. Não há algo "normal" em se tratando de sexualidade, apenas algo de maior incidência estatística. Nenhuma cultura lida com o sexo "como um fato natural bruto, mas já o vive e compreende simbolicamente, dando-lhe sentidos, valores, criando normas, interditos e permissões" Chaui (2000: 22). A sexualidade sempre foi uma fonte de inúmeros preconceitos e fantasias. Muitas vezes os mitos e a repressão sexual criam grandes obstáculos para o exercício saudável do sexo.
A educação sexual não está isolada do contexto, estrutura e momento histórico que os jovens vivem. Corresponde à educação de como o indivíduo deve viver a vida, pois é também a educação de seu movimento emocional e energético. Procurar inibir atividade sexual e gerar culpa é uma das formas universais de controle. A inibição da atividade espontânea, em virtude da repressão do movimento emocional sexual empobrece, gera medo e aumenta a dependência.
Segundo ALBERTINI (1994) Reich, no artigo "Os pais como educadores: a compulsão para educar e suas causas" faz uma forte crítica ao papel do educador analisando suas motivações inconscientes, capazes de implicar numa prática educativa repressora, denunciando toda e qualquer frustração desnecessária que ocorra no processo educativo. Para tanto, os orientadores (sejam eles pais ou educadores) não devem julgar a sexualidade vivida pelo jovem, antes de tudo devem repensar sua própria sexualidade e estar cientes de que muitas vezes podem servir como identificação do modelo de "homem" ou "mulher", portanto devem assumir diante do espectador uma postura sem medo, preconceito ou tabu em relação às questões sexuais.

Apesar desse avanço histórico da sexualidade ainda ser um assunto que levanta uma demanda de estudos muito grande, muitas famílias já conseguem manter um dialogo e orientar seus filhos sobre sua vida sexual saudável, sem repressões. Com o pouco tempo de discussão sobre o tema, mostram-se extremamente importantes, principalmente em uma época de transformações fundamentais em estruturas sociais e conjugais até então estáveis, como era visto o casamento e a família. Essas situações geram duvidas, medos e daí uma procura para um entendimento maior do que esta acontecendo nos relacionamentos conjugais contemporâneos. A discussão do filme mostra como é importante orientar e discutir sobre o assunto e não reprimir encarando e classificando o sexo como um pecado.

De Acordo com Satir (1995) a idéia de trabalhar com o casal como unidade de tratamento é relativamente nova, e a abordagem positiva esta sendo progressivamente adotada, considerando que a ausência de doença não coincide com saúde e que formar um casal sadio pode ser ensinado. Assim, o atendimento do casal permite a observação da interação entre dois e a compreensão de como os parceiros si. Desse modo o filme deixa claro que conhecimento, orientação e educação para sexualidade são fundamentais para o crescimento e desenvolvimento do individuo. Entender sua própria sexualidade e saber fazer bom uso dela.

Não verbalizar suas dificuldades com seus parceiros, era um tabu, que antes na década de 50 acontecia comumente, por isso crescem cada vez mais o número de pessoas, tanto mulheres quantos os homens procurando os consultórios para esclarecer suas duvidas e procurar explicações para seus desejos sexuais. Os temas abordados em clinica têm como característica sua variedade. Vão desde relacionamentos conjugais homossexuais, dúvida entre a carreira e o cônjuge, casamento onde os conjugues moram em casas separadas, união estável, tríades conjugais, recasamentos, separações, imaturidade entre outras tantas. Cada uma dessas situações gera desafios diferentes, e suas repercussões psicológicas e sociais colocam a necessidade de um entendimento maior do que esta acontecendo nos relacionamentos conjugais.

A partir das especificidades abordadas pelo filme, e em busca de respostas para os conflitos e duvidas que atingem o casal, as terapias sistêmicas de se estudar a relação como um todo têm se destacado.Utilizaram como foco, as relações interpessoais, observando o tipo de aliança estabelecida pelo casal, as comunicações verbais e não verbais, a maneira como cada um influencia e é influenciado.De acordo com Bastos & Achar (1994), a principal característica definidora deste fim de século é certamente, o intenso e acelerado processo de transformação vivido pelas sociedades. Transformações estas que afetam também a conjugalidade.
Berger e Kellner (1970), ao discutirem a relevância institucional do casamento, ressaltam que, desde Durkheim, é um lugar-comum da sociologia familiar que o casamento serve como proteção contra a anomia do indivíduo. Sendo um instrumento de construção nômica, o casamento tem como função social criar para o indivíduo uma determinada ordem, para que ele possa experimentar a vida com um certo sentido. Para estes autores, a realidade do mundo é sustentada através do diálogo com pessoas significativas e o casamento ocupa um lugar privilegiado entre as relações significativas validadas pelos adultos na nossa sociedade.
Aliança e sexualidade constituem, sem dúvida, duas das mais importantes dimensões da vida conjugal. Para Levi-Strauss (1968), aliança é uma das formas de intervenção do grupo sobre bens considerados escassos e essenciais para sua sobrevivência.
A literatura sobre história da sexualidade aponta para um fenômeno muito importante e prevalente até o século XVIII no mundo ocidental, que é a diferença entre o amor no casamento e o amor fora do casamento. Flandrin (1981) ressalta que o amor esteve presente na literatura ocidental pelo menos desde o século XII, mas este amor, salvo raras exceções, não é nunca um amor conjugal. O casamento tem por função - não somente entre os reis e os príncipes, mas em todos os níveis da sociedade - ligar duas famílias, e permitir que elas se perpetuem, muito mais do que satisfazer o amor de duas pessoas. O amor-paixão é essencialmente extra-conjugal. Mas a partir do século XVIII, este quadro se modifica e as duas formas de amor, tradicionalmente opostas, são aproximadas. Um novo ideal de casamento vai-se constituindo aos poucos no Ocidente, em que se impõe aos cônjuges que se amem ou que pareçam se amar, e que tenham expectativas a respeito do amor. O erotismo extraconjugal entra no casamento e o amor-paixão é visto como modelo. Hoje ninguém duvida da dignidade do amor conjugal. A sociedade contemporânea não aceita mais que alguém possa se casar sem desejo e sem amor.
Giddens (1992), ao discutir a transformação da intimidade nas sociedades ocidentais, ressalta que os ideais do amor romântico, relacionados à liberdade individual e à auto-realização, desligam os indivíduos das relações sociais e familiares mais amplas, demarcando com mais clareza a esfera do relacionamento conjugal, que passa a ser assim mais valorizada e priorizada. Enfatiza que o amor romântico, desde sua origem, suscita a questão da intimidade e supõe uma comunicação psíquica, um encontro que tem um caráter reparador. O outro preenche um vazio que o indivíduo, muitas vezes, sequer reconhece, a relação amorosa se instala, e o indivíduo fragmentado sente-se inteiro.
A experiência sexual, como toda experiência humana, é produto de um complexo conjunto de processos sociais, culturais e históricos. A concepção moderna de sexualidade, segundo Foucault (1988), designa uma série de fenômenos que englobam tanto os mecanismos biológicos da reprodução como as variantes individuais e sociais do comportamento, a instauração de regras e normas apoiadas em instituições religiosas, judiciárias, pedagógicas e médicas, e também as mudanças no modo pelo qual os indivíduos são levados a dar sentido e valor à sua conduta, seus deveres, prazeres, sentimentos, sensações e sonhos. Sexualidade é, pois, uma construção social que engloba o conjunto dos efeitos produzidos nos corpos, nos comportamentos e nas relações sociais. Ao longo da história, a atividade sexual sempre foi objeto de preocupação moral e, como tal, submetida a dispositivos de controle das práticas e comportamentos sexuais. Como esses dispositivos são construídos com base nos valores e ideologias predominantes na sociedade, eles assumem formas diferentes à medida que a sociedade muda. As mudanças que vêm acontecendo no amor, no casamento e na sexualidade ao longo da modernidade resultaram em transformações radicais na intimidade e na vida pessoal dos indivíduos.
A transformação da intimidade passa necessariamente por uma análise de gênero e tal conquista tem permitido o surgimento de outras formas de relacionamento amoroso, tanto no contexto heterossexual quanto fora dele. Vivemos hoje no signo da pluralidade. O casamento formal, heterossexual com fins de constituição da família, continua sendo uma referência e um valor importante, mas convive com outras formas relacionamento conjugal como as uniões consensuais, os casamentos sem filhos ou sem cohabitação, e também as uniões homossexuais. Nesse processo de transformação da intimidade, dos valores e das mentalidades, a tendência da sociedade é tornar-se cada vez mais flexível para acolher essas novas configurações das relações amorosas.














REFERÊNCIAS

ANTON, Iara L. Camaratta. A escolha do cônjuge: um entendimento sistêmico e psicodinâmico. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.
BASTOS, A. V.B & ACHAR, R. Dinâmica profissional e formação do psicólogo: uma perspectiva de formação. In: Conselho Federal de Psicologia. Psicólogo Brasileiro. Praticas emergente e desafios para a formação. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1994.
SATIR, Virginia. A mudança no casal. In. ANDOLFI, Maurizio ET AL. O casal em crise. São Paulo: Summus, 1995 ( p29-37).
HEILBORN, M. Z. (1992). Vida a Dois: Conjugalidade igualitária e identidade sexual. Anais do VII Encontro Nacional de Estudos Populacionais (Vol.2, p.143-156). São Paulo: ABEP.
SILVA, A. A., OLIVA, M. F, & STILCKA, S. (1992). Qualidades de um parceiro amoroso: Importância na escolha para o casamento e motivos de separação Resumos de Comunicações Científicas, XXII Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Psicologia, Ribeirão Preto.
LEVI-STRAUSS, C. (1968). Les structures élémentaires de la parenté. Paris: La Haye
GIDDENS, A. (1992). A Transformação da intimidade: sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas, São Paulo, UNESP.
JABLONSKI, B. (1998). Até que a vida nos separe - A crise do casamento contemporâneo. Rio de Janeiro: Agir. (Originalmente publicado em 1991).
BERGER, P. & KELLNER, H. (1970). Marriage and the construction of reality. Em P. H. Dreiazel. (Org.), Recent sociology, New York: The Mac Millow Company.
FARRIS, J. R.. Conflito moral e religião: universos morais, valores definitivos e teorias de conflito. Estudos de Religião, v. 17, n. 25, p. 184-206, 2003.
CHAUÍ Marilena, Convite à Filosofia, Ática, São Paulo, 2000.























 
Avalie este artigo:
 
Revisado por Editor do Webartigos.com


Leia outros artigos de Lorena Orleans Calmon De Passos Oliveira
Talvez você goste destes artigos também