Resenha de Preconceito lingüístico: o que é, como se faz.
 
Resenha de Preconceito lingüístico: o que é, como se faz.
 


RESENHA

BAGNO, Marcos. Preconceito lingüístico: o que é, como se faz. 51. ed. São Paulo: Loyola, 2009. 207 p. ISBN 9788515018895 (broch.).
"Preconceito lingüístico: o que é, como se faz."(Loyola, 2009, 207 p.) traz idéias que, atualmente, mesmo para o maior dos defensores "da última flor do Lácio inculta e bela", a qual o encanta a ponto de dizer :"amo-te assim, desconhecida e obscura"; não podem ser ignoradas. Ao lançar luz sobre a realidade que existe por trás dos pré-juízos, contra a informalidade na nossa língua, e dos convencionalismos, que marcam a norma culta do português falado no Brasil, Marcos Bagno reflete sobre a relação entre o estado social do indivíduo e o seu papel de falante de um língua materna. Portanto esse livro torna-se imprescindível para qualquer profissional que utilize a língua luso-brasileira como matéria ou veículo para seu trabalho.
O livro divide-se em quatro partes : A mitologia do preconceito linguístico, o círculo vicioso do preconceito lingüístico, a desconstrução do preconceito lingüístico e preconceito contra a lingüística e os lingüistas. Nelas o autor constrói uma argumentação sólida e digna de credibilidade para desacreditar os gramáticos ortodoxos.
A fim de desmistificar a "confusão que foi criada, no curso da historia, entre língua e gramática normativa" o autor elege, na primeira parte da obra, uma lista com oito mitos do preconceito linguístico, a qual segue desconstruindo no decorrer da obra. Essa mitologia serve de exemplo para demonstrar a mística que envolve o "certo" e o "errado" na língua portuguesa; a seguir estão elencados dois conjuntos argumentos, dados pelo autor, com a finalidade de ilustrar essa desconstrução:
? "Brasileiro não sabe português/Só em Portugal se fala bem português". Esse pensamento é ainda resquício do "complexo de colonizado" do povo brasileiro. Na verdade há uma grande diferença entre o português do Brasil e o de Portugal, como falantes nenhum dos dois povos segue inexoravelmente as normas da gramática, porém é impossível um falante nativo não conhecer bem a língua de sua terra natal. Logo, o povo luso conhece bem o português de Portugal e o povo brasileiro conhece bem o português do Brasil.
? "Português é muito difícil". Esse mito é muito parecido com o supracitado. A gramática normativa discorda do português falado informalmente pela maior parte da população brasileira, e os gramáticos tradicionalistas ajudam na proliferação desse mito por meio da mídia e em nome do consumismo, refletindo assim no ensino das escolas.
Porém se forem observados a fundo, boa parte das alegorias se relacionam profundamente, isso gera no leitor uma sensação de repetição, como se estivesse lendo o tempo todo sobre o mesmo mito. Nesse contexto se encaixam os mitos de nº 2 e de nº 3 citados acima. Isso torna, por vezes, a obra cansativa e entediante. Fato que é prontamente compensado pela imensa quantidade de exemplos e metáforas novas trazidas por Bagno em cada nova lenda.
Na segunda parte do livro, o autor descreve o circulo vicioso do preconceito linguístico que é composto por três elementos: a gramática tradicional; os métodos tradicionais de ensino; e os livros didáticos. Ele se forma por meio da gramática tradicional, que inspira as práticas de ensino, que acaba fazendo com que a indústria do livro didático recorra à gramática para orientá-la. Nas escolas só é ensinada a norma padrão da língua, que é muito pouco usada pela maior parte da população, isso causa um bloqueio na aprendizagem do aluno. Outro problema corrente é a correção antes de se entender o que o aluno quis dizer com o seu texto. Esse procedimento pode gerar um sentimento de incompetência e incapacidade, desestimulando o hábito da leitura, pois o ensino assume um caráter punitivo. Além disso, os comandos paragramáticais e as gramáticas tornam a compreensão da língua muita mais complexa, o que confunde e dificulta a expressão até mesmo de um falante nativo do português.
Marcos Bagno é muito feliz ao posicionar-se claramente como linguista, criticando o fundamentalismo dos gramáticos normativos, afinal a gramática é a arte de arredar as dificuldades de uma língua; mas é preciso que a alavanca não seja mais pesada do que o fardo. Porém o tom em que tece suas criticas aos gramáticos é muito forte, talvez por que exista um "ódio" recíproco, chegando ao ponto de perder um pouco o foco da obra. Por vezes simplesmente cita, de maneira sempre negativa, gramáticos como Pasquale Ciprio Neto, Luiz Antonio Sacconi e Napoleão Mendes; porém há momentos em que suas críticas ganham um tom pessoal, passando assim a soar como mera difamação da imagem destes.
A partir da terceira parte da obra, Bagno torna-se mais pragmático e começa a procurar soluções que quebrem o círculo vicioso do preconceito linguístico. Ele expõe que não há saídas imediatas para tais problemas e também que para superá-los se faz necessário uma transformação radical da sociedade na qual estamos inseridos. E assim propõem que para iniciar uma desconstrução do preconceito linguístico, é necessário que se reconheça essa crise que afeta o ensino da língua portuguesa. È importante lembrar as dez cisões para um ensino da língua não (ou menos) preconceituoso, propostas por nosso autor; entre ela podemos encontrar: dar-se conta de que a língua portuguesa não vai nem bem, nem mal. Ela simplesmente segue sua evolução e nada pode a deter; atentar para as formas individuais ou regionais do saber lingüístico, as quais devem ser todas consideradas corretas quando usadas em situações próprias. E também devemos reconhecer-nos como falantes de nossa língua materna e, portanto, como pessoas capacitadas para criticar e reconhecer os preconceitos envolvidos nesse círculo vicioso.
Nesta parte o autor clama pelo espírito revolucionário do leitor, trazendo um contato instigante. Bagno dá o suporte, do qual o ledor pode se aproveitar caso tenha intenção de volver-se em ator da práxis na revolução educacional. É realmente uma sugestão apaixonante; porém pode ser facilmente taxada de utópica ou inacessível, pois se trata de uma revolução no campo das idéias, logo não é tátil muito menos pode ser aplicada a realidade com facilidade.
Na ultima parte do livro, o nosso "Marx da linguística", aborda o preconceito contra a linguística e contra os linguistas; nesse tópico ele trata de apresentar um pouco do que é esta ciência e de fazer críticas a quem aos críticos da mesma e dos seus praticantes. Entre os que são alvos destas admoestações está, novamente, Pasquale Ciprio Neto. Esses exagerados julgamentos transmitem um tom pessoal ao discurso, já que o linguista consome boa parte da obra recriminando os gramáticos, o que faz com que ele perca um pouco de credibilidade e enfoque.
Compendiando, "Preconceito linguístico: o que é, como se faz" é uma obra capaz de acentuar o senso critico do leitor, além de fazer uma reflexão, um tanto quanto superficial (como diz o próprio autor, é um livro para introduzir ao assunto), sobre temas como: o que realmente é a língua? O que é lingüística? Quais suas funções? O que é o preconceito lingüístico? Como se fundamenta? Como quebrá-lo?
Portanto essa obra volve-se extremamente conveniente para qualquer um que trabalhe cotidianamente com a língua portuguesa do Brasil. Apesar de ser, em ocasiões, um tanto repetitivo, quanto a argumentação, e agressivo, em relação aos adversários do seu pensamento; Bagno consegue resumir e, o mais importante de tudo, propor soluções para o preconceito linguístico. Com grande ânimo ele convoca o leitor para uma ação transformadora nas estruturas da sociedade. Por todos estes motivos a obra se torna assaz recomendável para todos os interessados em adentrar o campo da educação brasileira e também para aqueles que anseiam por uma maior liberdade em relação às normas gramaticais, afim de que a língua siga sua evolução livremente, sem se deparar com tais empecilhos.
 
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