Resenha crítica: O mito da caverna (Platão)
 
Resenha crítica: O mito da caverna (Platão)
 


O MITO DA CAVERNA
PLATÃO. A República. S. Paulo: Martin Claret, 2000. 320 pag. Livro VII ? pág.210-238.
Filósofo grego, viveu entre 428-348 a . C., nascido em Atenas, autor de vasta obra filosófica, dentre as quais, destaca-se A República, um tratado político-filosófico, uma de suas obras-primas, escrita em forma de diálogos.
Resenhista: Rúbia Pimentel
"O Mito da caverna" trata-se do Livro VII, no qual Platão revela de modo metafórico o papel do conhecimento, cuja busca se dá através da filosofia. Para tanto usa a alegoria de uma caverna subterrânea, onde lá estão acorrentados homens desde a sua infância, acreditando que a única realidade são as sombras de objetos variados projetadas na parede. Platão usa dois personagens que dialogam entre si: Sócrates e Glauco, seu discípulo, que passa a imaginar as abstrações sugeridas por Sócrates, as quais apresentamos a seguir.
Imagine uma caverna subterrânea; lá, estão homens prisioneiros, acorrentados pelas pernas e pescoço desde a sua infância. Por esta razão devem permanecer imóveis, olhando só para a frente. A caverna é levemente iluminada por uma clareira. Do lado de fora, titeriteiros manipulam objetos variados que projetam nas paredes da caverna, sombras de bonecos de homens, figuras de animais feitos de pedra e outros objetos de madeiras e outros materiais variados. Ao longo de sua vida, os prisioneiros só puderam contemplar sombras projetadas nas paredes da caverna, seus companheiros e as vozes emitidas de fora, dos homens que conversam entre si.
A metáfora apresentada pelo autor mostra-nos que quando somos cerceados do conhecimento, tornamo-nos "prisioneiros" das "verdades" imputadas a nós. A representação distorcida da realidade é absorvida pelos nossos sentidos como única realidade. A separação do homem em relação ao mundo real representa para Marx a "alienação social" ? um modo de estranhamento entre os homens e entre as coisas. Através dela, apenas a representação da realidade prevalece sobre a sua verdadeira realidade. Isso nos leva a refletir que o homem que vive das representações sociais e materiais ? da ideologia ? é um "prisioneiro" de uma classe manipulatória que projeta "imagens" (idéias, concepções de mundo em geral) que atendam aos seus interesses.
É dada a oportunidade para que um dos prisioneiros seja libertado das correntes. Inicialmente ele sente dores no pescoço e tem que subir a longa escarpada da caverna para chegar ao lado de fora. Ao chegar do lado de fora, o primeiro impacto que o prisioneiro tem é com a luminosidade do sol que cega temporariamente seus olhos. Aos
poucos, seus olhos se habituam com a claridade do sol e ele pode contemplar mais próximo da realidade, objetos mais reais, com uma visão mais verdadeira, tendo dificuldade em nomear os objetos, pois se encontra perplexo diante da contemplação mais verdadeira da realidade.
A impressão dada pelo autor sugere-nos que a conquista do conhecimento impõe-nos um sacrifício. Gramsci em sua obra "Os intelectuais e a organização da cultura", afirma que "estudar é um ato enfadonho, mas é o único ato que leva o homem a sua libertação". Isso significa dizer que o conhecimento impõe-nos um sacrifício que, no entanto, representa a liberdade. É através do conhecimento de sua realidade e de seu mundo, que o homem faz a história, revoluciona o mundo ? é sujeito da práxis.
Se vigorasse um prêmio entre os prisioneiros por se distinguirem em fazer as melhores conjecturas acerca das sombras projetadas nas paredes da caverna, certamente o homem desacorrentado abriria mão desse prêmio e diria como Homero: "é preferível lavra a terra a serviço de um homem de patrimônio ou sofrer qualquer outro destino a viver no mundo das sombras". E se tivesse que voltar ao mundo da caverna e contar aos prisioneiros o que vira, certamente seria considerado um louco e tentariam matá-lo.
Percebe-se aqui, a exaltação que Platão faz ao conhecimento: na medida em que o homem depara-se com a possibilidade do conhecimento, não há como retroceder ao mundo da "ignorância". Conhecer é um ato permanente de descobertas, que impõe ao homem um sacrifício necessário: o trabalho. Por outro lado, a descoberta feita pelo sujeito do conhecimento, é considerada loucura diante das "verdades instituídas". O instituinte é transformador, o instituído é conservador.
Platão conclui: a caverna subterrânea é o mundo visível aparente. A clareira que ilumina a caverna é a luz do sol. O acorrentado que se eleva à região superior e a contempla, é a alma que se eleva ao mundo inteligível. "(...). é este pelo menos o meu modo de pensar, que só a divindade pode saber se é verdadeiro. Quanto a mim, a coisa é como passo a dizer-te. Nas últimas fronteiras do mundo inteligível está a idéia do bem, criadora da luz e do sol no mundo visível, autora da Inteligência e da Verdade no mundo invisível e, sobre a qual, por isso mesmo, cumpre ter os olhos levantados para agir com sabedoria nos negócios individuais e públicos" (p.238).
Existe nesta metáfora, a idéia de conhecimento de um mundo aparente, limitado por circunstâncias materiais e sensoriais. Existe um mundo real a ser conhecido que dependerá da libertação do homem dessas circunstâncias a fim de que ele possa indagar e refletir a realidade e construir conhecimentos. Existe também um mundo inalcançável pelo homem, a essência da coisa que está na idéia e não pertence ao mundo sensível. Aqui, Platão revela o seu idealismo acerca da realidade do mundo.
 
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Revisado por Editor do Webartigos.com


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