Resenha crítica de "As Rãs", de Aristófanes
 
Resenha crítica de "As Rãs", de Aristófanes
 


Resenha crítica do texto "As Rãs", de Aristófanes

Por Diana Sarcinelli

"As Rãs" não é um mero texto, é uma obra literária dramática escrita por um grande comediógrafo grego que lança mão de artifícios, em sua maioria cômicos, para trazer à tona discussões literárias da época.
Nesta comédia (traduzida por Mário da Gama Kury) estreada em 405 a.C, Aristófanes traz brilhantemente, como personagem o próprio Diôniso, (o deus ao qual eram oferecidos os rituais ditirâmbicos e os sacrifícios de bodes, ou seja, o deus do teatro grego), no entanto um Diôniso meio idiota, completamente medroso, mentiroso e totalmente engraçado.
Disfarçado de Heraclés (Hércules), Diôniso está a caminho do inferno, acompanhado por seu criado bobo Xantias com a finalidade de resgatar de lá o tragediógrafo grego Eurípedes, pois não havia outro poeta trágico vivo que fosse bom o bastante para Diôniso já que Eurípedes, Ésquilo e Sófocles haviam falecido.
Porém, antes de iniciar a busca, Diôniso procura por Heraclés para que este o informe por qual caminho ele poderá seguir asseguradamente até sua chegada ao inferno, visto que seu irmão já havia passado por lá.
Ao encontrar Heraclés, surge a primeira discussão no que se refere à crítica literária pois este homem "forte" quer saber o porquê da vontade de Diôniso em querer ir ao encontro de Hades. Então os nomes de alguns autores trágicos contemporâneos de Aristófanes são mencionados, estabelecendo aí algumas reflexões literárias. Após algumas indicações dadas por Heraclés, Diôniso decide seguir o mesmo caminho pelo qual Heraclés percorrera: a travessia de um pântano, ou seja, o caminho mais longo. Nesta hora, a controvérsia da ideia de Diôniso, que no primeiro momento era de ir pelo caminho mais curto, se faz presente e nos remete a confirmar a idiotice do nosso personagem principal.
No desenrolar da história, Diôniso encontra o barqueiro Cáron que por dois óbulos aceitou atravessá-lo pelo pântano. Durante esta travessa, Diôniso discute com as rãs que habitam este úmido ambiente porque seus brequequequequex coax coax o irritam. Devido ao coro das Rãs que se prolonga quase até o final da travessia, que esta obra foi intitulada de "As Rãs".
Ao chegar ao inferno o deus do teatro grego reencontra seu criado Xantias e eles presenciam a aparição de um monstro lendário e pavoroso em forma de mulher, a chamada Êmpusa, que desaparece deixando os novos visitantes desesperados. A partir daí uma série de desventuras também se faz presente, Diôniso é ameaçado de morte pelo Áiaco, pois este o confunde com Heraclés (já que Diôniso estava disfarsado dele) e acusa-o de ter levado o cão de guarda do inferno; pelas taberneiras ele também é acusado de roubo injustamente.
Áiaco não havia conseguido distinguir quem era o verdadeiro deus, já que Diôniso vivia trocando de disfarce com o esperto e submisso Xantias, e decidiu levá-lo a Perséfone, que era uma deusa e, segundo Áiaco, teria mais condições de fazer tal diferenciação. No momento em que ocorre essa ação Xantias sai da casa com um escravo de Hades e após algumas conversas eles ouvem uma calorosa discussão, era um desentendimento entre os mortos Ésquilo e Eurípedes. O vencedor desta discussão ocuparia o lugar de melhor poeta trágico e se sentaria no trono ao lado de Hades. Então, um novo concurso foi iniciado e, por crerem que Diôniso conhece a arte dramática, a ele foi dado o julgamento.
A genialidade de Aristófanes em colocar o próprio deus do teatro grego examinando cada verso das tragédias dos melhores tragediógrafos gregos, que até então existira, é admirável, pois se travou aí uma considerável batalha no que tange a crítica literária efervescente daquela época. Mesmo de maneira hilária e trazendo o deus Diôniso de uma maneira comportamental diferente do que pensava a sociedade grega da época, Aristófanes faz com que a plateia, latentemente e à maneira dela, analisem juntamente com eles a métrica dos versos, o lirismo, a elevação da linguagem, o estilo, os aspectos que estão no âmbito da reflexão, entre outros caracteres avaliativos, além da diversidade das tragédias de cada autor.
Nessa luta de gênios, Eurípedes ataca Ésquilo e vice-versa, de modo que no decorrer da comédia, percebemos que Eurípedes era mais humano, mais psicológico e sofisticado, e segundo ele mesmo, conseguiu formar o pensamento introduzindo em suas tragédias o raciocínio e a reflexão, ao contrário de Ésquilo, que era mais arcaico, religioso e que segundo ele, as virtudes marciais, a arte das batalhas e a profissão das armas deveriam ser valorizadas assim como em cada cidadão deveria ser insuflado o mesmo desejo dos heróis guerreiros e nada mais deveríamos dizer além do proveitoso, pois "o poeta trágico é para a verdade viril o que o preceptor é para a infância". Para Ésquilo, Eurípedes degradou tudo enquanto ele enobreceu. Devemos ratificar que o modo de pensar destes tragediógrafos é trazido por Aristófanes em "As Rãs" e que a fala de cada personagem foi por ele criada.
Após estas discussões, nas quais as obras literárias e seus prólogos são avaliados, e após Eurípedes perder muitas "garrafinhas", Diôniso é forçado a decidir rapidamente, o vencedor do concurso e decide pesar os versos de cada um na balança. O prato de Ésquilo pesou mais, então Diôniso, novamente pressionado por Hades se pronunciou dizendo que resgataria do inferno Ésquilo. Diôniso foi infiel ao juramento que fez em resgatar Eurípedes e ainda valeu-se de um verso dele para se sair de um comportamento traiçoeiro. Logo, Ésquilo deixou seu trono para Sófocles (interessado em voltar para ele assim que retornasse ao mundo dos mortos) e orgulhoso, voltou para o mundo dos vivos com Diôniso. E o Eurípedes? Continuou no inferno frustrado e inconformado com a atitude do malandro Diôniso.
Além da crítica literária, na primeira e na terceira fala do Corifeu, há críticas ao governo da época, à demagogia, há a presença da revolta de Aristófanes visto aos acontecimentos sociais, além da tentativa de atentar à sociedade grega a tais acontecimentos. O autor utiliza alguns recursos metafóricos para expressar tais inquietações.
Com um desenrolar de fatos super atrativo e cheio de graça trazendo como pano de fundo grandes autores gregos a fim de fazer surgir reflexões acerca das obras literárias, "As Rãs" cumpre satisfatoriamente esta tarefa e ratifica outra, a de fazer com que esta obra literária dramática não seja um mero texto. No mais, é tudo comédia.

 
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Sobre este autor(a)
Graduanda em Letras-Português/Inglês/Espanhol da Faculdade Serravix, na Serra-ES.
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