Reflexões filosóficas contemporâneas sobre o fenômeno da massificação
 
Reflexões filosóficas contemporâneas sobre o fenômeno da massificação
 


REFLEXÕES FILOSÓFICAS CONTEMPORÂNEAS SOBRE O FENÔMENO DA MASSIFICAÇÃO.

RESUMO
O artigo em questão aborda alguns dos aspectos da sociedade contemporânea. Analisa as principais características da massificação dos comportamentos e faz uma retrospectiva dos motivos que fizeram com que a filosofia contemporânea fosse caracterizada com fortes traços de desesperança. Além disso, mostra como Adorno, Horkheimer e Baudrillard elaboraram reflexões no sentido de compor uma teoria crítica sobre a sociedade como um todo, desenvolvendo conceitos-chaves necessários para a compreensão do fenômeno da massificação das pessoas. O estudo discorre também sobre os mecanismos utilizados para gerar essa situação de extrema alienação. Mostra que o avanço da tecnologia não condiz com o nível de consciência demonstrado pela sociedade. Essa tem se mostrado cada vez mais apática no que tange ao conhecimento verdadeiro. Servindo estritamente à dinâmica do famigerado capitalismo, é caracterizada pelo profundo atrofiamento da capacidade reflexiva, não sendo mais capaz de criar ou ao menos imaginar uma realidade diferente. Papel importante nisso tudo ocupam os meios midiáticos, que incentivam e disseminam um contexto de alienação coletiva, no qual as banalidades cotidianas têm prioridade absoluta no que tange às preocupações imediatas do conjunto da sociedade. Mostra também que antigos conceitos, como o da estruturação da sociedade em classes, não são mais suficientes para explicar as relações entre as pessoas consigo mesmas e com o meio em que vivem. Essas classes perderam a sua identificação como tal e todas encontram-se imersas na mesma dinâmica de massificação. Por fim, ao elencar os principais tópicos da filosofia desenvolvida pelos referidos pensadores, conclui que esse é o pior momento da história da humanidade, pois o próprio planeta nunca esteve tão ameaçado quanto na atualidade. E o pior é que tal situação foi gerada justamente por aquele que, dentre todos os animais, é tido como o único ser racional: o próprio homem.

Palavras-chave: filosofia contemporânea, sociedade de massa, indústria cultural, homogeneização dos comportamentos e realidade virtual.

INTRODUÇÃO
As reflexões realizadas pelos teóricos da Escola de Frankfurt, particularmente Adorno e Horkheimer, e as desenvolvidas por Jean Baudrillard, podem, com grande proveito, ser aplicadas ao contexto histórico atual. Afinal, vivemos uma realidade pautada pela completa inversão dos valores, onde o ser humano tem se reduzido cada vez mais a um objeto a mercê dos caprichos e interesses do capitalismo e da lógica mercadológica. Sua condição de alienação é tão latente que ele nem sequer consegue imaginar uma existência diferente da que vive. Podemos dizer que ele perdeu sua capacidade criativa.
Aliás, como bem definiam Adorno e Horkheimer, a morte da razão crítica, asfixiada pelas relações de produção capitalista, tem demonstrado uma voracidade avassaladora na homogeneização e massificação dos comportamentos. Desenvolveu-se de tal forma um padrão único de comportamento que, o que faz alguém humano nos padrões atuais não é a sua individualidade, mas a capacidade do mesmo de se deixar absorver pelas condutas massificadas. A propósito, o ser humano não precisa mais se preocupar em pensar. Basta ser como todo mundo, por mais medíocre que isso possa ser.
O paradoxo apresentado por Horkheimer no que tange ao avanço do conhecimento técnico e, por outro lado, a redução da capacidade do ser humano em ser autônomo e resistir ao crescente mecanismo de manipulação das massas, é uma síntese da condição humana atual. E, além disso, muitos daqueles que teoricamente fazem oposição ao padrão vigente mais o fazem por conveniência do que por conscientização. É a dinâmica do herói sem causa.
Outro problema crônico é a falta de referenciais teóricos alicerçados e comprovadamente válidos. A sociedade, num grau ascendente, vem se fundamentando cada vez mais em "achismos", que nada mais são do que conceitos mal formulados e de autoria duvidosa no que tange a seus reais objetivos. É a dinâmica das informações ideologizadas e interesseiras. A propósito, carecemos de conhecimento e somos empanturrados de informações inúteis.
Contrariamente do que a razão controladora e instrumental mostra, não é o aprimoramento e
disseminação da técnica de forma idolátrica que trará a solução para todos os problemas da humanidade. Antes, de acordo com o padrão atual, tal atitude acaba por gerar seres humanos cada vez mais atrofiados intelectualmente.
Sob a ótica de Baudrillard, a sociedade atual somente pode ser compreendida, em suas contradições, de acordo com os ditames da massificação. Ocorre, de forma crônica, a completa neutralização das perspectivas de transformação, e os indivíduos, alienados, aderem cada vez mais à banalização da vida cotidiana. Isso é reforçado pela capacidade da mídia de criar uma realidade virtual, que substituiria, para os indivíduos, a própria realidade. Assim, a sociedade, contemporânea é a sociedade do espetáculo e da virtualização criada pelos meios de comunicação.
O tema proposto pretende discorrer sobre o processo de homogeneização e massificação dos comportamentos, visto que, em sua essência, pautam-se cada vez mais no pseudo-paradigma de que a inserção na sociedade se dá na medida em que o homem se anula enquanto ser único para ser mais um na formação de um todo massificado.
Isso vem de encontro a alguns dos principais problemas da sociedade atual. A homogeneização e massificação dos comportamentos é um fenômeno que ultrapassa todas as camadas sociais, sendo aqueles pertencentes às classes mais baixas os maiores prejudicados. Criou-se um ambiente largamente propenso para o surgimento de uma infinidade de fetiches, no sentido marxista do termo. A propósito, os mesmos tem se tornado cada vez mais banais.
Pesquisar sobre essa problemática urge da necessidade de aprofundar-se no conhecimento do processo de alienação social, a qual faz com que o ser humano atrofie cada vez mais sua capacidade racional e, conseqüentemente, se torne mais susceptível às influências desastrosas da padronização comportamental pautada nas futilidades do consumismo. Assim, o objetivo desse estudo é o de compreender melhor essa dinâmica, tendo por base os pensamentos desenvolvidos por Adorno, Horkheimer e Baudrillard.

1 - AS RAÍZES SÓCIO-HISTÓRICAS E IDEOLÓGICAS DO PROCESSO DE MASSIFICAÇÃO

1.1 - Questões da Filosofia Contemporânea: matizes para uma reflexão pautada na desesperança.
O século XX apresentou determinadas características que moldaram decisivamente a história da sociedade contemporânea. Podemos dizer que, de certa forma, dirigir o olhar para o século XX é deparar-se com um contexto permeado por guerras e pela banalização da vida. Ocorreu de forma bastante latente a industrialização do mundo, ou das partes que passaram pelo processo de modernização industrial, e das conseqüências funestas do colonialismo dos países ditos de primeiro mundo sobre os demais. Ocorreu a intensa alienação dos trabalhadores, que se transformaram em peças fundamentais, entretanto descartáveis, da engrenagem capitalista.
Caracterizou-se também pelo advento das mudanças nas formas de comunicação, com a popularização do rádio, do telefone e a invenção da internet. Importante papel nesse contexto desempenhou a energia elétrica. É o século da produção em massa de uma série de utensílios, carros e armas. Relembra a eclosão da Guerra Fria, a corrida espacial, o inevitável desemprego, a fome, a dissipação de famílias e sonhos.
A humanidade, em sua história, passou por momentos extremamente significativos que moldaram definitivamente seus rumos. Certamente foi isso que aconteceu com a utilização do fogo e o desenvolvimento da agricultura. Da mesma forma, o desenvolvimento e aperfeiçoamento dos meios de comunicação de massa apresentaram um potencial imenso de gerar transformações semelhantes às citadas anteriormente. Entretanto, tais questões não obrigatoriamente significam progressos significativos. No caso dos meios de comunicação e da própria ciência, apesar de ser um processo irreversível e de ter trazido diversos benefícios, há outras muitas questões que precisam ser analisadas detalhadamente.
Historicamente, costuma-se caracterizar como Filosofia Contemporânea o período compreendido entre o século XIX até nossos dias. Vejamos o comentário de Marilena Chauí sobre as principais características desse período.

O século XIX é, na Filosofia, o grande século da descoberta da História ou da historicidade do homem, da sociedade, das ciências e das artes. É particularmente com o filósofo alemão Hegel que se afirma que a História é o modo de ser da razão e da verdade, o modo de ser dos seres humanos e que, portanto, somos seres históricos.
No século passado, essa concepção levou à idéia de progresso, isto é, de que os seres humanos, as sociedades, as ciências, as artes e as técnicas melhoram com o passar do tempo, acumulam conhecimento e práticas, aperfeiçoando-se cada vez mais, de modo que o presente é melhor e superior, se comparado ao passado, e o futuro será melhor e superior, se comparado ao presente. Essa visão otimista também foi desenvolvida na França pelo filósofo Augusto Comte, que atribuía o progresso ao desenvolvimento das ciências positivas. Essas ciências permitiriam aos seres humanos "saber para prever, prever para prover", de modo que o desenvolvimento social se faria por aumento do conhecimento científico e do controle científico da sociedade. (CHAUÍ, 2000, p. 61)

Entretanto, toda a expectativa criada se viu frustrada perante os acontecimentos que se seguiram a esse ímpeto progressista. Ao invés das soluções esperadas, outros inúmeros problemas, sequer imaginados anteriormente, passaram a fazer parte do centro das preocupações.

A mesma afirmação da historicidade dos seres humanos, da razão e da sociedade levou à idéia de que a História é descontínua e não progressiva, cada sociedade tendo sua História própria em vez de ser apenas uma etapa numa História universal das civilizações.
A idéia de progresso passa a ser criticada porque serve como desculpa para legitimar colonialismos e imperialismos (os mais "adiantados" teriam o direito de dominar os mais "atrasados"). Passa a ser criticada também a idéia de progresso das ciências e das técnicas, mostrando-se que, em cada época histórica e para cada sociedade, os conhecimentos e as práticas possuem sentido e valor próprios, e que tal sentido e tal valor desaparecem numa época seguinte ou são diferentes numa outra sociedade, não havendo, portanto, transformação contínua, acumulativa e progressiva. O passado foi o passado, o presente é o presente e o futuro será o futuro. (Id. ib., p. 61)

Como afirma Arduini (2002, p. 14), a pós modernidade apresenta grandes conquistas e grandes devastações. O fato é que, todas as questões e acontecimentos que foram sendo verificados durante o século XX lançaram por terra todas as esperanças surgidas no século anterior. A tecnologia não trouxe a solução para os problemas esperados. Antes disso, trouxe ainda mais problemas, como sua utilização maciça no campo militar. A tão esperada autonomia humana não aconteceu. Antes, a brutalidade acabou sendo a principal característica das relações humanas. Não houve a globalização da solidariedade, mas o extermínio gradativo dos valores verdadeiramente humanos. O próprio ser humano foi sendo dizimado pelas conseqüências avassaladoras de uma mentalidade completamente alheia às questões existenciais. Como afirma Cotrim (2006, p.195), "o século XX não pode ser fechado para balanço. Permanece aberto para quem quiser compreendê-lo."

1.2 - Entendendo o conceito de massificação
O conceito de massificação está relacionado à dinâmica social caracterizada pela diluição do ser num todo permeado por um contexto de extrema alienação. Nesse regime, as características, particularidades e necessidades individuais são sintetizadas por um exacerbado reducionismo existencial, onde a dinâmica social passa a ser caracterizada pela imitação. Nela, a capacidade criativa é substituída por um silencioso processo de atrofiamento intelectual. Silencioso porque não faz uso da violência física, mas de um mecanismo largamente mais eficiente: o poder da manipulação ideológica.
A propósito, é preciso ressaltar a questão das influências dos meios de comunicação, sobretudo no que tange à adoção de comportamentos massificados. Esses tem como principal motor as ideologias vigentes na atualidade. Tais ideologias, fundamentadas na lógica capitalista, tem como característica básica a transitoriedade de todas as coisas e a banalização da própria existência. Tudo é reduzido a um frágil e passageiro modismo. Não há mais espaço para o estabelecimento de comportamentos e condutas enraizadas, fundamentadas na razão crítica. A propósito, essa é submetida a um processo de aniquilamento e banalização. Deixar-se guiar por ela é, vulgarmente, não acompanhar as mudanças sociais.

1. 3 ? O processo de alienação e o conceito de ideologia: matizes para uma reflexão sobre a massificação

O processo de massificação está intimamente relacionado ao próprio processo de industrialização ocorrido sobretudo a partir do século XIX. E a industrialização trouxe consigo o surgimento e o monstruoso crescimento da tecnologia que, inclusive, acabou penetrando em todas as esferas da existência. Dessa forma, o ser humano teve que lidar com um fenômeno novo e avassalador, que passou a permear todas as relações e influenciou decisivamente no curso de sua própria história.
Não obstante a tudo isso, principalmente a partir de meados do século passado, a disseminação dos meios de comunicação de massa, além de provocarem uma substancial transformação nas relações humanas, aceleraram o processo de alienação social. A propósito, o conceito chave para entender o fenômeno da massificação, passa obrigatoriamente pela compreensão do conceito de alienação. Vejamos como Cotrim descreve essa questão:

O termo alienação havia sido usado primeiramente por Hegel para designar o processo pelo qual os indivíduos colocam as suas potencialidades nos objetos por eles criados. Significaria, assim, uma exteriorização da criatividade humana, da sua capacidade de construir obras no mundo. Nesse sentido, o mundo da cultura seria uma alienação do espírito humano, uma criação do homem, que nela se reconheceria.
Diferentemente de Hegel, Marx identificou nesse processo de exteriorização da criatividade humana, dois momentos distintos:
. O primeiro seria o da objetivação, que se refere especificamente à capacidade de o homem se objetivar, se exteriorizar nos objetos e nas coisas que cria, o que é algo próprio do saber-fazer humano.
. O segundo momento, para o qual Marx reserva o termo alienação, seria aquele em que o homem, principalmente no capitalismo, após transferir suas potencialidades para os seus produtos, deixa de identificá -los como obra sua. Os produtos "não pertencem" mais a quem os produziu . Com isso, são "estranhos" a quem os produziu, seja no plano econômico, psicológico, seja no social. Na sociedade atual, o processo de alienação atinge múltiplos campos da vida humana, impregnando as relações das pessoas com o trabalho, o consumo, o lazer, seus semelhantes e consigo mesmas. (ib., p. 28)

Podemos perceber que, certamente, a alienação é decisiva no processo de massificação. Entretanto, como a própria massificação, a alienação é gerada e alimentada por um outro
mecanismo: a ideologia.
Aranha & Martins (apud Chauí), fazem a seguinte observação:

A ideologia é um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações (idéias e valores) e de normas ou regras (de conduta) que indicam e prescrevem aos membros da sociedade o que devem pensar e como devem pensar, o que devem valorizar e como devem valorizar, o que devem sentir e como devem sentir, o que devem fazer e como devem fazer. Ela é, portanto, um corpo explicativo (representações) e prática (normas, regras, preceitos) de caráter prescritivo, normativo, regulador, cuja função é dar aos membros de uma sociedade dividida em classes uma explicação racional para as diferenças sociais, políticas e culturais, sem jamais atribuir tais diferenças à divisão da sociedade em classes, a partir das divisões na esfera da produção. Pelo contrário, a função da ideologia é a de apagar as diferenças como de classes e de fornecer aos membros da sociedade o sentimento da identidade social, encontrando certos referenciais identificadores de todos e para todos, como, por exemplo, a Humanidade, a Liberdade, a Igualdade, a Nação, ou o Estado. Fundamentalmente, a ideologia é um corpo sistemático de representação de normas que nos "ensinam" a conhecer e a agir. (1988, p. 70-71)

Sobre a mesma questão, Cotrim, comentando Marilena Chauí, observa o seguinte:

... a noção de ideologia apresenta os seguintes traços gerais:
. anterioridade ? a ideologia funciona como um conjunto de idéias, normas e valores destinados a fixar e prescrever, de antemão, os modos de pensar, sentir e agir das pessoas. Em razão de sua anterioridade, a ideologia predetermina o pensamento e a ação, desprezando a história e a prática na qual cada pessoa se insere, vive e produz;
. generalização ? a ideologia tem como finalidade produzir um consenso coletivo, um senso comum (aceitação geral) em torno de certas teses e valores. Com isso, generaliza para toda a sociedade aquilo que corresponde aos interesses específicos dos grupos ou classes dominantes. O "bem" de alguns é difundido como se fosse o "bem comum".
Além disso, a generalização visa ocultar a origem dos interesses sociais específicos que nascem da divisão da sociedade em classes;
. lacuna ? a ideologia desenvolve-se sobre uma lógica construída na base de lacunas, omissões, de silêncios e de saltos. Uma lógica montada para ocultar em vez de revelar, falsear em vez de esclarecer, esconder em vez de descobrir. A eficiência de uma ideologia depende de sua capacidade para ocultar sua origem, sua lacuna e sua
finalidade. Suas "verdades" devem parecer naturais, plenamente justificadas, válidas para todos os homens e para todo o sempre. (ib., p. 46-47)

Dessa forma, podemos concluir que a massificação não ocorre como se fosse pelo acaso da própria história. Ela está totalmente situada num contexto largamente alienado e ideologizado. O que ocorre é que, de acordo com os interesses do capitalismo, quanto mais pessoas atrofiadas intelectualmente, mais sua dinâmica se desenvolverá. Pessoas alienadas não criticam ou questionam, mas sempre se deixam levar pela onda do momento.
No que tange a própria filosofia, Adorno, Horkheimer e Baudrillard foram bastante críticos a todos esses aspectos. Alguns dos principais tópicos de suas reflexões sobre essa dinâmica social ideologizada, alienada e profundamente massificada serão tratadas a seguir.

2 - O FENÔMENO DA MASSIFICAÇÃO SEGUNDO ADORNO E HORKHEIMER

2.1 - A Escola Frankfurt e a iminência do pensamento de Adorno e Horkheimer na análise da sociedade contemporânea.
Escola de Frankfurt é o nome dado ao grupo de pensadores alemães do Instituto de Pesquisas Sociais de Frankfurt, surgido na década de 1920. Dentre seus principais representantes, podemos destacar Walter Benjamin, Herbert Marcuse, Jurgem Habermas, Theodor Adorno e Max Horkheimer. De forma particular, o objetivo é o de deter-se principalmente no pensamento desenvolvido por esses dois últimos filósofos.
Certamente há grandes diferenças entre esses autores na forma de pensamento. Entretanto, pode ser identificado um ponto comum: a preocupação de estudar os mais diversos aspectos da vida social, compondo uma teoria crítica da sociedade como um todo.
Partindo da teoria marxista, os estudos foram concentrados na análise da sociedade de massa. Tal definição procura caracterizar a sociedade contemporânea, na qual o avanço tecnológico é apropriado e colocado a serviço da lógica capitalista, pautando-se no consumo e na diversão como formas de garantir a diluição dos problemas sociais.
Assim, de acordo com Horkheimer e Adorno, o iluminismo, que procurava a emancipação dos indivíduos e o progresso da sociedade, ocasionou o arrefecimento na dinâmica de dominação social, agora pautada no desenvolvimento tecnológico-industrial. Para Horkheimer, o problema estava na razão controladora e instrumental. A propósito, para os dois pensadores, o iluminismo estimulou o surgimento dessa dinâmica. Além disso tudo, Horkheimer e Adorno denunciam o desencantamento do mundo, a deturpação das consciências individuais e a assimilação dos indivíduos ao sistema social dominante. Em outras palavras, denunciam a morte da razão crítica.
Como é próprio do pensamento contemporâneo, os filósofos da Escola de Frankfurt deixavam transparecer um pessimismo em relação à possibilidade de transformação. Isso se pauta principalmente na ausência de consciência revolucionária, gerada pela alienação promovida pela indústria cultural. A propósito, o conceito de indústria cultural, bastante difundido por Adorno e Horkheimer, designa a indústria da diversão de massa, veiculada pela mídia em geral. Através da indústria cultural e da diversão se obteria a homogeneização dos comportamentos e a massificação das pessoas.
Vejamos como Marilena Chauí descreve essa questão:

... a Escola de Frankfurt, elaborou uma concepção conhecida como Teoria Crítica, na qual distingue duas formas da razão: a razão instrumental e a razão crítica. A razão instrumental é a razão técnico-científica, que faz das ciências e das técnicas não um meio de liberação dos seres humanos, mas um meio de intimidação, medo, terror e desespero. Ao contrário, a razão crítica é aquela que analisa e interpreta os limites e os perigos do pensamento instrumental e afirma que as mudanças sociais, políticas e culturais só se realizarão verdadeiramente se tiverem como finalidade a emancipação do gênero humano e não as idéias de controle e domínio técnico-científico sobre a Natureza, a sociedade e a cultura. (ib, p.61)

Além disso tudo, como ainda afirma Chauí,

Ao mesmo tempo, a Filosofia teve que reabrir as discussões éticas e morais: O homem é realmente livre ou é inteiramente condicionado pela sua situação psíquica e histórica? Se for inteiramente condicionado, então a História e a cultura são causalidades necessárias como a Natureza? Ou seria mais correto indagar: Como os seres humanos conquistam a liberdade em meio a todos os condicionamentos psíquicos, históricos, econômicos, culturais em que vivem? (ib, p. 64)

São questões como essas que permeiam a discussão em torno dos problemas contemporâneos no que tange à diluição das consciências e à massificação dos comportamentos. A própria filosofia contemporânea, em grande parte, acaba centralizando suas reflexões justamente nas questões elencadas. Vejamos mais detalhadamente como se desenvolveu o pensamento de Adorno e Horkheimer sobre essa problemática.

2.2 - Reflexões e considerações de Adorno e Horkheimer sobre o fenômeno da homogeneização e massificação dos comportamentos.
Como elemento inicial, acompanhemos a seguinte reflexão desenvolvida por Max
Horkheimer.

Parece que enquanto o conhecimento técnico expande o horizonte da atividade e do pensamento humano, a autonomia do homem enquanto indivíduo, a sua capacidade de opor resistência ao crescente mecanismo de manipulação de massas, o seu poder de imaginação e o seu juízo independente sofreram uma redução. O avanço dos recursos técnicos de informação se acompanha de um processo de desumanização. (id., 1976, p. 6)

Não há dúvidas de que uma das principais características de nosso tempo é justamente a realidade da tecnologia extremamente avançada. Em contrapartida, o desenvolvimento do raciocínio não acompanhou essa dinâmica. Antes, se os recursos técnicos aumentaram, a capacidade reflexiva diminuiu drasticamente. Situada num contexto de profundas transformações e crescente manipulação das consciências, o conhecimento foi substituído pelas informações quantitativas e ideologizadas. Entretanto, a compreensão desse fenômeno exige uma reflexão mais aprofundada.
Na visão de Horkheimer e Adorno, a sociedade atual é fruto de uma dinâmica pautada numa tentativa fracassada de livrar os homens do medo e de fazer deles senhores de si mesmo. Era o que pretendia o Iluminismo. Como conseqüência, valores antes tidos como fundamentais, foram relegados a segundo plano ou violentamente substituídos. Surgiu a lógica do mercado e as relações humanas, como conseqüência, também passaram a ser pautadas de forma quantitativa. Em outras palavras, "o mercado não questiona sobre o seu nascimento, mas o preço dessa vantagem, pago por quem fez a troca, foi o de ser obrigado a permitir que as suas possibilidades de nascença fossem modeladas pela produção das mercadorias que nele podem ser comprados."
(ADORNO; HORKHEIMER, 1980, p. 96)
Dessa forma, a dinâmica social é pautada numa total inversão daquilo que anteriormente era tido como um valor necessário. O coletivo não mais se insere na busca de realização de objetivos comuns. Agora, a "unidade do coletivo manipulado consiste na negação de qualquer indivíduo, zomba-se de toda espécie de sociedade que pudesse querer fazer do indivíduo um indivíduo." (Id., ib., p. 96)
Elucidando tal questão, acompanhemos a reflexão abaixo transcrita, retirada da mesma obra.

A dominação não é paga somente com a alienação do homem com respeito aos objetos dominados: com a reificação do espírito, as próprias relações entre os homens foram enfeitiçadas, bem como as de cada um dos indivíduos consigo mesmo. Ele se atrofia até virar o ponto nodal das relações e dos modos de funcionamento deles esperados concretamente. O animismo animou o real, o industrialismo reificou as almas. Pelo aparato econômico, as mercadorias são dotadas automaticamente, antes mesmo da planificação total, de valores que decidem sobre o comportamento do homem. Desde o momento em que, com o fim da troca livre, as mercadorias perdem suas qualidades econômicas e até mesmo seu caráter de fetiche, este último se propaga como uma cãibra sobre a vida da sociedade, em todos os seus aspectos. Por meio das inúmeras agências de produção e de cultura de massa, os modos de comportamento sujeitos a normas são inculcados no indivíduo como os únicos naturais, decentes e racionais. Ele só se determina ainda como coisa, como elemento estatístico, como sucesso ou insucesso. Sua medida é a autoconservação, a adaptação à objetividade bem ou mal sucedida das suas funções, e o modelo imposto para esta adaptação. (Id., ib., 106 ? 107)

Assim, o pensamento de Adorno e Horkheimer convergem para uma reflexão caracterizada por uma profunda crítica aos próprios alicerces da sociedade contemporânea.
Certamente a fonte de inspiração marxista, da qual ambos beberam, fez com que a dinâmica de uma sociedade em constante conflito estivesse no centro das discussões. Entretanto, não era mais
suficiente analisar a sociedade somente no que consistia em sua estratificação. A partir de agora, seria fundamental analisar essa mesma sociedade sob outros ângulos, como as relações existentes entre os campos da economia, da psicologia, da história e da antropologia.
Podemos perceber que a complexidade se tornou elemento constitutivo da sociedade atual. Entretanto, tal complexidade não significa uma dinâmica pautada na diversidade quantitativa e qualitativa das produções culturais e humanas. Hoje,

... a regressão das massas consiste na incapacidade de ouvir o que nunca foi ouvido, de palpar com as próprias mãos o que nunca foi tocado, uma nova forma de ofuscamento que supera qualquer ofuscamento místico vencido. Através da mediação da sociedade total, que amarra todas as relações e impulsos, os homens são convertidos de novo justamente naquilo contra o que se voltara a lei do desenvolvimento da sociedade, o princípio de si-mesmo; em simples exemplares da espécie humana, semelhantes uns aos outros, em virtude do isolamento na coletividade dirigido pela coação. (Id.,ib., p. 112)

Assim, numa dinâmica de comportamentos homogeneizados e massificados, não há mais espaço para a autêntica capacidade criativa. No que tange aos meios midiáticos, sob a dicotomia conceitual da novidade, não há mais nem sequer o objetivo de esconder as contradições. Se destacar não significa mais ser um num determinado contexto, mas, de forma absurda, ser simplesmente mais um no meio de um todo em constante massificação. Obviamente, não há nenhuma vantagem para a mentalidade capitalista em desenvolver e cultivar a verdadeira individualidade. Afinal, quanto mais a massa se julgar agente de sua própria história, mais se perpetuará sua alienação.
E como é cultivada essa dinâmica social? Certamente é necessário um mecanismo de coerção eficiente, democrático e que se apresente como imprescindível para os tempos modernos. Função essa que os meios midiáticos desempenham eficientemente.

Sob o poder do monopólio, toda cultura de massas é idêntica, e seu esqueleto, a ossada conceitual fabricada por aquele, começa a se delinear. Os dirigentes não estão mais sequer muito interessados em encobri-lo, seu poder se fortalece quanto mais brutalmente ele se confessa de público. O cinema e o rádio não precisam mais se apresentar como arte. A verdade de que não passam de um negócio, eles a utilizam como uma ideologia destinada a legitimar o lixo que propositalmente produzem. Eles se definem a si mesmos como indústrias, e as cifras publicadas dos rendimentos de seus diretores gerais suprimem toda dúvida quanto à necessidade social de seus produtos. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 100)

Dessa forma, segundo Adorno e Horkheimer, "o fato de que milhões de pessoas participam dessa indústria imporia métodos de reprodução que, por sua vez, tornam inevitável a disseminação de bens padronizados para a satisfação de necessidades iguais" (Ib, p. 100). E, "por enquanto, a técnica da indústria cultural levou apenas à padronização e à produção em série, sacrificando o que fazia a diferença entre a lógica da obra e a do sistema social" (Ib p. 100). Os referidos autores mencionavam a "democracia do rádio", que transformava "a todos igualmente em ouvintes, para entregá-los autoritariamente aos programas, iguais uns aos outros, das diferentes estações." (Ib., p.100) O que falar dos meios de comunicação modernos? Além do rádio, a televisão, as revistas, os jornais e a internet não repetem a mesma dinâmica? Ainda que a internet não seja de acesso a todos, os que tem acesso não fazem parte do contexto da mesmice que permeia, com raras exceções, a própria essência dos mesmos? E obviamente, todos devidamente patrocinados pelo capitalismo, geram práticas consumistas e o atrofiamento intelectual. Afinal, se o lucro é o objetivo máximo e o retorno tem correspondido às expectativas, para que mudar? Danem-se o ser humano e a própria existência!
Na indústria cultural, sociedade de massa não passa de um simples aglomerado de seres humanos não-pensantes, mas que se deixam levar pela onda do momento e se gabam de pertencer aos tempos modernos. Como afirmam Adorno e Horkheimer, não passam de um "material estatístico distribuídos nos mapas dos institutos de pesquisas. (Ib., 102).

O mundo inteiro é forçado a passar pelo filtro da indústria cultural (...) Atualmente, a atrofia da imaginação e da espontaneidade do consumidor cultural não precisa ser reduzida a mecanismos psicológicos. Os próprios produtos ? e entre eles em primeiro lugar o mais característico, o filme sonoro ? paralisam essa capacidade em virtude de sua própria constituição objetiva. São feitos de tal forma que sua apresentação adequada exige, é verdade, presteza, dom de observação, conhecimentos específicos, mas também de tal sorte que proíbem a atividade intelectual do espectador, se ele não quiser perder os fatos que desfilam velozmente diante de seus olhos. (...) A violência da sociedade industrial instalou-se nos homens de uma vez por todas. Os produtos da indústria cultural podem ter a certeza de que até mesmo os distraídos vão consumi-los abertamente. Cada qual é um modelo da gigantesca maquinaria econômica que, desde o início, não dá folga a ninguém, tanto no trabalho quanto no descanso, que tanto se assemelha ao trabalho (...) Inevitavelmente, cada manifestação da indústria cultural reproduz as pessoas tais como as modelou a indústria em seu todo. E todos os seus agentes, do produtor às associações femininas, velam para que o processo da reprodução simples do espírito não leve à reprodução ampliada. (Id., ib, p. 104-105)

Acompanhemos também o fragmento abaixo. O mesmo faz parte da obra citada acima e nos dá uma boa visão de tudo o que foi tratado até o momento.

Sob o monopólio privado da cultura "a tirania deixa o corpo livre e vai direto à alma. O mestre não diz mais: você pensará como eu ou morrerá. Ele diz: você é livre de não pensar como eu: sua vida, seus bens, tudo você há de conservar, mas de hoje em diante você será um estrangeiro entre nós". Quem não se conforma é punido com uma impotência econômica que se prolonga na impotência espiritual do individualista. Excluído da atividade industrial, ele terá sua insuficiência facilmente comprovada (...). Hoje as massas sucumbem mais facilmente ao mito do sucesso do que os bem sucedidos. (...) Ao ratificar com refinada astúcia a demanda de porcarias, ele inaugura a harmonia total. (Id., ib., p. 110)

Mas as críticas não param por aí. Analisando todo o cenário social, Adorno e Horkheimer identificam a indústria cultural como a própria indústria da diversão, afirmando que o controle sobre os consumidores é "mediado pela diversão, e não por um mero decreto que esta acaba por se destruir, mas pela hostilidade inerente ao princípio da diversão por tudo aquilo que seja mais do que ela própria." (Ib., p. 112)
Afirmam ainda que, a verdade em tudo isso, é que o poder da indústria cultural provém da identificação com a necessidade produzida, não da simples oposição a ela, mesmo que se tratasse de uma oposição entre a onipotência e impotência. A diversão, portanto, é o prolongamento do trabalho sob o capitalismo tardio.
A exemplo das reflexões desenvolvidas por Adorno e Horkheimer, Jean Baudrillard também teve como ponto central de seu pensamento a realidade da massificação social. É o que veremos a seguir.

3 - A MASSIFICAÇÃO SEGUNDO JEAN BAUDRILLARD

3.1 ? A espetacularização da realidade em Jean Baudrillard.
Os estudos efetuados por Jean Baudrillard situam-se no campo da compreensão da sociedade de massa, no qual também analisa aspectos como a indústria cultural e o fenômeno do consumismo. Entretanto, se em Adorno e Horkheimer já era necessário levar em consideração os aspectos econômicos, antropológicos e históricos para a compreensão da sociedade, e não somente a sua divisão em classes, em Baudrillard há uma radicalização desse conceito. O fato da sociedade atual não poder mais ser compreendida a partir de sua estruturação em classes sociais se dá porque essas mesmas classes sociais perderam sua identificação como tal. Assim, no processo de massificação ocorre uma neutralização das perspectivas de transformação social e os indivíduos aderem ao fenômeno da banalização da vida cotidiana.
Tudo isso é reforçado pela hiper-realidade, que se refere à capacidade da mídia de criar uma realidade caracterizada pela virtualidade, substituindo, para os indivíduos, a própria realidade. Para ele, a sociedade contemporânea é a sociedade do espetáculo, da vida virtual veiculada pelos meios de comunicação.
Baudrillard desenvolveu uma série de teorias sobre os impactos dos meios de comunicação na sociedade contemporânea. Criticava a sociedade de consumo e a mídia em geral, além de considerar as massas como cúmplices dessa situação.
Outro fator importante da filosofia de Jean Baudrillard é o conceito de que os objetos não possuem somente um valor de troca, mas também um valor de signo. A propósito, esse fator era determinante nas práticas de consumo. Tanto que, o relativismo dos signos resultou em uma espécie de catástrofe simbólica. Além disso tudo, o sistema tecnológico desenvolvido e a quantidade de informações influenciam decisivamente na definição dos condutas e comportamentos massificados.

3.2 ? O travestimento dos signos e a hiper-realidade.
Os filósofos da Escola de Frankfurt, como Adorno e Horkheimer, e os chamados filósofos pós-modernos, no qual é enquadrado Jean Baudrillard, tem como ponto comum a análise crítica da sociedade como um todo. Ambos partem da constatação de que a sociedade contemporânea, em sua constituição, se encontra mergulhada no caos. O advento da tecnologia desenfreada e a conseqüente transformação na cadeia de relações trouxeram a tona novas questões no que tange à forma do ser humano lidar consigo mesmo e com o meio em que vive. No que concerne ao conhecimento produzido, o que antes era mais concentrado, com o surgimento e disseminação dos meios de comunicação de massa, passou a se tornar cada vez mais fragmentado. A propósito, o conhecimento em si foi sendo gradativamente substituído pelo grande número de informações que circulam a todo momento pelos meios midiáticos, que a propósito não passam de mercadorias. Informações essas largamente contraditórias, interesseiras e permeadas de banalidades. Como bem frisa Connor (1996, p. 48), desenvolveu-se a sociedade do espetáculo, onde a forma mais latente de mercadoria era antes a imagem do que o próprio produto em si. E certamente, nesse jogo de imagens, o ser humano foi perdendo gradativamente sua identidade como tal, não mais passando a se reconhecer como produtor daquilo tudo. Agora, são as imagens que ele virtualmente cria que produzem seu dia-a-dia e seu próprio jeito de ser. Ou seja, o processo de alienação se consumou de tal forma que sua caracterização no antigo conceito marxista de divisão de classes não mais abrange a totalidade da questão. Na sua estrutura principal, as antigas classes sociais perderam sua identificação como tal e passaram a fazer parte do mesmo bojo no que tange aos aspectos simbólicos. Estabeleceu-se, portanto, a mercantilização da própria cultura e dos aspectos simbólicos constitutivos da humanidade.
Acompanhemos a reflexão desenvolvida por Connor, inspirado em Baudrillard, sobre essa problemática.

Baudrillard afirma que a explosão e aceleração de mercadorias culturais, ou, mais geralmente, de imagens sociais ou "signos" que funcionam como mercadorias, produz uma "economia política do signo", numa passagem de "abstração da troca de produtos materiais sob a lei de equivalência geral para operacionalização de todas as trocas sob a lei do código" (ib., p. 48)

A propósito, ainda segundo Baudrillard, "é o reino econômico que é usado pelo sistema capitalista para nos desviar do domínio sem remorsos no nível do simbólico e para deslocá-lo." (Id., ib., p. 49)
Nisso tudo, os meios de comunicação exercem uma função que pode e deve ser considerada fundamental. Na dinâmica do processo de massificação, é preciso um mecanismo eficiente que atue coercitivamente de forma atraente, mas que seja incisivo. Para que isso aconteça, é preciso travesti-lo da melhor forma, elucidando sua importância e essencialidade para o atual estágio de um suposto alto grau de desenvolvimento humano e tecnológico. Na verdade, isso não passa de um joguete de marketing. Afinal, as informações em si não passam de mercadorias, cujo valor é determinado pelos interesses de quem produz, divulga e patrocina.

Baudrillard ataca a noção de que os meios de comunicação de massa possuem um potencial libertador ou democrático intrínseco que seja bloqueado ou suprimido pelos grupos dominantes ou interesses em cujas mãos se encontram (...). Baudrillard alega que não é possível simplesmente tomar a forma desses meios e mudar o seu conteúdo para qualquer bons propósitos, visto que o que há de opressor neles é precisamente o "código" que eles personificam na própria forma que têm. Esse código funciona pela negação da resposta ou da troca na comunicação de massa. Um meio de comunicação de massa fala ao seu público, diz Baudrillard, mas nunca permite que este lhe responda e, na verdade, confirma a mudez do público ao simular a sua resposta através de telefonemas, programas ao vivo, pesquisas de opinião dos espectadores e outras formas de "interação falsificada". Baudrillard declara, sem meias palavras, que esses meios "fabricam a não comunicação." (Id., ib., p. 50)

Em outra obra, afirma que "estamos num universo em que existe cada vez mais informações e cada vez menos sentido." (Baudrillard, 1991, p. 103). Portanto, o conceito de que os meios de comunicação ocupam uma posição central na sociedade contemporânea deve ser repensado. A centralidade de algo não obrigatoriamente significa que aquilo é essencialmente fundamental ou constitutivamente necessário.

Vivemos numa época, diz Baudrillard, em que já não se exige que os signos tenham algum contato verificável com o mundo que supostamente representam, e ele dá uma fácil e muito citada sinopse dos quatro estágios por meio dos quais a representação passou, na história, à condição da pura simulação. No início, o signo "é o reflexo de uma realidade básica" (isso poderia ser o estágio da linguagem referencial ou científica cujo nascimento é atribuído por Jameson à emergência reificante do conhecimento burguês). No segundo estágio, o signo "mascara e perverte uma realidade básica" (isso poderia ser o estágio ou teoria da ideologia com falsa consciência, que impede as pessoas de ver a sua verdadeira alienação ou exploração). No terceiro estágio, o signo "mascara a ausência de uma realidade básica" (é mais difícil pensar em exemplos para isso, embora Baudrillard apresente as idéias dos iconoclastas, que temiam e desprezavam imagens da divindade por acreditarem que as imagens eram testemunhas da ausência de toda divindade). No quarto estágio, o terminal, o signo "não tem relação com nenhuma realidade: ele é seu próprio simulacro puro." No regime de simulação, que é a cultura contemporânea, Baudrillard diagnostica a incessante produção de imagens sem nenhuma tentativa de fundamentá-las na realidade. Ao lado disso, como em resposta à percepção do desaparecimento do real, há uma tentativa compensatória de manufaturá-lo num "exagero do verdadeiro, da experiência vivida"; em outras palavras, o culto à experiência imediata, à realidade crua e intensa, não é a contradição ao regime do simulacro, mas o seu efeito simulado. (CONNOR, 1996, p. 52)

Ainda segundo Connor (id., p.52), a partir desse exemplo, Baudrillard generaliza, afirmando que toda a vida contemporânea foi desmontada e reproduzida num escrupuloso fac-símile. Mas a disposição de tudo isso está longe da calma satisfação ou da indiferença; em vez disso, há "uma produção golpeada pelo pânico do real e do referencial", de modo que a simulação toma a forma, não da irrealidade, como querem acreditar muitos dos seguidores de Baudrillard, mas de objetos e experiências manufaturados que tentam ser mais reais do que a própria realidade ? ou, nos termos de Baudrillard, hiper-reais.
O conceito de hiper-realidade em Jean Baudrillard, conforme Cotrim (Id.; ib., p. 214), "se refere à capacidade da mídia de criar uma realidade virtual, que substituiria, para os indivíduos, a própria realidade." Como afirma Connor (Id., ib., p. 53), "a hiper-realidade também traz consigo o colapso de todos os antagonismos reais de dicotomias de valor." É a dinâmica da sociedade contemporânea, largamente dependente e induzida pela vida virtual veiculada pelos diversos meios de comunicação de massa. A propósito, a dinâmica da sociedade de massa foi algo bastante explorada por Baudrillard. Em obras posteriores

... estendeu essa descrição à própria idéia do social, que já não se pode dizer que exista, já que é, por inteiro, o efeito simulado do desejo frenético de produzir representações das massas, de lhes conferir uma identidade, opiniões e desejos. As massas só "replicam" a isso com a inércia, com a recusa a se formar a não ser como simulação. Isso pode significar que "a nossa 'sociedade' está talvez no processo de pôr a termo o social, de enterrar o social sob uma simulação do social". Mas isso gera um segundo efeito, porque quanto mais a realidade do "social" desaparece de nossas vistas, tanto maior é a distância entre esses simulacros e a apagada indiferença das "massas", tidas tradicionalmente como personificação do social. (Id., ib., p 54)

A questão das condutas massificadas são temas que também estiveram no centro dos interesses de Adorno e Horkheimer. Em Baudrillard, o mesmo tema aparece constantemente e as críticas se tornam ainda mais incisivas.

As massas funcionam como um gigantesco buraco negro que, inexoravelmente, modula, amolda e distorce toda a energia e radiação luminosa que dele se aproxima: uma esfera implosiva, em que a curvatura dos espaços se acelera, em que todas as dimensões se recurvam sobre si mesmas e "envolvem" ao ponto da aniquilação, deixando em seu rastro apenas uma esfera de potencial engolfamento. (CONNOR apud BAUDRILLRD, 1996, p. 55)

Em outra ocasião, afirma que "o espaço da simulação confunde o real com o modelo e já não há nenhuma distância crítica e especulativa entre o real e o racional. (Id., ib., p. 55). As questões humanas e sua relação com os fenômenos da sociedade contemporânea, como a indústria cultural e o consumismo, sempre estiveram no centro das reflexões de Jean Baudrillard. Perante o processo de massificação ocorre a completa neutralização das perspectivas de transformação social. Dessa forma, os indivíduos aderem cada vez mais à banalização da vida cotidiana.
Tais reflexões são de extrema importância, pois permitem visualizar outros aspectos do processo de massificação, certamente de mais difícil percepção. Afinal, a virtualização da própria realidade acaba encerrando o ser humano num círculo vicioso. Ao julgar a realidade de acordo com suas percepções ideologizadas e alienadas, ele não é capaz de perceber sequer a possibilidade de uma realidade diferente daquela que ele julga ser a realidade.
Conseqüentemente, a massificação alcança o seu auge, pois toda e qualquer perspectiva de mudança se encontra neutralizada. A questão é que acaba sendo criada uma ilusória sensação de liberdade e de domínio sobre a própria existência. Entretanto, tal situação não passa da consumação do simulacro puro, levado a seu extremo.

CONCLUSÃO

Tanto em Adorno e Horkheimer, quanto em Baudrillard, as reflexões concernentes às influências dos meios midiáticos ocupam uma posição central. A questão chave é que, certamente pela primeira vez na história, o homem teve que lidar com algo espantoso: a rápida e avassaladora disseminação dos modernos meios de comunicação. Talvez o grande erro foi de ter centralizado demais nas possibilidades, sem dar o devido valor às conseqüências funestas de tal realidade. Não que os meios de comunicação sejam um mal em si, mas a forma com que são utilizados certamente os tornaram assim.
Além disso, é preciso levar em consideração um outro fator. Confunde-se informação com conhecimento. Ambas as coisas são bastante diferentes. Enquanto o primeiro parte de uma situação ou estado de não-criação, mas assimilação ingênua de algo criado por outros, o segundo requer reflexão e comprovação. No primeiro impera o senso comum. No outro, o senso crítico. São duas realidades aparentemente próximas, mas amplamente distintas.
Não obstante a todas as questões relativas ao que foi elencado acima, há também o problema da manipulação ideológica. A mídia, em geral, aliena e é alienada. Tal questão se desenvolve principalmente num contexto dominado por uma sociedade largamente massificada. As conseqüências disso são vistas na falta de referenciais, na banalização do raciocínio e na deterioração social.
De certa forma, os problemas sociais enfrentados na atualidade estão situados num contexto bem mais amplo. A crise é bem mais geral do que parece ser. O fenômeno da diluição da consciência crítica em banalidades da massificação social é, certamente, o principal vilão do conhecimento. E, seguindo lógica a capitalista, por mais absurdo que isso seja, enquanto o lucro estiver correspondendo às expectativas, a dinâmica social não será mudada. Para isso, há um grande aliado e uma poderosa ferramenta: o poder midiático. Enquanto esse conseguir impor e justificar a ideologia dominante, não há nenhuma esperança concreta de mudança.
Nesse ponto, parece que o conceito marxista de ideologia pode ser aplicado com extremo proveito. Mais uma vez o ser humano torna-se escravo de sua criação e as perspectivas de mudanças são cada vez mais silenciadas pela dinâmica da banalização do cotidiano.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 1986.
ARDUINI, Juvenal. Antropologia: Ousar para reinventar a humanidade. São Paulo: Paulus, 2002.
BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e Simulação. Lisboa: Relógio D'Água, 1991.
CONNOR, Steven. Cultura Pós-Moderna. Introdução às teorias do contemporâneo. 3. ed. São Paulo: Paulus, 1996.
COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia. História e grandes temas. São Paulo: Saraiva, 2006.
HORKHEIMER, Max. Eclipse da razão. Rio de Janeiro: Labor do Brasil, 1976.
__________________; ADORNO, Theodor. Conceito de iluminismo. São Paulo: Abril Cultural, 1980. (Col. Os Pensadores)
ROVIGHI, Sofia Vanni. História da Filosofia Contemporânea: do século XIX à neoescolástica.3. ed. São Paulo: Loyola, 2004.
 
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Sobre este autor(a)
Sou Especialista em Educação, com concentração em Filosofia e Ensino da Filosofia. Além disso, possuo licenciatura na mesma área, ambas pelo Centro Universitário Claretiano. Possuo também graduação em Ciências da Religião, pelas Faculdades Integradas Claretianas. Atualmente leciono Filosofia e Socio...
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