PSIQUISMO FETAL: CONSIDERAÇÕES SOBRE A INFLUÊNCIA DAS EMOÇÕES DA MÃE NO DESENVOLVIMENTO DO FETO
 
PSIQUISMO FETAL: CONSIDERAÇÕES SOBRE A INFLUÊNCIA DAS EMOÇÕES DA MÃE NO DESENVOLVIMENTO DO FETO
 


Resumo

Este artigo propõe uma reflexão acerca dos estudos da vida intra-uterina, assunto recentemente explorado por psicanalistas, psicólogos e profissionais de diversas áreas. Trata-se de uma busca do conhecimento do psiquismo fetal, considerando, através de pesquisas realizadas que, já desde o ventre materno, o feto capta emoções que a mãe esteja vivenciando em seu dia a dia, tem uma vida emocional, sugerindo uma possível continuidade das experiências vividas no período pré-natal, que ressurgiriam inconscientemente após o nascimento. A Psicologia pré-natal surgiu aproximadamente há trinta anos e, com o advento das novas tecnologias como o ultra-som, pode-se perceber o útero como ambiente natural e relacional do feto. Durante a gestação, faz-se importante o estabelecimento dos vínculos afetivos mãe-feto. 

Palavras-chave: Psicologia Pré-natal. Psiquismo Fetal. Vida intra-uterina. Vínculo mãe-feto.

O presente artigo tem objetivo de aprofundar reflexões relacionadas ao Psiquismo Fetal, tema apenas muito recentemente abraçado. Trata-se do estudo do comportamento e do desenvolvimento, tanto evolutivo como psico-afetivo-emocional do indivíduo, no período anterior ao seu nascimento. Pode-se destacar, nesse sentido, pesquisas realizadas pela psicanalista italiana Alessandra Piontelli (1992, p.15) em que declara: "Meus achados sugerem a existência de notável continuidade em aspectos da vida pré e pós-natal." Pesquisas vêm sendo feitas em várias partes do mundo  sobretudo na América do Norte e no continente europeu  nas áreas, tanto da biologia e da psicologia do desenvolvimento, quanto da psicanálise.

"[...] O conhecimento da psicologia pré-natal é importante tanto para a psicologia evolutiva como para a psicanálise, cujo objeto primordial de estudo é o inconsciente. Com efeito, se considerarmos que todos os fatos ocorridos com o ser antes de ele nascer a) recebem registro mnêmico, b) que este registro fica guardado apenas no plano do inconsciente, c) que todas as vivências pelas quais passa o ser no período pré-natal irão fazer parte de sua bagagem inconsciente, exercendo influência tanto sobre a sua personalidade pós-natal como sobre a sua conduta e o seu comportamento, e d) que o estudo do inconsciente é o objeto por excelência da psicanálise, conclui-se que o estudo da psicologia pré-natal é de importância fundamental para ela [...]" (WILHEIM, 2002, pg. 18).

Com o advento das tecnologias como o ultra-som, o aprimoramento do microscópio eletrônico, as técnicas de fecundação in vitro, o desenvolvimento da fotografia intra-uterina e importantes contribuições e descobertas feitas no campo da psiconeuro-endocrino-imunologia, bem como a ampliação do entendimento da formação e funcionamento do psiquismo humano, uma luz tem sido lançada sobre a vida fetal, permitindo ampliar o conhecimento acerca do comportamento e desenvolvimento do feto.

Sendo a Psicologia da vida intra-uterina um estudo ainda pouco explorado e conhecido, busca-se alcançar, através de pesquisa bibliográfica, maiores esclarecimentos sobre o assunto. Não se trata, aqui, de chegar a certezas e respostas definitivas, mas a uma leitura interessante que abra novas perspectivas neste campo ainda complexo, que pode nos levar a pensar o feto sob um novo olhar.

Numerosos e variados estudos empíricos revolucionaram a visão tradicional e largamente difundida do meio ambiente intra-uterino como sendo um lugar quente, escuro e silencioso, isolado do mundo externo e protegido das interferências de estimulações, associando-o a idéia decorrente de constância, homogeneidade, conforto e segurança. Sabemos agora que o mundo intra-uterino, longe de ser um universo estático, é sujeito a muitas mudanças e pode apresentar inúmeras variações individuais, observáveis em cada gravidez em si (PIONTELLI, 1992).

Segundo a psicanalista brasileira Joanna Wilheim (2002, p.20), o feto "[...] tem uma vida afetiva e emocional estreitamente vinculada à sua experiência relacional com a sua mãe, captando os seus estados emocionais e a sua disposição afetiva com ele [...]". Constatamos experiências hoje e novas informações, antes impensáveis, a respeito da existência da vida intra-uterina, em função, principalmente, de o útero ser um lugar silencioso: "[...] o útero, por sua vez, era considerado um lugar absolutamente silencioso, recluso e sem movimentos [...]", escreve Joanna Wilheim (2002, p.20). Lugar seguro, sendo o feto entendido, por sua vez, como vivendo em um mundo impenetrável, totalmente neutralizado e indiferente ao ambiente fora do útero, estando protegido e em um estado de completa satisfação.

A partir de estudos e do uso de novas tecnologias, sabe-se que o útero não é o lugar idealizado de trinta anos atrás. O estresse materno no período gestacional, substâncias neuro-hormonais da mãe e alterações no seu estado emocional, pode atravessar a placenta e atingir o feto. Os ruídos intestinais da mãe, os batimentos cardíacos, todos esses conjuntos de sons soam fortemente ao feto juntamente ao fluxo de sangue dos grandes vasos que abastecem o útero e a placenta. Sabe-se também que, sendo o útero o ambiente natural do feto, ele reage aos estímulos externos devido às transformações do sistema nervoso da mãe que libera substâncias químicas na corrente sanguínea e atingem seu "ambiente". Então, o feto é tomado por um estado de alarme, que pode aumentar ou diminuir seus batimentos cardíacos. Ele busca "mecanismos de defesa" para "alívio das tensões". Para melhor compreendermos esse movimento, segue-se:

"[...] Na busca do alívio das tensões, desenvolvem-se mecanismos psíquicos de defesa e que são expressos através de movimentações hiperativas do corpo. São reações parecidas com as do recém-nascido em sofrimento que se contorce, grita, chora, esperneia, para livrar-se do que lhe causa desespero. Ou, ao contrário, se a situação estressante torna-se crônica, o feto "substitui" o mecanismo de defesa que não percebe mais como aliviador de tensão, e ocorre a diminuição das atividades motoras ou hipoatividade, que sugere a possibilidade de depressão e de decréscimo de energia vital. Enquanto durar o distúrbio emocional da gestante, a atividade fetal continuará a um nível elevado [...]" (RICO, S/D).

Estas experiências vividas pelo feto em seu ambiente, geram sentimentos de ansiedade, angústia, medo e situações de estresse, em consonância com o que a mãe esteja enfrentando, e isto, pode colocá-lo em sofrimento. "Tudo o que acontece durante esse período é esquecido ao nascer, porém fica registrado no inconsciente" (RICO, S/D).

Já sabemos que o feto tem uma vida emocional: é um ser que sente, tem emoções, experimenta prazer e desprazer, angústia e bem-estar, nos primórdios da vida intra-uterina, no fim do segundo trimestre de gestação (VERNY, 1981). Em suas observações ultra-sonográficas, Alessandra Piontelli (1992) descreve:

"[...] O que chamava minha atenção nessa ocasião (durante um ano observei semanalmente várias gestações) era a riqueza e a complexidade dos movimentos que se podiam observar desde os estágios mais iniciais. Muito antes das mães poderem perceber qualquer desses movimentos, os seus bebês eram capazes de sugar, espreguiçar, coçar, bocejar, esfregar as mãos e os pés. Também me surpreendeu, nesses estágios iniciais, a liberdade de movimentos que cada feto era capaz de desfrutar no líquido amniótico. Com o pleno impacto da força da gravidade no nascimento, essa liberdade deixa de existir, pelo menos por algum tempo, e, nesse sentido, um bebê torna-se um ser muito mais impotente do que era antes [...]" (PIONTELLI, 1992, pg. 23).

Muito antes de nascer, o feto pode perceber luz: "[...] alguma luz pode provavelmente atravessar as paredes abdominais da mãe e, portanto o meio ambiente intra-uterino não é completamente escuro [...]" (PIONTELLI, 1992, pg. 48). Pode perceber o som e é capaz de engolir, ter paladar, escolher posições, registrar sensações e mensagens sensoriais, reconhecer a voz da mãe, brincar com a placenta e com o cordão umbilical, captar os estados emocionais da mãe e ter inteligência:

"[...] os investigadores que acompanham o desenvolvimento das capacidades do feto concordam em dizer que o bebê já antes de nascer é um ser inteligente, sensível, apresentando traços de personalidade próprios e bem definidos [...]" (WILHEIM, 2002, pg. 20).

Para exemplificarmos uma possível "inteligência" do feto, lançaremos mão de um relato de Piontelli (1992): uma menininha, observada através de ultra-som desde o início da gravidez, se mostrava um feto muito ativo, movimentava-se bastante, brincava com a placenta e o cordão umbilical. Uma de suas brincadeiras era manipular com os dedinhos a placenta num movimento de querer descolá-la. Esta manipulação acabou provocando um forte sangramento. A mãe correu o risco de perder o bebê e foi colocada em repouso absoluto até o fim da gravidez. A menina passou a ficar absolutamente imóvel, enfiada em um canto do útero até o fim da gravidez. Ela havia aprendido que a sua movimentação havia posto em risco a sua vida.

Também Piontelli (1992) descobriu o que muitos pais sempre pensaram: que cada feto, assim como cada recém-nascido, é um ser altamente individualizado, pois:

"[...] À medida que minha experiência se desenvolvia, ficava cada vez mais impactada pela individualidade dos movimentos de cada feto, pelas suas posturas e reações preferidas. Não podia mais considerar os fetos observados por mim como não sendo pessoas, uma vez que cada um deles parecia já como sendo um indivíduo com personalidade própria, preferências e reações. Cada feto também parecia relacionar-se de formas diferentes com o seu próprio ambiente e os vários componentes que faziam parte dele [...]" (PIONTELLI, 1992, pg. 23).

Sobre esses componentes, refere-se aos principais objetos de relação do feto: a placenta e o cordão umbilical:

"[...] o cordão umbilical aumenta de um modo lento e constante de comprimento, provavelmente em função de forças de tração exercidas pelo feto e, apresenta diferenças notáveis e consistentes em tamanho [...]" (PIONTELLI, 1992, pg. 49).

A placenta também se apresenta diferente em tamanho e nas variedades das diferenças individuais de cada feto. Vivendo dentro de um saco aminiótico que o acolchoa, "[...] o feto engole diariamente grandes quantidades de líquido aminiótico e, responde ao líquido aminiótico aromatizado engolindo maiores quantidades, havendo uma diminuição nos movimentos de engolir, após ter sido injetada uma substância amarga [...]" (PIONTELLI, 1992, pg. 49).

É nesse ambiente flutuante e sem peso que o feto tem amplo espaço para se movimentar, com suas articulações flexíveis, facilidade de movimentar a cabeça, os braços e o tronco (WILHEIM, 2002). Esta movimentação se mantém, sem muita alteração, por todo o tempo da gestação. É uma movimentação graciosa e espontânea: "[...] Articulações dos braços e pernas, além de chutar e virar os pés. É capaz de movimentar os braços juntamente com as pernas e, às vezes, pode-se ver o feto com as mãozinhas levantadas [...]" (WILHEIM, 2002 pg. 32). Mas, a partir do oitavo mês, o ambiente torna-se mais apertado e quase todo o espaço disponível está por ele ocupado. É aí que se iniciam os movimentos preparatórios necessários para o seu nascimento, explica Joanna Wilheim (2002).

Durante todo processo gestacional perdura uma comunicação entre mãe e feto, com início no desejo da mãe em gerar uma criança, na qual a comunicação se desdobra nas mais variadas manifestações, dentre elas a "intuição" sobre o sexo do bebê.

Destaca-se a comunicação mãe-feto durante todo o período gestacional, por meio da via fisiológica, através da qual as emoções da mãe são veiculadas ao bebê, além do comportamento e da afetividade (WILHEIM, 2002). Mesmo anteriormente (quando pensado o útero como lugar indiferente), já se sabia que quaisquer substâncias tóxicas ingeridas pela mãe eram passadas ao feto, pois a placenta não filtra essas substâncias e não é uma barreira protetora como se pensava, por onde passavam apenas os nutrientes. Assim, confirma-se que o fumo, o álcool e as drogas atravessam a placenta e afetam o feto, pois:

"[...] num organismo ainda em formação, a nicotina e outras drogas, equivalem a uma dolorosa chicotada. A criança sofre uma perda de oxigênio sanguíneo, e outras alterações metabólicas que são penosas para ela [...]" (LUZES e UPLINGER, S/D).

Em função disto, as perturbações emocionais da mãe provocam alterações bioquímicas provocando um aumento nas substâncias neuro-hormonais, pois, "[...] suas células nervosas passam a secretar quantidades maiores de determinadas substâncias neuro-hormonais do que aquelas que são normalmente secretadas quando ela está tranqüila [...]" (WILHEIM, 2002, pg. 58), sendo lançados em sua corrente sanguínea atingindo o feto através do cordão umbilical. Isso acontece quando a mãe se encontra em um estado de tensão, denominado estresse. Com o aumento dessas substâncias neuro-hormonais, encontra-se a conhecida adrenalina e elevação da cortisona. O feto reage como um "escudo protetor":

"[...] a elevação do nível de cortisol, que, lançado na corrente circulatória, pode afetar fisiologicamente o feto ou provocar nele uma reação do 'fechar-se' em uma espécie de 'escudo protetor' para ficar ao abrigo do efeito doloroso causado por tais substâncias [...]" (WILHEIM, 2002, pg. 59).

Para melhor compreendemos esse processo, Joanna Wilheim (2002) assim o descreve:

"[...] Outras catecolaminas menos conhecidas por pessoas leigas são a noradrenalina, a serotonina, a oxitocina, a epinefrina, a norepinefrina e a dopamina. Todas elas, uma vez lançadas na corrente sanguínea, produzem sensações psicológicas associadas ao temor e à angústia. Quando presentes na corrente sanguínea da mãe, atravessam a barreira placentária entrando na corrente sanguínea que abastece o feto por meio do cordão umbilical. O feto irá então sentir a mesma perturbação emocional sentida pela mãe: temor e angústia. Portanto, o temor e a angústia transmitidos ao feto pela mãe têm, na sua origem, um caráter eminentemente fisiológico[...]" (WILHEIM, 2002, pg. 58).

Além de o feto ser afetado fisiologicamente, existe um fator na comunicação mãe-feto que é empática, estabelecendo uma "disponibilidade afetiva".

"[...] a disponibilidade afetiva  que faz parte da via de comunicação empática  parece ser de fundamental importância para o feto. Tudo leva a crer que ele necessita de ajuda da mãe para processar as impurezas e toxinas por ela produzidas e por ela a ele passadas, das quais ele sente necessidade de se livrar mediante uma desintoxicação realizada pela sua mãe para ele [...]" (WILHEIM 2002, pg. 59).

Então, o feto necessita da ajuda da mãe para processar as sensações incômodas vividas no decorrer do dia-a-dia a partir das tristezas da mãe. Mas, se a mãe se encontra em estados de depressão, melancolia, tristeza, baixa auto-estima, ela "esquece" que está grávida e deixa de lado os cuidados com o futuro bebê, deixa de estar disponível para ele, deixando-o "sozinho". Sobre isto, Joanna Wilheim (2002, pg. 59) diz: "[...] a mãe, solicitada pela sua tristeza profunda ou entregue à sua depressão, deixa de estar afetivamente disponível para ele, deixando-o só [...]". A mãe não favorecendo tal disponibilidade afetiva, devido seu estado emocional, "[...] retira sua libido do contato com este hóspede passageiro que ela se dispôs a albergar, ela o deixa abandonado a uma situação de injusta sobrecarga e desamparo [...]" (WILHEIM, 2002, p.59). Sozinho, o feto não é capaz de lidar com esses sentimentos da mãe que o afetam e essa disponibilidade afetiva é de fundamental importância no desenvolvimento do feto-bebê-criança, estágios que exigem cuidados, proteção e muito carinho.

Segundo Wilheim (2002), cabe à mãe, durante sua gestação, conversar com seu futuro bebê, dedicar atenção, falar quando estiver acontecendo algo, explicar suas preocupações cotidianas e seus momentos de tensão. Os pais se sentem ainda sem jeito para conversar com a barriga, mas se faz necessário, pois dentro do ventre materno já se encontra um ser em formação que precisa de carinho, cuidados para que se sinta desde já amado e desejado pelos pais. A voz materna é de grande importância para o feto. Contar histórias ou cantar uma música são formas de familiarizar esse ser que, ao nascer, ao ouvir esta mesma voz, a reconhecerá, ao ouvir a mesma música e a mesma história. Assim, o bebê demonstrará tranqüilidade e se sentirá parte dessa família; principalmente, se estiver chorando, pára no exato momento em que escuta essas histórias e músicas. Os recém-nascidos preferem a voz de sua mãe a outras vozes. "Segundo estudiosos do assunto, o feto ouve a voz de sua mãe já no quarto mês de gestação, e a qualidade desta comunicação pode influenciar, no futuro, seu desejo de comunicar-se" (WILHEIM, 2002, p.38). Ainda segundo Wilheim (2002, pg.39), "[...] caso a voz da mãe seja cronicamente áspera e zangada, poderá ficar associada a uma experiência desagradável e afetar a sua futura disposição para a escuta e a comunicação [...]".

Observou-se, através do ultra-som, que o feto demonstra um desagrado perante aos sons mais violentos, como filmes de guerra, desastres ou músicas barulhentas e reage com pontapés e movimentos maiores. "[...] Os pontapés e a hiperatividade são reações pelas quais comunicam desagrado pelo som de uma música mais violenta, ao bater de tambores, a filmes de guerra ou de violência, a desastres naturais ou situações traumáticas vividas pela mãe [...]" (WILHEIM, 2002, pg. 39).

Nos estudos realizados pelo psiquiatra canadense Thomas Verny (1981), especialista em psicologia pré-natal, faz bem à mãe ouvir música, sendo o melhor ritmo a música clássica, especialmente os movimentos lentos de compositores barrocos, como Mozart. Ele explica que esses movimentos lentos têm cerca de 60 a 65 batidas por minuto. Esse é o ritmo do coração materno em descanso, o que cria um ambiente de paz para o bebê. "Mas a mãe precisa gostar. Caso contrário, a música também vai estressá-la. Se a mulher consegue relaxar com samba, tudo bem" (VERNY, 1981).

Foi com o advento da psicanálise que se começou a olhar para a primeira infância, atribuindo aos bebês sentimentos e emoções. Entretanto, de fundamental importância encontra-se o trabalho realizado nessa área por Melanie Klein, entre outros. Em suas pesquisas sobre o psiquismo fetal Piontelli (1992, p.34) declara: "[...] Minha ênfase aqui centra-se na importância de que a análise de crianças possa ter para o estudo da vida fetal [...]".

Seguindo esse pensamento, Wilheim (2002) comenta:

"[...] Alguns dos meus pacientes mais "regredidos" pareciam estar vivendo como se ainda estivessem num estado não-nascido, fechados dentro de um "ventre mental" e que ficavam quase totalmente impenetráveis à vida no mundo externo. Tal tipo de regressão chamava particularmente a atenção em um de meus pacientes adultos em quem eu costumava pensar como "o grande feto", uma vez que, entre outras manifestações, embora sendo alto e robusto, costumava enrolar-se como um enorme feto em meu divã, enquanto declarava enfaticamente seu desejo e intenção de entrar em mim com todo o seu corpo[...]" (WILHEIM, 2002, p.19).

Piontelli (1992) em suas pesquisas, busca informações na Medicina e na Biologia, pois considera que, ao nos aproximarmos do campo da vida mental fetal, não podemos cair em meras especulações. Assim, as manifestações somáticas do feto observadas através do ultra-som são consideradas fundamentais: "[...] Não obstante existam mais coisas relacionadas com a mente do que apenas movimento, é basicamente através das manifestações somáticas do feto que se pode pretender inferir algo do seu provável funcionamento mental [...]" (PIONTELLI, 1992, pg. 39). Adianta ela:

"[...] O que os meus achados sugerem é que a interação entre inato e adquirido começa muito mais cedo do que normalmente se considera, e de que certas experiências pré-natais podem ter efeito emocional profundo sobre a criança, especialmente se tais acontecimentos são reforçados pelas experiências pós-natais [...]" (PIONTELLI, 1992, pg. 15).

Seguindo em sua linha de pensamento, reconhece o seguinte:

"[...] um dos debates mais intensos dentro dos meios psicanalíticos está em torno do nascimento psicológico do bebê; sua capacidade para viver mental e emocionalmente no mundo externo, uma vez fora dos estreitos limites do ventre materno. Por um lado existem os psicanalistas que consideram que o bebê não está nascido psicologicamente nos primeiros meses de sua vida pós-natal e consideram-no como uma criatura sem ego que continua vivendo numa espécie de ventre pós-natal. Por outro lado existem aqueles psicanalistas que consideram que a vida mental está operando desde o nascimento, e para a maioria deles, o nascimento em si é considerado como sendo o ponto de guinada que põe em movimento o funcionamento mental [...]" (PIONTELLI, 1992, pp. 31.32).

O cérebro de um feto não se forma sozinho, é preciso da qualidade e quantidade dos nutrientes do sangue materno. Por isso a importância de uma boa alimentação durante a gravidez, sabendo-se hoje que uma desnutrição pode ser causadora de problemas na aprendizagem da futura criança. E também é preciso cuidado com o estresse, pois tudo o que a mãe sente, pensa, intui, veicula hormonalmente pelo sangue, torna-se um perigo na "formação do cérebro do feto". Assim é colocada essa questão:

"[...] O alimento que o cérebro recebe não é só feito de calorias, sais minerais e vitaminas. Tudo o que a mãe sente, pensa, sonha e intui é veiculado hormonalmente pelo sangue. Assim a cortisona oriunda de um estresse contínuo sofrido pela mãe, se torna um verdadeiro veneno; ela impede, por exemplo, a formação de um cérebro hígido [...]" (LUZES e UPLINGER, S/D).

De acordo Fernandes (s/d), em seu artigo "Uma investigação sobre as diversas formas de comunicação entre mãe e feto" (s/d), é notável que todo processo gestacional seja um momento muito delicado para os envolvidos, principalmente para a mulher que precisa de apoio, compreensão e carinho para poder ter subsídios que a levem a um desenrolar físico e psicológico o mais favoravelmente possível. Segundo a autora,

"[...] as atitudes maternas não pertencem ao domínio do instinto, mas continua-se a pensar que o amor da mãe é tão forte que talvez tenha ligação com a natureza. Um amor dotado de diversidades, sendo um sentimento humano, e como tal, frágil e imperfeito. Não sendo portanto um sentimento inato, mas que se desenvolve através das oscilações sócio-econômicas e culturais da história [...]" (FERNANDES, S/D).

Entramos, aqui, na importância que estes autores atribuem à qualidade de maternagem, destacando, seu enlaçamento histórico, desde a Antiguidade até os dias de hoje. Sobre isto, Paula Corina Fernandes nos diz:

"[...] até o século XVIII, pela alta taxa de mortalidade infantil, a mãe se mostrava indiferente a seu filho, como uma couraça sentimental inconsciente, contra o risco de ver seu objeto de ternura desaparecer. Outra forma de indiferença veio com a emancipação das mulheres, que precisavam ter o poder que antes era exclusivo dos homens, e os bebês eram vistos como obstáculos, podendo ser cuidados por outros (amas, governantas, internatos). A escolha do ser mãe passa a ser da mulher, que não tem só o papel de gerar herdeiros, mas também encontrar seu caminho dentro da sociedade. Foi no último terço do século XVIII que aconteceu uma mudança das mentalidades, a imagem da mãe passa a ser vista como fundamental, na qual asmães passam a cuidar pessoalmente de seus filhos, sendo valorizada a sobrevivência das crianças [...]" (FERNANDES, S/D).

Conhecendo essa trajetória da mulher, podemos pensar melhor os cuidados com o período gestacional. Thomas Verny (1981) nos leva a pensar a importância da prevenção primária, assegurando que a gravidez segue da melhor maneira possível quando as mães tem mais apoio, especialmente as mulheres com baixa condição econômica. Ele ressalta que os primeiros seis meses são mais importantes que os três últimos, porque é quando se dá o maior crescimento do cérebro do bebê.

O ser que se encontra em seu ventre não tem condições de assimilar o que vai inundando seu ambiente que é o útero: "[...] o pequeno ser, que não conta ainda com recursos próprios para discernimento ou discriminação, experimenta uma sensação muito radical de aniquilamento ou de ameaça de extermínio total [...]" (WILHEIM, 2002, pg. 60). Importante a mãe dispor de recursos já mencionados anteriormente como: conversar com o feto buscando explicar o que está acontecendo naquele momento, o que a está deixando nervosa, falando bem baixinho sobre suas atividades ocorridas no dia a dia. Observa Joanna Wilheim (2002, p.60): "[...] as conversas tranqüilizadoras que a mãe pode ter com seu bebê visam restituir a ele a sensação de segurança, otimismo e esperança, reforçando e reassegurando a permanência do vínculo de vida entre ambos [...]".

Em sentido contrário, também acredita que os sentimentos de desamparo, abandono, desesperança e outros correlacionados a esses, encontram sua base na experiência pré-natal desde o início da vida biológica, nas experiências de rechaço fisiológico e rejeição imunológica, deixando marcas negativas. E, ao longo da vida, o sujeito não se sente desejado, querido, aceito pela sociedade, não pertencente ao mundo e não aceito pelos outros. Explica Joanna Wilheim (2002):

"[...] Os sentimentos negativos de abandono, desamparo, pessimismo, desesperança, desconfiança têm suas raízes fincadas na experiência pré-natal. Lembre-se de que, desde as primeiras situações da vida biológica, houve experiência de rechaço fisiológico e rejeição imunológica, que também receberam imprints, deixando marcas negativas. A partir destas, no decorrer da vida, são emitidos sinais negativos do tipo: "não sou desejado", "não sou querido", "não sou aceito", "não sou acolhido", "não pertenço", reproduzindo, em outro nível, a angústia sentida pelo ser por ocasião do primeiro registro pré-natal [...]" (WILHEIM, 2002, pp. 60.61).

Evidenciam-se, aí, sentimentos e registros da experiência intra-uterina, de modo que, "[...] neste período absolutamente inicial da existência, a todo trauma biológico corresponde um correlato psíquico [...]" (WILHEIM, 2002, p.61). Desde a formação de cada uma das células do feto, experiências são registradas na memória celular:

"[...] tudo que ocorre com o ser, desde os primórdios de sua existência biológica  portanto, desde que foi óvulo por um lado e espermatozóide por outro lado  tem registro, e que este registro, feito por meio de uma memória celular, está guardado nos nossos arquivos de memória, uma espécie de banco de dados inconsciente [...]". (WILHEIM, 2002, p.24).

Diversos profissionais da saúde vêm constatando evidências de registros traumáticos relacionados ao período inicial da existência. Esses registros traumáticos acontecem no período entre a pré-concepção e o nascimento denominado de "memória celular". Wilheim (2002, pg. 103) nos faz compreender por "memória celular": "[...] experiências biológicas ocorridas com o ser desde a formação de cada uma de suas duas células básicas componentes: o espermatozóide e o óvulo [...]". Continua:

"[...] É minha opinião que precisamente nos pontos de registros traumáticos pré-natais é que se encontram estabelecidas as raízes mais profundas de determinadas psicopatologias, bem como de afecções psicossomáticas, objeto por excelência da psicanálise. Considero que todas as experiências biológicas pelas quais passa o ser desde a sua concepção até o seu nascimento, ficam registradas em uma matriz básica inconsciente [...]". (WILHEIM, 2002, p.54)

Sabemos que desejar ter um filho é condição fundamental para uma gravidez sadia.É preciso querer ser pai, querer ser mãe: "[...] O importante é ter certeza de que realmente quer ter um filho. Esse é o bom momento. Mas é muito importante que o pai também queira [...]" (VERNY, 1981). O casal partilha dessa vontade e se prepara em todos os sentidos, emocionais, econômicos, sociais; se tornam pais antes mesmo do nascimento desse bebê, esperado, desejado e amado. Eles desenvolvem condições para serem pais. "À luz dos estudos do psicanalista Jacques Lacan, podemos pensar o filho enquanto 'fruto da metáfora do casal'" (ABDON, S/D).

Para compreender melhor o que quer dizer "fruto da metáfora do casal", Abdon (s/d) descreve: "O ser humano demanda um outro. A criança, então, nasce na égide do narcisismo dos pais. Ela é antecedida de um desejo dos pais". Perante essa observação, é importante sabermos o efeito disso na futura vida da criança. Mais adiante, Abdon (s/d), seguindo o pensamento de Lacan, diz: "ao mesmo tempo em que o sujeito surge de uma demanda da família, a família também existe enquanto demanda do sujeito, uma vez que é ele que a 'alimenta' e a mantém viva". Acrescenta:

"[...] É interessante, portanto, perceber, antes de qualquer coisa, o lugar que o filho ocupa na família e nos desejos dos seus pais, para entender sua subjetividade. Daí a importância de refletirmos as funções paternas e maternas, não procurando entendê-las enquanto funções isoladas e independentes, mas como constituintes do sujeito na família [...]" (ABDON, S/D).

Tudo o que a criança experimenta desde a concepção constrói seu corpo. Isso inclui o cérebro. Só é possível construir um "bom" cérebro quando está conectado com outro ser humano. É muito importante para os pais começarem a se relacionar com os filhos desde a concepção. A arquitetura do cérebro depende dos estímulos (VERNY, 1981).

Segundo Rico (s/d), embora alguns pais sintam-se excluídos fisiologicamente desta relação, emocionalmente estão tão ligados quanto a figura materna e é de extrema importância que adquiram esta compreensão, para que a relação familiar possa se desenvolver com maior harmonia e união. "Se tudo o que toca a mãe, toca-o também, muito cedo o feto percebe a influência que o pai exerce sobre ela e, conseqüentemente, sobre ele". Também o pai não fica imune às angústias durante a gestação de seu filho e elas também podem ser expressas através de sonhos, distrações e esquecimentos, que provocam grandes tensões entre o casal (Rico, s/d).

Assim, observa-se que, paralelamente ao período gestacional enfatiza-se a pré-concepção. Como foi pensada a vinda de uma criança para os pais? A criança foi desejada?

Rico (s/d), em seu Artigo A vida emocional do feto, escreve que "muitos casais em crise conjugal, ao se depararem com uma gravidez não planejada, tornam este período um verdadeiro caos emocional, muitas vezes culminando com a separação".

Em breve observação, a pré-concepção ainda é um tema tabu, quase nunca mencionado no nosso mundo ocidental, relata Luzes e Uplinger (s/d) no Artigo Ciência no Início da Vida, que faz menção a grupos com esta finalidade realizados na Califórnia. Nestes grupos, casais que estão pensando em ter filhos são reunidos, a fim de refletirem e serem estimulados a pensar os motivos pelos quais querem ser pais. Muitos casais chegam à conclusão de que querem um filho, mas entendem que a complexa bagagem psíquica, que trazem no momento, ainda merece conscientização e o melhor é esperar.

A relevância social do tema é de ordem preventiva, pois, com a investigação da intensa interação psíquica entre mãe-feto desde a gravidez a realização de trabalhos na comunidade, tais como palestras, acompanhamento psicológico durante a gravidez, grupo de gestantes, orientação para os pais, objetivariam uma melhora nestas relações e conseqüente aprimoramento de um desenvolvimento mais sadio dos envolvidos (FERNANDES, s/d).

Sabe-se que situações de perturbações emocionais e desencontros são inevitáveis no cotidiano de uma mulher grávida.

Considerando todo o processo de criação do ser humano "de célula a feto", destaca também Wilheim (2002) que:

"[...] as estatísticas informam que cerca de 75% dos óvulos fecundados são destruídos na trompa antes de alcançarem o útero. Portanto, aqueles que o alcançam  e isso se refere a todos nós que estamos no mundo  podem ser considerados sobreviventes [...]" (WILHEIM, 2002, pg. 28).

As pesquisas ainda destacam, de maneira breve, que um novo conhecimento de grande importância na área da medicina, é a medicina fetal, pela qual é possível verificar que o feto sente dor e, isso, é de extrema importância a ser considerado nas várias modalidades de intervenções cirúrgicas intra-uterinas, mediante os avanços da tecnologia, que vêm sendo praticadas com freqüência:

"[...] a partir da sétima semana gestacional estão instalados os receptores sensoriais e as vias de condução do estímulo nervoso, em função do que, desde muito cedo, o feto é sensível à dor [...]" (WILHEIM, 2002, pg. 90).

Partindo para novas contribuições que vem surgindo em torno do estudo e das práticas relacionadas com o psiquismo fetal, encontra-se a Haptonomia. Surgiu na Europa, há cerca de trinta anos com o holandês Frans Veldman:

"[...] no grego as palavras hapsis  que significa o toque, o ressentir, o sentimento. E nomos  que significa a lei, a regra, a norma; hapto do verbo haptein, quer dizer "eu toco", "eu reúno", "eu estabeleço relacionamentos" [...]" (WILHEIM, 2002, pg. 113).

Pode-se dizer que a haptonomia é o estabelecimento "táctil" de um contato para ajudar a ficar saudável, a curar. Segundo Veldman é o "[...] conjunto de leis que regem o campo do nosso coração, dos nossos sentimentos [...]" (WILHEIM, 2002, pg. 113). A aplicação da haptonomia durante a gestação acontece da seguinte forma:

"[...] Os pais são ensinados a pousarem suas mãos leve e ternamente sobre o ventre da mãe. Para promover o encontro com o bebê, Veldman chama a atenção para o fato de que além do tônus muscular, o importante é que os sentimentos afetivos entrem em atividade. Quando surge de repente em suas faces o esboço de um sorriso ou um brilho no olhar, é porque o encontro acabou de acontecer. Vê-se o ventre ondular; o bebê atendeu ao convite e veio ao encontro da mão afetuosa e acolhedora. Seguindo um suave embalo e com um jeito próprio de cada um, a mão vai deslizando para a direita, depois para a esquerda e o bebê a acompanha, como num jogo lúdico [...]" (WILHEIM, 2002, pg. 114).

Essa pesquisa tem mostrado que, depois de nascer, a criança espera e busca prolongamento dos contatos haptonômicos, tais como os experimentados durante o tempo em que viveu no ventre de sua mãe.

Perante todas essas informações, uma questão muito especial se faz presente no decorrer dessa trajetória: "o bebê adotado". Imagina-se um bebê que ao nascer, ao sair do corpo de sua mãe depois de um período de sua existência, será privado de retomar o contato com ela.

"[...] Todo ser humano tem a necessidade de sentir uma continuidade do seu ser, para estabelecer a sua identidade e as condições necessárias para isto lhe são dadas pelo contato com os pais. A dor que a ruptura deste contato produz na alma do bebê é muito grande; uma dor que ele sente sem entender o que sente, porque lhe faltam as "ferramentas" para ele poder "se pensar". A brutal ruptura na continuidade de ser deste bebê que é separado de sua mãe ao nascer precisa ser preenchida por dados o mais próximos da verdade [...]" (WILHEIM, 2002, pp. 108.109).

Essa verdade refere-se ao fato de que "[...] a criança dada para adoção está com o seu mundo interno carregado de "não ditos". Estes precisam ser preenchidos por uma palavra prenhe de verdade, que se refere àquele ser e às suas origens pré e perinatais [...]" (WILHEIM, 2002, pg. 109).

A criança precisa de ajuda para reconstituir a sua história. Sendo assim, cabe aos pais adotivos primeiramente fazer uma acolhida, necessidade básica para a mente humana. Eles, dentro do possível, devem proceder como os pais biológicos: "[...] contato pele-a-pele, olho-no-olho; palavras ditas preenchendo os não-ditos, resgatando para o bebê os aspectos amorosos de vida existentes na primeira relação com a mãe biológica [...]" (WILHEIM, 2002, pg.111). Os pais adotivos devem conversar com o bebê o motivo pelo qual a mãe biológica não teve condições para proporcionar uma vida melhor para ele. O ideal seria logo depois de nascer, o bebê sentir o cheiro do corpo de sua mãe biológica e depois ser colocado em contato com o corpo pele-a-pele de sua mãe adotiva. Também seria viável que o pequeno ser levasse junto uma peça de roupa de sua mãe biológica ou uma fita gravada com a voz da mãe explicando o motivo pelo qual precisou deixá-lo (WILHEIM, 2002).

Caso o bebê esteja em uma instituição aguardando adoção, deverá ser individualizado, sempre atendido pelas mesmas pessoas, que devem conversar com ele. Deve-se manter um registro diário desta criança durante o tempo de sua permanência na instituição, fotos, objetos que ele tenha usado, informações de sua família de origem para que o ajudem com esses objetos na constituição e montagem de sua história de vida. A mãe adotiva deverá contar desde cedo a história de seu nascimento. Mas,

"[...] é importante lembrar que o bebê precisará primeiro elaborar a perda de sua família de origem ou daqueles que dele cuidaram, para depois ter condições de estabelecer novos vínculos com os pais adotivos [...]" (WILHEIM, 2002, pg. 112).

Somos seres de vinculação, seres de afetos. E assim somos desde que fomos constituídos. Não devemos esquecer que a primeira relação pré-natal com a mãe biológica, "[...] é uma relação de paixão; ela estabelece os sulcos sobre as quais todas as demais paixões na vida serão buscadas e irão se moldar. O ser humano vai passar a vida buscando reencontrar esta paixão perdida [...]", observa Joanna Wilheim (2002, pg. 112).

Considerações Finais

Muito pouca referência pode ser encontrada na literatura, tanto na linha teórica da psicanálise quanto em outras linhas teóricas da psicologia, a respeito da origem da vida mental do feto e das possíveis implicações deste estágio anterior: a vida fetal. Em debates e estudos, aumentam as dificuldades objetivas para estudá-la. Será certamente preciso realizar mais pesquisas antes que se possa estabelecer parâmetros para o comportamento e desenvolvimento fetal, não apenas para movimentos físicos, mas também para um possível desenvolvimento psicológico "normal" durante a vida fetal, já que, parece possível que certas formações patológicas e defensivas possam começar a se desenvolver no útero (PIONTELLI, 1992). Em sua pioneira pesquisa na observação de fetos, Alessandra Piontelli, depois de feito o seu treinamento psicanalítico na Inglaterra, dedicou-se anos à técnica de observação de bebês desenvolvida pela psicanalista kleiniana inglesa Ester Bick, na década de 1960. Ocorreu-lhe, então, estender a observação de bebês ao período pré-natal, observando 11 fetos (3 singulares e 4 pares de gêmeos) dentro do útero, usando o ultra-som; em seguida, acompanhou o desenvolvimento destes bebês em casa, desde o nascimento até a idade de quatro anos. Descreve:

"[...] Meus achados, tanto para as crianças que observei antes e depois do nascimento, como para aquelas que tratei psicanaliticamente, sugerem que, embora pareça pouco provável que as crianças se "lembrem" de suas experiências dentro do ventre e de seus nascimentos, tais experiências são constantementes revividas e reelaboradas à medida que elas crescem e se desenvolvem [...]" (PIONTELLI, 1992, pp. 237.238).

Ela não pode provar ou refutar hipóteses, mas seu achado central é de que existe uma notável e sutil continuidade de comportamento antes e depois do nascimento. No decorrer de suas pesquisas (1992), referente à observação de fetos, Alessandra Piontelli depara-se com os seguintes resultados: as gêmeas Marisa e Beatriz batem no ventre uma da outra e continuam a fazê-lo depois do nascimento. Os gêmeos Alice e Luca, acariciavam-se no ventre através da membrana divisória e com um ano de idade o seu jogo preferido era o de se acariciarem mutuamente através de uma cortina. Marco, que enterrava seu rosto na placenta como se fosse um travesseiro, quatro anos mais tarde insistia para que sua mãe lhe arranjasse um estojo para lápis em forma de travesseiro. Pina, o feto mais ousado, pois ela era um feto ativo, que se movimentava muito ao ponto de deslocar a placenta acarretando uma ameaça de aborto. Com isso, ela ficou imóvel dentro do útero. Apresentou um padrão semelhante após o nascimento: grande ousadia, muita atividade e animada, mas acompanhada de muitos medos e angústias claustrofóbicas. Esses são exemplos de uma possível continuidade psíquica na vida pós-natal. "[...] Por que certas crianças não conseguem esquecer o seu passado pré-natal? Por que outras a ele retornam sempre que as circunstâncias externas se lhes configuram adversas? [...]" (WILHEIM, 2002, pg. 43).

Entretanto, em relação aos efeitos da influência materna sobre o feto durante a gestação, conclui-se que as emoções maternas podem ter um forte impacto sobre o feto e conseqüentemente podem determinar o resultado de sua personalidade ou suas patologias futuras, na qual a mãe pode deixar suas impressões. Piontelli (1992, pg. 242), conclui:

"[...] Minha hipótese é a de que algum fator bioquímico possa estar envolvido no caso de emoções maternas, e que é possível que apenas emoções muito fortes e de relativa longa duração que afetem o feto [...]".

Certamente o efeito das emoções maternas sobre o feto merece estudos outros e mais sistemáticos.

"Há muito mais continuidade entre a vida intra-uterina

e a primeira infância do que

a impressionante cesura do ato do nascimento

nos permite saber"

(FREUD, 1926).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ABDON, Glaucy: "A importância da função do pai e da mãe para a constituição do novo sujeito sob uma perspectiva psicanalítica".

Disponível em: http://www.portalcienciaevida.com.br/ESPS/edicoes/24/artigo70925-1.asp?Email=

Acesso em: 12 de agosto de 2008.

FERNANDES, Paula Corina: "Uma investigação sobre as diversas formas de comunicação entre mãe e feto".

Disponível em: http://www.psicologia.org.br/internacional/pscl30.htm

Acesso em: 10 de agosto de 2008.

PIONTELLI, Alessandra. De Feto a Criança: Um Estudo Observacional e Psicanalítico. Tradução Joanna Wilheim, Nicia Lyra Gomes e Sonia Maria de Godoy. Rio de janeiro, Ed. Imago, 1992.

RANALI, Jônia: "Gravidez Sadia  sentindo emoções dentro do ventre materno".

Disponível em: http://www.joniaranali.com.br/gravidezsadia.htm

Acesso em: 12 de agosto de 2008.

REVISTA CIÊNCIA E VIDA on-line. Disponível em: http://www.pensamentoecologico.org/revista.htm. LUZES, Eleonora Madruga e UPLINGER, Laura. "A Ciência no Início da Vida".

Acesso em 02 de setembro de 2008.

RICO, Ana Maria Moratelli da Silva: "A comunicação verbal na gestação".

http://guiadobebe.uol.com.br/psicgestante/a_comunicacao_verbal_na_gestacao.htm.

Acesso em: 10 de agosto de 2008.

RICO, Ana Maria Moratelli da Silva: "A vida emocional do feto".

Disponível em: http://guiadobebe.uol.com.br/psicgestante/a_vida_emocional_do_feto.htm

Acesso em: 10 de agosto de 2008.

VERNY, Thomas. A vida secreta da criança antes de nascer. São Paulo, Ed. C.J. Salmi, 1981.

WILHEIM, Joanna. O que é psicologia Pré-natal. 3 ed., São Paulo, Casa do Psicólogo, 2002.

 
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