Pré-socráticos
 
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Os pré-socráticos: Vida e Obra

1 – Introdução

No final do século VII a.C. e durante o século VI a.C., período arcaico da antiga Grécia, surgem os primeiros filósofos, que seriam conhecidos por pré-socráticos, embora se tenha notícia de que alguns deles chegaram a viver concomitantemente à Sócrates, ou até posteriormente a ele.

Chamados com propriedade de "os pais da filosofia", os primeiros filósofos gregos foram os responsáveis pela passagem do pensamento mítico para o pensamento crítico racional e filosófico, o que ficou conhecido como o "milagre grego" e que alcançou maturidade nas obras de Platão e Aristóteles.

À esta nova forma de pensar, os gregos deram o nome Filosofia (filo – amizade, sofia – sabedoria).

O primeiro filósofo de que se tem notícia foi Tales (ou Thales) de Mileto e a ele se seguiram diversos, até o surgimento de Sócrates, quando então os historiadores e filósofos estabelecem um novo período filosófico.

Na verdade, chamá-los de pré-socráticos pode ser considerado um desrespeito, tanto e tão diversas foram as suas teorias, cabendo com certeza a cada um deles um espaço único na história da filosofia.

Considerando, no entanto, que a ampla maioria dos historiadores da filosofia os incluem em um só grupo (embora de escolas diferentes, como veremos adiante), não fugiremos ao tratamento destinado e os chamaremos neste curto trabalho de pré-socráticos, sempre que quisermos tratá-los como um todo.

Uma justificativa para o tratamento coletivo destes filósofos é a de que, infelizmente, todos os seus tratados se perderam, e tudo o que temos acerca das idéias e vida dos filósofos pré-socráticos são pequenos trechos e fragmentos de suas obras, que chegaram até nós principalmente por meio de Platão e Aristóteles.

Não temos, por exemplo, como saber se os tratados receberam títulos, embora tradicionalmente tenham recebido o nome Peri Physeos, isto é, "Sobre a Natureza" por historiadores e filósofos posteriores.

Como já informado, os filósofos pré-socráticos viveram no período arcaico da Grécia antiga, que vai do fim do século VII a.C. até o início do século V a.C.

Para situarmos o leitor, é importante mencionarmos também os demais períodos atribuídos a história da filosofia grega:

- Período homérico - 1200 a.C. à 800 a.C.. Recebeu este nome pois é desta época que foram narradas por Homero as aventuras dos gregos na Ilíada e na Odisséia.

- Período clássico – século V a.C. ao século IV a.C. Neste período teriam vivido Sócrates, Platão e Aristóteles.

- Período helenístico – quando a Grécia perde sua independência para a Macedônia e, depois, para Roma.

2 – As Escolas

Os historiadores apontam 4 (quatro) principais escolas pré-socráticas, que foram assim divididas em razão da phýsis da cada filósofo, ou seja "a fonte originária de todas as coisas, a força que as faz nascer, brotar, desenvolver-se, renovar-se incessantemente; é a realidade primeira e última, subjacente a todas as coisas de nossa experiência. É o que é primário, fundamental e permanente, em oposição ao que é segundo, derivado e transitório. É a manifestação visível da arkhé, o modo como esta se faz percebida e pensada"[1].

São elas:

1) Escola Jônica, cujos principais representantes são Tales de Mileto, Anaximandro de Mileto, Anaxímenes de Mileto e Heráclito de Éfeso;

2) Escola Pitágorica ou Itálica, cujos representantes são Pitágoras de Samos, Alcmeão de Crotona, Filolau de Crotona e Árquitas de Tarento;

3) Escola Eleata, cujos representantes são Xenófanes de Colotão, Parmênides de Eléia, Zenão de Eléia e Melisso de Samos;

4) Escola Atomista, cujos principais representantes são Leucipo de Abdera e Demócrito de Abdera.

Estudaremos a seguir detalhadamente cada uma destas escolas, por meio do pensamento e teoria de seus principais membros.

3 – Tales de Mileto

Tales nasceu na Jônia, na Ásia Menor, por volta de 625/4 a.C. Sua akmé (florescimento filosófico) se deu por volta do ano 585 a.C. Morreu aproximadamente em 558 a.C.

É, possivelmente, o primeiro filósofo grego, investigador das coisas da natureza como um todo. De suas idéias pouco se conhece, já que não se sabe se escreveu algo e não existem fragmentos de seus estudos. Tudo o que sabemos sobre ele provém do que nos foi transmitido pelos doxógrafos.

Segundo o historiador Heródoto, Tales foi um dos Sete Sábios da Grécia arcaica. Sua filosofia nos foi passada principalmente por Aristóteles, Teofrasto e Simplício.

Tales, ao que consta, foi político, engenheiro e comerciante. Foi ele que primeiro estudou as cheias do Rio Nilo, desfazendo os mitos que as narravam. Fez ainda algumas descobertas astronômicas e matemáticas, razão pela qual Aristóteles o consagra como fundador da teoria cosmológica.

A phýsis de Tales é a água, que, para ele, era o princípio de todo o Universo. A água é o principio do devir, isto é, da mudança e do movimento.

Segundo Marilena Chauí, "Tales considera que as coisas são viventes ou animadas e por isso se transformam e se conservam. A água faz todas as coisas e é a matéria e a alma de todas elas".[2]

Tales chegou a afirmar, segundo nos relata Aristóteles, que a água está sob a terra, levado a esta conclusão por ver que o alimento é úmido, e que o próprio quente da água procede e dela vive.

4 – Anaximandro de Mileto

Anaximandro foi um sucessor de Tales. Nasceu por volta de 610 a.C. e morreu aproximadamente em 547 a.C. e de sua vida praticamente nada se sabe. Foi geógrafo, matemático, astrônomo e político. Relatos nos dão conta de que escreveu um livro, posteriormente chamado "Sobre a natureza".

Atribui-se a Anaximandro a confecção de um Mapa-Mundi com o mundo então conhecido. Ampliando a visão de Tales, foi o primeiro a formular o conceito de uma lei universal presidindo o processo cósmico total.

Para Anaximandro, a phýsis não é a água ou qualquer outro elemento, mas o apeíron, isto é, alguma natureza diferente, ilimitada e infinita, de onde vêm os céus e os mundos neles contidos.

Anaximandro foi o primeiro a usar a palavra princípio, que é o elemento primordial das coisas. Não se trata simplesmente da mistura de vários elementos corpóreos, mas é a matéria em que os elementos ainda não estão distintos e que, por isso, é infinita, indeterminada e indefinida.

5 – Anaxímenes de Mileto

Ao que consta, Anaxímenes foi discípulo e continuador de Anaximandro. Nasceu por volta de 585 a.C. e morreu próximo de 528/5 a.C. Filho de Euristrato, sua akmé se dá em 546-545 a.C.

Também escreveu uma obra intitulada posteriormente "Sobre a natureza". Dedicou-se especialmente à meteorologia. Foi o primeiro a afirmar que a Lua recebe luz do Sol.

Apesar de ser um discípulo de Anaximandro, Anaxímenes discorda de seu mestre já que, para ele, a natureza não é indefenida (embora concorde que é ilimitada). Sua phýsis é o ar, que diferencia-se nas substâncias, por rarefação e condensação, tornando-se fogo, vento, nuvem, água e, daí, terra, pedras e as demais coisas.

6 – Heráclito de Éfeso

Heráclito nasceu em Éfeso, cidade da Jónia, por volta de 540 a.C., descendente de uma família que ainda conservava prerrogativas reais.

Embora incluído na Escola Jônica por sua descendência, Heráclito não teve nenhum mestre e desprezava os filósofos de seu tempo. Escreveu um livro também intitulado "Sobre a Natureza", mas de forma tão concisa que recebeu o cognome de "O Obscuro".

Sua akmé se deu entre 504 e 500 a.C.. É considerado o maior filósofo pré-socrático, por formular com vigor o problema da unidade permanente do ser diante da pluralidade e mutabilidade das coisas particulares e transitórias. Estabeleceu ainda a existência de uma lei universal e fixa – logos – que rege todos os acontecimentos particulares e fundamenta a harmonia universal.

Sua phýsis é o fogo primordial que arde eternamente, a própria razão. Para Heráclito, o mundo é um devir eterno. Platão, referindo-se a Heráclito, conclui que para o pré-socrático "tudo flui".

"Não podemos entrar duas vezes no mesmo rio, pois o rio nunca é o mesmo e nós também nunca mais somos os mesmos" é a frase que define a teoria de Heráclito. O mundo está em constante mudança e tudo o que se acha que é permanente é ilusão.

O dia anoitece, a noite amanhece, o sono desperta, o despertar adormece. O movimento é a realidade verdadeira e a luta dos contrários, já que o fluxo perpétuo do mundo sempre está alterando as coisas.

7 – Pitágoras de Samos

Pitágoras nasceu em Samos, cerca de 580/78 a.C. e, por sua importância, dá o nome à Escola Pitagórica.

Muito pouco se conhece da vida deste filósofo e matemático. Alguns chegam a duvidar se ele realmente existiu ou se o nome Pitágoras foi dado aos estudiosos de ciências matemáticas do período. Por este fato, iremos tratar aqui não só de Pitágoras, mas de toda a escola itálica.

O pitagorismo influenciou muito os pensadores posteriores. Mesmo depois da crise do pitagorismo (em face do famoso teorema, que, maliciosamente recebeu o nome de Teorema de Pitágoras) e de sua quase extinção, percebemos que Platão e Aristóteles utilizam e baseiam-se em conclusões atribuídas aos pitagóricos.

Pitágoras tinha por sua phýsis os números. O um é o princípio de todas as coisas, assim como a matemática.

Os números estão presentes em todas as coisas, tanto visíveis como invisíveis. São ritmos, proporções, relações, somas, subtrações, combinações e dissociações ordenadas e reguladas, ou seja, o número não representa nem simboliza as coisas, ele é a estrutura das coisas.

O número produz a unidade e a diversidade das coisas e por isso as torna conhecíveis por nossa alma.

8 – Xenófanes de Colofão

Xenófanes nasceu por volta 570 a.C. em Colofão, na Jônia. Pouco se sabe sobre ele, e sua importância para filosofia reside na critica ao senso comum e aos aspectos antropomórficos dos deuses míticos.

Ele afirma a existência de um deus único, infalível e justo, sem forma humana ou qualquer outra conhecida por nós. Não se move, e por essa razão, não está sujeito a mudanças, ao tempo e ao devir.

9 – Parmênides de Eléia

Parmênides nasceu em Eléia, na Itália, cerca de 530 a.C. Foi discípulo do pitagórico Amínias e provavelmente, também seguiu as lições de Xenófanes. Em Atenas combateu a filosofia dos jônicos e sua akmé se deu por volta de 500 a.C.

Escreveu uma obra, em poema, denominada Sobre a Natureza, composta por duas partes. Na primeira parte trata da verdade e na segunda, da opinião. A obra levanta-se contra o dualismo pitagórico e o mobilismo de Heráclito.

Parmênides formulou os dois princípios lógicos do pensamento: o principio da identidade ( o ser é o ser), e o principio da não-contradição (se o ser é, o seu contrario, não é).

Ele também foi o criador da ontologia, isto é, a doutrina do ser e de suas formas.

Para Parmênides a experiência sensorial nos faz perceber que tudo está em movimento, ou seja, em mudança. Nós mudamos, as coisas surgem e desaparecem mas o ser é imóvel e imutável, pois se se movesse, mudaria e tornar-se-ia aquilo que ele não é.

10 – Zenão de Eléia

Zenão nasceu em Eléia, na Itália, por volta de 504 a.C e teve sua akmé aproximadamente em 461 a.C. Foi o criador da dialética, isto é, a argumentação combativa, e um ferrenho defensor de seu mestre, Parmênides, principalmente contra as criticas dos pitagóricos.

Defendeu o ser uno, continuo e indivisível de seu mestre contra o ser múltiplo, descontinuo e divisível dos pitagóricos.

Zenão jamais defendia diretamente as teses de Parmênides, mas tomava as teses adversárias e as conduzia a conclusões contraditórias, portanto falsas. Zenão não pretendia demonstrar a verdade de uma teoria, mas os absurdos das opiniões contrarias. Por conta disso, Zenão ficou conhecido entre os gregos como o criador de dificuldades sem solução.

11 – Leucipo de Mileto

Leucipo nasceu em Mileto, na Grécia, cerca de 500 a.C e teve sua akmé aproximadamente em 430 a.C, então com quase 70 anos. É considerado por Aristóteles como criador da teoria dos átomos, depois desenvolvida e elaborada por Demócrito.

12 – Demócrito de Abdera

Demócrito nasceu em Abdera, colônia jônica da Trácia, cerca de 460 a.C. Foi sucessor de Leucipo e, portanto, sua phýsis também era baseada no átomo.

Os átomos, segundo Demócrito são os elementos que formam tudo o que existe no mundo. Eles se movimento no vácuo, chocando-se e unindo-se uns aos outros, fazendo as coisas nascer, mudar e perecer.

Os átomos não são iguais e se diferenciam pela forma, grandeza, posição, direção e velocidade, mas são todos iguais em substância, de forma que as diferenças nas coisas são explicadas apenas pela forma, arranjo e posição dos átomos.

Tudo é matéria na teoria atômica de Demócrito, razão pela qual ele e Leucipo ficaram conhecidos como materialistas.

REFERÊNCIAS

Livros -

- Os pré-socráticos: Fragmentos, Doxografia e Comentários. Coleção os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2000.

- ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 5ª ed. São Paulo, Martins Fontes, 2007.

- ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução à Filosofia. 2ª ed. São Paulo: Moderna, 1997.

- CHAUI, Marilena. Introdução à História da Filosofia: Dos pré-socráticos a Aristóteles. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Sítios de Internet –

http://www.mundodosfilosofos.com.br

http://pt.wikipedia.org/wiki/


[1] CHAIU, Marilena. Introdução à História da Filosofia: Dos pré-socráticos a Aristóteles. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

[2] CHAIU, Marilena. Op. cit.

 
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Sobre este autor(a)
Rafael Augusto Gobis é advogado com extensão em Direito Penal Econômico pela FGV, especialista em Direito Constitucional pela ESDC e em Direito Tributário pelo Mackenzie. Pós-graduado em Filosofia e Ensino de Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano.
Membro desde maio de 2008
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