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PIEDADE DA PRAÇA
 
PIEDADE DA PRAÇA


Outrora chamada de "Praça do Hospício" e também "Praça Treze de Maio", a Praça da Piedade localizada no centro antigo de Salvador, originou-se da construção do Hospício de Nossa Senhora da Piedade (atualmente estão a Igreja e o Convento da Piedade), por capuchinhos italianos, em um terreno doado. A área somente foi incorporada aos limites da Cidade do Salvador no ano de 1679.

Em 02 de julho de 1891, foi criado no local o Jardim da Piedade e já em 1895 (pasmem!) a população começava a depredar aquele espaço público (!), conforme está escrito em um dos relatórios do então intendente José Eduardo Freire de Carvalho: "...em uma cidade civilizada, tão freqüentada, a intendência já se visse obrigada a mandar fechar por algum tempo o jardim a fim de poder reparar os estragos feitos...", naquela época foi colocado uma grade, circundando a praça.

No início do século XIX aquele primeiro gradil foi retirado durante uma grande reforma e no ano de 1931 instalou-se no centro da praça a fonte luminosa com o conjunto de quatro estátuas, peças trazidas da região de Champagne na França, equipamentos que permanecem até os dias atuais[1].

A Praça da Piedade já foi destruída e reformada diversas vezes, já serviu de espaço de lazer e jogo de damas para aposentados, habitat de camaleões, ponto de fotógrafos do tipo "lambe-lambe"[2], etc. Pelo fato de permanecer mais tempo em situação degradante do que aprazível, passou a ser alvo de críticas pelos políticos de oposição para fins de promoção.

No final da década de 1990 foi feita a última grande reforma, ocasião em que foi recolocada a grade de proteção, que se trata, na realidade, de uma obra de arte assinada por Carybé, além da colocação de bancos de granito e feito todo um trabalho de jardinagem.

Muito bem, contamos um pouco da história da praça para enfim chegarmos ao objetivo deste breve manifesto, que tem como título o nome do local grafado de forma invertida "Piedade da Praça", por razões que o leitor já deve prever.

É por aí mesmo, vamos falar de decadência, degradação e descaso. Aliás, por falar em decadência, todo o antigo centro de Salvador está decadente. A sociedade soteropolitana, de um modo geral (incluído-se aí escritórios, consultórios, clínicas e estabelecimentos comerciais), há muito, trocou o centro pelas avenidas de vale próximas aos bairros mais ricos da cidade.

A Praça da Piedade, nos dias de hoje, tem no seu entorno duas igrejas, a Secretaria de Segurança Pública, a Faculdade de Economia da UFBA, o Gabinete Português de Leitura, além de curso pré-vestibular e estabelecimentos comerciais. Na própria praça circulam dezenas de ambulantes vendendo CDs, lanches, refrigerantes, doces, água de côco, cartão telefônico e cafezinho, estes últimos exibem carrinhos com som potente e música brega, já são até citados como figuras folclóricas da cultura soteropolitana.

Esta movimentação toda é, de certa forma, cultural e até bonita de se ver, afinal como se diz a praça é do povo e nela os "donos" podem transitar, sentar para descansar, se distrair, trabalhar, se manifestar, enfim praça é um espaço extremamente democrático e multifuncional. No caso da Piedade o vilão é o excesso.

Excesso de liberalidade e de acolhimento, esta é a nossa tese que busca explicar a razão para o estado deplorável e de total imundice pelo qual passa a nossa Praça da Piedade.

Praticamente o "jardim" da Secretaria de Segurança Pública (SSP), área que deveria ser de segurança máxima no Estado da Bahia, com policiamento exemplar[3], podem-se ver famílias inteiras e delinqüentes a alojarem-se com colchões e utensílios domésticos no espaço público, onde a população se depara com fezes e urina humanas, restos de alimentos e todo o tipo de lixo. A exploração de crianças por adultos que as forçam a pedir esmolas, o uso inadequado da fonte luminosa para banhos, lavagem de roupas, depredando, assim, o patrimônio público (já serraram até o braço de uma das estátuas, vejam a foto!) constituem crimes flagrados corriqueiramente pelo poder público que os ignora. Daí o excesso de liberalidade.

O excesso de acolhimento está presente na locação sistemática de pontos de gravação de programas de rádio e televisão, em plena praça, com a divulgação de pessoas desaparecidas e imprensa sócio-policial chula e sensacionalista, além da distribuição, também sistemática e previsível, de donativos e alimentos nas escadarias da Igreja da Piedade. Estes dois aspectos, apesar do ar humanitário e de inquestionável utilidade pública e benevolência, atrai uma legião de pessoas carentes, muitas vezes até do interior do estado, que passam a "morar" na praça.

No nosso entendimento, ainda que nutramos o sentimento de humanidade e caridade com nossos semelhantes menos favorecidos, poderíamos (mesmo porque merecemos) ter a nossa Praça da Piedade, no mínimo, limpa e bem conservada, afinal pagamos caríssimo pela colocação dos bancos de granito, pelo gradil fantástico, pela restauração da fonte luminosa e das estátuas, isso sem falar do belo jardim com gramado e bordas antes impecáveis.

Existe alguma "receita de bolo" para que se atinja este objetivo? Acreditamos que não, mas pode-se pensar em algumas atitudes simples e factíveis como, por exemplo, as emissoras locarem suas gravações, também, em outros espaços da cidade, não só na Piedade; os religiosos poderiam, em seus sermões, incentivar a doação de alimentos e donativos diretamente nas instituições (albergues, asilos e orfanatos), ao invés de fazê-la na escadaria da igreja; a SSP desenvolver um projeto de parceria com a Guarda Municipal, para treinar agentes e guardas visando coibir, de maneira pacífica e didática, a prática de crimes como a exploração de menores, depredação do patrimônio e desordem pública, a Prefeitura poderia caprichar mais na limpeza, jardinagem e conservação dos equipamentos, além de ordenar e controlar o comércio ambulante.

Em suma, o presente artigo pretende expressar a opinião deste cidadão que preza pelas boas coisas da cidade em que nasceu e muito ama, fazendo uma crítica construtiva ao poder público, aos meios de comunicação e à Igreja, em forma de alerta e apelo.

José Jorge Almeida Pimenta

[1] Os dados descritos até este ponto do texto estão disponíveis em: [http://www.visiteabahia.com.br].

[2] Profissionais especializados em fazer fotografias, ao ar livre, para documentos, utilizando-se de câmeras e método de revelação rudimentares.

[3] Policiamento exemplar não é sinônimo de truculência! É formado por policiais treinados para promover a ordem de forma eficaz e cortês.

 
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Sobre este autor(a)
Jorge Pimenta é Médico Veterinário graduado pela UFBA, Auditor Interno do INSS, Especialista em Gestão Previdenciária pela Universidade Gama Filho.
Membro desde janeiro de 2010
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