Parmênides
 
Parmênides
 


INTRODUÇÃOA passagem da consciência mítica e religiosa para a consciência racional e filosófica não foi feita de um salto. Esses dois tipos de consciência coexistiram na sociedade grega.De acordo com os conhecimentos históricos, a fase inaugural da filosofia grega, onde Parmênides está inserido, é conhecida como período pré-socrático. Esse período abrange o conjunto das reflexões filosóficas desenvolvidas desde Tales de Mileto (623-546 a.C.) até Sócrates (468-399 a.C.).Os antigos filósofos se preocupavam em buscar os caminhos da verdade filosófica e suas correlações com a palavra, ou seja, procuravam o significado do não-oculto, não-escondido, não-dissimulado. O verdadeiro é o que se manifesta aos olhos do corpo e do espírito; a verdade é a manifestação daquilo que é ou existe tal como é. O verdadeiro se opõe ao falso, pseudos, que é o encoberto, o escondido, o dissimulado, o que parece ser e não é como parece. O verdadeiro é o evidente ou o plenamente visível para a razão. Apesar da filosofia ter-se erigido pelos caminhos da alétheia, esta permanece, ainda, misteriosa desde a época do filósofo em pauta neste trabalho acadêmico  Parmênides - até os nossos dias.Parmênides de Eléia (530 - 460 a.C.) viveu do final do séc. VI ao começo do séc. V a.C. Legislador, deixou suas idéias filosóficas em poema, Sobre a Natureza, que seria o discurso de uma deusa. Sua poesia é dividida em três partes: proêmio, em que ele descreve a experiência de ascese e de revelação; primeira parte, a via da verdade; e segunda, a via da opinião. É a doutrina mais profunda de todo o pensamento socrático, mas também a mais difícil interpretação.1. O CAMINHO DA VERDADE: O SER ÉParmênides indica que na via da verdade, o homem se deixa conduzir apenas pela razão. Nessa primeira via, ele afirma o princípio lógico-ontológico da identidade. Este princípio pode assumir a formulação: O ser é, o não-ser não é.Só por meio da razão é possível desvelar a verdade e a certeza. Isso quer dizer que a razão é instrumento fundamental e único com o qual o homem pode deixar-se conduzir à dupla evidência: O que é é, e o que é não pode deixar de ser.Nessa segunda formulação, o princípio evidenciado é o da imutabilidade. O ser é demonstrado com todo rigor lógico com o raciocínio: "o que é é", sendo o que é, tem que ser único: "além do que é" só existiria, se possível fosse, o diferente dele, "o que não é"  hipoteticamente absurdo, pois isso desembocaria na atribuição de existência ao não-ser, impensável e indizível.Como os mortais hesitam em escolher, ficam a meio caminho, a vaguear, em função "do hábito multiexperiente" da observação, apenas podem ter um olhar que a nada se dirige, seus ouvidos apenas percebem sons sem significado.Parmênides diz que ao se comprometer com a via da verdade, o homem sábio perceberá que há indícios sobre o que é; seus atributos são revelados como uma necessidade absoluta, necessidades que são a um só tempo do ser e do pensamento, já que ambos são idênticos.O ser é, portanto, alheio a todo devir, está além de toda geração e corrupção; é uno e contínuo, porque a razão não permitiria nascer algo além dele, determina-o, pois, indivisível, igual ao todo, não pode ser maior ou menor que ele mesmo e caso houvesse mais de um ser, à unidade retornaria, já que por imposição lógica ente a ente adere. O ser é imóvel e, pousado em si mesmo, permanece imobilizado em seus limites. O ser é perfeito, pois não é carente; se de nada é carente, não é possível que seja imperfeito e inacabado.Em Parmênides, o um é o todo e o todo é um. Se existissem dois todos, um limitaria a abrangência do outro. Como o ser é infinito, ilimitado, só pode ser um. Ele refere-se a uma esfera. Não se pode deduzir daí que o ser tem o atributo da corporeidade. Trata-se de uma simples imagem, evidentemente influenciado pelas idéias cosmológicas de Anaximandro que geometrizou o espaço, até então aritimetizado. No caso, a esfera dá mais a noção de infinitude, de algo que nunca termina. Quando o poema fala de uma "verdade bem redonda", a imagem que nos vem à mente é a do ser "esférico", ou seja, sem começo e sem fim, sem dobras, sem quebras, indivisível, imutável, sempre idêntico a si mesmo.Historicamente, Parmênides extraiu a noção de unidade das cosmogonias precedentes tanto míticas quanto filosóficas, mas elaborou-a a sua maneira. Em todas essas cosmogonias, antes de a unidade originária gerar a multiplicidade, tem-se a afirmação de uma unidade perene que reina solitária e absoluta. Parmênides tirou desses princípios cosmogônicos seu rigor lógico que se centraliza na noção de unidade. A evolução histórica das concepções cosmogônicas atingiu seu ponto de maior elaboração com Anaximandro, que colocou a incompatibilidade entre a unidade originária de um lado e do outro a multiplicidade e o movimento que estão intimamente relacionados ao mundo sensível. Diante dessa incompatibilidade, Parmênides optou pela unidade, pelo absoluto, pelo ser, rejeitando tudo que pudesse se contrapor.Da noção de unidade, ele nega o valor racional, a legitimidade racional da multiplicidade, do movimento e da mudança. Da noção de unidade ele também afirma a imobilidade e a imutabilidade do ser. Enfim, o ser é eterno, perene, imóvel, infinito, imutável, pleno, contínuo, homogêneo, indivisível.2. O CAMINHO DA OPINIÃO: PENSAR X PERCEBERPercebe-se que para Parmênides não existe ilimitada possibilidade de investigação, há poucos requisitos a se levar em consideração para o conhecimento da verdade, mas são requisitos sem os quais não se chega à verdade. Além desse caminho, apenas resta a via da opinião, a via do engano, da qual ele manda afastar o pensamento, pois não se chega à verdade, permanecendo no nível das opiniões.Ele foi o primeiro filósofo a afirmar que o mundo percebido por nossos sentidos é um mundo ilusório, de aparências, sobre as quais formulamos opiniões. Com ele nasce a distinção entre verdade e aparência. Ele também foi o primeiro a contrapor a esse mundo mutável a idéia de um pensamento e de um discurso verdadeiros referidos àquilo que é realmente, ao ser.A aparência sensível das coisas da natureza não possui realidade. As coisas, das quais percebemos a aparência sensível, não existem realmente.Parmênides foi o primeiro a contrapor o ser ao não-ser, concluindo que o não-ser não é. A Filosofia torna-se egoísta, tomando para si a Via da Verdade e negando a realidade e o conhecimento à Via da Opinião, em virtude dessa última se ocupar com as aparências, ou seja, com o não-ser.O que o filósofo de Eléia afirmava era a diferença entre pensar e perceber. Perceber é ver aparências. Pensar é contemplar a realidade como idêntica a si mesmo. Portanto, pensar é contemplar o ser. Assim, multiplicidade, mudança, nascimento e perecimento são aparências, ilusões dos sentidos.O poema parmenídico declara que ser, pensar e dizer são uma só coisa. Essa é a via da verdade - alétheia - e a da doce persuasão que a acompanha. Já a via da opinião não pode ser percorrida porque não pode ser pensada nem dita. Parmênides estabelece a identificação entre o que é o ser, o que é o pensar e o que é o dizer, de modo que "o que é" é o que pode ser pensado e dito, enquanto que "o que não é" não pode ser pensado nem dito. Traduzindo as palavras poéticas de Sobre a Natureza: o ser pode ser pensado e dito; o não-ser não pode ser pensado nem dito.Nesse sentido, o pensamento parmenídico tornou a cosmologia impossível ao afirmar que o pensamento verdadeiro exige a identidade, a não-transformação e a não-contradição. Considerando a mudança de uma coisa em outra como o não-ser, ele afirmava que o ser não muda e não tem no que mudar, porque, se mudasse, deixaria de ser o que é, tornando-se oposto a si mesmo, o não-ser. Conseqüentemente, mostrou que o ser é uno e único e que o pensamento verdadeiro não admite a multiplicidade ou pluralidade, não admitindo, portanto a cosmologia. Impossível também uma cosmologia nas idéias parmenídicas, porque só o ser é; o cosmos não é. Impossível enfim, porque não há movimento possível. Ao abandonar as idéias de multiplicidade, de mudança, de nascimento, de vir-a-ser e perecimento, sua filosofia deu uma virada radical passando da cosmologia à ontologia.Ao estudarmos a história da filosofia e a poesia Sobre a Natureza, constatamos que foi ele o precursor da ontologia e da lógica. Pois dos outros filósofos pré-socráticos que o antecederam ou até mesmo aqueles que foram seus contemporâneos, investigaram o ser, tão pouco, chegaram a conclusões definitivas indubitáveis sobre o ser. E é isto que pretende a ontologia, a investigação do ser enquanto ser.CONCLUSÃOApós a construção deste trabalho acadêmico, podemos afirmar que o filósofo Parmênides  o eleito como aquele beneficiado pelas deusas - garantiu para a posteridade a ousadia de afirmar o ser único, absoluto e idêntico a si mesmo. A razão, aqui também de forma inequívoca, afirmava uma dialética do pensamento que deixaria para a posteridade a radicalidade das idéias puras. Apesar da sua ontologia e do seu pensamento lógico e preciso, este pensador foi alvo de críticas sendo, inclusive, detectados, pelo filósofo Aristóteles, erros no seu poema no campo da metafísica. Mas é ao mesmo tempo um dos maiores monumentos da história do pensamento do mundo ocidental. À primeira vista o seu poema não parece mais do que uma extravagância de um filósofo, mas a verdade é que só por causa dele, Parmênides merece um lugar especial entre os grandes pensadores de todas as épocas.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASBRUN, J. Os pré-socráticos. Rio de Janeiro: Edições 70, 1991.MOREIRA, M. Sobre Literatura e Psicanálise. Disponívelem: http://www.psicanalitica.com.br/moreira.htmNEF, Frédéric. A Linguagem - Uma abordagem filosófica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995.PARMÊNIDES. Disponível em: http://www.antroposmoderno.com/biografias/Parmenides.htmlROSA, Garcia. Palavra e Verdade: na filosofia antiga e na psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar Editor Ltda, 1990.
 
Avalie este artigo:
2 voto(s)
 
Revisado por Editor do Webartigos.com


Leia outros artigos de Rômulo Conceição
Talvez você goste destes artigos também