Os Contos de Fadas Maravilhosas e o Conto Maravilhoso que não tem fadas
 
Os Contos de Fadas Maravilhosas e o Conto Maravilhoso que não tem fadas
 


O Conto de Fadas Maravilhosas e O Conto Maravilhoso que não tem fadas¹

Luciana da Costa Quintal²

RESUMO

Com o interesse de diferenciar os contos de fadas e os contos maravilhosos, foi realizado um trabalho que perpassa a trajetória dos contos, principalmente no tocante ao novo mercado em questão: a Literatura Infantil. Por solicitação do trabalho monográfico de conclusão do curso de graduação, foi desenvolvida esta pesquisa com objetivo de ambientar a tradição narrativa com a sabedoria popular, visando ressaltar as características socais e psicológicas, tais como o conflito entre o bem e o mal e a interdependência da realidade e da fantasia na formação do leitor.

Palavras-chave: Literatura Infantil, Contos de Fadas, Contos.

1. O SURGIMENTO DOS CONTOS DE FADAS

O conto de fadas e o conto maravilhoso divergem em algumas características, mas ambos possuem estrutura e enredo similares. Trata-se de um mundo encantado que surgiu na literatura através do conto popular, pois do folclore da Idade Média para a Idade Moderna, as narrativas foram evoluindo, sendo adaptadas, conquistando as crianças e os adultos para um passeio pelo mundo da imaginação, embarcados pela leitura.

A partir do imaginário coletivo, a tradição da narrativa oral levou este tipo de história para um reino encantado, onde não há verdades ou mentiras, mas sim a fantasia. A tradição popular contribuiu para as histórias hoje conhecidas como contos desta esfera maravilhosa. Sobre o seu advento, foi provado que os contos de fadas nasceram na Europa, com raízes celtas em data desconhecida e, assim, surgiram bem antes da literatura infantil. No seu processo de evolução, era conhecido no Brasil e em Portugal como contos da carochinha.

Trata-se de uma modalidadedo maravilhoso que traz consigo as marcas da fábula e da tradição oral na narrativa. Desta forma, ressalta-se que os contos de fadas ainda possuem grande valor quando narradas em alta voz. Assim como afirmou Bruno Bettelheim, em seu livro A Psicanálise dos Contos de Fadas (1980:p.185), importante leitura para o tema em questão:

"Para atingir principalmente suas funções consoladoras, seus significados simbólicos e, acima de tudo, seus significados interpessoais, o conto de fadas deveria ser contado em vez de lido. Se ele é lido, deve ser lido com um envolvimento emocional na estória e na criança, com empatia pelo que a estória pode significar para ela. Contar é preferível a ler porque permite uma maior flexibilidade."

(BETTELHEIM, Bruno. A Psicanálise dos Contos de Fadas, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980)

A verdade é que, depois da Revolução Industrial, a criança passa a exercer um papel de maior importância na estrutura familiar. Com uma especial atenção à infância e com a livre iniciativa e concorrência do mundo capitalista, surge a necessidade de investir na educação infantil para criar adultos preparados e capazes de enfrentar esta corrida capitalista. A partir disso, tem-se a necessidade de atender esta demanda com materiais específicos, fazendo, então, surgir a Literatura infantil como gênero literário.

Com a necessidade de livros literários e de textos adequados para a compreensão e experiência de mundo dos pequenos leitores, aparece um novo mercado para as crianças, originados do clássicos para adultos. Por não haver propriamente uma leitura destinada aos pequeninos brasileiros, a solução foi ir de encontro com a tradição narrativa popular, ou seja, obras estrangeiras foram traduzidas, contos adultos foram adaptados e, então, o material literário escolar foi reciclado. Com as obras associadas à infância, os modelos europeus em nova dimensão, se abrem as portas para o novo alvo de consumo bibliográfico, as crianças.

Antes que o francês Charles Perrault e os alemães, irmãos Grimm, transcressem os contos para as crianças, transformando-as em literatura infantil, muitas das histórias conhecidas hoje como contos de fadas eram contadas para adultos e, hoje, são impossibilitadas de voltar à forma original, tamanha é a sua popularidade entre as crianças, jovens e adultos do mundo inteiro.

O Trabalho dos Grimm, Perrault e Andersen formou a adaptaçãode textos folclóricos, tais como mitos, lendas, cantigas, clássicos e os próprios contos de fadas

Os irmãos Grimm foram filólogos, folcloristas e estudiosos que abandonaram o magistério para investigarem sobre a literatura oral alemã, objetivando fundamentar para fundamentar o estudo da língua e de textos folclóricos da Alemanha. Na expressão cultural do povo, encontraram diversos contos folclóricos e outros conhecidos na infância do povo.

Enfim, o trabalho deles ultrapassou a intenção da pesquisa, pois o interesse nos contos populares se tornou algo muito maior. Baseado pela formação da infância, em prol da construção de um adulto capaz, o material, nomeado Kinder unde Hausmaerchen, Contos da Criança e do Lar, foi publicado em 1812 e traduzido para diversas línguas. Há muito tempo, até hoje, é reconhecido como um marco da literatura infantil.

É válido ressaltar que as fontes conhecidas pelo povo não são registradas, podendo, então, serem provenientes das edições francesas de Charles Perrault ou da Baronesa D'Aulnoy.

2. CARACTERÍSTICAS DOS CONTOS

Dos contos populares de tema adulto para a temática infantil, ocorre a correspondência do novo ponto de vista educacional, o qual exige dos materiais literários, um exemplo de comportamento para que seja passado para as crianças. A pedagogia da época perpassa pelos valores da burguesia, transmitindo a integração social, a imagem da família e sociedade bem definidas, a valorização do casamento, da livre iniciativa, do individualismo etc.

Este mundo maravilhoso surgiu na literatura da mesma maneira em que a literatura surgiu: um grande mistério. Sua principal característica é obter em suas histórias a presença de um espírito da natureza em comum: as fadas. Esta criaturinha, dócil e bondosa, é um ser sobrenatural que tem por função realizar os sonhos ou ideais dos heróis ou heroínas dos contos.

Este ser do mundo imaginário, a fada, pertence à mitologia e é capaz de realizar os sonhos ou ideais, inalcançáveis aos humanos em tão pouco espaço de tempo. Além dos mediadores do bem, os quais podemos aqui caracterizar a fada e sua varinha, por outro lado há também aqueles opositores, ou seja, os intermediários do mal, como gigantes, bruxas, feiticeiros, entre outras representações.

A principal característica do conto maravilhoso é que, ao desenrolar a história, geralmente seus personagens possuem motivo e motivação comuns, além do encantamento, que é parte fundamental, em que um ser sobrenatural interfere na história de maneira positiva ou negativa. Na verdade, esta é a função que o faz ser tão diferente das narrativas literárias que se tem conhecimento, pois quando parece não haver mais saída, surge a intervenção de uma fada para salvar o herói do grande conflito e mudar o seu destino.

O enredo envolve sempre a luta do bem contra o mal em que a solução é encontrada através do encantamento. Desta forma, o mal age sobre o bem, na intenção de prejudicá-lo, nasce

o grande conflito, até que o bem vence, o mal é castigado e todos serão "felizes para sempre". O enredo dos contos de fadas se baseia pela sequência narrativa dividida em episódios.

Deste modo, se pode destacar: a situação inicial, quando a tranquilidade reina e os personagens são apresentados, o protagonista, sua família, suas qualidades, suas carências, suas motivações e seu destino, o espaço e o tempo; os próprios personagens e suas características marcantes (bom ou mal); o conflito, quando parece não haver mais saída, geralmente é uma complicação na vida do personagem principal; solução do conflito com a intervenção da magia; e o desfecho (casamento, recompensa, reparação), sempre satisfatório.

A estrutura dos contos de fadas trazem sempre um problema ligado à realidade, que desequilibra a tranquilidade e a ordem dos personagens. No desenvolvimento, têm-se o clímax, o qual vai dar prosseguimento a um conflito gerado pela rivalidade entre o bem e o mal. A solução se dá no plano da fantástico com a intervenção da magia, quando a vida dos personagens voltam à ordem no desfecho da narrativa e todos seguem "felizes para sempre". Neste momento, há um retorno à realidade, mostrando que a fantasia tem suas funções eficazes no universo da literatura infantil, mas que não se pode viver neste mundo para sempre.

Neste tipo de narrativa, a magia, o herói e os seres mágicos são de suma importância. Os personagens são representados por herói, antagonista, fada, objeto mágico, heroína de acordo com a função de cada personagem. É válido acrescentar fatores interessantes ao enredo das narrativas fantásticas, tais como: afastamento, proibição, transgressão, recepção do objeto mágico, partida, provação do heróis, marca, reação do herói, deslocamento no espaço, reconhecimento do herói, transfiguração, reconhecimento, desenlace.

Todos os conflitos humanos são resolvidos através da fantasia e o para sempre "felizes para sempre" é uma maneira divertida e positiva de transmitir para as crianças uma visão otimista do mundo, mostrando problemas o enfrentamento e sua solução e, ainda, permitem participarem das aventuras, formularem suas perguntas e buscar suas respostas.

A função de "Era uma vez, num reino muito distante..." é justamente localizar a história fora do tempo e da localização, em um mundo sobrenatural. O tempo e a duração dos acontecimentos não são contados por lá e talvez, por isso, não seja cobrada fiel verossimilhança dos contos maravilhosos. Em um lugar onde tudo acontece de repente, o tempo e o lugar são apenas meros cenários de uma fantástica história vivida pelos personagens.

A dimensão do mundo fantástico carrega na sua narrativa um simbolismo muito significativo e contraditório: a dor e o amor, o medo e a felicidade, a vida e a morte. A revelação desta arte literária distancia em símbolos o bom e o mau. A dor, o medo e a morte são condições que distanciam as pessoas dos ideais comuns da humanidade, que são o amor, a felicidade e a vida. Neste contexto, é observável que as narrativas contam o relato do homem, seus desejos, suas expectativas, a superação do mal e a permanência do bem.

Os personagens centrais são o protagonista, o antagonista e o mediador mágico da história. Pode-se então caracterizá-los como o herói (protagonista), aquele que prova sua força, inteligência e bondade, podendo ser reconhecido como a personificação do bem. Já o vilão (antagonista), geralmente a bruxa, dramatizam as cenas com suspenses, armadilhas e crueldades contra o herói.

Apresentam príncipes e princesas como protagonistas da história  os heróis  que vivem problemas terríveis criados por seres malévolos  as bruxas  e, para isso, contam com a ajuda dos seres mágicos  fadas, magos, anões. Quando os protagonistas não são representados por seres símbolos de bondade, que buscam riqueza, poder e satisfação em geral, incluindo-se até alguns desvios de caráter, são malandros às vezes ladrões, são conhecidos como anti-heróis. Se podem tomar como exemplos Aladim e a lâmpada maravilhosa, O Gato de Botas, em As Mil e Uma Noites. O núcleo das aventuras é sempre de natureza material/social/sensorial.

Os seres maravilhosos, criados pela natureza, vivem em bosques ou florestas, se deslocam facilmente, independente da distância, interagem com naturalidade e não envelhecem. Este último aspecto se torna mais interessante porque um personagem maravilhoso é jovem ou não conforme seu caráter. A interação entre os seres ocorre na literatura como na vida real, na sociedade , mesmo que não vivam em perfeita harmonia.

Os personagens com poderes sobrenaturais têm suas origens nas narrativas orientais difundidas pelos árabes. Em especial as fadas, sem localização registrada no tempo ou no espaço, são caracterizadas pela tradição cultural como seres simbólicos da natureza que aparecem nos maiores momentos de conflitos da narrativa para usar sua varinha mágica em benefício do bem.

As fadas surgiram como personagens em novelas de cavalaria. Seu nome vem do latim "fatum", que significa fado. Deste modo, sua significação corresponde à maneira como a fada intervém na vida e no destino das pessoas. Há definições sobre ela que distinguem as fadas más, conhecidas como bruxas, ou demônios, ou as várias manifestações do mal. Estes, na verdade surgiram com o crescimento do cristianismo que, nestas manifestações populares, lendas, mitos e religiões ancestrais, mantinham distanciados o bem (céu) e o mal (inferno).

No gênero da fantasia, os seres fantásticos são os inspiradores diretos ou os personagens centrais das histórias. Contudo, os grandes papéis desempenhados por eles nos contos de fadas não impõem uma explicação para existirem. Com a naturalidade da narrativa maravilhosa, a história se passa no reino dos contos de fadas, independente de se existir a raça humana em seu conteúdo.

CONCLUSÃO

O conto de fadas possui estilo individual dentro do gênero literário por se tratar de um marco na literatura infantil, com características e personagens próprios deste tipo de narrativa. Entretanto, há de se atentar que para o entendimento de certos gêneros, entre autor e leitor, como os contos maravilhosos, o leitor deve se identificar com os personagens, não se prender ao tempo ou ao espaço físico, e sim à fantasia, que sempre devem trazer consigo uma pequena parcela de coerência.

Os contos das fadas, príncipes, princesas e bruxas ultrapassam qualquer tempo, história, sociedade ou cultura. Eles ainda encantam crianças e adultos, permanecem no imaginário pela sua atualidade em suas mensagens. Os seus principais e pioneiros autores, os irmãos Grimm, Andersen, Charles Perrault e, não menos importante, o povo, integraram-se às expectativas do leitor e levaram, levam e continuarão proporcionando esta viagem ao mundo da fantasia através da leitura.

NOTAS

1- Artigo orientado pelo Professor Mestre Raiff Magno, atuante da Universidade Veiga de Almeida.

2- Graduada em Letras pela Universidade Veiga de Almeida.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • BETELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. 13a edição. São Paulo:

Paz e Terra, 1999.

  • ROMÃO, Lucília Maria Sousa & PACÍFICO, Soraya Maria Romano. Era uma vez uma outra história: leitura e interpretação na sala de aula. São Paulo: Difusão Cultural do Livro, 2006.
  • SCHOEREDER, Gilberto. Fadas, Duendes e Gnomos: o Mundo Invisível. São Paulo: Editora Hemus, 1977.
  • ZILBERMAN, Regina. Como e Por que ler a Literatura Infantil Brasileira. 13a edição. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.
 
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Revisado por Editor do Webartigos.com


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Sobre este autor(a)
Nasci no Rio de Janeiro - RJ, em 1 de abril de 1984. Estudei no Colégio Pedro II durante o Ensino Fundamental e Médio e me graduei em Letras na Universidade Veiga de Almeida, onde concluirei minha especialização ao final deste ano, 2010. Minha linha de pesquisa é voltada ao ensino de Língua Portugue...
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