O uso da variedade não-padrão nas Aulas de Língua Portuguesa
 
O uso da variedade não-padrão nas Aulas de Língua Portuguesa
 


1 INTRODUÇÃO

O interesse em centrar este estudo no tema "A variedade não padrão nas aulas de Língua Portuguesa" (a partir de agora, LP) surgiu com o objetivo de averiguar como se tem trabalhado o ensino de língua pela perspectiva da variedade não padrão nas aulas de LP e se este ensino está pautado nas discussões referentes a conscientização do uso desta variedade.Alem disso, objetiva-se colaborar para a desmistificação da noção de "erro" na sala de aula, visto que o ensino se encontra inserido em um sistema educacional que privilegia o trabalho com a norma padrão estabelecida pela gramática normativa.

O presente trabalho também faz uma discussão a respeito de que o sujeito, por maior grau de escolaridade que tenha, não estará livre de realizar as variedades não padrão e a escola precisa respeitar tais variedades. Estas discussões estarão pautadas nos estudos sociolinguísticos realizados por alguns autores que apresentaremos no decorrer deste artigo, assim como os resultados obtidos por meio de questionários aplicados com docentes e discentes do ensino médio, no município de Itaberaba, perímetro urbano.

Para a realização deste artigo utilizamos como pressupostos teóricos o capítulo intitulado "Gerativismo" escrito por Eduardo Kenedy, que se encontra no livro Manual de Linguística tendo como organizador Martelotta e que traz uma discussão a respeito do desempenho linguístico. Discussão essa que contribuiu significativamente para a análise de questões surgidas no decorrer da análise do questionário.

Também trabalhamos com Bagno. Suas discussões foram imprescindíveis para a realização deste artigo, já que seus estudos foram importantes para o processo de ruptura dos mitos a respeito do ensino de língua materna, e do preconceito linguístico que, segundo o autor, são na verdade preconceitos sociais. Por isso ressalta que o educador deve ensinar também a variedade padrão em sala de aula para que o educando das classes desprivilegiadas tenham condições de competir com os discentes de classes privilegiadas, conforme citação a seguir:

Sou a favor do ensino da norma ? padrão para que os alunos oriundos das camadas sociais desfavorecidas (ou seja, a imensa maioria da população brasileira) possa ter como lutar com as mesmas armas dos alunos provindos das camadas privilegiadas. (BAGNO, 2004, p.60).


Uma outra autora em que embasamos nosso trabalho foi Antunes. Ela traz como contribuições as discussões a respeito do trabalho do professor de língua portuguesa em sala de aula, isto é, os principais equívocos no estudo de LP. A autora traz em seu livro intitulado "Aula de Português" discussões sobre a forma equivocada de como se tem trabalhado o ensino de LP no espaço da sala de aula; afirma que a leitura é reduzida a momentos de exercícios que não despertam o gosto pela leitura, assim como a escrita se resume à prática mecânica de memorização de regras ortográficas e a gramática, como sempre, é apresentada de forma fragmentada, a partir de frases inventadas e sem contexto, tendo como objetivo conceituar e memorizar as velhas e rançosas regras gramaticais.

A partir da análise desse trabalho, que às vezes ainda é feito em sala de aula, a autora propõe uma reflexão e organização de tal forma que contemple as ferramentas básicas da LP: a prática da leitura, a escrita, a oralidade e a reflexão a respeito do trabalho realizado sobre a gramática, para que o educando tenha uma formação eficiente.

Outra discussão que a autora faz, tem relevante importância para este artigo. Refere-se ao uso das variedades, seja ela padrão ou não padrão, pois cabe ao usuário da língua reconhecer as situações adequadas para a utilização de cada variedade linguística. A autora afirma que a norma culta não deve sobrepor as demais variedades da língua e sim, enfatizamos, deve ser usada adequadamente à situação.

E, para o enriquecimento teórico deste artigo nos aportamos também, à autora Bortoni-Ricardo, que em seu livro "Educação em Língua Materna" apresenta uma pesquisa referente a três movimentos, do rural para o urbano, do oral para o letrado e do regional para o supra-regional, mas o que de fato utilizamos como suporte para o presente artigo, foi a discussão que a autora tece sobre "o falar rural", bem como a importância e a conscientização para o uso das variedades não padrão, devendo o professor ter em sua prática uma postura reflexiva a respeito de tais variedades em sala de aula.

Pautadas nos teóricos supracitados, faremos uma problematizarão a cerca do ensino de Língua Portuguesa, mais precisamente sobre a variedade não padrão no espaço da sala de aula. Para tanto vale ressaltar que aplicamos um questionário para verificar se o ensino da LP tem contemplado as discussões a respeito da variedade não padrão. Teceremos comentários sobre a variedade rural que na escola é vista como sinônimo para a variedade não padrão, bem como a relevância de uma prática pedagógica de conscientização com os educandos para o uso das variedades padrão e não padrão dentro de um contexto.

Demonstraremos a partir da análise dos questionários aplicados, que em sala de aula já existe trabalho de conscientização a respeito do uso da variedade não padrão, assim como a adequação linguística desta variedade e concluiremos as discussões enfatizando que, a escola tem como papel fundamental, conscientizar o usuário da língua sobre as suas reais necessidades de uso, isto é, mostrar que cada usuário da língua deve adequá-la de acordo aos lugares sociais em que esteja inserido.

Para a escrita deste artigo realizamos uma pesquisa bibliográfica tendo como foco principal trabalhos publicados por autores da sociolinguística que discutem as variedades da língua. Esse tipo de pesquisa é imprescindível já que há uma necessidade de se ampliar os conhecimentos teóricos a respeito da temática em estudo. Como afirma Marconi e Lakatos (2001), a pesquisa bibliográfica é o primeiro passo que o pesquisador deve seguir para o desenvolvimento de uma pesquisa científica tendo esta a finalidade de propiciar ao pesquisador o acesso aos trabalhos escritos que abordem assuntos referentes à sua pesquisa.

Em seguida fizemos uma pesquisa de campo utilizando como instrumento o questionário para obtenção de dados, já que é um dos instrumentos mais utilizado e que propicia ao informante maior liberdade de expressar suas opiniões. Segundo Gressler (1989), o questionário é um instrumento rápido para a coleta de dados e não há muita pressão sobre o informante, pois não exigem resposta imediata. Dessa forma utilizamos deste instrumento que teve como informantes docentes e discentes do Ensino Médio. Dentre os docentes contamos com um informante do sexo masculino e quatro do feminino, e, quanto aos discentes foram nove do sexo masculino e vinte e um do sexo feminino.

A partir da análise dos dados obtidos com o questionário fizemos uma seleção minuciosa a respeito das informações prestadas, considerando as respostas que mais se aproximavam do trabalho sobre a variedade não padrão nas aulas de LP, e que se pode notar no decorrer da leitura deste artigo. Os dados obtidos foram significativamente importantes para a escrita do presente artigo, bem como para percebermos até que ponte os estudos sócio-linguístiocos estão presentes em sala de aula, mais precisamente os estudos a respeito da variedade não padrão nas aulas de LP.

Discutindo a variedade não padrão nas aulas de LP

O ensino de LP tem sido realizado de modo a privilegiar apenas uma variedade da língua - a padrão, em detrimento das demais variedades da língua. Essa prática tem provocado nos estudantes muitas angústias, levando-os a acreditar que não sabem a LP, sua língua nacional e materna na maior parte dos casos. Esta afirmação pode ser comprovada a partir da tabulação de dados do questionário aplicado para realização deste artigo em que discentes ao responderem ao questionamento: Você acha que sabe falar bem a Língua Portuguesa? "(1), respondem: "Não, tem palavras que eu me atrapalho para falar" e "(2) "Não na verdade eu não uso bem o português da gramática que é o indicado e sempre falo palavras incorretas".

O que pudemos analisar, a partir das duas falas supracitadas pelos alunos é que, na fala (1), o discente acredita não saber falar bem a LP pelo simples fato de se atrapalhar no momento em que faz a realização de "algumas" palavras. Mas, isso acontece por uma questão de desempenho linguístico deste falante, como afirma Martelotta et alli (2008). Já na fala (2), nota-se a perpetuação da crença do senso comum de que "o português correto", é o que está presente nos manuais de gramáticas normativas. O que fica explícito nas duas respostas dadas pelos alunos é a dificuldade deles em expressar-se em sua língua materna, o português. Isto está relacionado ao desempenho linguístico, bem como as regras que regem a gramática da LP, e não ao fato de não saber falar bem a LP.

Sabendo que essa é a língua em que eles se comunicam, ainda se nota uma hierarquia de valores entre as variedades da língua, isto é, a sala de aula ainda continua sendo o espaço de estigmatização da língua, uma vez que, ainda existem docentes com práticas metodológicas de transcrição da variedade não padrão para a variedade padrão, embora essa situação não tenha sidoi notada durante a aplicação do questionário,mas em outras situações, como por exemplo, durante os períodos de observação dos Estágios Supervisionados. Essa estigmatização ocorre principalmente no que tange a linguagem rural, como se essa única variedade pudesse abarcar todas as demais. A prática de transcrição de uma variedade ? estigmatizada- para a variedade de prestígio vai de encontro ao que muitos estudiosos da linguagem como Bagno e outros vêm pesquisando há muito tempo.

Na tentativa de desenvolver trabalhos a respeito das variedades linguísticas em sala de aula, tais professores se empenham erroneamente em trabalhar a variedade não padrão, trazendo como recursos pedagógicos trechos, por exemplo, de Patativa do Assaré ou tirinhas do Chico Bento , que apresentam a variedade rural para que os alunos passem para a norma padrão. Marcos Bagno (2007, p. 123) faz uma crítica a esse método afirmando que:
Se o Chico Bento passar a falar "segundo a norma culta", ele simplesmente deixa de ser o Chico Bento! A graça do personagem está precisamente no seu linguajar, na sua visão de mundo característica da cultura rural, no seu apreço pela vida do campo, entre outros aspectos. Se existe algum trabalho pedagógico interessante a ser feito com o Chico Bento, é precisamente o de valorizar as diferenças socioculturais que o personagem tenta encarnar (BAGNO, 2007, p. 123).

A partir do que Bagno afirma também pode-se notar fortemente em práticas pedagógicas, numa tentativa equivocada de se trabalhar as variedades linguísticas, A utilização do gênero textual canção, a partir das músicas de Luiz Gonzaga , estereotipando o falar rural como se esse falar rural pudesse retratar o caipira, o sertanejo, o nordestino, o matuto. Como se todas estas designações pudessem ser representadas em uma única categoria, no caso, o rural.

Dessa forma, a variedade lexical trabalhada pelos professores, às vezes, não tem muito a acrescentar aos alunos que acabam por acreditar que o uso da variedade supracitada é feio e errado, supervalorizando a norma padrão defendida pelos manuais de gramática em detrimento da outra. Esta postura acaba gerando nos alunos uma sensação de que o falar, obedecendo as regras da gramática normativa é que é certo, como podemos observar a partir da seguinte resposta obtida por meio do questionamento: O português correto é o da gramática normativa? Por quê? (3) "Sim, pois a gramática normativa é consequentemente o português correto". Fica explícito nesta resposta que o aluno não acredita que sua língua materna seja correta e isso talvez, seja fruto da educação que lhe foi atribuída no ambiente escolar, levando-o a crença de que somente a gramática normativa é que possibilita a aprendizagem do português "correto", isto é, legitimado.

O trecho supracitado do livro de Bagno (2007) mostra uma pedagogia coerente, em que os alunos serão levados a conhecer as diferenças linguísticas e acima de tudo respeitá-las e não as olhar com repugnância, mas como algo que é natural, de cada indivíduo. Segundo Bagno:

A atividade que manda ?passar para a norma culta? acaba se revelando, no fundo, tão preconceituoso quanto a atitude de discriminar o Chico Bento por falar tudo "errado". Porque se em um primeiro momento ocorre o reconhecimento da diferença, e um segundo momento, quando se pede a reescrita segundo a "norma culta" , essa diferença é transformada em deficiência, em algo que pode e deve ser "corrigido", e as formas consagradas pela gramática normativa é que terminam sendo enfatizadas como as que "valem" de verdade. E aí todo o nosso trabalho de reeducação sociolinguística vai pro brejo... (BAGNO, 2007 p. 123).

Uma outra proposta que Bagno (2007) traz é a de que deveríamos nos questionar se nas expressões de Chico Bento não existe nenhuma palavra que nós, da zona-urbana, não utilizaríamos, por exemplo, a expressão "Agora, já tá cheio di gaio!" (o limoeiro de Mauricio de Souza ? Bortoni-Ricardo (2004). Nessa expressão de Chico Bento, constam palavras que nós reproduzimos mesmo sendo da cidade, o (tá), quando na língua padrão é está, o (di) quando é de, (gaio), galho... Então esse discurso de que só há variação no repertório dos indivíduos rurais, cai por terra.

Um outro pensamento de Bagno que se faz relevante para essa discussão é que:

também é preciso evitar a prática distorcida de apresentar a variação como se ela existisse apenas nos meios rurais ou menos escolarizados, como se também não houvesse variação (e mudança) linguística entre os falantes urbanos, socialmente prestigiados e altamente escolarizados, inclusive nos gêneros escritos mais monitorados. (BAGNO, 2009, p. 41)


O reconhecimento das variedades torna-se muito mais gratificante aos educandos, a partir do momento em que lhes possibilita ter autonomia de utilizar das variedades conforme os lugares sociais onde possa empregar tanto a variedade padrão quanto a não padrão, desmistificando assim, a ideia que perpetua no senso comum de "certo" ou "errado" a respeito da língua. Antunes (2007, p.104) corrobora com a seguinte afirmação:

Existem situações sociais diferentes; logo, deve haver também padrões de uso da língua diferentes. [...] existem variações linguísticas não porque as pessoas são ignorantes ou indisciplinadas; existem, porque as línguas são fatos sociais, situados num tempo e num espaço concretos, com funções definidas, [...] a língua só existe em sociedade, e toda sociedade é inevitavelmente heterogênea, múltipla, variável e, por conseguinte, com usos diversificados da própria língua.
[...] nessa linha de concepção, a norma culta não deve ser endeusada, absolutizada, como um recurso suficiente ao sucesso da inteiração, nem tampouco ser rechaçada, como algo que se deve evitar para não parecer pernóstico, [...] Deve, sim, ser usada, adequadamente, quando a situação assim o exigir. (ANTUNES, 2007, p.104)


Embora ainda persista a ideia de que a "língua correta" é a encontrada nos manuais de gramática normativa, percebe-se que já existem discussões e trabalhos em sala de aula a cerca das variedades linguíticas. Podemos constatar a afirmação supracitada, com base na análise do questionário aplicado aos docentes quando em questionamento a respeito de como corrigir o aluno ao notar que ele faz uso de variedades não padrão, obtém-se como resposta o que se segue:

Tentamos repetir a sua fala usando a "variedade padrão para que ele descubra a diferença e buscamos refletir sempre em sala de aula, as duas variedades, e a consciência de que a variedade linguística existe, e que devemos usá-la de acordo o momento, o ambiente, a intimidade, respeitando assim, a fala de todo ser humano, pois vivemos em um país com uma pluralidade linguística e não podemos apontar o uso de variedades como certa ou errada.

O trabalho realizado por este docente está em consonância tanto com Antunes (2007, p. 104) no que tange a adequação de fala ao contexto, quanto ao que Bortoni-Ricardo (2004) considera como uma pedagogia culturalmente sensível aos saberes dos educandos, isto é, o modo ideal de se trabalhar com o uso das variedades em sala de aula. Segundo a autora, essa estratégia pedagógica está pautada em dois critérios, que são a identificação e a conscientização da diferença do uso das variedades não padrão em sala de aula. Essa identificação ficará prejudicada, caso o professor não reconheça ou não perceba a realização da variedade pelo aluno. A conscientização é recomendável para que o próprio aluno tenha autonomia de monitorar-se enquanto falante das variedades linguísticas, mas, essa conscientização não deve causar prejuízos ao processo de ensino-aprendizagem, isto é, o professor precisa perceber se o momento de conscientização é oportuno e se essa não vai interferir nas exposições das ideias apresentadas pelo aluno.

Acrescentamos também aqui que, a partir da análise dos questionários aplicados, tantos aos discentes quanto aos docentes verificou-se em ambos que a preocupação do professor estava mais voltada para a correção do uso da variedade não padrão na modalidade escrita da língua, do que na fala. E, para comprovar o que afirmamos acima, apresentamos aqui a resposta de um professor dada ao seguinte questionamento: Nas aulas de Língua Portuguesa como você corrige o aluno quando nota que ele faz uso de variedades não padrão? "Quando esse uso é apenas na fala, não os corrijo, contudo faço questão de reforçar que na oralidade as variedades podem existir, na escrita não."

Ao analisar a resposta dada por esse educador, notamos que a avaliação da variedade não padrão restringe-se apenas a modalidade escrita da língua, enquanto que na fala há uma omissão dessa avaliação. Possivelmente, esse professor agiu dessa forma por não se sentir seguro para fazer essa intervenção ou para não interferir no processo de ensino-aprendizagem, como afirma Bortoni-Ricardo (2005, p. 197) que:

Os alunos devem sentir-se livres para falar em sala de aula e, independentemente do código usado ? a variedade-padrão ou variedades não-padrão -, qualquer aluno que tome o piso em sala de aula deve ser ratificado como um participante legítimo da inteiração (BORTONI-RICARDO, 2005, p. 197).

2.1 Diante das variedades, como o aluno pode usá-las de forma consciente?

a prática da reflexão linguística é importante para a formação intelectual do cidadão; com isso, ainda existe lugar, em sala de aula, para o estudo explícito da gramática, desde que ele não seja visto como um fim em si mesmo nem como o aprendizado de um conjunto de dogmas, de verdades absolutas e imutáveis: a reflexão sobre a língua deve ser feita por meio da investigação de fatos linguísticos reais, em manifestações faladas e escritas autênticas, e por meio do confronto crítico entre as abordagens tradicionais e as teorias científicas mais recentes (BAGNO 2009, p.40).

O ensino da gramática de fato não deve ser trabalhado de modo tradicional como mostram os manuais de gramáticas. Nestes, por exemplo, nota-se a presença maciça de nomenclaturas bem como frases soltas e descontextualizadas, que não acrescentam praticamente nada ao desempenho intelectual e linguístico do aluno. Assim como o ensino da variedade não padrão, também não deve ser trabalhado de modo a omitir as dificuldades dos alunos conduzindo-os a uma comodidade, desencadeando assim um provável fracasso enquanto sujeito inserido no processo sócio-educacional.
Acreditamos que a escola deve dar suporte ao aluno no que tange ao uso das variedades, seja ela padrão ou não padrão, para que na sociedade ele tenha autonomia para fazer adaptações da linguagem aos diversos contextos sociais, formais ou informais em que este se encontra. Dessa forma, a escola possivelmente, estará oportunizando o discente para que não venha sofrer os estigmas recorrentes aos usos das variedades. E para que o aluno alcance essa autonomia, faz-se necessário que a escola aborde em suas práticas metodológicas, a heterogeneidade presente na língua, pois como sabemos, a língua é plural. Conforme Bagno (2004, p.59) "a escola deve dar espaço ao maior número possível de manifestações linguísticas, concretizadas no maior número possível de gêneros textuais e de variedades de língua: rurais, urbanas, orais, escritas, formais, informais, cultas, não-cultas etc".

Para abordar essa problemática apresentamos a seguir uma resposta fornecida por um docente sobre o uso significativo das variedades linguísticas em sala de aula.

buscamos refletir sempre em sala de aula, as duas variedades, e a consciência de que a variedade linguística existe, e que devemos usá-la de acordo o momento, o ambiente, a intimidade, respeitando assim, a fala de todo ser humano, pois vivemos em um país com uma pluralidade linguística e não podemos apontar o uso de variedades como certa ou errada.

A partir da análise da resposta obtida, nota-se que os docentes demonstram-se inteirados a respeito das discussões teóricas sobre o trabalho com as variedades linguísticas, pois com as respostas aqui apresentadas podemos perceber a preocupação destes docentes para com o uso consciente das variedades pelos discentes.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente artigo teceu uma discussão pertinente a respeito da variedade não padrão utilizada pelos alunos nas aulas de LP, pensando na relevância de se trabalhar com a linguagem do aluno que é natural e, que por tanto, é um campo fértil para as pesquisas sociolinguísticas. Realizamos um trabalho de cunho qualitativo, já que não fizemos uma contagem em número de quantas pessoas utilizam a variedade não padrão e sim buscamos averiguar como essas variedades são trabalhadas em sala de aula.
A utilização de questionário como suporte para desenvolvimento deste trabalho, foi bastante relevante, pois a partir das respostas analisadas notamos que os professores têm trabalhado em sala de aula utilizando-se das teorias sociolinguísticas tanto no que tange ao uso, quanto a conscientização das variedades linguísticas. Notamos ainda que os discentes demonstraram-se contemplados com as discussões a respeito do trabalho desenvolvidos pelos docentes, referente ao uso e a conscientização das variedades linguísticas. Para tanto, é necessário que o professor de Língua Portuguesa esteja sempre atualizando os estudos a respeito das teorias linguísticas e atente-se às discussões trazidas pelos teóricos da linguagem.

Reiteramos que a prática pedagógica que coloca o aluno para apenas transcrever textos da variedade não-padrão para a variedade padrão, sem mostrar para eles que é possível o uso das duas variedades a depender do contexto no qual ele faz uso torna-se inadequada, não levando os alunos a refletirem sobre as variedades linguísticas. Ao contrário, isto só faz fortalecer o mito de que o que vale a pena ensinar é a norma culta .

Portanto, tivemos apenas a intenção de manter acesa a chama que os sociolinguístas acenderam dada à pertinência da pesquisa sociolinguística na compreensão de questões de ensino, que estão imbuídos na proposta da variação linguística. Nesse campo foram muitos os caminhos trilhados os quais, sem sombra de dúvida, são primordiais para as pesquisas que virão, pois, tratar sobre variedade linguística ainda é um campo bastante fértil e muito se tem a desmistificar. O que temos bastante esclarecido é que sendo as pesquisas nessa área ainda recentes (há apenas algumas décadas dedicadas a elas), certamente tais esforços não se esgotarão em algumas poucas páginas.







REFERÊNCIAS

ANTUNES, Irandé. Muito além da gramática: por um ensino de língua sem pedras no caminho. São Paulo: Parábola Editorial, 2007.

_______________Aula de Português: encontro e interação. São Paulo: Parábola Editorial, 2003.

BAGNO, Marcos. Não é errado falar assim!: em defesa do português brasileiro. São Paulo: Parábola Editorial, 2009.

_____________Nada na Língua é por acaso: por uma pedagogia da variação linguística. São Paulo: Parábola Editorial, 2007.

_____________Português ou Brasileiro?: um convite à pesquisa. 4ª. ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2004.

_____________A norma oculta: língua & poder na sociedade brasileira. São Paulo: Parábola Editorial, 2003.

_____________Preconceito Lingüístico: o que é, como se faz. 42ª. ed. São Paulo: Loyola, 1999.

BORTONI-RICARDO, S. M. Educação em língua materna: a sociolinguística na sala de aula. 4ª. ed. São Paulo: Parábola editorial, 2004.

________________________Nós cheguemu na escola, e agora? : sociolingüística & educação. São Paulo: Parábola Editorial, 2005.

FARACO, Carlos Alberto. Norma Culta Brasileira: desatando alguns nós. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.

KENEDY, Eduardo. Gerativismo. In: MARTELOTTA, Mário Eduardo (org.). Manual de linguística. 1ª ed. São Paulo: Contexto, 2008, p. 127-140.

SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. 22ª. ed. São Paulo: Cortez, 2002.


 
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Sobre este autor(a)
Sou graduada em letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia, Pós- graduanda em Estudos Linguísticos e Literários, pela Universidade Federal da Bahia. Atualmente sou funcionária pública da Prefeitura Municipal de Ipirá, atuando na área da educação. Leciono Língua Portuguesa e Matemática do...
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