O TEMPO DE ONTEM NA VOZ DE HOJE: MEMÓRIA DE IDOSAS SERGIPANAS
 
O TEMPO DE ONTEM NA VOZ DE HOJE: MEMÓRIA DE IDOSAS SERGIPANAS
 


MONOGRAFIA



UNIVERSIDADE TIRADENTES
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS
CURSO DE HISTÓRIA





JOELMA CRISTINA SANTOS
NUBÝA REGINA DE FARIAIS DE OLIVEIRA
SUELLEN CAROLINY FERREIRA DA COSTA












O TEMPO DE ONTEM NA VOZ DE HOJE: MEMÓRIA DE IDOSAS SERGIPANAS












ARACAJU
2008



JOELMA CRISTINA SANTOS
NUBÝA REGINA DE FARIAIS DE OLIVEIRA
SUELLEN CAROLINY FERREIRA DA COSTA







O TEMPO DE ONTEM NA VOZ DE HOJE: MEMÓRIA DE IDOSAS SERGIPANAS









Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como exigência para a obtenção do grau de licenciatura História da Universidade Tiradentes.
Orientador: Prof.º Dra. Fabrícia Borges











ARACAJU
2008








































Dedicamos este trabalho primeiramente aos nossos pais, irmãos, amigos e a todos aqueles que contribuíram de forma direta e indireta para a realização deste sonho.





























Agradecer primeiramente a Deus, Senhor e mestre, criador de todas as coisas, pela sua presença marcante nas horas difíceis e nos momentos de incertezas, pois, seu amor nos impulsionou rumo aos nossos sonhos.

Agradecemos também aos nossos pais, pela realização deste sonho, pelo incentivo e também pelas vezes que nos consolou quando estávamos em meio a dificuldades. Esta vitória também é sua.

Aos nossos irmãos, sobrinhos, amigos e parentes, pelas palavras de ânimo e de incentivo que foram determinantes para buscarmos os nossos horizontes.

Somos muito gratos ao nosso orientador Prof. Dra. Fabrícia Borges, pela paciência, dedicação e acima de tudo pela disciplina e assistência exemplar a nós dada durante a elaboração do TCC. A você nossa gratidão e admiração.





SUMÁRIO


RESUMO................................................................................................................................ 05

INTRODUÇÃO...................................................................................................................... 06

REFERENCIAL TEÓRICO................................................................................................. 08

1.0 Condição Feminina...................................................................................................... 08
1.1 O Casamento e a condição da mulher....................................................................... 12
1.2 Educação e Profissionalização da Mulher................................................................ 20
1.3 As conquistas femininas no século XX...................................................................... 20
1.3.1 A mulher no mercado de trabalho................................................................. 20
1.3.2 A mulher e o direito ao voto............................................................................. 22
2.0 Narrativas e Memórias............................................................................................... 24
2.1 História Oral: definições de usos............................................................................... 25
2.2 História e Memória..................................................................................................... 27
2.2.1 Quadro Comparativo....................................................................................... 30
2.3 A Biografia e a Autobiografia................................................................................... 31

METODOLOGIA.................................................................................................................. 33

ENTREVISTAS..................................................................................................................... 34
1.1 Análise da entrevista 1................................................................................................ 34
1.2 Análise da entrevista 2................................................................................................ 36
1.3 Análise da entrevista 3................................................................................................ 39

ANÁLISE GERAL DAS ENTREVISTAS.......................................................................... 43

CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................................ 44

BIBLIOGRAFIA................................................................................................................... 47



RESUMO



O referido trabalho tem a finalidade de descrever e caracterizar a condição feminina nas décadas de 30 e 40 do século XX, a partir de narrativas de história de vida de três mulheres sergipanas.
Serão evidenciadas as características das relações afetivas das mulheres entrevistadas, apresentando como se davam o cortejo, o namoro e o casamento neste período de tempo. Também serão descritas as condições educativas e profissionais a partir das entrevistas com mulheres de 80 anos. Ainda será possível caracterizar a condição doméstica e familiar nas atividades de mãe e esposa, na época em questão, observando-se o domínio exercido pelo homem e o processo de submissão destas mulheres. Através deste trabalho será possível analisar as conquistas das mulheres ao longo do tempo, mais especificamente nesta época.

































INTRODUÇÃO

A condição da mulher, desde o início da era cristã até os dias atuais, foi de inferioridade em relação ao homem. A elas cabia o cuidado com a casa, a educação dos filhos e outras tarefas consideradas inferiores, de acordo com o modelo burguês do modernismo. Os homens sempre as dominaram. Inicialmente deviam obediência ao pai e, posteriormente ao marido que lhes era destinado.
A maternidade sempre foi a função primordial da mulher no matrimonio, na perspectiva de Mohamed. Ter e educar os filhos, além de servir ao marido, eram as únicas funções importantes da mulher, logo as que eram estéreis e as que não conseguiam se casar estavam relegadas ao desprezo e à discriminação na sociedade.
O presente trabalho tem a finalidade de descrever e caracterizar a vida em sociedade, sobre os aspectos educativos e profissionais, doméstica e familiar, condição feminina nas décadas de 30 e 40 do século XX, a partir de narrativas de história de vida de três mulheres sergipanas com mais de oitenta anos.
Serão evidenciadas as características das relações afetivas das mulheres entrevistadas, apresentando como se davam o cortejo, o namoro e o casamento neste tempo. Também serão descritas as condições educativas e profissionais a partir das entrevistas com mulheres de 80 anos. Ainda será possível caracterizar a condição doméstica e familiar nas atividades de mãe e esposa, na época em questão, observando-se o domínio exercido pelo homem e o processo de submissão destas mulheres.
Através deste trabalho será possível analisar as conquistas das mulheres ao longo do tempo,na sociedade, no lar e no trabalho nos anos 30 e 40 mais especificamente nesta periodo. As idosas que foram entrevistadas buscaram relembrar suas vidas, no entanto, ao rememorarem fatos de outrora, deixaram transparecer a experiência de vida que possuem e foi possível observar a visão que têm dos fatos que deixaram no passado, totalmente diversa da que tinham na época em que tais fatos se passaram. Segundo as mulheres entrevistadas neste trabalho, a condição da mulher nas décadas de 30 e de 40 do século XX era ainda de submissão ao homem, era inconcebível a idéia do trabalho fora do lar sob pena de ser considerada prostituta. Era dever das mulheres cuidar da casa e dos filhos e, ainda no caso das entrevistadas o plantio de roças. Apesar dessa submissão, as mulheres não deixam transparecer qualquer idéia de revolta, elas mostram-se bastante saudosas deste período de suas vidas e consideram os tempos atuais como desrespeitosos. Tanto no que se refere à relação entre pais e filhos, como em relação ao namoro e casamento. Observa-se, na fala destas mulheres uma preferência pela vida simples que levavam considerando as facilidades da vida moderna.
No primeiro capítulo é apresentada a condição feminina através do tempo. Evidencia-se a situação de desprestígio da mulher em relação ao homem e a discriminação que estas sofreram desde a Antiguidade Clássica. O casamento, como finalidade da vida da mulher e sua função de procriar, as discriminações religiosas e profissionais também são apresentadas para que se possa compreender a evolução dos direitos das mulheres através do tempo.
No segundo capítulo, trata-se da narrativa e da memória. Neste capítulo, são apresentados os conceitos e as características da narrativa oral. Também são caracterizadas a biografia e a autobiografia. A análise destes conceitos tornará possível a compreensão das narrativas das idosas que participaram desta pesquisa.
Este trabalho torna possível conhecer a condição feminina (a situação da mulher) no Brasil, mais especificamente em Sergipe durante as décadas de 30 e de 40, do século XX a partir das narrativas das histórias de vida de três mulheres sergipanas entrevistadas.


















REFERENCIAL TEÓRICO


1. CONDIÇÃO FEMININA

Para tratar da condição feminina é necessário se reportar ao passado e traçar um perfil das mulheres em sociedade desde os primórdios da humanidade até os dias atuais, numa tentativa de entender seus papeis na história.
De acordo com Beth (2008), a história desde a mais remota antiguidade traz o direitos entre homens e mulheres que vem percorrendo os séculos. na Antiguidade Clássica, a mulher era praticamente propriedade de seu marido, e seu principal valor estava em ser esposa, e ser esposa para ser mãe, para gerar herdeiros legítimos para o marido.
A mulher, na Grécia Antiga, na visão de Mocelin (2006), por exemplo, não tinha importância na vida pública: era incapaz juridicamente, tinha papel inferior na vida religiosa, não podia herdar, nem possuir. Trabalho feminino, por mais produtivo que fosse praticamente só beneficiava o homem, pois a mulher não podia enriquecer por conta própria.
Quase exclusivamente, segundo Mocelin(2006), só as cortesãs, as amantes dos poderosos, tinham certa liberdade e "se podiam dar ao luxo" de ter uma vida sentimental e intelectual, pois estavam a serviço do prazer do homem, e não de sua descendência, ou seja, a mulher/amante tinha privilégios justamente por ser amante e não pertencer à família, logo a sua moral, medida na época pela permanência no lar cuidando dos filhos, não seria abalada.
Ainda diz a mesma autora, no início da era cristã, a mulher era em tudo inferior ao homem. As mulheres eram praticamente excluídas da vida religiosa, os rabinos discutiam se a mulher tinha alma, homens judeus e greco-romanos agradeciam aos Céus por não terem nascido mulher.
Elas não eram consideradas testemunhas fidedignas, ter amizade com mulheres ou conversar com elas em público era escandaloso (mais por que a mulher era considerada um ser inferior do que para fugir da aparência do mal). Arriscando seu prestígio, e passando por cima desses "tabus", Jesus quebra esse comportamento machista, de acordo com o texto da bíblia,

- Conversa sozinho com uma mulher samaritana (para espanto de seus discípulos) quebrando dois preconceitos: o sexual e o racial (João 4.4-42);

- Tem amigas (Lucas 10.38-42; João 11.5,33 e 12.1-8) e seguidoras (Lucas 8.1-3; Marcos 15.40-41);

- É surpreendente que as mulheres, que eram consideradas testemunhas sem valor, sejam escolhidas como as primeiras testemunhas da ressurreição de Cristo (Marcos 16.1-7)

- Quando Jesus defende a indissolubilidade do matrimônio (Mateus 19.3-6), ele beneficia as mulheres, pois na época o homem podia se divorciar da mulher por qualquer motivo banal.

- Jesus, arriscando sua reputação, defende do preconceito uma mulher de vida pecaminosa (Lucas 7.36-48) e arriscando a vida, salva da morte uma mulher adúltera (João 8.1-11). É bom observar, que Jesus defendeu as mulheres, e não os pecados delas.

Ela muitas vezes mostra que é possível surpreender-se com os padrões bíblicos da submissão da mulher ao homem, diz Beth (2008). De acordo com Efésios (5.22-33), o texto bíblico trata das funções dentro do lar, onde o homem é o cabeça. Isto nada deprecia a mulher, pois o padrão de Deus é a mulher se submeter ao marido, como uma figura da Igreja se submetendo a Cristo.
Segundo Mocelin (2006), apesar de toda a discriminação da mulher no decorrer da história da humanidade, algumas mulheres mostraram-se importantes líderes de seus povos. Aqui se deve evidenciar o caso de Cleópatra, a rainha egípcia que dominava exércitos e comandava com mão de ferro o seu império, não se deixando dominar por qualquer homem.
Durante a Idade Média,a Contemporânea e a Santa Inquisição muitas mulheres, de acordo com o que fala Mocelin (2006), foram perseguidas e queimadas como bruxas. Mesmo as que foram posteriormente canonizadas como Santa Joana Darc e Santa Bárbara foram torturadas e mortas por se manifestarem contra o poder dominante dos homens de seu tempo.
Na visão de Duby & Perrot (1990), na Idade Média, a maioria das idéias e de conceitos eram elaborados pelos Escolásticos. Tudo o que se sabe sobre as mulheres deste período saiu das mãos de homens da Igreja, pessoas que deveriam viver completamente longe delas. Muitos clérigos consideravam-nas misteriosas, não compreendiam, por exemplo, como elas geravam a vida e curavam doenças utilizando ervas. A mulher para os clérigos era considerada um ser muito próximo da carne e dos sentidos e, por isso, uma pecadora em potencial, de acordo com ARAÚJO(2004: p. 52). Afinal, todas elas descendiam de Eva, a culpada pela queda do gênero humano. No inicio da Idade Média, a principal preocupação com as mulheres era mantê-las virgens e afastar os clérigos desses seres demoníacos que personificaram a tentação, as portadoras e disseminadoras do mal. Assim também pensava Santo Agostinho, "A mulher é um animal que não é seguro nem estável é odienta para o tormento do marido, é cheia de maldade e é o princípio de todas as demandas e disputas, via e caminho de todas as iniqüidades".
Ainda segundo Duby & Perrot (1990), a partir do século XI com a instituição do casamento pela Igreja, a maternidade e o papel da boa esposa passaram a serem exaltados. Villalta (1999) diz que, criou-se uma forma de salvação feminina a partir basicamente de três modelos femininos: Eva (a pecadora), Maria (o modelo de perfeição e santidade) e Maria Madalena (a pecadora arrependida).
O matrimonio vinha para saciar e controlar as pulsões femininas onde as mulheres tinham seus desejos mas, só podiam saciá-los, depois do casamento. No casamento a mulher estaria restrita a um só parceiro, que tinha a função de dominá-la, de educá-la e de fazer com que tivesse uma vida pura e casta.
Segundo Mohamed (2006), na concepção judaico/cristã, as mulheres eram consideradas como a causa e objeto do pecado, era portadora de entrada para o demônio. Só não eram consideradas objetos do pecado quando eram virgens, mães ou esposas, ou quando viviam no convento. Quando eram esposas não podiam vender nem hipotecar seus bens sem a autoridade e consentimento do seu marido.
As camponesas trabalhavam muito: cuidavam das crianças, fiavam a lã, teciam e ajudavam a cultivar as terras. As mulheres com um nível social mais alto tinham uma rotina igualmente atribulada, pois administravam a gleba familiar quando seus maridos estavam fora, em luta contra os vizinhos ou em cruzadas à Terra Santa. Atendimento aos doentes, a educação das crianças também eram tarefas femininas.
De acordo com Miranda (2006),

A única mulher tolerada na Igreja católica é a Virgem Maria, um arquétipo assexuado, mãe através somente do Espírito Santo, porque Maria não possui instintos. Em outras religiões cristãs não aceitam nem a Virgem Maria. Mas em outras, alguns padres e teólogos começaram a resgatar Maria Madalena, como uma apóstola mais próxima de Cristo e com seu próprio evangelho, obviamente ocultado por uma ordem religiosa patriarcal. Maria Madalena um arquétipo mais completo da mulher mística juntava sexualidade, natureza e espiritualidade.

Villalta (1999) observa que, os religiosos se apoiavam no Pecado Original de Eva para ligá-la à corporeidade e inferiorizá-la. Isso porque, conforme o texto bíblico, Eva foi criada da costela de Adão, sendo, por isso, dominada pelos sentidos e os desejos da carne. Devido a essa visão, acreditava-se que ela foi criada com a única função de procriar. Sendo originária de um pedaço do corpo de Adão lhe devia a vida e deveria ser dominada pelo homem.
Maria foi à redentora de Eva, que veio ao mundo com a missão de liberar Eva da maldição da Queda.Diz Villalta (1999) que, desenvolveu-se então a idéia de Maria era a mãe da humanidade, de todos os homens e mulheres que viviam na graça de Deus, enquanto Eva era a mãe de todos que morrem pela natureza. O culto a Maria se baseava em quatro pilares: a maternidade divina, a virgindade, a imaculada concepção e a assunção.
As mulheres eram encorajadas a se manterem castas até o casamento, ainda segundo Villalta(1999), se a sua opção de vida fosse o matrimônio. Porém, a melhor forma de seguir o exemplo de Maria era permanecer virgem e tornar-se esposa de Cristo, com base na idéia recorrente de que Maria era "irmã, esposa e serva do Senhor". Eva simbolizava as mulheres reais, e Maria um ideal de santidade que deveria ser seguido por todas as mulheres para alcançar a graça divina, caminho para a salvação. No entanto, como Maria era um ideal a ser seguido, inatingível pelas mulheres comuns, surge à figura de Maria Madalena, a pecadora arrependida, demonstrando que a salvação é possível para todos que abandonam uma vida cheia de pecados. Com essa imagem de mulher pecadora que se arrepende e segue o mestre até o calvário, Maria Madalena veio demonstrar que todos os pecadores são capazes de chegar a Deus.
Na visão de Arruda (1996), os três modelos difundidos por toda a Idade Média e Contemporânea (Eva, Maria e Madalena) deixam claro o papel civilizador e moralizador desempenhado pela Igreja Católica ao longo de aproximadamente mil anos de formação da sociedade ocidental.
Eva concentra em si todos os vícios que trazem símbolos tidos como femininos, como a luxuria, a gula, a sensualidade e a sexualidade. Todos esses atributos apareciam nela como exemplo. Maria representa todas as virtudes esperadas em uma mulher: santidade, submissão, conformação com os sofrimentos, virgindade, pureza de alma, entre outras. E como forma de salvação para a mulher, eles ofereciam a figura de Maria Madalena, a prostituta arrependida mais conhecida e que se submeteu aos homens e a Igreja.
Dessa forma, fica claro que a mulher que viveu neste período era controlada pela igreja e devia viver sob seus preceitos sob pena de perder o valor para a sociedade da época.




1.1 O Casamento e a condição da mulher através do tempo de ontem e Hoje

Segundo o que evidencia Del Priori (1989), o casamento representou sempre, na história da humanidade, um componente de socialização voltado aos interesses de sobrevivência econômica e política. A mulher, dentro do matrimônio, desde então esteve em situação de submissão em relação ao homem. A ela eram delegadas as funções domésticas que sempre foram consideradas inferiores ou de pouca importância.
Historicamente, a família no mundo ocidental se origina da família romana, onde o marido era o chefe, com poder incontestável sobre todos os membros de sua família, ou seja, filhos, filhas, noras e agregados. A decisão do "chefe" da família era para ser cumprida sem que se fizesse qualquer objeção.
À mulher, a única realização possível era o casamento e a maternidade, pois eram consideradas destituídas de mentalidade racional. Sua única vantagem era a maternidade, que lhe conferia a educação dos filhos, sempre sob a supervisão e autoridade do marido.
Sua educação restringia-se às prendas domésticas, à prática da virtude e da obediência ao futuro esposo. O namoro e noivado eram um ritual onde a jovem aprendia a ser submissa ao futuro marido, como fora ao pai.
A maioria das meninas era analfabeta mesmo, e as que estudavam não passavam das primeiras letras, mesmo nas classes mais abastadas. Chegava-se ao extremo de considerar que se estas meninas fossem alfabetizadas poderiam escrever para seus namorados ou amantes ou ainda ler coisas consideradas impróprias, assim, o mais correto era mesmo mantê-las analfabetas.
O aspecto mais impressionante na estrutura familiar vigente até poucas décadas, sempre foi o aparente conformismo ostentado pela mulher frente à condição de sujeição imposta pela lei e pelos costumes: crescia submissa ao pai e continuava pela vida toda submissa ao marido ? só trocava de senhor ? continuando "serva" do marido e dos filhos. É importante ressaltar que a mulher brasileira só adquiriu sua cidadania em 1932. No entanto, mesmo após este período, a mulher continuou sua trajetória de submissão e inferioridade.
Somente a partir da segunda metade do século XX, esta situação começou a se modificar quando as mulheres começaram a sair de casa para trabalhar fora, que começaram também a pensar em direito ao sexo, em salários iguais para funções iguais (até hoje não conseguido ainda, na prática) e na plena igualdade de direitos na sociedade.
A partir da Lei 4.121/62, em 1962, a história começa a mudar com a grande conquista que obteve a mulher que o Estatuto da Mulher Casada, que representou um marco histórico na luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres, no Brasil, cujo maior mérito foi abolir da legislação brasileira a incapacidade feminina, igualando-a aos silvícolas. Por essa Lei, também foram revogadas diversas normas discriminadoras.
Através desta lei, o estatuto ficou consagrado o princípio do livre exercício de profissão da mulher casada, permitindo que ela ingressasse livremente no mercado de trabalho, tornando-a economicamente produtiva, aumentando sua importância nas relações de poder no seio da família.
Ainda segundo a lei Estatuto não só corrigiu algumas restrições impostas à mulher casada como ainda ampliou seus direitos, como por exemplo, ao dar-lhe o usufruto de uma parte dos bens deixados pelo marido falecido e o direito real de habitação, o chamado usufruto vidual.
E ainda o estatuto concedeu à mulher desquitada a guarda dos filhos menores, ainda que houvesse sido considerada culpada na ação de desquite. Convém lembrar que nesta época ainda não havia o divórcio e a sociedade conservadora da época discriminava a mulher que tivesse desfeito ou feito desfazer o matrimônio.
Evidentemente, esse aumento de poder econômico da mulher, até então dependente totalmente do marido, trouxe importantes alterações no relacionamento pessoal entre os cônjuges. Trouxe não só a contribuição financeira para a renda da família, mas inseriu novas atribuições e modificações nos papéis do casal.
Com a introdução, em 1977, da Lei 6.515, do Divórcio, dando aos cônjuges a oportunidade de pôr fim ao casamento, privilegiou a mulher com a faculdade de manter ou não o casamento garantindo-lhe direitos até então inexistentes.
A Lei do Divórcio também substituiu o regime de comunhão universal de bens para o da comunhão parcial de bens e ampliou a equiparação dos filhos, qualquer que fosse a natureza da filiação, para os fins de sucessão hereditária. Dessa forma, filhos ilegítimos, resultado de uniões espúrias ou de concubinato, passam a ter os mesmos direitos que os legítimos em relação à paternidade e à herança.
Vale ressaltar que a Lei 6.515, também, que desde 1984 o Brasil é signatário da Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de Discriminação contra a Mulher, de 1979, da Organização das Nações Unidas, ratificando a Convenção com diversas reservas, afirmando que não aplicaria diversos dispositivos sob a alegação de ferirem dispositivos do Código Civil Brasileiro. Após a Constituição Federal de 1988 (a chamada Constituição Cidadã) tais reservas foram retiradas.
Atualmente, graças à autonomia plena da vontade da mulher para escolher e decidir sobre sua vida amorosa ou profissional, a família contemporânea se transformou no lugar em que os indivíduos que a compõem vão encontrar "conforto e refúgio para sua sobrevivência. É a chamada "família moderna" onde filhos oriundos de uniões anteriores convivem em um mesmo domicílio com os atuais companheiros(as) de seus pais e os possíveis irmãos destas uniões resultantes.
De acordo com o pensamento de SAMARA (1983. p.59), na época do Brasil colônia, a vida feminina estava restrita "ao bom desempenho do governo doméstico e na assistência moral à família, fortalecendo seus laços". O homem, por sua vez, tinha seu papel centrado na provisão da mulher e dos filhos, concentrando o poder de decisão na família.
Os encargos do matrimônio, no que se refere à manutenção do casal e proteção dos bens, cabiam, portanto ao homem. À mulher restava os cuidados com a casa e com a proteção e educação dos filhos.
Ainda SAMARA (1983) diz que, na verdade existiam duas situações bem diferentes no que diz respeito à condição da mulher neste período. Diferentemente das mulheres de elite, na maioria das vezes correspondentes ao estereótipo de mulher submissa e mãe dedicada (seguindo as normas de conduta difundidas pela Igreja e pela legalização do Estado), descrito anteriormente, as mulheres mais pobres, pertencentes às camadas populares, por outro lado, não correspondiam em sua grande maioria, ao tipo de família que estudos e pesquisas encontram como tipologia.
DEL PRIORE( 1989. p. 46) mostra que, "A realidade colonial era a de lares pequenos e famílias com estruturas simplificadas", sendo muito comum a existência de mães solteiras, que foram vítimas de exploração sexual e doméstica, traduzindo-se em humilhações, abandono e violência por parte do homem progenitor da criança. Assim, caracterizadas "como auto-sacrificadas, submissas sexualmente e materialmente reclusas, a imagem da mulher de elite se opõe à promiscuidade e à lascívia da mulher de classe subalterna, em regra mulata ou índia".
Em relação à questão da maternidade, segundo DEL PRIORE(1997), pode-se dizer que a história da maternidade resultante da sedução de mulheres sós, de estupros e de relações sexuais pré-matrimoniais seguidas de fuga de noivo, sendo essas mulheres transformassem mães solteiras, é um ponto importante para a compreensão da condição da mulher no campo materno.
DEL PRIORE (1997) coloca ainda que as frustrações, a humilhação advinda do abandono do companheiro e as angustias da gestação terminavam por constituir uma boa oportunidade para que a Igreja pudesse vender a idéia das vantagens do casamento. E muitas dessas mulheres correspondiam ao desejo do matrimônio, pois este era considerado como sinônimo de sonhada segurança e estabilidade econômica e moral: "Uma vez efetuados os passos da conduta amorosa, as mães solteiras invocavam, na medida de suas conveniências, valores como ' virgindade roubada' ou 'quebra de promessas de esponsais' para passar de um degrau ao outro: da sedução ao casamento. A Igreja então recompensava as 'arrependidas' com processos eficientes e rápidos que garantiam o seu objetivo institucional: difundir o casamento, dentro do qual se poderia 'educar cristãmente os filhos'. Explicita-se assim, a forma pela qual muitas mulheres esperavam criar seus filhos com a segurança mínima que só o casamento poderia garantir.
A autora citada coloca também que, devido à situação de desamparo e de falta de recursos enfrentados por mulheres que não se encontravam sob a proteção do matrimônio levava muitas vezes à situações extremas como o aborto e o infanticídio, além do abandono também da criança.
Segundo DEL PRIORE (1993), os diferentes ritmos de crescimento do mundo colonial repercutiam fortemente na condição de vida das crianças. Enquanto no campo, onde as transformações eram lentas, o abandono raramente ocorria e os enjeitados acabavam sendo adotados como 'filhos de criação'; na cidade, espaço de aceleradas transformações e desequilíbrios, não havia lugar para acolher os pobres e dar assistência ao enorme número de crianças enjeitadas.
Nas cidades, coube às câmaras e às Santas Casas o trabalho de acolhimento e criação de enjeitados. Nas Santas Casas instalava-se a Roda dos Expostos, onde os bebês eram deixados. Ainda a mesma autora mostra que uns dos motivos que levavam essas mães, na maioria solteira, a descartarem seus filhos, eram os chamados "motivos morais", a desonra, o estupro e a perda de virgindade e a gravidez sem o concurso do companheiro. A Roda dos Expostos procurava evitar os crimes morais, protegendo as mulheres brancas e solteiras dos escândalos, ao mesmo tempo oferecia alternativa à crueldade do infanticídio.
Dessa forma, é de se supor que muitos enjeitados no Brasil colonial fossem resultado das relações ilícitas de mulheres de condição social elevada, para as quais era fundamental a manutenção da honra. No entanto, é necessário lembrar que a mãe solteira ou concubina acabou sendo aceita nas cidades e vilas do século XVIII.
Segundo ela a escravidão e a miséria deixaram como herança séculos de instabilidade doméstica, o que levou as mães das camadas populares a improvisarem até mesmo as formas de amor e de criação dos filhos: uma prática comum entre as mães pobres consistia na distribuição de seus filhos entre parentes, amigas ou comadres para os criarem.
DEL PRIORE(1993), aborda ponto de vista oficial, mães que enviam filhos a outra família pareciam insensíveis e egoístas. No dia-a-dia, porém, a realidade era outra e não se via no abandono uma prova de falta de amor, mas sim era tido como um verdadeiro gesto de proteção e ternura, frente às enormes dificuldades materiais da mãe, que de forma alguma poderia garantir um futuro promissor aos filhos. Seria o abandono justificado através do amor maternal levado ao extremo.
A autora busca mostrar que os pontos de abandono menos freqüentes eram aqueles resultantes da morte dos pais, relacionados à insalubridade do meio urbano, maior densidade populacional, presença de muitos pobres mal alimentados e de estrangeiros portadores de doenças, acarretando altas taxas de mortalidade. Nesses casos, assim como no processo de distribuição dos filhos entre parentes, eram estes que passavam a tomar conta dos órfãos, como também as madrinhas e, no caso dos mais carentes, famílias abastadas os faziam agregados destas.
No que diz respeito à legislação referente ao abandono, é importante lembrar que enjeitar o filho não constituía crime, nem implicava a perda da posse: as mães, caso quisessem, poderiam recuperar o filho deixado na Roda ou entregue a outra família. É o que mostra a mesma autora. O mesmo não se pode afirmar quando o assunto é infanticídio e aborto, considerados criminosos, eram tidos também como práticas heréticas e demoníacas.
DEL PRIORE (1997) analisa a condição maternal da mulher no Brasil colonial, principalmente da mulher das camadas populares, inserida num cenário de extrema pobreza e luta pela vida, situação que se torna ainda mais crônica se a ela se soma a ausência de maridos e companheiros, deve desmistificar a relação da maternidade irregular e da ilegitimidade com a falsa idéia de promiscuidade atribuída à massa de marginalizados do mundo colonial.
A mulher branca na época do Brasil colônia é descrita de maneira submissa, passiva, ociosa, sujeitando-se à dominação do pai ou do marido. A mulher negra-escrava é vinculada à "educação" dos sinhozinhos e sinhazinhas, destacando-se a importância das amas-de-leite e das negras velhas como grandes contadoras de histórias.
Tanto a mulher índia, como a escrava e a branca eram vistas como objeto sexual do homem colonizador e proprietário da Casa Grande. De modo geral, é a imagem da mulher submissa, enclausurada, ignorante e educada dentro de um modelo de família patriarcal.
Submetidas a um regime de clausura, entre pais de uma severidade cruel e maridos ciumentos e brutais e dividindo o tempo entre os cuidados dos filhos, as práticas religiosas, na capela ou nas igrejas, e os serviços caseiros, não tinham nem podiam ter na Colônia uma condição intelectual diferente da que conheciam as mulheres em Portugal.
Para DEL PRIORE(1997), a situação tradicional de inferioridade em que a colocaram os costumes e as leis, a ausência de vida social e mundana e a falta quase absoluta de instrução (pois raramente aprendiam a ler e a escrever), davam-lhes essa timidez e reservas habituais que as faziam corar ao serem surpreendidas por estranhos ou as deixavam desconcertadas diante de hóspedes e forasteiros.
Os jesuítas, não se ocuparam da educação feminina em seus colégios. Na Igreja Católica, os ensinamentos centravam-se na religião e moral. Fora de seu âmbito, a educação feminina restringia-se ao aprendizado das boas maneiras e das prendas domésticas, excluindo-se do processo de educação da mulher a aprendizagem da leitura e da escrita.
A história tradicional retrata a mulher, bem como seu processo formação, neste período, como sendo amordaçada pelos princípios de obediência e submissão ao marido e à religião. Entretanto, segundo mostra Arruda (1996), nem sempre as mulheres foram retratadas como "passivas". Estudos recentes procuram romper com os estereótipos da reclusão e submissão consagrados pela tradição histórica. Nestes estudos, há uma opção por se recuperar a história de mulheres rebeldes e autônomas, certamente uma minoria, que em um primeiro momento não tiveram força suficiente para transformar sua forma de ver e viver o mundo em uma tendência dominante.
Na visão de SAMARA(1983), as mulheres de elite do Brasil colônia, educadas em conventos, eram senhoras de si mesmas: recusavam-se a obedecer aos regulamentos, desafiavam as autoridades eclesiásticas e as normas de comportamento estabelecidas para o sexo feminino.
Dias (1984, p. 75), percebe que desde a colonização, conforme foi constatado por as mulheres brancas de elite exerceram papéis de liderança social. Foram fundadoras de negócios, capelas, administradoras de fazendas e líderes políticos locais. Opondo-se, assim, à vertente tradicional, a autora afirma que a história das mulheres das classes dominantes, longe de ser uma "história de clausura e passividade", é uma história onde a mulher desempenha atividades de efetiva significação social.
A historiografia nova, sobre a condição feminina, tem questionado as imagens das mulheres presentes nos depoimentos de viajantes estrangeiros e consagrados pela historiografia, até a década de 70, onde são tratadas como mulheres oprimidas e subjugadas pelo poder do homem.
Esses estudos, entretanto, criaram algumas vezes outro estereótipo ? o da mulher ativa e rebelde. Buscando tornar visível a participação das mulheres na história, esquecem que muitas mulheres pobres ou mesmo da elite se sujeitaram efetivamente à dominação da sociedade.
DEL PRIORE (1989), mostra quando as mulheres foram retratadas como ativas e rebeldes, estas não se constituíram, antes da Primeira República, em um fenômeno social que colocasse, efetivamente em questão, a visão tradicional de mulher. O que se observa mais claramente é que esta rebeldia foi por vezes tolerada, como pequenos desvios e, por vezes, será desejada e absorvida socialmente, como necessária a uma reorganização social do Estado, sobretudo, durante a Primeira República.
Foi nesse período, mais precisamente na segunda metade do século XIX, que o saber médico formula todo um discurso de valorização da mulher em função do papel materno. Nesse momento, procura-se imbuir as mães de um sentimento de cuidado, proteção, carinho e amor, enquanto um sentimento natural, espontâneo e definido biologicamente pela sua natureza reprodutora. Em função desse sentimento natural, é atribuído à mulher o status de "guardiã do lar".
De acordo com ALMEIDA( 1998, p. 114-115) esse estereótipo criado sobre a mulher (mãe-esposa-dona-de-casapermaneceu até a Primeira República, sem muita alteração. A casa ainda era o seu espaço privilegiado, sendo qualificada pela "categoria de rainha do lar graças aos positivistas e higienistas dedicando-se integralmente à família e aos cuidados domésticos".
A preocupação com o casamento tornou-se muito importante para a mulher, pois, além de proporcionar uma realização pessoal, como já citamos, garantia o meio de sobrevivência e de atuação na sociedade.
Ainda segundo ALMEIDA( 1998, p.178), permanecer solteira no primeiro período republicano significava motivo de vergonha e escárnio. Assim, o destino da mulher solteira era permanecer na casa dos pais, cuidar deles na velhice ou dos próprios sobrinhos. Algumas, no entanto, "freqüentemente, refugiavam-se na religião e se tornavam a carola, observada com pena pela comunidade"
Percebe-se que nesse período, toda a educação informal dada à mulher, tinha o propósito de convencê-la do seu dever de participar da sociedade como alguém submissa ao pai, ou ao marido, obedecendo-os e respeitando-os. Como também, conformá-la à imagem idealizada pelo ideário dominante. Ela mesma seria incapaz de ter o domínio ou direção de sua própria vida. Convém ressaltar que a base da educação da época era a igreja.
Deste modo, a Igreja ensinava que a mulher deveria aceitar a natureza dada por Deus (a imagem de pureza, submissão e o exercício das atividades naturais como, cuidar da casa, do marido e dos filhos, bordar, costurar...) e, se a mulher se voltasse contra esta natureza, ela seria considerada rebelde em relação aos princípios "celestiais", portanto exposta como contestadora de tais ensinamentos doutrinários.
Desta maneira, qualidades peculiares entre Igreja e os positivistas: ambos vêem a mulher de uma forma preconceituosa, ainda segundo ALMEIDA (1998), inferior ao homem em direitos e conhecimentos. Em razão disso, as mulheres iniciaram um período no qual passaram a denunciar os princípios opressores dessas duas concepções (Católica e Positivista).
Pode-se observar ainda uma disputa entre Igreja e República, onde esse conflito ganhou expressão na imagem da mulher. Se por um lado ela era representada como a mulher que acolhe o novo regime ou como o próprio símbolo da república, como fizeram os revolucionários franceses, por outro, a Igreja identifica a mulher com a virgem Maria, aquela que deveria ser submissa ao lar, pura e voltada exclusivamente à criação de filhos, restrita da vida pública.
Então, a Igreja adota, segundo Carvalho(1990, p. 93/94),

Maria como arma anti-republicana. Houve um esforço deliberado dos bispos para incentivar o culto mariano, sobretudo por meio de Nossa Senhora Aparecida. A partir do início do século, começaram as romarias oficiais. Em 8 de setembro de 1904, Nossa Senhora Aparecida foi coroada rainha do Brasil [...] Não havia como ocultar a competição entre a Igreja e o novo regime pela representação da nação.


A Igreja formulou imagens que obrigaram a mulher continuar enclausurada no espaço doméstico, favorecendo a desigualdade entre os sexos.
RAGO(1985, p.65), diz que o discurso higienista também se voltou para a valorização do papel da mulher, representada pela figura da "guardiã do lar", permanecendo a visão de que "a mulher em si não é nada, de que deve esquecer deliberadamente de si mesma e realizar-se através dos êxitos dos filhos e do marido".
Portanto, a Primeira República é palco destas inquietações estabelecendo o vínculo entre higiene e educação. Somente com as mudanças no período de transição entre o século XIX e XX, melhores condições foram consentidas às mulheres.




1.2 Educação e profissionalização da mulher

Segundo Samara(1983), com o crescimento urbano, as novas exigências cobraram posturas diferentes diante das suas velhas funções, pois as ruas e praças das cidades necessitavam da presença feminina e por meio do crescimento do capitalismo, modelos europeus eram importados para a República, despertando novos pensamentos e imagens do ser mulher.
Como se pode observar, a mulher ocupou papéis tanto de submissão e obediência, como de rebeldia e autonomia. Nesse movimento, a visão historiográfica moderna, para a qual a mulher é tida como ativa e rebelde, se contrapõe à visão historiográfica tradicional de submissão e obediência, redundando dessa forma, em uma polarização de imagens e de enfoques teóricos. Tal movimento reflete, se bem que de forma dicotomizada, a coexistência de mulheres rebeldes e submissas vivendo em um mesmo espaço social.
A autora em ambas correntes historiográficas apotam contribuições importantes, embora tendam a generalizar sua versão particular de mulher. No entanto, é necessário conduzir as investigações em uma terceira via, que se cente nas tensões e negociações destas particularidades, explicitando a construção de uma realidade que permitiu, e ainda tem permitido, emergir um feminino cada vez mais complexo e plural em nossa sociedade.

1.3 As conquistas femininas no século XX

1.3.1 A mulher no mercado de trabalho

A história de lutas e conquistas de mulheres vem crescentemente assegurando direito à cidadania e legitimando o seu papel enquanto agente transformador.
Em 1918, Bertha Lutz publica na Revista da Semana uma carta denunciando o tratamento dado ao sexo feminino e propõe a formação de uma associação de mulheres. Quatro anos depois, em 1922, é constituída no Rio de Janeiro a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, sob sua liderança.
Segundo o Código Eleitoral pelo Decreto nº 21.076, Em 1932, o governo de Getúlio Vargas, após a Revolução de 1930, promulgou o novo Código Eleitoral, garantindo finalmente o direito de voto às mulheres brasileiras. Conquistado o direito ao voto, o movimento feminino não teve forças para superar a despolitização das massas femininas e a organização, que Bertha Lutz e suas companheiras tinham criado, quase desaparece.
O movimento feminista desencadeou uma onda de protestos em todo o mundo e, no Brasil, não foi diferente. Ainda na década de 60 e a pílula anticoncepcional foi importante para a libertação da mulher que, a partir de então, dona de seu corpo, pôde decidir se queria ter filhos ou não.
Na década de 70, as lutas femininas começam a ser mais populares e a discussão sobre a situação da mulher adentra o cenário da sociedade. A Organização das Nações Unidas (ONU) institui 1975 como o Ano Internacional da mulher , e assim, ressurge o feminismo no Brasil.
A autora aponta a luta da feminina ao longo das últimas décadas reflete a sua ousadia, o seu otimismo, a sua coragem para superar as desigualdades, enfrentando no dia-a-dia a reconstrução das relações entre o humano e a natureza.
Vivemos num tempo em que o rápido ritmo da mudança tecnológica provoca um cenário de mudança que terá impactos sobre todos, não importando qual seja o modo de vida. Mesmo depois de tanta luta, evidencia-se que nem sempre os direitos políticos, sociais, econômicos e civis beneficiam, igualmente, homens e mulheres.
De acordo com DEL PRIORE (1997), a incorporação é cada vez maior da mão de obra feminina no comércio e nas fábricas significou maior independência econômica da mulher e, conseqüentemente, abalou os laços da dominação do homem na família. Mas a inserção feminina no mercado de trabalho era vista por muitos como uma ameaça à ordem social, à moral, e à harmonia familiar.
A sociedade passou a considerar essas fábricas como "antros de perdição", "bordéis" e associava-se à figura da mulher trabalhadora, a prostituta, ou a passiva e indefesa potencial vítima de abusos sexuais por parte de seus superiores.
A autora evidencia que a mulher da classe média não era dada outra opção senão o mundo privado, da família e do casamento, pois se acreditava que casamento e trabalho feminino eram incompatíveis, nessa classe social; que as mulheres que tivessem a audácia de trabalhar fora perderiam a feminilidade ou aquelas, que se dedicassem ao trabalho, transformar-se-iam em mulheres duronas, frias, ou, quando bonitas, em melancólicas, incapazes de amar.
Para ela, no início do século XX, nesse processo de circunscrição do trabalho feminino a alguns tipos de atividade, abriu-se o mercado para o magistério. Esse passaria a ser trabalho preferencial de mulheres, pois a arte de lidar com crianças seria vista como extensão das atribuições do lar e, portanto, própria da vocação feminina.
Várias atividades profissionais eram vistas como um risco para as funções sociais das mulheres, e assim feminizarem-se algumas ocupações, como a assistência social, a enfermagem e o magistério, sob pretexto das características femininas de cuidado, sensibilidade, amor, vigilância, etc.
Profissões como as de secretária enfrentaram barreiras iniciais, mas são muitas as profissões que até hoje sofrem discriminação, ora por serem consideradas próprias do ser masculino, ora por serem tidas como profissões femininas.
É imperioso rever os espaços sociais, levando em conta as profundas transformações nos padrões de comportamento da atualidade, como, por exemplo, o atual índice de mulheres responsáveis pelo sustento familiar, que hoje gravita em torno de 27% das famílias brasileiras.
DEL PRIORE, (1989) observa que as mulheres estão cada vez mais dispostas a manterem seus ritmos, a continuarem lutando e garantindo no dia-a-dia, na rua, no sindicato, no trabalho, na família, no partido, sua identidade cada vez mais presente na construção da nova sociedade, solidária, de respeito às diferenças e fim das desigualdades.
Mesmo em momentos difíceis, trágicos e humilhantes, vão superando barreiras, dificuldades e preconceitos. Essa realidade da mulher clama por respeito pessoal e profissional, salários mais dignos, solidariedade, reconhecimento, enfim, por uma vida cidadã. A mulher sempre lutou pelo seu espaço na sociedade e pouco a pouco foi conquistando seus direitos: direito à educação, ao voto, a escolha de seu futuro. Hoje a mulher luta contra o preconceito, a exploração e o não-reconhecimento; o que se espera é que a sociedade brasileira deixe de lado seus valores ultrapassados e conservadores e possa valorizar e aceitar a mulher no mercado de trabalho pela sua competência, responsabilidade, inteligência, dedicação e luta.

1.3.2 A mulher e o direito ao voto

O direito a escolher os próprios governantes mobilizou mulheres de todo o mundo durante boa parte da primeira metade do século 20. Embora o voto feminino tenha sido objeto de discussão já na constituinte de 1890, à época, adversários da extensão do voto à mulher argumentaram que a mulher não tinha capacidade para o voto, pois seu valor no Estado era menor que o do homem, que esta proposta era anárquica, desastrada, fatal; que o voto feminino decretaria a dissolução da família brasileira.
No Rio Grande do Norte, em 1927, Juvenal Lamartine, candidato ao governo do estado, incluiu em sua plataforma a luta pelo voto feminino. Ao se elaborar a lei eleitoral do estado, Juvenal solicitou ao então governador, José Augusto Bezerra, a inclusão da emenda que constou das disposições transitórias: "Art. 77 das Disposições Gerais: No Rio Grande do Norte, poderão votar e ser votados, sem distinção de sexo, todos os cidadãos que reunirem as condições exigidas por esta lei". Aprovada a Lei nº 660, em 25 de outubro de 1927, várias mulheres requereram suas inscrições e, a 25 de novembro de 1927, o juiz interino, Israel Ferreira Nunes, manda incluir na lista dos eleitores a professora Celina Guimarães Vianna, que se torna a primeira eleitora, não só do Brasil, mas da América do Sul. As eleitoras compareceram às eleições de 5 de abril de 1928, mas seus votos foram anulados pela Comissão de Poderes do Senado.
O Código Eleitoral de 1932, durante o governo de Getúlio Vargas, finalmente, considerou eleitor "o cidadão maior de 21 anos, sem distinção de sexo...", posição ratificada pela Constituição de 34, apenas alterando a idade mínima para 18 anos. O código de 1932 permitia apenas que mulheres casadas (com autorização do marido), viúvas e solteiras com renda própria pudessem votar.
As restrições ao pleno exercício do voto feminino só foram eliminadas no Código Eleitoral de 1934. No entanto, o código não tornava obrigatório o voto feminino. Apenas o masculino. O voto feminino, sem restrições, só passou a ser obrigatório em 1946.
A primeira mulher escolhida para ocupar um cargo eletivo é do Rio Grande do Norte. Foi Alzira Soriano, eleita prefeita de Lajes, em 1928, pelo Partido Republicano. Mas ela não terminou o seu mandato. A Comissão de Poderes do Senado anulou os votos de todas as mulheres.
Segundo BETH (2008) em 3 de maio de 1933, médica paulista Carlota Pereira de Queiroz foi a primeira mulher a votar e ser eleita deputada federal. Ela participou dos trabalhos na Assembléia Nacional Constituinte, entre 1934 e 1935.
A primeira mulher a ocupar um lugar no Senado foi Eunice Michilles (PSD-AM), em 1979. Suplente, ela assumiu o posto com a morte do titular do cargo, o senador José Esteves. As primeiras mulheres eleitas senadoras, em 1990, foram Júnia Marise (PRN-MG) e Marluce Pinto (PTB-RR). Suplente de Fernando Henrique Cardoso, Eva Blay (PSDB-SP) assumiu o mandato dele quando o tucano se tornou ministro do ex-presidente Itamar Franco.
Em 1994, Roseana Sarney (pelo então PFL) foi a primeira mulher a ser eleita governadora, no Maranhão. Em 1996, o Congresso Nacional instituiu o sistema de cotas na Legislação Eleitoral ?que obrigava os partidos a inscreverem, no mínimo, 20% de mulheres nas chapas proporcionais. No ano seguinte, o sistema foi revisado e o mínimo passou a ser de 30%.
A primeira mulher ministra de Estado foi Maria Esther Figueiredo Ferraz (Educação), em 1982. Hoje, as mulheres não só estão à frente de vários ministérios como há uma Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres-chefiada por Nilcéa Freire, que tem status de ministra.


2. NARRATIVAS E MEMÓRIAS

O velho se interessa pelo passado bem mais que o adulto, mas daí não se segue que está em condições de invocar mais lembranças desse passado do que quando era adulto. Nesse momento de velhice social resta-lhe, no entanto, uma função própria: a de lembrar. A de ser a memória da família, do grupo, da instituição e da sociedade.
Em nossa sociedade estimamos um velho porque tendo vivido muito tempo, ele tem experiência e está carregado de lembranças, como então os homens idosos não se interessam apaixonadamente por esse passado, tesouro comum de que se constituíram e não se esforçariam por preencher, em plena consciência, a função que lhe confere o único prestígio que possam pretender daí em diante.
BOSI (1994, p. 51) diz que cabe ao idoso a lembrança do passado que faz reconstruindo as vivências experimentadas. Vê o passado com os olhos de hoje e não com a experiência que tinha na época em que o fato ocorreu. O inconsciente de cada um revive o passado dando a ele o valor de presente, ou seja, o idoso revive cenas que viveu ou assistiu a partir da sua vivência atual com a experiência de vida que tem no tempo presente.

Na maior parte das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e idéias de hoje, as experiências do passado. A memória não é sonho, é trabalho. Se assim é, deve-se duvidar da sobrevivência do passado, "tal como foi", e que se daria no inconsciente de cada sujeito. A lembrança é uma imagem construída pelo materiais que estão, agora, à nossa disposição, no conjunto de representações que povoam nossa consciência atual. Por mais nítida que nos pareça a lembrança de um fato antigo, ela não é a mesma imagem que experimentamos na infância, porque nós não somos os mesmos de então e porque nossa percepção alterou-se e, com ela, nossas idéias, nossos juízos de realidade e de valor. O simples fato de lembrar o passado, no presente, exclui a identidade entre as imagens de um e de outro, e propõe a sua diferença em termos de ponto de vista.

Os idosos são a memória da sociedade, pois recordam fatos antigos e mostram pontos de vista diversos da época atual. A memória dos velhos é exigida pela sociedade pois é atribuída a estes a necessidade de lembrar de fatos e ocorrências do passado que os indivíduos jovens não puderam ter acesso.
No que diz respeito à construção social da memória observa-se que quando um grupo trabalha em conjunto há uma tendência de criar esquemas coerentes de narração e interpretação de fatos, verdadeiro "universo do discurso" que dão ao material de base uma forma histórica própria, uma versão consagrada dos acontecimentos.
A memória poderá ser conservação ou elaboração do passado, mesmo porque o seu lugar na vida do homem acha-se no meio do caminho entre o instinto, que se repete sempre e a inteligência que é capaz de inovar.
A memória como função social é o momento de desempenhar a alta função da lembrança, não porque o interesse se desloca, as reflexões seguem outras linhas e se dobram sobre a experiência vivida.
Há uma memória voltada para a ação, feita de hábitos e uma outra que simplesmente revive o passado, parece ser esta a dos velhos, já libertos de suas atividades profissionais e familiares.
O velho é alguém que se retrai de seu lugar social e este recolhimento é uma perda, um empobrecimento para todos. Sem a memória dos velhos muito da cultura se perderia e as gerações vindouras não teriam conhecimento de fatos, usos e costumes que ajudaram a construir a sociedade da atualidade.

2.1 História Oral: definições e usos

A pesquisa em fontes orais apresenta pontos de vista individuais, segundo as falas dos entrevistados, que são legitimadas como fontes, e incorporam elementos e perspectivas que lhes são próprios, e que não são encontrados em outras práticas históricas porque trazem elementos tais como: a subjetividade, as emoções ou o cotidiano.
Segundo NORA (2008), a história oral é uma história construída em torno de pessoas. Ela lança a vida para dentro da própria história e isso alarga seu campo de ação. Admite heróis vindos não só dentre os líderes, mas dentre a maioria desconhecida do povo. Estimula professores e alunos a se tornarem companheiros de trabalho. Traz a história para dentro da comunidade e extrai a história de dentro da comunidade. Ajuda os menos privilegiados, e especialmente os idosos, a conquistar dignidade e autoconfiança. Propicia o contato ? e, pois, a compreensão ? entre classes sociais e entre gerações. E para cada um dos historiadores e outros que partilhem das mesmas intenções, ela pode dar um sentimento de pertencer a determinado lugar e a determinada época.
Em suma, contribui para formar seres humanos mais completos. Paralelamente, a história oral propõe um desafio aos mitos consagrados da história, ao juízo autoritário inerente a sua tradição. E oferece os meios para uma transformação radical no sentido social da história.
A história oral enquanto prática seria a história de vida de pessoas contadas por elas próprias. Apresenta a visão que estes indivíduos tiveram de acontecimentos ou ações das quais tomaram parte ou foram apenas meros espectadores. A narrativa por eles efetivada apresenta emoção e subjetividade características da narrativa oral.
Na visão de Ferreira & Amado (2002), a história oral se reduz a procedimento não metodológicos referentes à entrevistas, suas transcrições, manuseio e armazenamento do material, visto que, segundo os autores. Não possui os fundamentos da filosofia e do método necessários a pesquisa histórica. Assim,

Aos defensores da história oral como técnica interessam as experiências com gravações, transcrições e conservação de entrevistas, e o aparato que as cerca: tipos de aparelhagem de som, formas de transcrição de fitas, modelos de organização de acervo etc. Alguns defensores dessa posição são pessoas envolvidas diretamente na constituição e conservação de acervos orais; muitos são cientistas sociais cujos trabalhos se baseiam em outros tipos de fontes (em geral, escritas) e que utilizam as entrevistas de modo eventual, sempre como fontes de informação complementar. (...) A essas pessoas, entretanto, somam-se as que efetivamente concebem a história oral como uma técnica, negando-lhe qualquer pretensão metodológica ou teórica: ?A chamada ?história oral? não passa de um conjunto de procedimentos técnicos para a utilização do gravador em pesquisa e para a posterior conservação das fitas. Querer mais do que isso é ingressar no terreno da mais pura fantasia. A história oral não possui os fundamentos filosóficos da teoria, nem os procedimentos que [...] possam ser qualificados como metodológicos. Ela é fruto do cruzamento da tecnologia do século XX com a eterna curiosidade do ser humano.

Ainda segundo FERREIRA & AMADO (2002), a história oral seria uma metodologia de pesquisa como todas as outras, com trabalho ordenado e que coloca o pesquisador em contato com o entrevistado compondo teoria e prática no seu trabalho. Dessa forma, segundo as autoras,
Entre os defensores da história oral como metodologia situam-se as autoras desta apresentação e organizadoras do presente livro. (...) A divergência entre os que pensam como nós e os postulantes da história oral como disciplina reside em outro ponto: estes reconhecem na história oral uma área de estudos próprio e capacidade (como o fazem todas as disciplinas) de gerar no seu interior soluções teóricas para as questões surgidas na prática ? no caso específico, questões como as imbricações entre história e memória, entre sujeito e objeto de estudo, entre história de vida, biografia e autobiografia, entre diversas apropriações sociais do discurso.
Em nosso entender, a história oral, como todas as metodologias, apenas estabelece e ordena procedimentos de trabalho ? tais como os diversos tipos de entrevista e as implicações de cada um deles para a pesquisa, as várias possibilidades de transcrição de depoimentos, suas vantagens e desvantagens, as diferentes maneiras de o historiador relacionar-se com seus entrevistados e as influências disso sobre seu trabalho -, funcionando como ponte entre teoria e prática. Esse é o terreno da história oral ? o que, a nosso ver, não permite classificá-la unicamente como prática. Mas, na área teórica, a história oral é capaz apenas de suscitar, jamais de solucionar, questões; formula as perguntas, porém não pode oferecer as respostas.
As soluções e explicações devem ser buscadas onde sempre estiveram: na boa e antiga teoria da história. Aí se agrupam conceitos capazes de pensar abstratamente os problemas metodológicos gerados pelo fazer histórico. (...) Apenas a teoria da história é capaz de fazê-lo, pois se dedica, entre outros assuntos, a pensar os conceitos de história e memória, assim como as complexas relações entre ambos.


Quando realiza a pesquisa através de relatos orais o historiador deve trabalhar segundo suas técnicas próprias, mas também deve ter em mente dois outros procedimentos, tomados de empréstimo a disciplinas vizinhas: a sociologia e a psicanálise, visto que vai trabalhar com pessoas e torna-se necessário tais conhecimentos para melhor interpretação do que está dito nas entrelinhas do discurso dos entrevistados.

2.2 História e Memória

A discussão sobre a relação entre História e memória é um dos grandes debates teóricos a que se dedicam historiadores ao longo do tempo, pois envolve não somente os objetivos como também os fundamentos do trabalho histórico.
Atualmente, a maioria dos autores concorda que a memória não pode ser vista simplesmente como um processo parcial e limitado de lembrar fatos passados, de importância secundária para as ciências humanas. Não seria somente um trabalho de recordar o passado. Trata-se da construção de referenciais sobre o passado e o presente de diferentes grupos sociais, ancorados nas tradições e intimamente associados às mudanças culturais ocorridas em um determinado grupo social.
A história não tem mais a pretensão de estabelecer os fatos como realmente aconteceram. No entanto, persiste uma série de diferenças com relação a como considerar a memória para a construção de uma interpretação histórica. Dessa forma, uma maneira de entender a problemática é retomar o desenvolvimento do estudo da História e como foi sendo considerada a utilização de fontes tidas como registros memorialistas, como as fontes orais, ao longo do tempo. Segundo Tais registros, antes de serem consideradas como parte da história oral, denominação inadequada segundo Voldman in Ferreira &Amado(2002), não mais aceita nos dias atuais,
Não voltemos à expressão ?história oral?. Ela se tornou inadequada e só deveria ser empregada a título histórico, para qualificar o período historiográfico dos anos 50 aos 80. (...) Portanto, se a história oral é entendida como um método, ela deve incluir-se na história do tempo presente, e se ela serve para designar a parte pelo todo, a expressão deve ser abandonada em prol da história feita com testemunhas.


A história oral seria a história construída através de pessoas que presenciaram ou tomaram parte dos fatos. Seria uma construção testemunhal, os registros memorialísticos de fatos históricos ocorridos em um passado passível de recordação pelos mais idosos de uma comunidade.
A utilização de registros orais como forma de construir a história de um povo originou-se possivelmente na Grécia antiga. Desde então vem sendo utilizada por diversos povos ao longo do tempo. Apenas no século XVIII, quando a História passou ao status de ciência é que esta forma de coletar dados históricos passou a não ser mais considerada como uma fonte de dados segura para a pesquisa do historiador. As memórias, construídas a partir de subjetividades, não eram mais vistas como confiáveis para a produção do conhecimento científico.
A partir de meados do século XX, eventos históricos deixaram de ser vistos apenas como situados em uma linha do tempo para serem problematizados em função de um contexto mais amplo de rupturas, transformações sociais e mudanças culturais. Uma vez acontecido esse rompimento, a memória pôde entrar mais facilmente no rol de preocupações dos historiadores, já que "lembranças habitam, por excelência, longas durações", ou seja, estão ligadas a processos históricos mais amplos.
A partir dessa evolução é possível compreender o debate histórico entre dois grupos: os que consideram história oral como disciplina e o outro grupo que diz esta ser uma metodologia.
Segundo FERREIRA (2008), alguns pesquisadores consideram que a história oral é uma disciplina, que consiste em realizar entrevistas e publicá-las, como se aquilo fosse o resultado final do trabalho histórico. No entanto, outro grupo de pesquisadores considera a história oral é uma metodologia: "Trata-se de um conjunto de procedimentos usados para produzir depoimentos, que têm qualidades distintas de outras fontes orais como um programa de rádio ou uma entrevista para a televisão". O trabalho histórico pressupõe um conjunto de procedimentos que visa uma análise e um confronto de fontes e não apenas a publicação de uma entrevista.
Estas duas correntes de pensamento suscitam outro debate: história e memória. Estariam ambas em lados opostos, ou seja, contrapondo-se uma a outra. No entanto, não é real esta oposição. Ambas se completam e contribuem para uma melhor análise e reconstrução de fatos históricos. Principalmente em áreas de conflito étnico ou em áreas de registro de memórias traumáticas (guerras, etc) onde os fatos históricos podem ser recontados através dos registros orais de sua população que ajuda a preencher as lacunas deixadas pela história escrita e documental.
As narrativas orais se caracterizam pela inclusão de subjetividades e das emoções maiores ou menores daquele que narra. A narrativa oral busca complementar os fatos da história escrita. Na verdade, mesmo nos documentos históricos há partes confusas ou mesmo obscuras que somente a memória popular poderia completar ou esclarecer o sentido.
Para Caldas (2003), é possível trazer para o presente fatos do passados através da narrativa oral. Esta estratégia de narrativa desnuda as situações ocultas por preconceitos ou arbitrariedades e torna possível recontar a história sob o ângulo daqueles que dela fizeram parte. Ele diz,

Dobramos e desdobramos nosso passado nas dimensões do presente com palavras e maneiras de ordenar esses textos interiores como numa espécie de "texto de ficção": texto onde se integram indistintamente em sua armação virtual e dialética, a vivência, a imaginação, o desejo, as "estratégias narrativas"; juntamente com dinâmicos e estáticos cruzamentos seletivos sejam de palavras, de temas, de imagens, idéias, sonhos, significados; onde partes inteiras da vida, do permitido e do proibido, do vergonhoso e do indizível, do aceitável, do honroso e do desonroso, do falso e do verdadeiro, do significante e do insignificante, se interpenetram numa "única realidade", um "único texto" possível de ser dito "em condições normais": texto vivo e estereotipado, magma e signo, objeto e sujeito, tradição e singularidade, fundamento e fim de determinado vivido que jamais poderá ser novamente "visto exatamente como foi", o que seria naturalizar o "vivido e sua memória", naturalizar o "trabalho da memória", o texto, deixando de vê-los como práxis desdobrando-se em palavras e consciência possível. Principalmente porque a "memória" não acontece num espaço físico, mas numa dimensão metafórica do fora que vai para dentro e que, ao se desdobrar, aparece como encontro consigo mesmo, atualizando as dimensões do presente, da consciência e do corpo. Daí porque o referente em História não é a "memória", o "real", o "social", o "histórico" mas esse momento da interioridade textualizada, esse texto onde nasce, se movimenta e aparece o sujeito e seu mundo.
Na visão de CALDAS (2003), "a memória é composição, fluxo rítmico de anexação e criação, momento narrativo, momento textual: determinada ordem "escolhida", certa maneira de ler e dizer a experiência com e no vivido: é a experiência singular do sujeito ao dizer-se em movimento e relação". Seria a relação entre o vivido e o presente. Aquele que rememora fatos passados, mostra através de uma relação com o passado vivido, as experiências do ontem e do hoje, podendo estabelecer uma relação entre seus sentimento no momento em que vivenciou os fatos e o momento atual com a carga de experiência que este possui.

2.2.1 Quadro Comparativo 1
HISTÓRIA MEMÓRIA
Representação do passado Sempre presente e em contínua evolução
É absoluta É relativa
Demanda análise e discurso crítico Baseia-se na lembrança e no esquecimento
A história só se liga às continuidades temporais, às evoluções e às relações das coisas. A memória enraíza-se no concreto, no espaço, no gesto, na imagem, no objeto.
A história é a reconstrução sempre problemática e incompleta do que não existe mais. A memória é a vida, sempre carregada por grupos vivos e, nesse sentido, ela está em permanente evolução.
É universal. Pertence ao indivíduo ou a um grupo.

De acordo com NORA (2008) se pode comparar a história e a memória a partir da forma como cada uma recompõe fatos e ocorrências de um passado próximo ou distante.
A história estaria presa ao passado, a documentos escritos e passíveis de comprovação científica. A memória estaria em evolução como o próprio homem, não podendo ser comprovada cientificamente, pois se baseia em narrativas orais com a possibilidade de ser influenciada pela experiência de vida e do registro temporal do indivíduo.
Por ser passível de comprovação prima pela análise de dados e fatos comprováveis. A memória é limitada pela lembrança e pelo esquecimento do passado. Enquanto o histórico não se deixa influenciar pela temporalidade e pela subjetividade, acontece com a memória exatamente o contrário.
Dessa forma, a história está parada no tempo delimitado pela ocorrência do fato histórico. A memória estaria em contínuo movimento, animada pelos fatos posteriores, anteriores e pela subjetividade presente no discurso oral. Este discurso é facilmente influenciável o que deixa a memória em situação de inferioridade à história no que diz respeito à precisão e real descrição do acontecimento.

2.3 A Biografia e a Autobiografia

A Biografia é um gênero literário onde a história de vida de alguém é contada por outra pessoa. Etimologicamente, Biografia (grego: ²¹¿³Á±Æ¯±, de ²í¿Â - bíos, vida e ³Á±Æ® ? gráphein, escrever), seria então escrever sobre a vida de alguém.
É um gênero literário em que o autor narra a história da vida de uma pessoa ou de várias pessoas. De um modo geral as biografias contam a vida de alguém depois de sua morte, mas na atualidade isso vem mudando. Tem se tornado comum a biografia de pessoas vivas que contam suas vidas para que um escritor as transforme em texto.
Em certos casos a biografia inclui aspectos da obra dos biografados, numa abordagem muitas vezes de um ponto de vista crítico e não apenas historiográfico. Hoje é comum os escandalos provocados pela exposição de fatos desconhecidos ou ocultos da vida dos que são alvo textos biográficos, como por exemplo políticos, celebridades, esportistas, entre outros.
A autobiografia é a biografia escrita pela pessoa de quem a biografia fala, geralmente resulta de quando o autor procede ao levantamento de sua própria existência. O gênero da autobiografia inclui manifestações literárias semelhantes entre si, como confissões, memórias e cartas, que revelam sentimentos íntimos e a experiência do autor.
Na atualidade, quando vive-se a chamada "era biográfica" em que o interesse na vida cotidiana das pessoas comuns bem como das famosas cresceu enormememte, muitas pessoas conhecidas do grande público (as ditas celebridades) que desejam atender a essa demanda na forma de autobiografia, mas não tem habilidade literária, utilizam-se de um profissional Ghostwriter (traduzindo literalmente, escritor fantasma) que escreve a biografia em tom autobiográfico de modo que a autoria para a ser alegadamente da pessoa biografada.
Na biografia, a seleção dos eventos a serem apresentados é definida pelos outros, por isso, a objetividade é mais evidente que na autobiografia, em que a pessoa escolhe o que vai escrever sobre ela mesma. O autor da biografia busca evidenciar fatos em ordem cronológica de acordo com o propósito da obra. Nada do que é escrito é ordenado pelo biografado.
Outra característica tanto da biografia quanto da biografia é a veracidade dos fatos. Costumam ser narrativas não-ficcionais, ou seja, não são histórias "inventadas".
O relato dos fatos no texto autobiográfico aparece freqüentemente pontuado de lembranças, de um colorido emocional, que não é mostrado em outros tipos de textos. Predomina a subjetividade. O que é escrito depende da vontade, da escolha daquele que quer contar sua vida. O propósito da obra é delimitado pelo autor da autobiografia. Somente o que este quer tornar público aparece nesta obra.
A construção tanto do texto biográfico quanto do autobiográfico é baseada em verbos em sua forma pretérita. Na autobiografia ocorre com freqüência um maior número de figuras de estilo e construção, com predominância da metáfora. Isso se deve ao autor estar se autodefinindo e traçando seu trajeto emocional e cronológico ao mesmo tempo. Na biografia há a predominância de pronomes na terceira pessoa e na autobiografia predomina a primeira pessoa. Esses usos relacionam-se à maior ou menor objetividade do texto escrito.
De acordo com LEVI in FERREIRA & AMADO (2002), tanto a biografia quanto a autobiografia representam não somente uma pessoa e suas características pessoais, mas há a representação de um grupo social. Remetem ao meio, á época e ao contexto social presentes no período em questão. De acordo com o autor,

A biografia não é, neste caso, de uma pessoa singular e sim a de um indivíduo que concentra todas as características de um grupo. (...) a biografia conserva sua especificidade. Todavia a época, o meio e a ambiência também são muito valorizados como fatores capazes de caracterizar uma atmosfera que explicaria a singularidade das trajetórias de vida. A reconstituição do contexto histórico e social em que se desenrolam os acontecimentos permite compreender o que a primeira vista parece inexplicável e desconcertante.


O contexto histórico e social define, muitas vezes, uma trajetória de vida e pode explicar os fatos relatados na biografia. Torna-se assim, mais fácil compreender o que determinou os acontecimentos na vida da pessoa através do conhecimento do meio, do lugar e da história da época em que tal trajetória de vida teve lugar.










METODOLOGIA

O presente trabalho trata da condição feminina a partir da história de vida de três mulheres, no que diz respeito a diversos aspectos da vida destas mulheres sergipanas.
Para a realização desta pesquisa foi feito um levantamento bibliográfico, seguido de leitura e posterior fichamento do material pesquisado visando proceder a argumentação deste trabalho.
Em seguida, foram feitas entrevistas com três idosas, todas com 80 anos. Para tal fim foi utilizada a técnica da entrevista não estruturada, com características específicas: a entrevista narrativa. Segundo Bauer & Gaskell (2002) esta forma de entrevista foge ao esquema conhecido de perguntas e respostas e emprega um tipo de comunicação cotidiana, o de contar e escutar histórias. O entrevistado usa sua própria linguagem e fala sem a interrupção do entrevistador. Traços da condição feminina da época a ser analisada foram privilegiados nas falas destas mulheres.
O passo seguinte foi a análise das entrevistas. Foi feita a conversão dos dados através da transcrição detalhada do material verbal. Depois procedeu-se o processo de redução do texto e a paráfrase do mesmo. Na verdade a entrevista narrativa privilegia a realidade do que foi experienciado pelas entrevistadas, ou seja, o que é real para estas senhoras. Através da fala das idosas foi possível reconstruir a condição feminina na época em questão.
Depois da análise dos dados contidos nas entrevistas realizadas com as idosas, teve início a argumentação confrontando os dados colhidos com o referencial teórico sempre levando em conta os objetivos do trabalho.











1.0 As Históriais Narradas



1.1ANÁLISE DAS ENTREVISTAS ? 1



Ana tem 80 anos é viuva. Ela nasceu em um interior de japaratuba chamado Marimbondo, morava no interior com seus pais, quando o pai dela faleceu ela tinha 5 anos de idade, e foi ai que começol a trabalhar para ajudar a mãe com as despesas da casa.


Condição Doméstica e Familiar nas Atividades de Mãe e Esposa


Segundo Dona Ana seu convivio com seus pais foi muito poucos quando ela tinha 5 anos o pai faleceu, ao que foi sufoco porque a mãe dela ficou com 5 filhos para acabar de criar, foi daí que ela começou a trabalhar para ajudar a mãe a criar os outros irmãos; "Quando eu fiz 7 anos a mãe disse que a comida ela arranjava mais roupa causado cada uma ia ter que trabalhar para conseguir então eu tinve que trabalhar"

Segundo ela depois que se casou ficou dependente do marido, porque ele não queria que ela trabalhasse mias, depois ela comprou um terreno para ajudar a ele, construiu um sitio nesse terreno, construiu também a cassa que mora e outra no interior de Japaratuba que era da mãe dela. "Para eu poder comprar esse sitio, eu morava na cidade nova, então o meu marido comprou esse sitio, porque o dinheiro que meu marido ganhava como bombeiro era pouco ai não dava pra pagar o sitio, então eu começei a plantar mandioca e bananeira, as mandiocas arrancava para vender ao povo do sobrado para fazer saroio, massa da tapioca, eles vendiam nos casuas, pra repor o dinheiro pra pagar o terrreno que eles compram".

Segundo ela teve 4 filhas e foi morar no sitio, esse sitio era nos parque dos faróis que de primeiro se chamava palestina de fora; para poder pagar esse sitio segundo ela nos primeiros meses, foi um sufoco. "Vivia comendo mal, por exemplo comia maxixe, quiabo no feijão, com custela de boi, com couro de toicinho, isso tudo para poder ter alguma coisa na vida, para conseguir pagar o terreno."

De acordo com ALMEIDA( 1998, p. 114-115) esse estereótipo criado sobre a mulher (mãe-esposa-dona-de-casapermaneceu até a Primeira República, sem muita alteração. "categoria de rainha do lar graças aos positivistas e higienistas dedicando-se integralmente à família e aos cuidados domésticos".

Relações Afetivas (cortejo, namoro e casamento)

Segundo Dona Ana quando ela tinha 19 anos, ela conheceu o marido aqui em Aracaju ele era filho da terra de Santo Amaro das Brotas, agora se criou em Maruim e depois veio pra Aracaju, ele era bombeiro, casaram e moram em Aracaju, moraram na rua: Porto da Folha, depois foram pra cidade nova, tem pouco tempo que ele faleceu, vai fazer 3 anos que ele faleceu. "A convivência de nos dois era uma maravilha, parecia uma alma em um corpo só".

Segundo ela o começo da vida ao lado do seu marido foi boa a primeira coisa q ele fez foi que ela saiu da cozinha dos outros e fui construir a sua própria vida, ela teve 11 filhos, mais só se criaram 6 porque os outros morreram, então segundo Dona Ana , ela nunca brigou com ele, nunca ciumol dele, nunca chamol nome, nunca foi agreciva com ele, nem ele com ela. "Ajente se respeitavam e se amamos muito era tudo uma maravilha".

De acordo com o pensamento de SAMARA (1983. p.59), na época do Brasil colônia, a vida feminina estava restrita "ao bom desempenho do governo doméstico e na assistência moral à família, fortalecendo seus laços". O homem, por sua vez, tinha seu papel centrado na provisão da mulher e dos filhos, concentrando o poder de decisão na família.

Educação e Profissão

Segundo Dona Ana todos seus filhos tiveram oportunidade de estudar, todos estudaram em quanto eles quiseram, "Eu sempre aconcelhava minhas filhas para estudarem para ter alguma profissão como por exemplo: queria muito que uma das minhas filhas fossem enfermeira, ou formada mais elas não quizeram saber de estudar, começaram logo sedo a namorar."

Segundo ela os filhos também trabalhavam na roça, mais Dona Ana quando trabalhou na roça ela estudava na palestina, tinha uma professora que ensinou a ela ler e escrever e contar, ela tem 80 anos de tristezas e alegrias, ela gosta de passear, gosta de folia, gosta de tudo.
Segundo Dona Ana trabalhava no canavial, nas casas de farinhas no interiot de japaratuba, mais quando ela vaio para Aracaju começou a trabalhar em casa de família.Trabalhando nas cozinhas tomar conta de menino e de menina em Japaratuba também.
"Quando eu começei a trabalhar em casa de família eu tinha 6 anos de idade, eu era tão pequena que passava ferro em cima de uns tijolos, o ferro era a carvão não era ferro elétrico, passava ferro nas fraudas,eu aprendeu a conzinhar com a dona da casa que eu trabalhava".

Segundo ela trabalhava no canavial ela e mais dois irmãos, comersava atrabalhar de 8 horas as manhã até meio dia (12:00) ia pra debaixo de um pé de ingazeira e ficava comendo bóia-fria lá debaixo da ingazeira, voltava a trabalhar de novo as 13:00 (uma) e saia as 17:30 (cinco e meia), ela não gostou muito de trabalhar em casas de família quando tinha a idade de 5 para 6 anos, ai ela buscou outra opção que foi o canavial, no canavial trabalhou durante muito tempo, depois do canavial trabalhou nas cassas de farinha, fazendo farinha.

Segundo a autora Berna Lutz ela faz um contraponto mostrando que hoje se pode observar, a mulher que ocupou papéis tanto de submissão e obediência, como de rebeldia e autonomia.


1.2 ANÁLISE DA ENTREVISTA ? 2


Breve História:

D. Maria dos Santos nasceu e se criou na cidade de Lagarto. Filha de pais pobres e mesmo assim foi muito bem criada e nunca faltou nada. Sua mãe era parteira e doceira e seu pai era autônomo e trabalhava na roça.
Ela estudou e se formou em escola pública na cidade de Lagarto.Casou-se aos dezessete anos e teve sete filhos.Passou á trabalhar dando aulas nos interiores pelo município e pelo estado.
Hoje está aposentada, e muito disposta, faz natação, hidroginástica, dança, crochê, etc. Tem saúde pra dar e vender. E adora viajar, mas também sempre tem um tempinho para ir á missa aos domingos, pois sua religião é católica.

Relações Afetivas ( Cortejo,namoro e casamento)

Segundo Dona Maria dos Santos o namoro de antigamente era muito simples, pois em três meses ela namorou ,noivou e casou, pois assim ela diz: "que hoje é uma pouca vergonha". Segundo ela pouca vergonha é não ter respeito, as moças não casam virgens, os casais de namorados parecem marido e mulher, os namorados madam e exigem sobre as namoradas.
No tempo de D.Maria era raro uma moça fugir ou casar-se grávida, e quando isso acontecia era como uma "bomba" na cidade, ou seja, a população ficava surpresa. Ela fala que até nas novelas ninguém viam essas poucas vergonhas.
Ela casou-se aos dezessete anos no ano de 1947, na cidade de Lagarto e teve dois filhos lá, depois foi que veio morar em Aracaju no ano de 1950, e teve cinco filhos. "Já completou sessenta anos de casada, de companheirismo e respeito diz ela".
Bosi(1994, p. 51) diz que cabe ao idoso a lembrança do passado que faz reconstruindo as vivências experimentadas. Vê o passado com os olhos de hoje e não com a experiência que tinha na época em que o fato ocorreu. O inconsciente de cada um revive o passado dando a ele o valor de presente, ou seja, o idoso revive cenas que viveu ou assistiu a partir da sua vivência atual com a experiência de vida que tem no tempo presente
O esposo de D. Maria trabalhava como autônomo e depois ficou em uma fábrica de cimento como mestre de obras. Ela trabalhava como professora de Artes. Hoje os dois estão aposentados e saudáveis.Como diz ela :" somos duas crianças felizes graças á Deus".

Condições Educativas e Profissionais

D. Maria estudou até o quarto ano, pois o quarto ano naquela época já era formada. Quando ela veio morar em Aracaju, ela fazia curso no SESC e no SENAC. Contudo, tendo o certificado de bordado na máquina e entre outras, sendo assim, ela passou a dar aulas no interior pelo município e pelo o estado, só passava três meses em cada cidade, tal quais: Estância, Simão Dias, Própria, Laranjeiras, Nossa Senhora do Socorro, Dores, Glória e no povoado Colônia 13 no município de Lagarto. Sendo professora de artesanato, também fazia horas extras para aumentar a renda da sua família.
Segundo D. Maria dos Santos criou seus filhos com muita disciplina e respeito, pois assim ela comenta que quando chegava uma visita em sua casa ela não passava vergonha. Pois, só bastava olhar pra eles, que ficavam quietos, ou iam brincar. Já os netos ela relata que a criação deles foi muito diferente de seus filhos, porém ficam muito á vontade e não respeita os pais e nem as avós, por isso a criação dos filhos de hoje é um absurdo. As professoras na escola temem em falar algo referente a certos assuntos com os alunos, devido a má criação das crianças.
Devido à ótima criação de seus filhos, eles respeitavam os pais, pois não chamava nenhum tipo de nome feio. O ensino de antigamente era mais exigente e rigoroso, ou seja, os alunos eram mais disciplinados. Sendo um dos fatores para esta causa eram a sabatina e a tabuada, que era tomada quase todos os dias.

Condições Domésticas e Familiares

Relata D. Maria dos Santos que não sabia fazer nenhum serviço doméstico, quando se casou. Pois quando se casou ficou morando na casa de sua mãe. Só depois que a mãe faleceu foi que a mesma começou a ter responsabilidade de uma casa: lavar, passar, cozinhar e etc... Sendo a sua rotina cuidar da casa e depois fazer seus artesanatos: crochê, tricô, rende dê, pinturas e outros. Segundo ALMEIDA( 1998, p.178), a Igreja ensinava que a mulher deveria aceitar a natureza dada por Deus (a imagem de pureza, submissão e o exercício das atividades naturais como, cuidar da casa, do marido e dos filhos, bordar, costurar...) e, se a mulher se voltasse contra esta natureza, ela seria considerada rebelde em relação aos princípios "celestiais", portanto exposta como contestadora de tais ensinamentos doutrinários.
Ela retrata também do convívio que teve com os seus filhos. Cita que acha um desrespeito e uma pouca vergonha, tomar banho com os filhos. Não é favor, mais acha bonito, pra outras famílias, mas não com a dela. Por conseguinte, seus filhos o respeitam e obedece. Até hoje pedem a benção aos pais, devido a criação que teve sem ser preciso espancar e nem maltratar.
"Com muita felicidade ela fala de seus filhos, e principalmente da sua filha Aninha, diz:" no meu ventre eu criei uma criatura maravilhosa e tão abençoada". Porém, devido a educação e respeito tida aos filhos de D. Maria, gerava uma espécie de inveja e preconceito, pois os amigos de seus filhos diziam que: não pediam benção aos pais, e ficam mangando, chamando de cafona de atrasado e etc.
Entretanto, D. Maria, tratou seus filhos com carinho, atenção, dedicação, respeito, etc. Porém sem abandonar seus filhos, pra eles não ficarem traumatizados e sem mágoas. Assim diz:" que é feliz graças á Deus". Sendo uma família feliz e unida. Sempre um ajudando o outro.


1.3ANÁLISE DA ENTREVISTA ? 3


Dona Prazer tem 81 anos é viúva mora em Aracaju Sergipe. Ela nasceu em Santo Amaro das Brotas onde morava com seus pais. seu pai morreu quando eu tinha 8 anos daí tive que trabalhar muito cedo pra ajuda sua mãe no sustento da casa pois eu era a mais velha dos seus irmãos.


Condição Domestica (Familiar nas atividades de Mãe e Esposa)

Segundo dona prazer seu inicio de vida foi muito difícil porque naquele tempo era tudo muito difícil de si arranja, tudo começou quando seu meu pai faleceu daí seus irmãos tiveram que trabalhar pra ajudar sua mãe no sustento da casa. Sua família era muito boa graças a deus sempre tiveram em ordem de pobre tudo do bom e era muito decente Naquele tempo segundo ela sua vida era muito sofrida porque ela tinha que trabalhar pra ajudar sua mãe. "Minha infância foi muito difícil porque tive que trabalhar né daí não vivi quase nada minha infância minha filha...".

Segundo ela sua vida foi de trabalhar na casa, fazendo panela de barro, pescando, mas também estudava. Festas só no natal e danças só uma veizinha no ano, por isso que ela trabalhou muito e não teve muitas festas pra ir. Antigamente ela fala que não existia medico, pois morria gente e não sabia o que era medico e a diferença de antigamente pra hoje é que existe medico, o povo vai as festas que tinha em vez em quando e agora tem festa todo dia.
"... A condição da mulher sempre foi de inferioridade em relação ao homem. A elas cabia o cuidado com a casa, a educação dos filhos e outras tarefas consideradas inferiores".

Segundo ela naquele tempo tudo era mais difícil, pois hoje tudo é mais fácil, hoje mesmo tem geladeira antigamente não tinha nas escolas farda, hoje tem quer dizer tudo hoje é mais fácil.

A infância de dona prazer segundo ela foi difícil, estudou até a quarta serie porque não tinha tempo, mas naquele tempo era muita coisa, pois sabia assinar seu nome, mas tudo isso porque ela trabalhava com seus pais e com seus irmãos onde era seis (6) filhos que sua mãe teve e que ela era a mais velha.

Dona prazer diz sentir muita falta daquele tempo mesmo sem medico mesmo sem farda, porque ela tinha muitas coisas de fartura, naquele tempo a comida era de fartura não comprava nada, pois tudo era plantado como mandioca verdura era tudo farto todo mundo tinha comia do que plantava ela dizai que vendia as verduras porque era muita verdura então vendia pra compra carne, pois não era plantada a carne, então comia muito pouca carne porque era caro então comia mais caranguejo fava camarão tudo era de muito daí comia e vendia o que pescava.
"O Autor Dell Priore coloca que este caso torna-se possível conhecer a condição feminina no Brasil, mais especificamente em Sergipe durante as décadas de 30 e de 40.e que trazem para os dias atuais a realidade da situação feminina em Sergipe neste período...".

Relações Afetivas (cortejo, namoro e casamento)

Segundo dona Prazer o namoro naquele tempo não era como hoje, hoje os namoros são escandalosos feios e antigamente não era não tinha falta de respeito o rapaz mal pegava na mão. Ela falava que ficava sentada em uma protona e ele em outra um olhando para o outro, porque seu pai ficava com os olhos fechados pra dizer que tava dormindo, mas ela sabia que ele tava acordado então por isso que era tão rígido.
Segundo dona Prazer o casamento de antigamente era pra durar pra sempre e hoje não existe mais, pois o homem só quer uma mulher que trabalhe também pra ajuda ele a pagar as contas da casa também, e antigamente quem trabalhava era mulher safada. Agente só casava quando agente tinha tudo certo, ela diz ter sido muito bom o seu casamento, pelomenos ela achou porque ela não precisava trabalhar, só olhava o armazém e trabalhava em sua casa e cuidava dos seus filhos, seu marido era um homem trabalhador e sempre presente na família, seus filhos estudavam e trabalhavam quando pequenos, mas depois não trabalharam mais então só não estudou aquele que não quis, tiveram uma vida diferente da dela, pois ela estudou e trabalhou onde depois que estudava ia fazer panela, mas sua mãe e seu pai para garantir o sustento da casa pra colocar comida dentro de casa.

"Dona Prazer diz minha filha agente trabalhava pra ajuda nossa mãe, porque era muito difícil naquele tempo então agente morava no interior daí o que tinha pra fazer era fazer panela, pescar casar era essa nossa vida rsrsrs...".

O casamento de antigamente era pra dura pra sempre diz Dona Prazer hoje não existe mais, pois o homem só quer uma mulher que trabalhe também pra ajuda ele a pagar as contas da casa também e antigamente quem trabalhava era mulher safada.

"Segunda a Lei 4.121/62, o Estatuto da Mulher casada, a única realização possível era o casamento e a maternidade, pois eram consideradas destituídas de mentalidade racional. Sua única vantagem era a maternidade, que lhe conferia a educação dos filhos, sempre sob a supervisão e autoridade do marido...".

Educação e Profissão

A educação que seu pai e sua minha mãe deu pra ela era muito boa, eles eram rígidos, mas sempre mostrava pra ela o que era certo, seu pai avemaria, ela tinha muito medo dele, ela dava a benção a ele sem olhar direito pra ele porque ele ensinava que agente tinha que anda na linha e estudar pra ser gente no futuro. Onde ela estudava era muito longe da sua casa, ela saia de casa e a escola era no tabuleiro que era um interior de Santo Amaro era onde ficava a escola, era muito longe e ela saia andando todo dia, mas na verdade não teve uma formação porque naquele tempo o certo era casar e construir uma família não estudar e si formar. Sua mãe e seu pai nunca deixaram ela trabalhar nas cuzinhas do povo preferia que ela trabalhasse na rosa junto com eles.
"Segundo ALMEIDA (1998, p.178), Percebe-se que nesse período, toda a educação informal dada à mulher, tinha o propósito de convencê-la do seu dever de participar da sociedade como alguém submissa ao pai, ou ao marido, obedecendo-os e respeitando-os. Como também, conformá-la à imagem idealizada pelo ideário dominante...".


Segundo ela a sociedade de antigamente existia sim ninguém era melhor que ninguém uns ajudavam uns aos outros e hoje não é cada um por sim deus por todos. Hoje existe droga naquele tempo não existiam, pessoas mal, doenças que antigamente não existia e bêbados caindo pelas ruas.
"Daí segundo a autora Berna Lutz ela faz um contraponto mostrando que hoje se pode observar, a mulher que ocupou papéis tanto de submissão e obediência, como de rebeldia e autonomia. Nesse movimento, a visão historiográfica moderna, para a qual a mulher é tida como ativa e rebelde, se contrapõe à visão historiográfica tradicional de submissão e obediência, redundando dessa forma, em uma polarização de imagens e de enfoques teóricos".

A educação de hoje pra antigamente é que existe gente mais estudada porque existe mais estudo, mas são pessoas que não tem modo, falam palavrões chigam pessoas mais velhas e isso naquele tempo não existiam e a criança dormia cedo agora as crianças dorme madrugada ela mesma dormia logo cedo seis horas (6) já tava dormindo.
Dona prazer diz que a vida de quem tem essa idade foi uma vida sofrida mas que deixou muitas lembranças pra seu coração de como não existia tanta morte nem mulheres errada como tem hoje.
"Segundo dona Prazer ela diz que a educação de antigamente pra hoje é muito diferente pense, agente mesmo dormia cedo, hoje em dia mesmo meus netos dormem meia noite e eu antigamente quando era seis (6) horas já tava dormindo...".














ANÁLISE GERAL DAS ENTREVISTAS



Foram entrevistadas três mulheres com idade de 80 anos, nascidas no interior do Estado, as quais são vindas de famílias humildes e pobres. Onde cada uma delas narra um pouco da sua história buscando mostrar o tempo de ontem na voz de hoje. Assim, elas relatam um pouco de sua história que aborda alguns pontos que foram vividos na sua vida como: a condição doméstica e familiar nas atividades de mãe e esposa, que de acordo com Almeida (1998, p.114-115) fala que esse estereótipo criado sobre a mulher mãe, esposa e dona de casa permaneceu até a primeira República sem muita alteração. E nas relações afetivas, segundo Samara (1983, p. 59) que na época do Brasil colonial a vida feminina estava restrita "ao bom desempenho do governo doméstico e na assistência moral e familiar, fortalecendo seus laços". Porém, as entrevistadas retratam que o namoro era muito simples e não existiam escândalos e nem depravação como os namoros de hoje. Desta forma que o namoro era pra casar, cujo, elas casaram-se cedo, tiveram seus filhos e viveram com seus esposos até que a morte os separou.
Neste mesmo pensamento, como mãe e esposa trabalhavam para ajudar no sustento de sua família, sendo, em casa na função de mãe e esposa. Entretanto, as condições educativas e profissionais das mulheres entrevistadas tinham um valor muito importante na sociedade que vivia. Neste sentido, a educação informal dada à mulher, tinha o objetivo de convencê-la como alguém submissa ao pai ou ao marido, obedecendo-os e respeitando-os.
"Daí segundo a autora Berna Lutz ela faz um contraponto mostrando que hoje pode-se observar, a mulher que ocupou papéis tanto de submissão e obediência, como de rebeldia e autonomia".Portanto,todas essas entrevistadas buscou mostrar o que se passava no tempo de ontem o que era viver a realidade com, estudo e trabalho para sua sobrevivência.










CONSIDERAÇÕES FINAIS



A mulher na sociedade sempre esteve ligada aos afazeres domésticos e aos cuidados com os filhos e o marido, a quem devia obediência e subserviência. Isto se devia ao fato de que as mulheres eram consideradas inferiores e desprovidas da capacidade de pensar. Pelos homens eram tratados os assuntos de interesse da família, enquanto que a mulher não tinha voz ou vez.
Convém ressaltar que nem todas as mulheres se rendiam às evidencias de sua incapacidade. Há inúmeros casos de mulheres que se rebelaram contra a dominação dos homens e, sem dúvida, fizeram história.
Diante do que foi argumentado, se pode observar que as mulheres sempre foram vítimas do preconceito e a educação recebida por elas era muito rígida na época analisada neste trabalho.
O que surpreende é que as entrevistadas não consideraram abusiva a educação recebida, nem mesmo o excesso de rigidez e os castigos físicos sofridos no lar e na escola. Ao contrário, consideram que a liberdade experimentada pelos seus netos, nos dias atuais, é que é excessiva e que leva o jovem de hoje a não respeitar os outros.
A questão da corte, hoje paquera, do namoro e do matrimônio era totalmente diversa do que é vivido hoje. Havia mais distância física entre os namorados e era inconcebível o casamento sem a virgindade ou em situação de gravidez.
As senhoras que foram entrevistadas não se queixaram do ritual corte/namoro/casamento da época. Consideram que o excesso de permissividade que ora se vê não melhora os relacionamentos. Estas consideram as relações entre os namorados hoje como sendo escandalosas. Também os casamentos não são duradouros, terminam com a mesma rapidez que começaram passando a formar as famílias "modernas" onde filhos de diversas uniões e casais formados e desfeitos inúmeras vezes se juntam em uma mesma relação familiar.
O trabalho é uma constante na infância e adolescência das entrevistadas. Não apenas o trabalho no lar, como também o trabalho fora dele visando complementar a renda familiar. É importante dizer que o trabalho era pesado e penoso para estas crianças que quase sempre se afastavam da escola para trabalhar em atividades agrícolas desgastantes.
Em relação aos relacionamentos e a liberdade doméstica, mostram maridos que conduziam a família, presentes e detentores do poder patriarcal. As entrevistadas, no entanto, não os consideram tiranos ou sentem-se diminuídas pelo excessivo poder do marido e dos pais sobre suas vidas, parecem achar normal esta posição dos homens da família e parecem felizes por não terem que trabalhar fora de casa. Assim se pode observar o preconceito contra as mulheres que não tinham homens que as sustentassem e que necessitavam trabalhar fora. Eram consideradas "safadas". Aqui se vê a moral da mulher atrelada à presença do homem provedor em sua vida.
O saudosismo aparece nas falas das idosas. Elas referem-se ao passado como um tempo precioso e perfeito que não mais retorna. O rigor do passado contrapõe-se à liberdade de hoje, em todos os aspectos observados. Esta liberdade parece, na visão das senhoras, a causadora de todas as mazelas que atingem a sociedade do século XXI. Todas são unânimes em afirmar que os tempos em que viveram suas infâncias e juventudes, eram melhores e estas se consideram felizes por tê-los vivido.
A submissão da mulher em relação ao homem, primeiro ao seu pai e depois ao seu marido, aparece em várias épocas da história da humanidade. Na época escolhida para ser objeto de análise nesta pesquisa, tal submissão era ainda bastante presente na sociedade sergipana. Apesar do século XX ter sido pródigo em conquistas para o sexo feminino, no período em estudo as mulheres ainda permaneciam sofrendo preconceito e discriminação nos diversos setores de suas vidas.
O papel da mulher na sociedade, embora tenha sido bastante questionado, sempre foi o de submissão. Ao que parece, as mulheres criadas sob este regime de "ditadura doméstica", segundo as vozes que falam no texto, estavam conscientes de seu papel na família e não deixaram transparecer qualquer revolta diante da humilhação e discriminação a que eram submetidas com freqüência. Estas vêm a condição feminina hoje como desfocada e têm a certeza de que as desordens sociais advêm desta evolução (na visão das idosas, para pior) dos direitos femininos e da construção da família e seus valores nos dias atuais.
A liberdade é vista como falta de respeito. Aliás, o conceito de respeito e moral familiar destas idosas é muito diverso do que é preconizado hoje. Aqui aparece a confusão entre os termos "medo" e "respeito". As duas palavras são sinônimas quando se trata da época pesquisada. O respeito da sociedade e da família era conseguido através da intimidação e da prática de violência doméstica.
Apesar de tudo o que foi dito, é preciso lembrar que estas senhoras estão fazendo um exercício de reconstrução do passado através da rememoração de fatos outrora vivenciados, no entanto, com a visão que têm hoje. É provável que tenham até discordado na época com atos e decisões dos homens da família, mas agora, diante da violência e da dissolução familiar que presenciam, crêem que o tempo em que viveram a infância e juventude era melhor que este. E atribuem todos os problemas à falta de respeito (leia-se medo) dos filhos em relação aos pais.






























BIBLIOGRAFIA


ARAÚJO, Emanuel. A Arte da Sedução: Sexualidade feminina na colônia. In: PRIORE, Mary Del. (org.). História das Mulheres no Brasil. 7ª Ed. São Paulo: Contexto, 2004.
ARRUDA, José Jobson. Da Idade Média ao Nascimento do Mundo Moderno. 2.ed., Ática: São Paulo,1996.
BETH, Anna. O difícil capítulo da mulher na história da Humanidade disponível no site: http://universodamulher.com.br/index.php?mod=mat&id_materia=326, acessado em 20 de setembro de 2008.
BRASIL. Código Civil, 3ª ed. São Paulo: RT, 2001.
??????? Novo Código Civil. Lei 10.406/2002, São Paulo: RT, 2002.
???????. Constituição da República Federativa do Brasil. 3ª ed. São Paulo: RT, 2001.
BOSI, Ecléa. Memória e sociedade - lembranças de velhos. 3ed. São Paulo: Cia das Letras, 1994.
CALDAS, Alberto L. História e Memória. Disponível no site: http://www.primeiraversao.unir.br/artigo181.html acessado em 22 de setembro de 2008.
DEL PRIORE, Mary (Org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 1997.
________________. A mulher na história do Brasil: raízes históricas do machismo brasileiro, a mulher no imaginário social, "lugar de mulher é na história". São Paulo: Contexto, 1989.
________________. Ao sul do corpo: condição feminina, maternidades e mentalidades no Brasil colônia. Rio de Janeiro: José Olympo, 1993.
DIAS, M. O. L. S. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX. São Paulo: Brasiliense, 1984.
DUBY, G; PERROT, M (dir). História das mulheres: a Idade Média. Porto; Afrontamento, 1990.
FERREIRA, Marieta de Moraes & AMADO, Janaína (orgs.). Usos e abusos da história oral. 5ª Ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2002.
FERREIRA, Marieta. Memória é matéria prima do trabalho do historiador. Disponível no site http://www.comciencia.br/reportagens/memoria/04.shtml, acessado em 20 de setembro de 2008.
MIRANDA, Verônica M.Mapurunga de. Anticristo ou anti-cristo: o feminino e a natureza serão"novos tempos" para o novo Papado. Disponível no site: http://www.cepac-ce.com.br/artigos9.htm, acessado em 18 de setembro de 2008.
MOCELIN, Renato. As mulheres na Antiguidade. São Paulo: Brasil, 2006.
MOHAMED, Sherif Abdel Azeem. A Mulher no Islam: Mito e Realidade. Disponível no site: http://www.islamismo.org/mito_e_realidade.htm, acessado em 20 de setembro de 2008.
NORA, P. Memória e História. Disponível no site http://mnemosyne.blog-city.com/memria_e_histria.htm acessado em 22 de setembro de 2008.
SAMARA, Eni de Mesquita. A família brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1983.
VILLALTA, L, C. Eva, Maria e Madalena: Estereótipos de Mulher no Brasil Quinhentista. Estudos de História, Franca, SP,1999.
 
Avalie este artigo:
1 voto(s)
 
Revisado por Editor do Webartigos.com


Talvez você goste destes artigos também