O SISTEMA DE AVIAMENTO NA EXTRAÇÃO DA CASTANHA DA AMAZÔNIA
 
O SISTEMA DE AVIAMENTO NA EXTRAÇÃO DA CASTANHA DA AMAZÔNIA
 


Arão Marques da Silva[1]

O sistemade aviamento se fundamenta,no "engano" dos homens que trabalhavam no extrativismo;caracterizava-se, também, pela forte relação de parentesco e compadrio, o que possibilitava aespoliação aindamaiordo trabalhador. O sistema de aviamentodesempenha a função sustentadorae articuladorade toda a estrutura socioeconômica da Amazônia. Sendo que aviar é fornecer mercadorias, créditos, bensde consumo e instrumentos de trabalho, medicamentos e dinheiro para ser pago com a produção recolhida na época da safra. O sistema de aviamento foi um dos meios que o sistema capitalista de produção, encontrou para se apropriar do volume de castanha extraído nas matas da Amazônia. Os donos dos barracões ecasas aviadoraslançaram mão dos produtos florestais. O capitalismo e seus agentes executam comcompleta insensibilidade as operações reputados necessárias contra as sociedades cujo aparelho de defesaseja frágil. Se épreciso, para atingir os alvosdo regime , lançar mão dos meios ilegítimos, as normas mais elementares do convívio humano passam a ser violadas. Se é preciso injustiçar,haverá injustiças; se é preciso derrubar valores de autopreservação, eles serão derrubados; se é preciso matar, haverá mortes;se é preciso saquear, haverá saques, e assim por diante (Santos, 1980, p. 161).

O sistema capitalista utilizou os meios disponíveis mais rústicos a fim de promover a espoliação de seringueiros e castanheiros. A éticaque o sistema capitalista utilizou nos castanhais e seringais da Amazônia,fundamenta-seno desejo de acumulação cada vez maior de capital, onde o forte domina o fraco, isso possibilitou o enriquecimento de uma pequena parcela da população Amazônia, enquanto que o restante vivia na mais absoluta miséria (Santos, 1980, p. 162).

O sistema de aviamento fora uma evolução do escamboque de certa maneira deu os elementos necessários a estruturação do sistema de escravidão por dívida. Essa transformação, se materializou de forma lenta, durante o período da borracha, e fora transferido com a mesma estrutura, para os castanhais. Essa relação social se consolidara e predominara de tal maneira, que não é estranho encontrar ainda hoje situações semelhantes no campo da Amazônia.

O sistema de aviamento se estabelece nos castanhais praticamente nos mesmos moldes com que agiam os compradores de caucho. Funcionavam com os mesmos atores da exploração da borracha. Nos seringais e castanhais da Amazônia as relações de trabalho foram marcadas pelaservidão por dívida, onde os trabalhadores ficavam presos ao comprador do produto de seu trabalhopeladívida contraída no ato do aviamento. O seringueiro era aviado pelo barracão; o barracão era aviado por casas exportadoras; as casas exportadoras eram financiadas por bancos estrangeiros. No fim, todos ganhavam, menos os seringueiros. Este sistema não era exclusivo da borracha e nem acabou naquela época. Assim se comercializava até poucos anos atrás, a castanha do Pará e outros produtos. O barracão aviava, isto é, fornecia a ele mercadorias. Anotava a dívida, descontava o preço dos produtos vendidos e, se sobrasse alguma coisa, pagava um dinheirinho.

Havia uma supervalorização dos produtos aviados e contraditoriamente uma desvalorização do produto do extrativismo. Isso explica uma condição de constante endividamento do castanheiro para com o dono do castanhal. No geral o volume produzido durante a safra não era suficiente para quitar a dívida, não conseguindo portanto, tirar saldo, e tendo que continuar se submetendo ao domínio do mesmo patrão. Para os extrativistas, os produtos que eram extraídos da natureza e entregue ao comerciante, dono da casa aviadora, não recebiam o devido valor. Assim, o trabalhador vê seu trabalho e o produto de seu trabalho sendo desvalorizado pelo sistema de aviamento, a ponto de enfrentar uma situação humilhante onde ele trabalha apenas para pagar a alimentação. A relação era de tamanha exploração a ponto de um produto ser supervalorizado, chegando a custar cinco vezes mais do que o praticado no comércio dacidade de Marabá. Por esse motivo, o castanheiro é um indivíduo que se caracteriza pela sua extrema pobreza, quase impossibilitado de melhorar de vida.

Lagenest, apud, Emmi, (1999, p. 73) assinala que "...o pagamento do castanheiro é decidido sem relação alguma com o lucro real do patrão. Este pode ganhar 100%, 200%, 300% até 500%. Qualquer que seja o lucro, o castanheiro terá que se conformar com um salário miserável, já roído pelo empréstimo inicial, pelo aluguel do rifle e pelas despesas diárias na mata".

A exploração do trabalhador pelo sistema de aviamento não se dava apenas nesse nível. As medidas e pesos também eram fraudulentos, isso era uma outra maneira que os comerciantes da castanhaencontravam para fraudar seus trabalhadores, mantendo-os, assim preso ao barracão. Em Marabá, os compradores de castanhaque aviavam os castanheirostinham uma medida quetornava, ainda mais elevada a exploração dos trabalhadores. Os donos de barracão, aviavam os castanheiros fornecendo aquilo que precisavam para sobreviver no meio da mata, e exploravam estes mais uma vez, na medida do hectolitro.

A exploração do castanheiro,tanto na medidado hectolitro, como quando eram aviados ao ir para a mata corta a castanha. Vale lembra que a medida padrão de 1 hectolitro é igual a 100 litros.Vejamoscomo se processava a pauperização do castanheiro pelos compradores da castanha:

A espoliação era tamanha a ponto de 1 hectolitro de castanha em Marabá, aoser medido em Belém dava um hectolitro e meio. A exploração do trabalho do castanheiro, o roubo na medida, o engano, o uso da violência física, estavam presente em todas as etapas da produção da castanha, desde a extração até acomercialização. Emmi, (1999, p. 73), citando Lagenest afirma que "... a medida oficial do hectolitro não é observada pelo patrão. Ele considera como hectolitro uma medida que dá realmente 120 a 130 litros. Em julho de 1945 ficou provado que bancos carregados de Marabá, com 3.109 hectolitros epagos aos castanheiros descarregavam no porto de chegada 3.694 hectolitros,Isto é, 585 hectolitros a mais do que foi embarcado". É por isso que poucos castanheiros ao final da safra ao irem fazer o acerto no barracão conseguiam saldo.

REFERÊNCIAS

ALVES, Ailce Margarida Negreiros.; DA SILVA, Arão Marques. (2005). História Oral e Memória: a versão camponesa da ocupação do Sudeste Paraense.Artigo apresentado durante o V Encontro do Nordeste de História Oral: memória patrimônio e identidade. UFMA, UEMA, ANPUH-MA, ABHO  Nordeste, São Luís, Maranhão, 2005. (CD-ROM).

EMMI, Marília. (1991). A Oligarquia do Tocantins e o Domínio dos Castanhais. UFPA/NAEA Belém.

FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. São Paulo,Companhia Editora Nacional.

SANTOS, Roberto. (1980). Formação Econômica da Amazônia. Rio de Janeiro, Vozes.


[1]Cientista Social, pós-graduado latu-sensu em: Tecnologias, Linguagem e Educação Inclusiva.

 
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Sobre este autor(a)
Sociólogo, pós-graduado em Tecnologias, linguagem e educação inclusiva, docente no ensino médio da disciplina sociologia.
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