O PROGRAMA ALFA E BETO NA PRÁTICA DA ALFABETIZAÇÃO
 
O PROGRAMA ALFA E BETO NA PRÁTICA DA ALFABETIZAÇÃO
 


Ana Cristina Nardi Glória

Estudante do 12º módulo de Pedagogia da UCB.

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RESUMO
O artigo aborda uma síntese do Programa Alfa e Beto de alfabetização que utiliza o método metafônico, destacando a importância da Consciência Fonológica, a Consciência Fonêmica, a análise e síntese, para que a criança consiga aprender a ler e ler para aprender: compreender o que lê.


Palavras Chave: Alfabetização, Consciência Fonêmica, Análise, Síntese, Leitura e Escrita.




1. Introdução

Alfabetizar é ensinar o segredo do código alfabético. Ser alfabetizado é fundamental na vida de qualquer ser humano.
Segundo o autor, há quatro definições de alfabetização. A primeira é o conceito restrito que é decifrar o código alfabético. Na segunda, é o conceito equivocado de ler e compreender. Na terceira é o conceito amplo em que a alfabetização é vista como letramento ou educação geral e na quarta definição é o conceito operacional que é aprender a ler e ler para aprender.
Como fundamentos da alfabetização temos a consciência fonológica, a familiaridade com livros e textos impressos e a metalinguagem. Esses fundamentos dizem respeito às competências de aprender a ler.
Os pré-requisitos necessários para o aprendizado da leitura são a consciência fonêmica e o princípio alfabético. Os requisitos são a decodificação e da fluência. O desenvolvimento da leitura corresponde a competência de ler para aprender.
Para desenvolver a leitura precisamos do vocabulário e a compreensão. Já no desenvolvimento da escrita temos a caligrafia, a ortografia, a consciência sintática, o escrever e redigir.
Os níveis correspondentes são a letra, a palavra, a frase e o texto.
Essas competências precisam ser ensinadas ao aluno no decorrer do processo e aprendido pelo aluno para que seja um bom leitor e desenvolva a escrita também.

2.Desenvolvimento

O sistema de escrita da língua Portuguesa é alfabético. O nosso alfabeto representa todos os fonemas que usamos para falar. São 23 letras, 12 fonemas representados pelas vogais e 19 fonemas representados pelas consoantes. Qualquer palavra da nossa língua pode ser falada, combinando-se esses fonemas, ou escrita, combinando as letras que os representam.
STREET(1993), partindo de uma perspectiva etnográfica, propõe o conceito de " a nova alfabetização" . Segundo ele, não existe alfabetização, mas alfabetizações. A alfabetização e o valor de alfabetizar só podem ser definidos socialmente. Para ele, haveria tantas alfabetizações quantos grupos sociais.
De acordo com os PCNs, o objetivo e o processo da alfabetização se confundem "... se o objetivo é ensinar o aluno a produzir e interpretar textos, não é possível começar com letras, sílabas, palavras ou sentenças fora de contexto, já que elas não possuem qualquer relação com a competência discursiva, que é a questão central."(p.29)
O programa Alfa e Beto constitui um ensino sistemático, organizado e estruturado nas competências já citadas.
A consciência fonológica tem como objetivo identificar sons, ritmos e rimas na oralidade. Na escrita relaciona letras e sons, dando ênfase nas habilidades de análise e síntese e no desenvolvimento da autonomia do aprendiz, ou seja, na metacognição.
O método propõe textos adequados, leituras apropriadas para desenvolver fluência, leituras variadas com tipos diferentes de textos para o desenvolvimento do vocabulário, estratégias de compreensão e articulação entre o ensino da leitura e da escrita.
Teóricos, estudiosos e pesquisadores, discordam há muito tempo sobre conceitos, métodos e procedimentos.
Quando a criança entra na escola, já traz consigo uma bagagem de experiências vividas e que devem ser respeitadas e valorizadas. Uma das funções da escola é desfazer alguns equívocos trazidos nessa bagagem para que o aluno possa desenvolver conceitos, critérios e categorias para melhor entender e lidar com o mundo em que vive.
A consciência fonológica refere-se à capacidade do aluno identificar e discriminar sons em geral. Conhecer sons, ritmos e cadência são habilidades importantes para a leitura e a ortografia.
No aspecto da leitura, o professor é o leitor que mostra diferentes tipos de textos diariamente a seus alunos. Assim, vão reconhecendo as rimas, a entonação e a fluência na leitura.
O programa Alfa e Beto disponibiliza um material riquíssimo para a prática docente.
Há o livro gigante de leitura com ilustrações que as crianças adoram. O professor utiliza lendo os textos e depois eles podem manuseá-lo. Além desse material há os fantoches do Alfa e do Beto que são um lápis e um livro.O professor os utiliza de forma lúdica para prender a atenção, para chamar à ordem, para dar exemplos.
Como suporte tem as cartelas gigantes com as letras e ilustrações.
Para os alunos tem os livros didáticos de Português, Matemática, Ciências, Letras de forma e caligrafia. Há também um saquinho com letras de EVA para utilizarem em grupo ou individualmente. Assim como os mini-livros que desenvolvem o interesse pela leitura.
Além disso, o professor conta com manual da Consciência Fonêmica, da Coletânea de de textos de tipos diferentes, agenda para o registro diário e provas que o Instituto Alfa e Beto mandam para aplicação em etapas distintas para o acompanhamento do progresso dos alunos.
O método ainda propõe, que além da leitura e atividades diárias, o professor trabalhe com ditados para que o aluno consiga ligar o som à escrita. Não é um ditado com objetivo de corrigir o erro e castigar, mas para que o aluno possa reconhecer o erro e relacionar o som à letra.
A aula é toda direcionada através do livro didático, mas, é claro que o professor fará atividades complementares conforme o objetivo da aula e deverá usar de muita criatividade para que sejam aulas dinâmicas e interessantes.
O professor conta também com DVDs como suporte para as aulas. Esses DVDs são para uso do professor, um guia a mais para seu trabalho.
O livro do aluno é separado por lições e essas lições divididas em blocos. Cada lição dura de cinco a sete dias.
A partir do lúdico, das histórias ouvidas, das músicas, das brincadeiras diversas, a criança vai percebendo os sons e letras e começa a fazer a análise desses sons. Assim, começa o processo da leitura.
A consciência fonêmica é a capacidade de identificar, utilizar, pensar e brincar com os sons das palavras. As crianças precisam ter essa consciência antes de aprender a ler. Essa aprendizagem está associada ao processo de decodificação: se realizada obtem sucesso; se ausente, causa dificuldade.
Todo mundo aprende a falar e compreender o que os outros falam em seu ambiente social. É importante ter consciência dos fonemas para ajudar na leitura e na compreensão e, na escrita, que será mais correta na ortografia.
O conhecimento da estrutura fonêmica da língua é essencial para o trabalho de alfabetização. Nos permite decidir a ordem de ensino de sons e letras, por exemplo.
A consciência fonológica torna o aluno capaz de reconhecer e discriminar sons. A consciência fonêmica é o entendimento consciente de que cada palavra é formada por uma série de fonemas.
A consciência fonológica é desenvolvida nas tradições culturais como jogos, trava-línguas, músicas, etc. Parece ser natural, mas há crianças que não são expostas a essas atividades e cabe a escola, a função de desenvolvê-las.
A análise consiste em decompor uma palavra em partes e a síntese é o contrário, parte dos pedaços da palavra para o todo. Nessa etapa não é importante a regra gramatical das sílabas, pois a palavra é dividida foneticamente. Essas duas atividades, análise e síntese são complementares entre si.
Essa metodologia se torna mais eficaz porque é sintética. Através do processo da decodificação, o aluno faz a análise( decompor) e a síntese( juntar).
Por exemplo, o aluno decompõe a palavra em seus componentes menores até chegar aos fonemas representados pelas letras: a análise. Da mesma forma, o aluno que está aprendendo a ler uma palavra precisa juntar os sons: a síntese. Esse é o ensino sintético.
Além de sintético, o ensino fônico deve ser sistemático e obedecer a critérios. Critérios que dão a sequência do ensino. Em primeiro lugar vem as vogais, depois as consoantes contínuas ( l,f,m,v,n). D epois vem as consoantes b,t,d,p. Após o s e r iniciais e finais e segue com o s e c nos seus diversos sons. Os dígrafos e encontros consonantais vem por último juntos com as demais consoantes.

2. Síntese
No programa Alfa e Beto, a decodificação é o capítulo mais importante de todo o processo de alfabetização.
Cada aula do livro explora dois blocos de atividades: a leitura e alguma aplicação de desenvolvimento das competências específicas da decodificação. Cada bloco de atividades tem um objetivo específico a ser atingido.
As atividades de consciência fonêmica são aprofundadas conforme o som da letra estudada no dia. Os exercícios incluem aliterações, assonâncias e trava-línguas e o professor utiliza o seu MCF ( manual de consciência fonêmica) sempre que precisar.
A seguir é apresentado um texto ao qual o aluno possa decodificá-lo. O texto e sua ilustração servem de contexto para o estudo da letra e de seu som. Em seguida vem uma atividade com exercícios para identificação da letra do dia nas palavras do texto.
Em outro bloco vem a atividade "Baú de palavras" que permite uma brincadeira para formar palavras diferentes usando as mesmas letras de uma só palavra. Após vem o bloco do "Escorregue o dedo e leia" com palavras curtas. Normalmente, depois dessa atividade, utilizamos um quebra-cabeças para compor um texto oral ou desenhado dentro do tema da leitura.
No bloco " Oficina das Letras", o aluno elabora atividades de síntese de sílabas para formar palavras dando ênfase a síntese escrita.


3. Análise

Para aprender a ler, o aluno sintetiza e para escrever, faz o caminho inverso. Ele ouve o som e precisa codificar em letras.
Nessa etapa, o ditado é a atividade mais adequada para atingir esse objetivo. O método do ditado é comprovadamente uma das formas mais eficazes de ajudar o aluno a aplicar o código alfabético. O ditado é um instrumento de ensino e aprendizagem, e não um instrumento de tortura ou um teste. Assim, o aluno justifica a escolha das letras e adquire a consciência fonêmica.
O ditado faz parte da vida como em recados que tem que ser anotados, endereços, pedidos, listas, reclamações, etc. O ditado reforça as associações entre sons e letras. Portanto, o aluno terá os instrumentos necessários para que possa escrever com independência. Os erros devem ser reconhecidos e analisados e o aluno deve se tornar capaz de fazer a auto-correção.
No programa Alfa e Beto, há três tipos de ditados para o professor fazer em aula. O ditado de sons tem como objetivo que o aluno soletre cada som da palavra, da esquerda para a direita e conferir o som que ouve. O desafio é que o aluno consiga escrever as palavras tais como são e não apenas o que ele pensa que ouve. Depois passa-se a uma correção rápida e bem entendida. Esse tipo de ditado pode ser feito de uma a duas vezes por semana.
No ditado de palavras, pode-se brincar com as pseudopalavras, palavras que não existem, não possuem sentido. Essa é uma parte importante no processo de decodificação (leitura) e da soletração (escrita, ditado). Essas palavras permitem que o aluno justifique a escolha da grafia. Não é para se preocupar com o aprendizado dessa palavras, já que não existem e não tem significado algum.
Depois vem o ditado de frases para aqueles alunos mais avançados. Começa-se com frases curtas e aumenta-se conforme o progresso do aluno.
É essencial que os alunos se habituem a registrar por escrito diferentes tipos de textos: bilhetes, avisos, listas, etc. Além da grafia correta, os alunos são levados a prestar atenção na pontuação, no uso das maiúsculas e na disposição do texto.

4. A fluência na leitura

Ter fluência na leitura significa ler corretamente com precisão e rapidez e compreender o que se lê.
Ler com automaticidade é quando a decodificação já foi automatizada. Essa é a primeira etapa para a fluência.
A fluência é uma competência que permite estabelecer um caminho entre identificar palavras e compreender o sentido num texto. Assim é processado pelo cérebro.
A fluência libera a atenção. O leitor presta atenção no texto e não na decodificação das palavras.
No programa Alfa e Beto são utilizados os mini-livros para que o aluno adquira a fluência. Para cada aula são apresentados de 3 a 6 mini-livros diferentes com fonemas e palavras que o aluno consegue identificar automaticamente. O aluno erra pouco e ganha velocidade. Esses mini-livros possuem vocabulário simples, frases simples e textos curtos.
Para ensinar a ler com fluência é preciso fazer um feedback para que o aluno possa entender suas dificuldades e superá-las. Para isso o professor deve utilizar técnicas eficazes para auxiliar o aluno.
Não basta apenas ler, ler muito, ler silenciosamente. Não basta fazer teste de leitura e dar nota ou mesmo dizer ao aluno que ele está bem, quando a verdade não é esta. A modelagem para o ensino da fluência implica em o professor ler para mostrar ao aluno como deve ser com entonação, ritmo e fluência. O aluno lê e o professor identifica as suas dificuldades e dá o feedback. Cada tipo de dificuldade necessita de diferentes intervenções. Durante a leitura o professor dá pistas, faz perguntas para ajudar o aluno a encontrar a resposta.
Na dificuldade fonológica o professor deve facilitar a decodificação, orientando o aluno a sintetizar sona e letras.
No caso da dificuldade ortográfica, o professor chama a atenção para a letra ou o dígrafo ou a combinação de letras.
Na dificuldade da semântica, pode esclarecer o vocabulário, dar pistas sobre o contexto (título, ilustração, sentido da história, etc.), para ajudar o aluno a identificar o sentido da palavra.
No caso da dificuldade de natureza pragmática, o professor chama a atenção do aluno para o contexto gramatical (está falando de quem, quem está falando, etc.) ou para o contexto mais geral (afirmação, diálogo, etc.)
É importante a escolha de textos adequados para desenvolver a fluência. A princípio, um texto não deveria ter desafios de natureza semântica ou pragmática. Assim o aluno poderia se concentrar em superar os desafios de natureza fonológica e ortográfica, desafios próprios de quem está consolidando o processo de decodificação e automatizando a capacidade de ler.
O professor precisa ouvir o aluno lendo para que possa identificar a sua dificuldade com precisão. Assim o feedback pode ser individual, em pequenos grupos ou numa leitura em coro. O importante é fazê-lo com propriedade para que o problema seja enfrentado pelo aluno.
Para ler fluentemente tem que ter a prática, ler muito e repetir. Ler livros adequados. Os especialistas distinguem três tipos de textos:
-textos de leitura independente. Leitura fácil em que o leitor deve ter 95% de sucesso, ou seja, menos de um erro a cada 20 palavras;
-textos para o ensino da leitura, dificuldade em 90%, ou seja, um erro a cada 10 palavras;
-textos difíceis: frustam o aluno com mais de 10% de palavras que não consegue decodificar.
No Brasil, os dois primeiros tipos de textos são raros. A literatura infantil quase sempre supõe que o aluno já sabe ler. A prática que leva à perfeição não surge da mera repetição, da prática realizada com textos adequados e feedback imediato. Daí a importância dos mini-livros do programa Alfa e Beto.
Para fazer o diagnóstico do aluno, o programa Alfa e Beto propõe que o professor anote o tempo que o aluno leva para ler, o número de erros cometidos e faça uma média. Subtraia a média de erros do número total de palavras; divida pelo tempo e esse é o número de palavras por minuto lido pela média dos alunos. Também deve-se prestar atenção no ritmo, entonação e compreensão da leitura. Na aula pode-se fazer leituras em coro, dramatizadas e entre colegas e leituras de poesias que são importantes para o aluno aprender ritmo, rima e sentido.


5. Considerações finais

Ser alfabetizado é essencial para a vida de qualquer pessoa. Compreender o que lê é fundamental para o sucesso. Alfabetizar é um desafio diário de qualquer professor alfabetizador.
O programa de alfabetização Alfa e Beto vem demonstrando eficácia no processo ensino aprendizagem por ser um método sintético, sistemático e explícito.
No decorrer do artigo foi possível observar a prática em sala de aula, a sistemática do método e as estratégias para um bom ensino do ler e escrever.
Este artigo é um importante auxílio para professores e escolas que desejam conhecer melhor o programa Alfa e Beto criado pelo professor João Batista Araújo e Oliveira.
O desenvolvimento desse trabalho me permitiu obter e aumentar os conhecimentos na área da alfabetização.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
OLIVEIRA, João Batista Araújo e; ABC do Alfabetizador, Brasília: Instituto Alfa e Beto, 2008. 8ª edição.
OLIVEIRA, João Batista Araújo e; Alfabetização de crianças e Adultos: novos parâmetros- Belo Horizonte: Alfa Educativa, 2004.5ª edição ? 2006.
OLIVEIRA, João Batista Araújo e; Manual da Coletânea: Programa Alfa e Beto. 5ª edição- 2007.
OLIVEIRA, João Batista Araújo e; ABCD: livro A-4ª edição- Brasília, 2010 (Coleção ABCD).

Ana Cristina Nardi Glória trabalha há 22 anos com professora estadual do RS. Atua nas Séries Iniciais. Já exerceu a função na Educação Infantil e no Currículo por área na disciplina de Língua Portuguesa. Possui experiências em todos os setores da escola e já participou da Direção como Vice-diretora. Atualmente é regente de uma turma de 2º ano e responsável pelo setor de nutrição da escola.
 
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professora da rede estadual do RS há 23 anos na função.
Membro desde setembro de 2011
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