O professor de arte e a diversidade cultural
 
O professor de arte e a diversidade cultural
 


O PROFESSOR DE ARTE E A DIVERSIDADE CULTURAL

 

Zaira Marliza Leite da Silva

 

 

Introdução

 

       Nas escolas brasileiras um professor encontra dentro de uma sala de aula desafio maior do que a tarefa de educar, trata-se da diversidade cultural dos alunos. Em meio a essas diferentes culturas o professor deve buscar a melhor maneira de proceder com suas aulas, pois, acima de tudo um professor deve respeitar a individualidade de cada um deles e ensinar seus alunos a fazerem o mesmo.

 

       Um professor que acaba de concluir seu curso de licenciatura e que está formalmente qualificado para atuar dentro de uma sala de aula, deve estar ciente antes de assumir a responsabilidade de ministrar uma aula, das dificuldades que irá encontrar no seu longo e às vezes tortuoso caminho, a percorrer como educador. O professor de artes em especial tem papel importante nesse processo de conscientização e criação do respeito em sala de aula para com essas diferenças culturais que causam conflitos.

 

Escolher ser professor exige uma reflexão profunda

 

       A escolha da profissão de professor deverá ser feita por quem se considere apto para se engajar nessa tarefa tão complexa que é o ato de ensinar e aprender ensinando. “[...] na formação permanente dos professores, o momento fundamental é o da reflexão critica sobre a prática [...]” (Freire, 1996a,p.39). Passada essa etapa da escolha e da formação como profissional da educação, torna-se necessário que este não se acomode e tente manter-se em constante atualização na área em que atua e nos demais assuntos que possam surgir dentro de uma sala de aula.

 

       É de extrema importância que um profissional, busque sempre em sua carreira, cursos que venham a complementar seu currículo, incentiva-lo a se renovar e os que ajudem a entender e lidar com a diversidade cultural dentro de uma sala de aula. Porque quando um professor é bem preparado ele conquista o respeito dos seus alunos e pode usar esse respeito para cuidar da formação individual de cada um deles, assim como incentiva-los a respeitarem os colegas. Freire (1996a,p.42) diz que: “Ás vezes, mal se imagina o que pode passar a representar na vida de um aluno um simples gesto do professor [...]”

 

       Antes de falar sobre cultura, um professor deve saber o que é cultura e como lidar com os conflitos que surgem quando existem num só lugar deferentes hábitos culturais. Para que isso aconteça, todo professor deveria apresentar em seu currículo um curso básico sobre diversidade cultural. Um professor tem o dever perante a sociedade de se manter informado sobre esse assunto que pode exigir dele uma posição dentro da sala de aula.

 

      Segundo Brasil:

É sabido que, apresentando heterogeneidade notável em sua composição populacional, o Brasil desconhece a si mesmo. Na relação do País consigo mesmo, é comum prevalecerem vários estereótipos, tanto regionais quanto em relação a grupos étnicos, sociais e culturais.

Historicamente, registra-se dificuldade para se lidar com a temática do preconceito e da discriminação racial/étnica. O País evitou o tema por muito tempo, sendo marcado por "mitos" que veicularam uma imagem de um Brasil homogêneo, sem diferenças, ou, em outra hipótese, promotor de uma suposta "democracia racial". (Brasil, vol. 10, p. 22)

 

O professor de artes como mediador na diversidade cultural

 

      Em meio a todo esse campo minado que é a educação e o ato de educar, encontra-se o professor de artes, que a pouco tempo teve seu reconhecimento na área da educação no país. Um professor que pode fazer toda a diferença na escola em que trabalha e na formação de novos cidadãos aptos a viver em sociedade e em comunhão com seus semelhantes.

 

       Quem melhor que um professor de artes para ensinar a respeito das diferenças culturais? Pessoalmente acredito que nem um outro. O professor de artes tem a possibilidade e liberdade de trabalhar através da arte de forma impessoal essas diferenças. Trazendo para a sala de aula através de trabalhos artísticos temas conflitantes, falar do racismo através das máscaras do Quilombola por exemplo, a diversidade cultural e religiosa, a arte indígena através da arte que os índios da nossa região produzem, entre outras ínfimas possibilidades.

 

 

      Neste sentido sugere Paulo Freire:

 

Porque não discutir com os alunos a realidade concreta a que se deva associar a disciplina cujo conteúdo se ensina [...] porque  não estabelecer uma “intimidade” entre os saberes curriculares fundamentais aos alunos e a experiência social que eles têm como indivíduos?[...] (Freire,1996a, p. 30.)

 

       São pequenos passos que o professor pode dar dentro da sala de aula, que aos poucos transformam o olhar de cada um dos alunos, pois à medida que se conhece o desconhecido e o diferente, perde-se o medo e aí então nasce o respeito.

 

       Um dos grandes problemas enfrentados pelo educador, também, é o fato de que as crianças e os adolescentes recebem muita informação através da mídia, que tenta de forma massiva transformar cada individuo semelhante ao modelo ideal de homem e mulher. Para Freire (1996a,p.140): “Não podemos nos pôr diante da televisão ‘entregues’ ou ‘disponíveis’ ao que vier.[...]”.

 

       Um professor deve estar em constante atualização de saberes, como diz Freire (1996a,p. 80): “[...] preciso ter e renovar saberes específicos em cujo campo minha curiosidade se inquieta e minha pratica se baseia. [...]”.Esse fator mostra a importância que tem um professor, possuir informação para passar para seus alunos, trazendo para dentro da sala de aula assuntos atuais que possam colaborar para a prática do ensino.

 

       Cada vez mais, um professor tem grande responsabilidade como educador de pelo menos, orientar seus alunos a assimilarem da mídia só o que for útil e puder trazer algum benefício a eles, pois, sabemos que mesmo o professor não sendo pai dessas crianças e adolescentes, ele é visto por muitos pais como tal, é uma das realidades que o professor deve estar preparado para enfrentar.

 

       Neste sentido o professor de artes deve procurar mostrar para seus alunos a importância de se cuidar desse bem valioso que são os tesouros culturais, mostrar que é necessário preservar a individualidade, o quanto o planeta está cheio de pessoas que perderam essa individualidade e o quanto ela é importante, por ser a única que nos permite a troca de aprendizado.

.......Conforme Brasil:

O cotidiano da escola permite viver algo da beleza da criação cultural humana em sua diversidade e multiplicidade. Partilhar um cotidiano onde o simples “olhar-se” permite a constatação de que são todos diferentes traz a consciência de que cada pessoa é única e, exatamente por essa singularidade, insubstituível. ( Brasil, 1997, p.53)

 

       Sendo assim mais uma vez aparece a figura do arte educador, que deve mostrar-se interessado em cada um dos seus alunos, pelo seu desenvolvimento como ser humano, pois, ao contrário das outras áreas da educação, artes está voltada para a sensibilidade e processo criativo desses indivíduos, e se for trabalhada de forma correta, pode contribuir muito na formação de cada um deles.

 

Conclusão.

 

       O professor quando aceita essa tarefa que é educar, ensinar, passar conhecimento, deve antes de tudo saber respeitar a si mesmo e seus semelhantes, pois só dessa forma poderá respeitar os seus alunos.

 

       Para Freire (1996a, p.59), “[...]. Do educando criança, jovem ou adulto. Como educador, devo estar constantemente advertido com relação a este respeito que implica igualmente o que devo ter por mim mesmo. [...]”

 

       No cenário conflitante que é uma sala de aula, se um professor não for capaz de respeitar seus alunos, com suas individualidades por mais conflitantes que sejam, deve repensar sua profissão e buscar a ajuda que for possível para que consiga mudar sua atitude. Sabe-se que o ensino no país além da valorização dos professores, precisa que os professores se valorizem, e um professor só faz isso mostrando sua competência e essa competência se mostra na forma com que trata seus alunos.

 

       No momento que a escola e os professores tiverem essa concepção de respeito ao outro é que passará de repassadora de conteúdos, para sua verdadeira função, que é formadora de novos cidadãos capazes de viverem em comunhão com seus iguais, respeitarem uns aos outros, admirarem suas diferenças e seus hábitos culturais.

       Como afirma Freire (1996a,p.69). “Creio poder afirmar, [...] que toda prática educativa demanda a existência de sujeitos, um com que, ensinando aprende, outro que, aprendendo, ensina, [...]”.

 

      É o respeito aos nossos semelhantes, que nos engrandece como seres humanos, o único capaz de nos transformar em pessoas preocupadas com o bem estar dos nossos próximos e militantes da busca por um mundo melhor, onde todos possam viver em paz com as suas diferenças.

 

Bibliografia.

 

BARBOSA, Ana Mae. Arte-Educação no Brasil: leitura no subsolo. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1999, 199 p.

 BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: pluralidade cultural, orientação sexual/Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1997, 164 p.

 FLEURI, Reinaldo Matias, org. Educação intercultural: mediações necessárias. Rio de Janeiro: DP&A, 2003, 156 p.

 FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 27 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996a (Coleção Leitura), 148 p.

 ______ . Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido, São Paulo: Paz e Terra, 1992b, 245 p.

 ______ . Educação como prática da liberdade. 23 ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999c, p. 45-84.

 ______ . Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987d, p. 22-89.

 ISKANDAR, Jamil Ibrahim. Normas da ABNT: comentadas para trabalhos científicos. 2 ed. Curitiba: Juruá, 2003, 94 p.

OROFINO, Maria Isabel. Mídia e Educação: contribuições dos Estudos da Mídia e Comunicação para uma pedagogia dos meios na escola. In: FLEURI, R.M., org. Educação Intercultural: mediações necessárias. Rio de Janeiro: DP&A, 2003, 156 p.

 

 
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Sobre este autor(a)
Licenciada em Artes Visuais - Artes Plásticas; Pós Graduada em Metodologia do Ensino Superior; Ex professora titular das disciplinas de Linguagem Visual, Técnica de Representação Gráfica, técnica básica de Programação Visual e Animação do Centro Universitário da Grande Dourados -UNIGRAN/ Dourados-MS...
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