O Porquê Do Estudo Histórico
 
O Porquê Do Estudo Histórico
 


Como estudar o passado, uma vez que não temos acesso a ele? Como relacionar-se com o que não existe? Por que estudar história se tudo o que dissermos ou soubermos do passado são interpretações? Essas indagações nos levam ao problema: por que estudar história? Por que nos determos sobre algo a que não teremos acesso?

De modo simplificado podemos dizer que estudamos história para entender como as relações e/ou alterações econômicas interferem em nossas vidas. Para entender como ocorrem as relações entre as pessoas (relações sociais) e de como pessoas, ou determinados grupos sociais ou instituições, entre as quais se estabelecem as relações sócio-políticas, tentam se impor sobre outros grupos ou pessoas, manifestando nisso as relações do poder político que norteiam a sociedade.

Embora não sejamos capazes de voltar ao passado, nem de chegar ao futuro, nem mesmo de manusear o presente, somos, mesmo assim movidos pelo eterno e incansável desejo de saber. E queremos o saber não só para nos apropriarmos dele, mas queremos nos apropriar do saber para possuirmos elementos de manipulação. O saber, portanto é uma das dimensões da política que é um dos braços da economia que interfere nas relações sociais e, portanto, interfere em nossas vidas cotidianas. Estudamos história não por amor ao passado, mas porque queremos interferir em nosso cotidiano, que é um presente fluído, constante e virtuosamente sendo arremessado ao passado.

Neste ponto é que entram a memória e os patrimônios. A memória como evocação do passado e o patrimônio como representação do passado.Tendo isso por base podemos dizer que, por mais que não tenhamos acesso ao passado o que inviabilizaria a história, podemos estudá-lo. E é o que fazemos pela mediação da história, pois somos buscadores do saber. E para termos acesso ao saber manuseamos os elementos que evocam o passado a fim de encontrarmos um significado  e assim damos significado àquilo que a memória nos apresenta ou àquilo que está preservado nos elementos patrimoniais. A história, portanto, é algo que se estuda indiretamente, por mediações: a mediação das teorias.

O problema do acesso ao objeto de estudo não é exclusivo da história. As chamadas Ciências Humanas se defrontam com esse problema. "Mesmo que as ciência humanas tenham começado a surgir no final do século XIX, até hoje enfrentam problemas na tentativa de estabelecer o método adequado à compreensão do comportamento humano" (ARANHA; MARTINS, 1997, p. 166). Essa dificuldade metodológica, continuam as autoras, se deve à complexidade que é o ser humano, à dificuldade de se comprovar experimentalmente, reações e comportamentos humanos e à impossibilidade de dados objetivos, pois não se repetem da mesma forma e nas mesmas proporções, mesmo que as situações sejam semelhantes.

Sabendo que são as concepções teóricas que sustentam a veracidade histórica, somos levados a nos confrontar com o problema da subjetividade e com a possibilidade da cientificidade da história. E com isso entramos naquilo que B. Mondin chama "ceticismo histórico" e de "realismo histórico". Sendo que o "ceticismo" nega a possibilidade de se fazer ciência histórica principalmente por que os fatos são interpretados discordantemente. "a interpretação dos fatos é bem diferente conforme a história é escrita por um positivista, por um marxista ou por um católico" (MONDIN, 1983, p. 148). Mas, por outro lado mesmo havendo essa subjetividade, e não há possibilidade de excluí-la, permanece a afirmação da cientificidade não pela comprovabilidade, mas pela utilização de instrumentos teóricos adequados. Mesmo que o acesso ao fato seja indireto, é mediatizado pela teoria e pelo documento, a cientificidade é garantida pelo embasamento teórico.

Esse acesso indireto é o que os PCNs chamam de "subjetividade interpretativa". Não se estuda o fato, nem o processo gerador do fato, mas as representações desse processo e desse fato. Os historiadores fazem suas pesquisas utilizando-se de documentos que podem ser escritos, iconográficos, arquitetônico, numismático, elementos culturais, os depoimentos dos que viveram o processo ou os fatos, etc. Podemos dizer, portanto que qualquer objeto ou realidade está carregado de história. E nessa história estão presentes muitas pessoas que vivenciaram os processos que foram os produtores dos fatos; pessoas que mantiveram as relações sociais, econômicas e políticas.

O estudo da história, portanto "dilui" a distância entre o sujeito cognoscente e a realidade pesquisada:

Essa diluição das distâncias e a interpenetração entre o sujeito e o objeto de estudo instigou alguns historiadores a assumirem plenamente uma subjetividade interpretativa, questionando a dimensão real e o comprometimento do conhecimento histórico com a 'verdade' em termos de vínculo com a realidade social. (BRASIL, 1998, p. 32)

Sendo expressão de uma subjetividade, o conhecimento histórico depende de validação. Essa validade é conferida pelo "diálogo que o historiador estabelece com seus iguais, a coerência de sua abordagem teórico-metodológica e a organização do conhecimento por meio de uma formalização da linguagem científica da história" (BRASIL, 1998, 32). São as teorias científicas que dão sustentação ou veracidade à afirmação histórica.

Dessa forma, o estudo da história só tem sentido e validade, só ganha status de cientificidade a partir de uma metodologia aplicada ao processo da busca da compreensão daquilo que é apresentado como memória ou patrimônio. A validade ou verdade histórica depende dos elementos metodológicos que são convenções da comunidade científica atual. Não se faz história com os critérios do passado, ou de quem viveu o fato estudado, mas com nossos critérios olhamos o passado, inacessível.

Isso nos leva à importância da memória e do patrimônio para o estudo da história. E parece não ser exagerado afirmar que a memória pode ser vista como a mãe da história. Tanto no sentido de ver a história como ação humana, como no sentido de narrativa escrita dessas ações.

Referências

ARANHA, Maria L. Arruda; MARTINS, Maria Helena P. Filosofoando: introdução à filosofia. 2 ed. São Paulo: Moderna, 1997

BLOCH, Marc, Apologia da História ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Zahar. 2001.

BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembrança de velhos. 5 ed. São Paulo: Cia das Letras, 1998

BRASIL.Parâmetros Curriculares Nacionais, terceiro e quarto ciclos do ensino Fundamental. História. Brasília: Secretaria de Educação Fundamental. MEC/SEF. 1998.

BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: ensino Médio: ciências humanas e suas tecnologias. MEC. Brasília: MEC/Secretaria de Educação média e Tecnológica, 1999

CHAUÍ, M. Convite à filosofia. 13 ed. São Paulo: Ática. 2005.

MONDIN, Batista. Curso de Filosofia. São Paulo: Paulinas, 1983

ORIÁ, Ricardo. Memória e Ensino de História, in BITTENCOURT, Circe (org). O Saber Histórico na Sala de Aula. 5 ed. São Paulo: Contexto. 2001

Neri de Paula Carneiro  Mestre em EducaçãoFilósofo, Teólogo, HistoriadorLeia mais: http://falaescrita.blogspot.com/http://ideiasefatos.spaces.live.comhttp://www.webartigosos.com/http://www.artigonal.com/

 
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Sobre este autor(a)
Concluí mestrado em Educação (UFMS), especialização em Educação (UNESC-Cacoal-RO), em Teologia (CEBI). Sou graduação em Filosofia, Teologia, História. Prof. de História e Filosofia (SEDUC-R. Moura-RO); de Filosofia e Ética na FAP (P Bueno-RO) e FSP (R. Moura-RO). Paranaense, escolhi viver em Rondôn...
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