O LÚDICO NO DIAGNÓSTICO PSICOPEDAGÓGICO
 
O LÚDICO NO DIAGNÓSTICO PSICOPEDAGÓGICO
 


         O  LÚDICO NO DIAGNÓSTICO PSICOPEDAGÓGICO

Todos os profissionais que trabalham com crianças são unânimes ao afirmar que é indispensável haver um espaço e tempo para a criança brincar e assim melhor se comunicar, se revelar. Segundo Winnicott, é no brincar que o indivíduo, a criança ou o adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral.

O uso de situações lúdicas no diagnóstico é mais uma possibilidade de se compreender o funcionamento dos processos cognitivos e afetivo-sociais e suas interferências mútuas, no Modelo de Aprendizagem do paciente.

Os jogos, principalmente os de estrutura simbólica, como os jogos de faz-de-conta, assumem papel central na avaliação diagnóstica de crianças.  Ao jogar, a criança expressa sua forma de pensar, sua postura, sua conduta frente ao parceiro ou ao terapeuta, a forma como utiliza os materiais do jogo, entre outros. É possível observar quais as estratégias, os procedimentos empregados pela criança para ganhar o jogo.

Nesta perspectiva o jogo pode favorecer a construção de novas estruturas; e no que tange ao diagnóstico, as formas de coordenar os observáveis do jogo, as previsões, as antecipações, a compreensão e prática das regras podem constituir inferências que permitem verificar o nível de estruturação cognitiva do sujeito.

Segundo Macedo (1992), o jogo pode ser um bom instrumento de diagnóstico, visto que por meio dele tem-se acesso ao pensamento infantil, além dele permitir definir as estratégias de intervenção a serem realizadas dentro de um processo psicopedagógico.

Dessa forma cabe ao psicopedagogo definir em que momento e situação usará no processo diagnóstico este instrumento, pois cada diagnóstico se refere a um sujeito único e singular, e caberá ao profissional a sensibilidade para perceber qual é o melhor instrumento naquele momento específico.

Através dos jogos podem-se observar diversas situações como: tolerância à frustração; a forma como o sujeito lida com o erro; se consegue concluir o jogo ou solicita outro antes de terminar; limites; se mostra interesse em aprender as regras; se tenta enganar ou tenta mudar as regras do jogo para vencer; noção espacial; raciocínio lógico; concentração e outros.

Jogos como: damas, dominó tradicional ou de figuras, mancala, quarto, lig 4, quebra-cabeça, etc., serão úteis na observação das situações descritas e também outras de acordo com o que se busca no diagnóstico. 

  Avaliação do Nível Pedagógico

A avaliação do nível pedagógico, como qualquer um dos outros momentos do diagnóstico, deve ser considerada no sujeito como um todo, portanto inclui-se o nível pedagógico, seu funcionamento cognitivo e suas emoções ligadas ao significado dos conteúdos e ações. É importante descobrir o que o paciente já aprendeu, como ele articula os diferentes conteúdos entre si, como faz uso desses conhecimentos nas diferentes situações escolares e sociais, como os usa no processo de assimilação de novos conhecimentos.

Weiss afirma que:

É importante definir o nível o nível pedagógico para se verificar a adequação à série que cursa. Algumas vezes a defasagem entre o nível pedagógico e as exigências escolares atuais pode agravar dificuldades do paciente anteriores à escola, e outras vezes criar situações que podem vir a formar dificuldades de aprendizagem/ou de produção escolar (WEISS, 2007, p. 93).

Normalmente as queixas escolares específicas estão focadas na leitura, escrita e matemática, em diferentes graus e séries. Para planejar uma avaliação, é  essencial perceber a problemática existente em torno do período em que se dá basicamente o processo de alfabetização da que ocorre no desenvolvimento de leitura e escrita nas demais séries.

A investigação do nível pedagógico pode ser feita de diferentes maneiras:

§  Uso de provas pedagógicas clássicas: uso de material graduado, textos de leitura, série de problemas e outros, com dificuldade crescente.

§  Avaliação não tão formalizada, que seja mais livre ou até lúdica: observa-se o processo da realização para, posteriormente, analisar o produto. Para isso exige do terapeuta uma operacionalização de conhecimentos mais amplos na área pedagógica, psicológica e também de programas escolares oficiais.

§  Análise do material escolar: verificar a metodologia utilizada em sala de aula. Pode observar, por exemplo, como é tratado o erro ou acerto, como estes são avaliados pelo professor e também como é a organização e os cuidados com os diferentes materiais.

§  Entrevista escolar: ocorre normalmente com o orientador educacional, supervisor pedagógico ou psicólogo escolar. Estes podem apontar a visão dos professores sobre a conduta em sala, o relacionamento com os colegas e com os próprios profissionais. Ter conhecimento dos valores e normas da escola, tanto no nível pedagógico como disciplinares, tipo de exigência, tipo de clientela e corpo docente auxilia no momento da contextualização da queixa escolar e familiar.  

Alguns itens importantes na avaliação pedagógica, como a alfabetização; quando a queixa se refere à dificuldade de aquisição da leitura e da escrita, é necessária uma reflexão sobre os aspectos teóricos do assunto. Após pesquisas de Emília Ferreiro e colaboradores sobre a psicogênese da língua escrita mudou-se a concepção de alfabetização, o que acarreta o reposicionamento das patologias nessa etapa da aprendizagem.

A alfabetização passa a ser entendida como resultado da integração entre a criança, sujeito construtor do conhecimento, e a língua escrita. Um diagnóstico apoiado nesta visão considera a possibilidade de o paciente penetrar no significado do que escreve ou lê, no uso dessa língua como transmissora de informações, como elemento que proporciona prazer, que permite comunicar com um interlocutor ausente e como meio de registrar o que precisa ser recordado. Nesta perspectiva VYGOSTSK afirma:

O discurso interior é uma linguagem completamente desabrochada em toda a sua dimensão, é uma linguagem mais completa do que a falada. O discurso interior é quase completamente predicativo porque a situação, o assunto pensado é sempre conhecido de quem pensa. A linguagem escrita, pelo contrário, tem que explicar completamente a situação para ser inteligível. A transformação do discurso interior, condensado ao máximo, em linguagem escrita, pormenorizada ao máximo, exige o que poderíamos designar por semântica deliberada – estruturação deliberada do fluir do significado (VYGOSTSK,1975, p. 100 apud SMOLKA, p. 67).

Laura monte Serrat Barbosa, em seu livro Psicopedagogia – Um diálogo entre a psicopedagogia e a educação, sugere doze recursos investigatórios para avaliar o desenvolvimento da linguagem escrita, são eles:

§  Verificação da superação ou não do realismo nominal;

§  Interpretação da escrita antes da leitura convencional (a quantidade suficiente de caracteres, a característica que deve possuir um texto para ser lido, a distinção entre numerais e letras, a distinção entre as letras e os sinais de pontuação e a direção da escrita);

§  Leitura com imagem e/ou sem imagem;

§   Escrita espontânea; Escrita e leitura do nome;

§  Ditado utilizando segmentos da escrita espontânea;

§  Escrita para verificar o nível de apropriação da linguagem escrita;

§  Desenho livre e escrita de um texto sobre o mesmo;

§  Sequenciação de figuras e escrita de histórias;

§  Escrita como recurso auxiliar da memória;

§  Formação de conceitos. tranca

§  Leitura: ao avaliar o desenvolvimento da leitura em outros níveis, é importante o uso de material com significado completo. A seleção dos livros utilizados deve levar em consideração a boa graduação de níveis. Na avaliação com adolescentes, o uso de crônicas e reportagens de revista que tratam de assuntos de interesse do paciente é bastante oportuno. É necessário que haja uma possibilidade de escolha conforme a idade, escolaridade e reais possibilidades do paciente em relação à extensão do material.

§  Escrita: avalia-se na escrita o vínculo do paciente com a mesma escrita, o processo de escrever, o produto final em diferentes aspectos, o significado da escrita e suas fraturas. Durante a execução da leitura e da escrita, observa-se a postura corporal, o sentar, as tensões e relaxamento, o modo de segurar o lápis e o livro, o modo de se aproximar do material, a concentração da atenção, e o prazer de ler e escrever. A suspeita de dislexia exige maior aprofundamento.

§  Matemática: diante da queixa geral na aprendizagem, ou específica na matemática, há necessidade de avaliar com mais detalhes essa área específica. Aspectos como o raciocínio matemático, o cálculo, a leitura de problemas merecem destaque. É possível uma discalculia. Através de desafios lúdicos e problemas mais formalizados é possível verificar o raciocínio matemático. Ao escolher as atividades a serem utilizadas deve-se considerar a clareza do enunciado, o nível de raciocínio compatível com a idade, escolaridade e o nível operatório da estrutura de pensamento.

 

REFERÊNCIAS

  • BARBOSA, L. S. Psicopedagogia: um diálogo entre a psicopedagogia e a educação.  4º Ed. Curitiba. Bolsa Nacional do livro, 2007.

§  MACEDO, Lino. Ensaios construtivistas. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1992.

§  VYGOTSKY, L. S. Pensamento e Linguagem. São Paulo, Martins Fontes, 1989.

  • WEISS, M. L.L. Psicopedagogia Clínica: uma visão diagnóstica dos problemas de aprendizagem escolar. 12ª Ed. Rio de Janeiro: Lamparina, 2007.

§  WINNICOTT, D.W. Exploração da Psicanálise. Londres: Karnac Books, 1989.

 
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Sobre este autor(a)
Sou educadora ,graduada em Letras pela UFMT ,atuação nas áreas de linguagem e estou Cursando, pós graduação em Leitura Litetura e Produção de Texto.Acredito que estamos sempre em busca de dias melhores,vejo a educação como possibilidade de contribuição nas mudanças que a nossa sociedade tanto nece...
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