O Impacto da Eletrônica sobre a Fotografia
 
O Impacto da Eletrônica sobre a Fotografia
 


Durante a Revolução Industrial (1850), período em que se observou um enorme desenvolvimento das Ciências, verificou-se o surgimento de uma série de inovações que viriam a influenciar os rumos da História Moderna. (KOSSOY,1989:14)

Nesse contexto, marcado por fortes transformações sociais, culturais e econômicas, a fotografia se fez presente e alcançou papel fundamental. Com ela, adquiriu-se a possibilidade inovadora de se obter informação, conhecimento e também uma nova forma de expressão artística, além de possibilitar a documentação dos costumes, mitos, monumentos, habitações e o registro de conflitos armados, expedições, obras e etc. (KOSSOY,1989:14)

Boris Kossoy de forma direta resume o que o surgimento da fotografia representava até então:

"O mundo tornou-se de certa forma 'familiar' após o advento da fotografia; o homem passou a ter um conhecimento mais preciso e amplo de outras realidades que lhe eram, até aquele momento, transmitidas unicamente pela tradição escrita, verbal e pictórica". (KOSSOY,1989:15)

Foi o início de um novo processo de aprendizado do real, pois o homem teve acesso a informações e fatos de povos distantes.(KOSSOY,1989:15)

Seu consumo cresceu e ocasionou o gradativo aperfeiçoamento da técnica fotográfica, esta que a princípio era essencialmente artesanal, porém hoje representa um dos mais desenvolvidos meios de comunicação existentes. (KOSSOY,1989:14)

Um dos motivos que justifiquem seu destaque foram as transformações provocadas por inovações tecnológicas, em especial as advindas da eletrônica: automação e informatização da geração e do tratamento de imagens (pontos estes que serão discutidos no decorrer desse artigo). (VICENTE, 1998:328)

Essa crescente informatização juntamente com a globalização das sociedades, ampliou o campo da fotografia, que de início era restrita à produção e ao armazenamento de imagens e agora vem a incorporar a distribuição e o gerenciamento de informações. (VICENTE, 1998:330)

Desse modo, esse estudo tem como objetivo principal, analisar a fotografia sob o impacto da eletrônica, tentando demonstrar o que mudou e quais conseqüências essa mudança acarretou, pois hoje não há mais como negar a hegemonia das imagens em nossas vidas.

Segundo Arlindo Machado (1998:318): "Basta observar o crescimento vertiginoso das telas eletrônicas ao nosso redor". Elas estão presentes em tudo, ou em quase tudo que temos contato. Estão nas casas, escolas, empresas, hospitais, ruas e em meios impressos, como jornais e revistas de massa.

Com o tempo, passamos a receber e a enxergar esses novos tipos de imagem (digitalizadas) de forma mais natural e instintiva, visto que mesmo as consumindo cotidianamente, ainda não estávamos inteiramente conscientes das radicais mudanças que se processaram no seu interior, esquecendo-se até mesmo dos pálidos traços de um registro original que acabaram sendo modificados por inúmeros recursos informatizados. (MACHADO, 1998:318)

Renovaram-se tanto a visão de mundo como o próprio conceito de fotografia, hoje de base eletrônica. Nesse sentido, Carlos Fadon Vicente (1998:330) afirma que isso aconteceu devido à aceleração e integração de processos de comunicação, estando a primeira ligada a redução dos tempos de produção e os ganhos de produtividade, enquanto a segunda se refere as alterações em recursos técnicos, padrões de qualidade, métodos de trabalho e definição de funções.

Isso significa que todos esses processos residem em locais virtuais e que de alguma forma estamos inseridos nele, sejam através da interface com computadores ou com redes de armazenamento e comunicação de dados, por exemplo.

As fotografias eletrônicas, o tratamento eletrônico dado a elas ou a simulação de fotos por meio de recursos digitais são fatos consumados. (MACHADO, 1998:318)

Essa nova situação nos oferece uma boa chance para se repensar no destino da fotografia e em como reaplicar o seu papel na atualidade. (MACHADO, 1998:319)

Baseado nisso, nota-se que a conseqüência mais aparente e negativa da supremacia eletrônica é a perda do valor da foto como documento, como algo pré-existente e indicador de verdade. (MACHADO, 1998:320)

"Fluidas, ruidosas, escorregadias e infinitamente manipuláveis, a imagem eletrônica e a fotografia processada digitalmente não autorizam mais um tratamento no nível da mera referencialidade, no nível do registro documental puro e simples. O efeito de real não se dá nelas com a mesma transparência e inocência com que ocorre na fotografia convencional ou no cinema. Pelas suas próprias características, os meios eletrônicos se prestam muito pouco a uma utilização naturalista, a uma utilização meramente homologatória do 'real'".(MACHADO, 1998:324)

Dessa forma atualmente qualquer imagem fotográfica pode ser alterada, tornando-se possível modificar a posição das coisas, retirar excessos, acrescentar faltas e corrigir erros. E foi devido a essas manipulações digitais que as fotografias perderam sua credibilidade. (MACHADO, 1998:320)

Ao se afirmar que nesse período, marcado por intensas transformações advindas da eletrônica, a foto não está mais insenta de subjetividades, estamos afirmando que situada em época anterior ela não assumia tal posição. Fato esse que discordamos, pois desde muito tempo o fotógrafo atribui à foto o significado que deseja, mesmo que sem interferências de outros mecanismos (manipulações digitais), ele constrói um cenário, um significado.

Uma vez que se encontram sujeitas a diversas mudanças, ou até mesmo distorções a imagem digitalizada sofre uma espécie de metamorfose (termo utilizado por Arlindo Machado para designar todas as manipulações sofridas por uma foto), podendo interferir em seus valores cromáticos, recortar e inserir figuras, gerar paisagens exóticas e etc. (MACHADO, 1998:323)

Segundo Carlos Fadon Vicente (1998:333/334), há uma certa ilusão quanto à liberdade de criação no uso dos sistemas para a manipulação de fotografias:

"As limitações operacionais e estéticas sutilmente impõem paradigmas que tendem a banalizar e pasteurizar os resultados finais. Uma abordagem mais criativa e inteligente vai exigir um exame cuidadoso e em profundidade dos recursos, talvez até mesmo trabalhando contracorrente".

Certamente como destacado por Arlindo Machado (1998:320), em outros momentos de nossa história também se modificavam os elementos constitutivos da imagem, mas isso era feito de forma grotesca sendo possível identificá-los com facilidade. Hoje, devido seu alto grau de fidelidade ao original, é extremamente difícil descobrir qualquer tipo de manipulação em uma foto. Enfim, a fotografia enfraqueceu então seu peculiar poder de produzir verossimilhança.

Outro ponto que merece destaque é a trivialidade com que o processo da prática fotográfica se dá. Os recursos utilizados para se alterar digitalmente uma imagem estão cada dia mais acessíveis, uma vez que câmaras digitais de baixo custo são vendidas juntamente com programas de edição de imagem sendo destinadas a todos os públicos. (MACHADO, 1998:321)

Assim, o trabalho do fotógrafo perde seu valor como afirma Arlindo Machado:

"A tarefa do fotógrafo convencional se reduz cada vez mais a do colhedor de imagens, entendida como tal a atividade do mero fornecedor de uma matéria-prima que deverá ser depois manufaturada em estações gráficas computadorizadas". (1998:321)

Para o fotógrafo, a busca pelo "momento decisivo" não faz mais tanto sentido, pois o resultado que hoje se quer alcançar é mais pictórico do que fotográfico e a fidelidade ao mundo visível se mostra cada vez menos pertinente. (MACHADO, 1998:321)

Isso marca, segundo esse mesmo autor, a fase pós-fotográfica caracterizada por uma imagem tecnicamente produzida, que oferece ao espectador a convivência diária com meios eletrônicos em geral, mudando dessa forma, a maneira com que estes se relacionam diante de imagens técnicas. (MACHADO, 1998:321)

Mesmo que para nós, isso aconteça de modo inconsciente, como bem destacou Carlos Fadon Vicente (1998:329/330), a fotografia elabora realidades, ou seja, o fotógrafo primeiramente atribui a uma foto sua intenção e referencial cultural, porém a leitura que o espectador fará dependerá de sua própria referencia e sua própria realidade, sendo assim cada um a interpreta e a apreende de maneiras diferentes.

O significado e o que uma fotografia representa também mudou. O receptor sentiu a necessidade de criar novas formas de leitura fotográfica. Ela se mostra agora como um "texto" para ser lido e não mais como paisagem a ser contemplada. (MACHADO, 1998:322)

Mesmo que vista por muitos como algo negativo, a eletrônica quando somada a fotografia produziu positivos resultados tais como: a incrementação de seus recursos expressivos (enquadramento, iluminação, focos, cores e etc.) e pôs abaixo a ilusão de que ela existiria somente para representar o verdadeiro, o real. (MACHADO, 1998:322)

Isso foi colocado em evidência, segundo Arlindo Machado, quando se admitiu que fotografar primeiramente significava construir um enunciado a partir do que é oferecido pelo sistema expressivo, não tendo nenhuma relação com reproduzir o real. (MACHADO, 1998:323)

E mais ainda, à medida que o público for se adaptando as imagens digitalmente alteradas esse mito de veracidade desaparecerá e dará lugar a idéia de imagem como construção e discurso visual. (MACHADO, 1998:323)

Todavia, não podemos afirmar que imagens digitalizadas são indiferentes a realidade, elas apenas despertam em nós uma maior desconfiança com relação ao que se pode ou não acreditar. Não é possível "montar o que já é real", o que se faz é manipular o que lá está. Com relação a isso Fred Ritchin (MACHADO, 1998:323) observa que, "o potencial expressivo da fotografia não poderá ser adequadamente fixado e avaliado enquanto a questão da sua fácil conexão com a realidade não for superada".

Vale dizer também que o aparecimento da fotografia digital dinamizou por outro lado o trabalho de muitos fotógrafos, uma vez que atualmente há a necessidade de se realizar certas tarefas sem erros em um curto espaço de tempo.

Além de ser instantânea e facilmente transmitida, a fotografia eletrônica tem outro traço fundamental:

"Posta em registro digital (isto é, numérico) ela tem uma estrutura ordenada e discretizada em pontos (elementos de imagem ou pixels), passível de um tratamento matemático. É a partir dessa estrutura que se estabelece um amplo leque de possibilidades estéticas, mais precisamente a manipulação eletrônica". (VICENTE, 1998:332)

Mesmo que registros possam ser feitos em base analógica ou digital, é através da última que eles ganham a possibilidade de circular pelos sistemas, de serem transmitidos imediatamente. (VICENTE, 1998:332)

Por fim, é importante que se destaque que a fotografia não vive uma situação particular, ela apenas faz parte de um forte movimento que são identificados em todos os campos culturais, e que o autor Arlindo Machado caracteriza como sendo um processo de "pixelização" (conversão em informação eletrônica) e de informatização de todos os meios de comunicação e formas de expressão do homem contemporâneo. (MACHADO, 1998:319)

E foi por meio das transformações descritas durante todo o artigo, que conseguimos enxergar os impactos trazidos pela eletrônica sobre a fotografia, concluindo que esse foi capaz de alterar não só os modos de fazer, mas também os modos de pensar de uma sociedade.

Basta termos consciência de que é preciso nos adaptar a essas mudanças, pois assim como outros avanços tecnológicos, o advento da fotografia digital apresenta tanto aspectos positivos quanto negativos em nossos processos culturais, estéticos e ideológicos.

Referencias bibliográficas

KOSSOY, Boris. Fotografia e História.São Paulo: Ática, 1989.

MACHADO, Arlindo. A fotografia sob o impacto da eletrônica. In: SAMAIN, Etienne (org.). O Fotográfico. São Paulo: Hucitec, 1998.

VICENTE, Carlos Fadon. Fotografia: a questão eletrônica. In: SAMAIN, Etienne (org.). O Fotográfico. São Paulo: Hucitec, 1998.

 
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