O diálogo entre a afetividade e a (in)disciplina na formação do individuo
 
O diálogo entre a afetividade e a (in)disciplina na formação do individuo
 


Introdução

Em função de vários problemas que observamos, seja no ambiente pré-escolar ou escolar, em relação à suposta falta de limites que os pais impõem aos filhos, atitude que certamente a criança vai repetir na escola, o que atrapalha todo o processo de aprendizagem, decidi realizar esta pesquisa propondo uma ampliação dos estudos sobre o assunto, no sentido de perceber como a família, efetivamente, contribui com a educação do filho no atual contexto social brasileiro.

É muito comum, para os pais, encontrarem dificuldades em impor limites aos filhos, segundo a publicação da revista Veja edição 1841, 2004 da Editora Abril, a liberdade passou a dar o tom nas relações entre pais e filhos, os filhos passaram a determinar as regras, questionando a autoridade de seus pais, seja porque trabalham o dia todo e deixam tal responsabilidade a cargo de outra pessoa, seja porque vieram de uma educação muito repressiva e não desejam reproduzir o modelo de seus pais; em último caso, há ainda a falta crescente dos valores éticos,religiosos e sociais.

Até poucas décadas atrás por volta dos anos 1960, à família era muito mais presente no cotidiano das crianças. Desde cedo, as meninas aprendiam os afazeres domésticos, os meninos acompanhavam os pais, a criança adquiria boas maneiras, o que ajudava a crescer com responsabilidade e respeito.

As reuniões familiares, como almoços e festas, eram um suporte e um horizonte nas relações afetivas, pois as gerações se encontravam, contavam, ouviam histórias e brincavam, davam-se carinhos mutuamente. Hoje, cada vez mais raros esses encontros, pois avós, pais e tios estão cada vez mais envolvidos com suas vidas profissionais e sociais.

A família continua sendo apesar de todos os problemas, o porto-seguro para cada um de nós, geralmente é na família que são desenvolvidos os laços afetivos norteadores do nosso desenvolvimento. Portanto é papel da família o desenvolvimento da auto-estima de seus filhos. Considerando a necessidade de se rever as bases da educação da criança apoiado na bibliografia de diversos autores, a pesquisa abordou as contribuições da psicopedagogia no âmbito educacional através de uma proposta de trabalho realizado em conjunto com família/escola possibilitando minimizar a indisciplina nas crianças.

 

 

 

Família

A família é indispensável para o desenvolvimento individual da criança, na qual ela começa a construir a sua história de vida. A família desempenha um papel decisivo na educação formal e informal da criança; é em seu espaço, que são absorvidos os valores morais, éticos e humanitários, criando uma rede de significações vinculadas aos mitos, crenças, religiões, segredos, medos e idéias.

A educação bem-sucedida da criança na família é que vai servir de apoio à sua criatividade e ao seu comportamento quando for adulta. A família será a influência mais poderosa para o desenvolvimento da personalidade e do caráter das pessoas. Apesar dos conflitos, a família é única no seu papel determinante no desenvolvimento da sociabilidade, da afetividade e do bem estar físico dos indivíduos durante o período da infância e adolescência.

 

A afetividade no processo de aprendizagem

A criança se constrói à medida que vive e convive em seu meio; ela não nasce com hábitos, isso se faz a partir de suas vivências, as emoções estão presentes em todos os momentos de nossas vidas, nas relações com o outro, onde se criam os laços afetivos. A afetividade é fundamental na construção do sujeito, pois é a primeira manifestação do psiquismo, dando impulso para o desenvolvimento cognitivo ao instaurar vínculos com o meio social. Desde pequeno, o bebê utiliza a emoção para comunicar-se com o mundo, antes mesmo da linguagem, consegue estabelecer relação com a mãe, por meio de expressões e gestos afetivos. (WALLON, 1982)

Nas relações interpessoais, a emoção tem papel extremamente importante, pois possibilita ao bebê provocar a ajuda do outro, garantindo sua sobrevivência, são suas emoções que unem ao meio em que vive, a afetividade é vital em todos os seres humanos, ela está sempre presente nas experiências vividas no relacionamento com o outro. A construção do eu e do outro, está sempre entrelaçada á construção do conhecimento, a criança inserida em um grupo, constitui o seu conhecimento com a ajuda do adulto, desta forma as experiências vivenciadas com outras pessoas é que vai determinar a qualidade do objeto. (WALLON, 1982)

A afetividade é uma dimensão presente em todos os processos interativos, nas salas de aula onde a interação social é indispensável para a apropriação de novos conhecimentos, no desenvolvimento da criança, a motricidade, afetividade, cognitivo e o social desempenham papéis de extrema importância. A relação de ensino-aprendizagem sofre interferência de vários fatores econômicos, sociais e políticos que prejudicam as dinâmicas da sala de aula, pois a escola não é uma instituição independente, portanto uma educação voltada para a realidade do aluno terá maior significado.

Hoje, estamos vivendo um afrouxamento no campo afetivo, pois muitas crianças não conhecem o que é afeto e, acabam buscando na escola, com os professores o que lhe faltam em casa, então a escola deve ser um espaço dinâmico, no qual as crianças alcancem o desenvolvimento de suas capacidades e potencialidades corporais, emocionais, cognitivas, afetivas, relações interpessoais e inserção social, essas interações sociais afetivas, contribuem para formação de crianças saudáveis, inteligentes e muito felizes.

Falar de afetividade na relação professor-aluno na perspectiva Walloniana é falar de emoção, disciplina, conflito eu-outro, em todo o meio em que ela faça parte, seja na família, escola ou no ambiente que ela freqüenta a necessidade de amor e participação expressa o desejo das pessoas de se relacionarem afetivamente com os outros, de pertencerem a um grupo, isso é freqüente na vida da criança.

 

Indisciplina na família/escola

A indisciplina tornou-se preocupante nos dias atuais, seja na família, escola ou sociedade sendo cada vez mais notória a dificuldade dessas instituições no que se refere à aplicação das normas e regras que norteiam a educação do individuo. Não se pode, portanto, deixar de notar que muitas das crianças indisciplinadas são geradas em lares destruídos, seja pelas drogas,bebida ou pela falta de comida, muitas delas são agressivas porque assim foram criadas, sem respeito, sem valorização de seus pequenos progressos, na difícil tarefa de educar os filhos, encontram-se a continua busca do diálogo e a necessidade de estabelecer limites, pois a falta de limite pode transformar crianças agressivas em adultos agressivos. (TIBA, 2002).

A família é o primeiro grupo social da criança, onde são mantidas as relações básicas que repercutirão em seu convívio social, as aprendizagens adquiridas neste ambiente refletirão na sua conduta, devido a sua capacidade de interagir e gerenciar pessoas e objetos no meio em que está inserido, desde o início de sua vida o indivíduo percorre uma trajetória (direitos e deveres) que são ensinados (disciplina), possibilitando-o adquirir autonomia, que é a capacidade de gerenciar seu próprio ser.

Pode-se considerar a escola como um ambiente que procura harmonizar os diferentes seres em um mesmo grupo. Para que haja essa harmonia é preciso traçar normas baseadas em valores universais, como respeito mútuo (cooperação, solidariedade, autodisciplina, etc.) visando o bem comum. O professor deve estar atento às mudanças de comportamentos sociais ou cognitivos buscando identificar possíveis problemas que o aluno esteja vivenciando em seu lar e que possam interferir no processo de ensino-aprendizagem.

 

Relação da afetividade e indisciplina na educação de um indivíduo

A vida social é uma necessidade que explica a maior parte dos nossos comportamentos, essa necessidade leva-nos a procurar a valorização e o reconhecimento por parte dos outros, é necessário mantermos uma atitude pró-ativa, reservar um tempo para orientar e corrigir, fazer elogios pelo esforço sincero, por menor que pareça ser, pois isso servirá de estímulo para se fazer o que é correto.

Hoje, existem várias indagações de pais e de professores em relação às implicações que a falta de afetividade e de limite em casa trazem para a aprendizagem escolar.  Muitos pais temem negar coisas para seus filhos devido à preocupação com tudo que não lhes conseguem dar em termos de carinho, atenção, tempo, convívio e, principalmente, de orientação educativa.

 

Sonhamos grandes sonhos para eles. Procuramos dar os melhores brinquedos, roupas, passeios e escolas. [...] Tiveram uma excelente intenção, só não sabiam que as crianças precisavam ter infância, que necessitavam inventar, correr riscos, frustrar-se, ter tempo para brincar e se encantar com a vida. [...] Não compreenderam que a TV, os brinquedos manufaturados, a Internet e o excesso de atividades obstruíam a infância dos seus filhos. Criamos um mundo artificial para as crianças e pagamos um preço caríssimo. Produzimos sérias conseqüências no território da emoção. (CURY, 2003, p.11-12)

 

Ao tentar adquirir tudo o que a criança pede em termos materiais, não conseguem estar mais presentes porque precisam trabalhar mais e a preocupação com o dinheiro e com as coisas materiais toma o lugar da confiança e do amor, isso serviu para acentuar a ganância, ambição e a rivalidade na natureza humana. Os pais dão presentes por não estarem presentes, atitudes que gera grande insatisfação nos filhos, quanto mais recebem de bens que na maioria das vezes não precisam, mais desejam a atenção, carinho que deixaram de receber de seus pais.

 

Psicopedagogia institucional e clinica

A psicopedagogia implica em um trabalho preventivo e curativo, estudando as características da aprendizagem humana, nos indagando sobre algumas questões, tais como: Como se aprende? De que maneira ocorrem as alterações/transformações na aprendizagem? Como conhecer, tratar e prevenir?

A psicopedagogia institucional possui um caráter predominantemente preventivo.  Para Bossa (2000, p. 30), “o trabalho psicopedagógico na área preventiva é de orientação no processo ensino-aprendizagem, visando favorecer a apropriação do conhecimento no ser humano, ao longo da sua evolução”, ou seja, pode estar ocorrendo em qualquer estágio da vida do ser humano.

A psicopedagogia clínica tem caráter predominantemente curativo, ela pode ser também de caráter preventivo, pois “uma vez que, ao tratar de alguns transtornos de aprendizagem, pode evitar o aparecimento de outros”. (BOSSA, 2000, p. 30).

 

Atuação do Psicopedagogo no diálogo entre afetividade e a (in) disciplina

A dificuldade de aprendizagem refere-se a um distúrbio que pode ser gerado por uma série de problemas cognitivos, orgânicos, sociais, familiares e emocionais, interferindo no processo de aprendizagem, os casos de agressões e desrespeitos entre alunos e professores tem se intensificado todos os dias, a escola tem apresentado dificuldades para incluir e despertar interesse dos alunos com baixo desempenho escolar, considerados preguiçosos, desatentos, irresponsáveis, rotulados de “alunos-problema”. Pais excessivamente protetores ou que se recusam a estabelecer limite aos filhos fazem com que se sintam incapazes e/ou não amados. Tais atitudes têm se mostrado negativas para a auto-estima, que por sua vez afeta a motivação dos alunos para a aprendizagem. Essas complicações resultantes da falta de afetividade e de limites podem gerar falta de ânimo, de atenção e de interesse nos estudos, aumentando a agressividade, estendendo-se a atitudes mais complexas em relação à escola.

É neste momento que o psicopedagogo tem procurado desenvolver seu papel, tendo como função mediar às relações existentes entre escola/família, visto que são os ambientes que mais ocorrem às aprendizagens significativas.

O Psicopedagogo precisa conhecer o histórico familiar dessas crianças, para poder ampliar as referências de mundo, as potencialidades e sua auto-estima, pois ela é um ser inteiro que pensa, possui sentimentos, afetos e percepções, a parceria com a família, escola e outros profissionais como: Psicólogo, Fonoaudiólogo, Fisioterapeuta, Neurologista entre outros, irão contribuir para superar ou minimizar o problema existente em relação à aprendizagem.

Segundo Bossa (2000, p. 21), “a psicopedagogia estuda as características da aprendizagem humana: como se aprende, como se essa aprendizagem varia evolutivamente e está condicionada por vários fatores, como se produzem as alterações na aprendizagem, como reconhecê-las, tratá-las e preveni-las.” Deste modo, não se pode analisar o processo de aprendizagem de forma isolada. Pois as dificuldades de aprendizagem podem ser de ordem emocional, física, social, cognitiva e etc.

 

Metodologia

Este trabalho desenvolvido com estudo de caráter bibliográfico, fundamentado nas teorias de diversos autores teve como finalidade proporcionar elementos que possam contribuir para discussões/reflexões relacionadas a ausência de afetividade e limites, uma realidade enfrenta por muitas escolas e famílias atualmente. Uma contribuição da Psicopedagogia no processo de ensino-aprendizagem e no desenvolvimento cognitivo, psicológico e social do individuo.

 

Considerações finais

Este trabalho teve como objetivo verificar a participação da família nos aspectos afetivos e cognitivos, mostrar a importância dos pais no processo de escolarização dos seus filhos e como a falta de afetividade e limites prejudicam o processo de aprendizagem do individuo. A família é o primeiro espaço de aprendizagem para o individuo, ela é um porto-seguro, e deve oferecer um ambiente acolhedor, confortável para seus filhos, a família desempenha um papel importante no processo educativo da criança, devendo contribuir positivamente no seu desenvolvimento, sejam eles afetivos ou cognitivos, quando essa participação não acontece, por parte da família, provoca grande insatisfação e insegurança nos filhos, podendo levá-lo a um rendimento escolar não satisfatório.

A escola vai além de mera transmissora de conteúdos, é no ambiente escolar que o sujeito aprimora seus conhecimentos e aperfeiçoa seu aprendizado de viver em sociedade, proporcionando um ambiente de discussões sociais. A escola deve conhecer um pouco a realidade das famílias, o modo de agir e pensar, com o objetivo de compreender as ações e comportamentos dos alunos.

O psicopedagogo deve priorizar o “conhecimento” do sujeito, focalizando a problemática dentro do contexto causa/sintoma e atuar sobre eles. Muitas vezes, o individuo não consegue aprender a ler, escrever ou resolver problemas matemáticos não por falta de requisitos intelectuais, mas por bloqueios e inibições do pensar, gerados por problemáticas afetivas ou emocionais.

Família, Escola e Psicopedagogo têm a sua importância no processo de aprendizagem, portanto a parceria é fundamental, para conhecer o histórico de vida do paciente; detectar os principais pontos de dificuldades e necessidades, com isso minimizar os problemas relacionados ao distúrbio de aprendizagem.

 

Referências bibliográficas

 

BOSSA, Nádia A. A psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. 2ª ed. Porto Alegre: Artimed, 2000.

CARVALHO, E. e CUZIN, M. A psicopedagogia institucional e sua atuação no mercado de trabalho. Campinas: UNICAMP, 2008.

 

CURY, Augusto. Pais brilhantes Professores fascinantes. Rio de Janeiro: Sextante, 2003.

 

PRADO, Danda. O que é família. São Paulo: Brasiliense, 1981. Coleção Primeiro Passos.

 

Revista Veja. Edição1841, 2004. Editora Abril.

 

RODRIGUES, Berenice. O papel da família na educação da criança: a necessidade do componente afetivo. São Paulo, 2008 43p. Monografia (Licenciatura em Pedagogia) Faculdade Magister.

 

TIBA, Içami. Quem ama educa. São Paulo: Gente, 2002.

 

WALLON, Henri. Psicologia e educação da criança. São Paulo: Ática, 1982

 
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Revisado por Editor do Webartigos.com


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