Juízes
 
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Juízes

(jp;v' "shaphat")

  • Pastor George Emanuel

O Livro dos Juizes1 (jp;v' "shaphat") foi assim chamado pelo grande relevo que nele têm os chefes a quem se deu tal nome (chofetîm). Depois da sua chegada a Canaã e do seu estabelecimento no território, como está descritas em Josué, as doze tribos ficaram um pouco à mercê dos povos que ainda ocupavam a terra.

Cananeus e filisteus continuavam a sua luta para expulsar as tribos israelitas que se tinham infiltrado em algumas parcelas do seu território; e a conquista total da terra e o conseqüente predomínio dos israelitas sobre os povos locais ficarão para mais tarde, no tempo de David (séc. X a.C.). Os Juizes não são chefes constituídos oficialmente, mas homens e mulheres carismáticos, atentos ao Espírito do Senhor, pessoas marcadas por uma forte personalidade, capazes de se imporem moralmente perante as outras tribos. Deste modo, quando alguma tribo era atacada, o Juiz congregava as outras para irem em socorro da tribo irmã. Uma outra função que lhes poderia ser atribuída era a de julgar (da raiz shaphat, que significa "administrar a justiça", "proteger"), em casos especiais, função que terá estado na origem do nome de "Juízes".O tempo dos Juízes é, pois, o tempo da consolidação das tribos no seu território, perante os inimigos estrangeiros, e o tempo das primeiras tentativas de federação entre as várias tribos com diferentes origens (ver Js 24).

Depois da morte de Josué, por volta de 1200 a.C. (Js 24), as tribos ficaram sem um chefe que aglutinasse todas as forças para se defenderem dos inimigos estrangeiros. A única autoridade constituída era a dos anciãos de cada tribo. Além disso, estas pequenas tribos eram muito independentes entre si, e não era fácil congregá-las. Ficavam, assim, mais expostas aos ataques de filisteus, cananeus, madianitas, amonitas, moabitas, todos inimigos históricos de Israel. Foram líderes carismáticos suscitados por Deus para salvar os filhos de Israel da opressão de outros povos. Foram comandantes ocasionais que tinham poderes militares e civis. O livro narra à façanha de doze juízes (Jz 3, 7  16,31), onde as tribos israelitas não possuíam uma unidade, ainda não era uma nação. Tinham em comum o mesmo Deus, a mesma lei e o mesmo passado. Neste período ocorreram muitas guerras entre os israelitas e as populações vizinhas (cananeus e filisteus). Acontecia de nessas guerras Israel abandonar seu verdadeiro Deus e seguir ídolos dos outros povos. Para isso, o Deuteronômio determinava maldições para perder o auxílio divino e a posse da terra. Somente quando o povo se convertesse e voltasse a ser fiel a Deus, Deus enviaria salvadores que derrotariam os seus inimigos. Este esquema em forma de circulo vicioso "apostasia; opressão; arrependimento; libertação" é próprio da teologia deuteronomista no livro juizes e seve para ilustrar toda a história de Israel.O problema maior é que Josué ao morrer não deixou sucessor e as doze tribos de Israel já estavam estabelecidas na terra prometida, mas não tinham um governo central, mas eram unidas pela religião monoteísta (um só Deus), diferente dos outros povos de Canaã que tinham muitos deuses (Baal, Aserá, Astarte). Israel convivia com esses povos pagãos e muitas vezes caiu na idolatria. Foi neste contexto de apostasia Deus suscitou os Juízes em Israel

Os Juizes eram heróis, muitas vezes dotados de força física ou carismas especiais para libertarem uma ou mais tribos de Israel dominadas pelos estrangeiros. Os Juizes não tinham sucessores nem dinastia, não promulgavam leis e nem impunham impostos. Eles eram as testemunhas de que Yahweh jamais abandonou o seu povo. Entre os grandes juízes encontramos Samuel, que foi o único que exerceu os cargos de sacerdote, profeta e juiz, Samuel teve autoridade sobre todo o Israel, embora não tinha sido chefe de exércitos como os outros. Ao todo foram 15 juízes. Seus nomes são: Otoniel, Eúde, Sangar, Débora, Gideão, Tola, Jair, Jefté, Ibsã, Elom, Abdom, Sansão, Abimeleque, Eli, Samuel.

1. Contexto Histórico: o relato bíblico cobre um período caótico na história de Israel: cerca de 1380 a 1050 a.C. Israel praticava continuamente o que era mau aos olhos do Senhor e "não havia rei em Israel, porém cada um fazia o que parecia reto aos seus olhos" (21.25). Ao servirem de forma deliberada a deuses estranhos, o povo de Israel quebrava a sua aliança com Yahweh. Em conseqüência, o Senhor os entregava nas mãos dos opressores. Cada vez que o povo clamava ao Senhor, este, com fidelidade, levantava um juiz a fim de prover libertação ao seu povo. O Livro de Juizes não olha apenas retroativamente para a conquista de Canaã, liderada por Josué, registrando as condições em Canaã durante o período dos juízes, mas também antecipa o estabelecimento da monarquia em Israel.

2. A Condição Política: Politicamente, não havia organização, nem capital nacional, nem um chefe de estado. Moisés deu-lhes um sistema religioso, mas nenhuma política de governo definida. Eram doze tribos, às vezes unidas com o propósito de se defenderem em conjunto, às vezes brigando quase a ponto de exterminarem uma à outra. Não obstante, três laços impediram que se separassem formando uma série de pequenas nações, a saber:

·Antepassados e uma história em comum.  Abraão era o fundador da raça; partilhavam igualmente da mesma reverência a Isaque e Jacó e nomes como José e Moisés, e Josué, e as glórias do mar Vermelho, do rio Jordão e da Conquista eram uma herança nacional.

·Uma língua em comum, o hebraico.  Há sinais de dialetos diferentes, mas nada que os tornasse ininteligíveis aos demais falantes.

·Uma religião em comum.  O tabernáculo fora estabelecido em Silo. Ali ficava o único altar. Ali residia o sumo sacerdote da nação. Ali os sacrifícios nacionais eram oferecidos diariamente. Para lá iam os representantes das tribos durante as três grandes festas anuais. Eram essas as forças centrípetas em operação. Os gregos tinham laços semelhantes; mas as condições geográficas primitivas desenvolveram uns individualismos tão intensos, que eles jamais se aglutinaram a ponto de formar uma nação. Esses laços uniram os hebreus até encontrarem no profeta Samuel e no rei Davi a fé sublime e a força de espírito para a organização política que os consolidou como nação.O Livro de Juízes cobre o período entre a morte de Josué e a instituição da monarquia. A data real da composição do livro é desconhecida.

No entanto, evidências internas indicam que ele foi escrito durante o período inicial da monarquia que se seguiu à coroação de Saul. Porém antes da conquista de Jerusalém por Davi, cerca de 1050 a 1000 a.C. Esta data tem o apoio de dois fatos:

1) As palavras "naqueles dias, não havia rei em Israel" (17.6) foram escritas num período em que Israel tinha um rei.

2) A declaração de que "os jubuseus habitaram com os filhos de Benjamim em Jerusalém até ao dia de hoje" (1.21) aponta para um período anterior à conquista da cidade por Davi (2Sm 5.6,7). O Livro de Juizes está dividido em três seções principais: 1) Prólogo (1.1-3.6) 2) narrativas (3.7-16.31);

3) epílogo (17.1-21.25). A primeira parte do prólogo (1.1-2.5) estabelece o cenário histórico para as narrativas que seguem. Ali é descritas a conquista incompleta da Terra Prometida (1.1-36) e a reprimenda do Senhor pela infidelidade do povo à sua aliança (2.1-5). A segunda parte do prólogo (2.6-3.6) oferece uma visão geral do corpo principal do Livro, que são as narrativas. Estas descrevem os caminhos rebeldes de Israel durante os primeiros séculos na Terra Prometida e mostram como o Senhor se relacionou com a nação naquele período, um tempo caracterizado por um ciclo recorrente de apostasia, opressão, arrependimento e libertação.

A parte principal do livro (3.7-16.31) ilustra esse padrão vicioso que se repete na história antiga de Israel. Os israelitas faziam o que era mau aos olhos do Senhor (apostasia); o Senhor os entregava nas mãos de inimigos (opressão); o povo de Israel clamava ao Senhor (arrependimento); e, em resposta ao seu clamor, o Senhor levantava libertadores a que ele capacitava com o seu Espírito (libertação). Sete indivíduos: Otniel, Eúde, Débora e Baraque, Gideão, Jefté e Sansão, cujo papel de libertadores é narrado com mais detalhes, são classificados como "juízes maiores".Outros seis, que são mencionados rapidamente: Sangar, Tola, Jair, Ibsã, Elom e Abdom, são conhecidos como "juízes menores". Um décimo quarto personagem, Abimeleque, está vinculado à história de Gideão.

Duas histórias são acrescentadas ao Livro de Juízes (17.121.15) na forma de um epílogo. O propósito desses apêndices não és estabelecer um final ao período dos juízes, mas descrever a corrupção religiosa e moral existente nesse período até ao sacerdócio de Eli e o nascimento de Samuel. A primeira história ilustra a corrupção na religião de Israel. Mica estabeleceu em Efraim uma forma pagã de culto ao Senhor, a qual foi adotada pelos danitas quando estes abandonaram o território que lhes coube por herança e migraram para o norte de Israel. A segunda história no epílogo ilustra a corrupção moral de Israel ao relatar a infeliz experiência de um levita em Gibeá, no território de Benjamim, e a conseqüente guerra benjamita. Aparentemente, o propósito desta seção final do livro é ilustrar as conseqüências da apostasia e anarquia nos dias em que "não havia rei em Israel".

Quanto ao valor histórico o livro dos Juizes é o mais histórico dos Históricos segundo o modo de escrever História no seu tempo. Nesse gênero literário cabiam não apenas os fatos e os documentos, como acontece na historiografia moderna, mas também o mito, discursos (veja-se o belo apólogo de Jotão: 9,7-20), etiologias, pequenos fatos do dia a dia, etc. Este livro fornece-nos um quadro geral único do modo de vida das tribos de Israel, depois da instalação em Canaã, no que toca à vida política, social e religiosa. É também interessante o fato de nos falar já do difícil relacionamento entre algumas tribos, que irá ter o seu desenlace na separação entre o Norte e o Sul, depois de Salomão. O tempo dos Juizes corresponde a mais de dois séculos de História, o que lhe confere um valor especial, embora a contagem dos anos fornecidos pelo texto nos dê exatamente 410 anos. Este fato é certamente devido ao uso corrente do número simbólico 40, que significa uma geração, isto é, a vida de uma pessoa. Esta indicação diz-nos bem do caráter aproximativo dos dados cronológicos do livro.

Como qualquer livro da Bíblia, também o dos Juizes não foi escrito para nos fornecer simplesmente a História factual das tribos de Israel. Antes de mais, foi escrito para manifestar como Yahweh acompanha o seu povo na sua história concreta, mesmo no meio dos mais graves acontecimentos, como as guerras contra os povos inimigos. A sua teologia fundamental é proposta pelos redatores deuteronomista nas Introduções (1,1-3,6), em que aparecem fórmulas características como "os filhos de Israel fizeram o que era mau aos olhos do Senhor" (2,11; 3,7. 12; 4,1; 6,1; 10,6; 13,1). Desta infidelidade do povo ao Pacto, ao Deus fiel da Aliança, segue-se o castigo, que aparece nas derrotas perante os povos estrangeiros; e depois, a vitória, mediante os intermediários do Senhor, os Juízes "salvadores" (3,31; 6,15; 10,1). A idéia teológica que ressalta deste livro é, pois, a imagem que um povo livre tem de Deus, que o acompanha para o libertar.

Quanto aos pecados dos juizes, estes não nos devem escandalizar, eram homens rudes que precisamos situar no seu tempo e que procediam segundo a moral de então; um caso paradigmático é a história de Sansão. Teremos, antes, é tentar descobrir o que há neles de positivo, ou seja, extraímos lições da ação de Deus, que os animava com o Seu Espírito para conduzir o povo de Deus em obediência a Sua palavra (3,10; 6,34; 11,29; 13,25).

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Nota:

[1] No hebraico, o título dado aos Juízes provém da raiz que significa julgar, decidir, resolver, acordar uma questão, ajudar alguém a ter seu direito, dar auxílio legal, exercer a função de juiz, sentenciar, punir, castigar, pleitear, demandar, reivindicar seu direito. Na construção substantiva, a palavra quer dizer juiz, árbitro, conselheiro jurídico, governante. Porém, sua função primeira não era exatamente de administrador da justiça baseada num código escrito ou num sistema jurídico. A Lei de Deuteronômio 16:18 - 17:1 Juízes e oficiais porás em todas as tuas cidades que o SENHOR teu Deus te der entre as tuas tribos;

1.Para que julguem o povo com juízo de justiça.

2.Não torcerás o juízo, não farás acepção de pessoas, nem receberás peitas; porquanto a peita cega os olhos dos sábios, e perverte as palavras dos justos.

3.A justiça, somente a justiça seguirás; para que vivas, e possuas em herança a terra que te dará o SENHOR teu Deus.

4.Não plantarás nenhuma árvore junto ao altar do SENHOR teu Deus, que fizeres para ti. Nem levantarás imagem, a qual o SENHOR teu Deus odeia.

Os juízes eram líderes tribais que surgiam em tempos de dificuldades e conflitos contra os opressores, vizinhos de Israel. A Lei de Yahweh exercia voz de comando sobre todos os expedientes da Nação. Seja a lei cerimonial, lei moral, ou de direito civil ou penal, todas eram administrada e sujeitas pela Lei do Senhor. O governo era uma teocracia, pura e simples, sendo Deus o verdadeiro e único Rei. Todos os funcionários do poder executivo, judiciário e religioso, nada mais eram do que representantes da vontade soberana de Deus. Eram representantes de Deus e acima de tudo deviam considerar a Sua honra, justiça e misericórdia. Isso determina o caráter e as qualificações exigidas de todos os príncipes, governadores, idosos, juizes, delegado, sacerdotes ou escribas. Estes funcionários do Reino deveriam ser homens que abominavam a ganância, eram imparciais e não deveriam temer o rosto de ninguém. Os juizes deveriam ouvir todos e ser sempre imparcial em seu veredicto

 
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Sobre este autor(a)
George Emanuel Lira Ferreira nasceu em 8 de novembro de 1975 em Fortaleza, capital do Ceará. É Bacharel em Teologia pelo SeminárioTeológico Pentecostal do Ceará, Mestre em Bíblia pelo STF e Conferencista. Contato: [email protected]
Membro desde dezembro de 2008
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