Influência árabe Na Europa Medieval
 
Influência árabe Na Europa Medieval
 


INFLUÊNCIA ÁRABE NA EUROPA MEDIEVAL

RESUMO

O estudo tem por objetivo a compreensão do Islã, não apenas como mais uma religião monoteísta, mas sim a congruência que facilitou e potencializou o surgimento de uma nação espiritual e integrada com os princípios cientificistas. Apresenta sucintamente sua gênese e destaca seu rápido expansionismo num espaço outrora ocupado pelo Império Romano e depois pelas mais variadas tribos bárbaras. Mostra o grau de penetrância quando descreve a ação islamita no continente europeu após a travessia do estreito de Gibraltar e a recolonização da Espanha, Portugal e, territórios limítrofes da atual França. Destacamos também a forte influência do mundo islâmico nas artes, alquimia, medicina, engenharia, arquitetura, filosofia e religião.

Palavras  chave: Islamismo; Religião; Muçulmano.

1 INTRODUÇÃO

Com as recentes demonstrações de intolerância entre os mandatários das potências ocidentais e o radicalismo bem orquestrado de certos grupos muçulmanos, mostra-se necessária à compreensão do mundo islâmico. Para tanto devemos recorrer à historiografia desta civilização no decorrer destes últimos milênios. A fobia descrita é decorrência da incompreensão e ignorância da maioria da população acerca do Islã. Acreditar que o islamismo restringe-se tão somente a religião, ou tentá-lo dissociar do estado é buscar apenas respostas parciais.

O ocidente recebeu forte influência do mundo islâmico, seja pelo aparecimento de uma nova religião, o Islã, ou seja, no campo das ciências. O contato com o oriente maometano deu mostras da impossibilidade hegemônica cristã - européia. O mundo apresentado por Maomé e seus cavaleiros apontaram para uma forma de governo autocrática, centralizadora e principalmente de integração filosofal entre cientificismo e religiosidade. Aliada a esta nova configuração, não podemos esquecer que as disputas ocidente  oriente precedem ao Islã. Dois impérios praticamente pereceram em decorrência destes atritos, falamos do mundo Romano e Pérsico.

Todo o estudo está compreendido entre os séculos 7 a 18. A pesquisa buscou subsídios na web - bibliografia, bibliografia clássica, artigos e em compêndios. A análise fundamentada nas fontes apresenta o Islã sob a ótica do ocorrido histórico. Mostra em seu fundador, o estadista necessário para unificar um variado grupo de clãs árabes. União facilitada pelo surgimento de uma nova religião e pelas promessas de riqueza.

2 O ISLÃ

O Islamismo nasce como religião em 610 e tem em Maomé seu fundador. Em apenas 30 anos torna-se religião oficial de toda a Arábia, unificando-a em torno de seus preceitos. Nasce um estado forte, expansionista e teocrático. Sua gênese advém da fusão de princípios judaicos e cristãos, norteados pelo Alcorão. Para Becker (1971, p. 238): "Grande parte da sua doutrina deriva das religiões judaico e cristã. O nome oficial da religião é Islã (ou Islame), que significa sumissão à vontade divina. O nome do adepto do Islã é muçulmano (ou islamita)".

Temos em Mohamed um estadista e não puramente um religioso. Qual melhor forma de agregar um cem números de clãs nômades politeístas a não ser pela convicção de uma nova religião. Antes de ungir e pregar a nova religião o profeta percorre um caminho longo, adquire experiência como mercador e guia de caravanas, tem contato com os principais grupos nômades, bem como, conhece os impérios, Persa Sassânida e o Romano. As condições para a unificação árabes eram favoráveis, efervescência religiosa e desejo de liberdade dos impérios arquiinimigos. Segundo Toynbee (1982, p. 450):

O Islã foi criado pelo gênio do profeta Maomé juntamente com a história da Arábia. Desde a domesticação do dromedário, aproximadamente 2.000 anos antes da época de Maomé, a Arábia havia sido percorrida, e as idéias e instituições se insinuavam na península vindas do Crescente Fértil com o qual se limitava ao norte. O efeito dessa infiltração havia sido cumulativo, e, na época de Maomé, a carga acumulada de força espiritual na Arábia estava pronta a explodir. No entanto, poderia não ter tido vazão se Maomé não houvesse surgido para dirigi-la. Inversamente, se Maomé houvesse nascido antes do tempo propício na Arábia, até mesmo sua visão, determinação e sagacidade poderiam ter sido derrotados.

Maomé é para o Islã o que Cristo é para o Cristianismo. O ponto divisor entre estes personagens é a intencionalidade de Maomé em unificar e expandir sua fé através de um estado. Observamos os comentários de Toynbee (1982, p. 454) acerca da comparação entre os dois precursores religiosos:

A situação política de Maomé foi diferente da de Jesus, quando este se submeteu à prisão, Jesus era súdito do Império Romano, e se se tivesse rebelado, sua revolta teria custado muitas vidas judaicas, sem nenhuma perspectiva de vitória militar. Maomé teve uma possibilidade de vitória, e venceu; seu sucesso como governante e guerreiro teve as mesmas conseqüências para o Islã que a conversão de Constantino I para o cristianismo. Envolveu a religião com a política e a guerra.

O nascimento de uma nação teocrática islamita tendo como líder Maomé não passoudiscretamente pela história; perseguições, mortes, escravidão, usurpações e obediência a líderes propensos a selvagerias e carnificinas se seguiram. Para Toynbee (1982, p. 456):

[...] o roubo, a guerra, e o massacre estavam entre os meios pelos quais obteve sua vitória para o Islã. Os mesmos crimes foram cometidos por cristãos, e, com menos freqüência, também por budistas, e nas escrituras judaicas são atribuídos a Moisés e a Josué. Todavia, pelo menos os fundadores do budismo e do cristianismo não legaram a seus seguidores esses maus exemplos.

3 EXPANSIONISMO ISLAMITA

É a partir do século 8 que o expansionismo islamita tem seu início, após a submissão de toda a Arábia à doutrina maometana e com o intuito de manter a unificação árabe após a morte de seu idealizador, começam os planos para travessia do canal de Gibraltar para a seguir estender os tentáculos islâmicos em território europeu. A possibilidade de atacar dois impérios fragilizados [Pérsico e Romano] e a igual promessa de rumar a Europa com olhos cheios para a pilhagem, amenizou as correntes internas do islamismo e por conseqüente a fragmentação do então mundo árabe. Para Toynbee (1982, p. 458): "[...] oportunidades de pilhagem  coisa pela qual os árabes assolados pela pobreza tinham insaciável apetite. Esta combinação de atração e coerção teve êxito em desviar a atenção dos insurrectos árabes, para conquistas no exterior".

Foi durante este século que o chamado mundo árabe atinge o ápice de seu expansionismo dominando o a Península Arábica por completo, norte da África, Ásia Menor e Península Ibérica, incluso nesta última, parte da França então ocupada pelos Visigodos. O que facilitou a manutenção e alargamento do limes muçulmano foi à reestruturação do poder em meados do século 8, os privilégios então nas mãos dos suscetíveis árabes muçulmanos passou para os muçulmanos de qualquer origem, ficou caracterizado o Islã como religião estendida a qualquer súdito do Império, independente de sua condição árabe. Segundo Toynbee (1982, p. 480): "Para o estado islâmico, o custo de pôr fim a associação da comunidade islâmica com a nação árabe foi a transformação do governo em uma autocracia do tipo persa sassânida".

A ocupação do território europeu ocorreu a partir de 711 com a travessia das tropas moçoárabes pelo canal de Gibraltar. Foram ocupadas várias regiões da Espanha, Portugal e parte da França. A cabeça de ponte do império maometano perdurou por cerca de 800 anos, com sucessivos avanços e recuos, e, entre estes, períodos de paz e concórdia entre invasores e nativos. Somente às portas do século 15 é que os mouros foram rechaçados do território europeu. Segundo Muniz (2000):

No ano de 711, Tarik ibn Ziyad, um general liberto e governador da faixa ocidental do Magrebe (atual norte do Marrocos), venceu o visigodo Rodrigo, rei de Espanha. Chefiando um exército de 7.000 homens, e contando com o auxílio de convertidos bérberes, ele atravessou o Estreito e desembarcou junto a um enorme rochedo, que tomou o nome de Jabal-i-Tariq (Monte de Tariq), mais tarde ocidentalizado para Gibraltar. Em 712, uma nova leva de árabes chegou à região, quando grande parte da Espanha central, Portugal e partes da Itália já tinham sido ocupadas. Seguiram-se as conquistas de Medina, Sidônia, Sevilha e Mérida. Os árabes estabeleceram uma nova capital em Córdoba, às margens do rio Guadalquivir, o que garantia água suficiente para a produção agrícola, que se desenvolveu graças às novas técnicas introduzidas por eles.

4 O LEGADO DO ISLÃ

Após oito séculos de presença moura no continente europeu, especificamente na Península Ibérica, o provável aconteceu, as culturas muçulmana e européia - cristã fundiram-se parcialmente e por conseqüente fomentou o intercâmbio cultural - científico. Os europeus tiveram os primeiros contatos com o cientificismo maometano; matemática, astronomia, alquimia, engenharia, arquitetura, agricultura e medicina. Na agricultura projetos e engenhos outrora, abandonados para cultura organizada e irrigada, encontrados em manuscritos e tratados romanos de autoria de Varrão e Columela foram revitalizados e aperfeiçoados pelos moçoárabes, promovendo a auto  suficiência, sendo que o excedente abasteceria outras comunidades desprovidas de solo afável para a prática da agricultura.

Os alquimistas, precursores dos químicos atuais, evidenciaram a descoberta de várias substâncias como álcool etílico, a amônia, o ácido nítrico e tantas outras substâncias farmacêuticas. A medicina apresentava contornos da praxis atual, compêndios da época comprovam descrições médicas perfeitamente aplicáveis aos dias de hoje. Leiamos a transcrição feita por Farah (2001) de uma carta manuscrita a mais de mil anos:

Meu querido pai, vocême pergunta se deve me trazer dinheiro. Saiba que, quando deixar o hospital, receberei roupa nova e cinco moedas de ouro, o que permitirá que eu não volte a trabalhar tão cedo. Mas você deve se apressar caso ainda queira me encontrar. Estou no serviço de ortopedia, ao lado da sala de operação. Para me achar, após atravessar o portão principal, pegue a galeria sul. Fica aí a policlínica para onde me levaram depois que eu caí. Os doentes são examinados nesse local, quando chegam, pelos médicos assistentes e pelos estudantes. Aos que não precisam ser hospitalizados, é entregue uma receita preparada ao lado, na farmácia do hospital. Assim que o exame terminou, registraram-me e fui levado ao médico-chefe. Depois disso, um enfermeiro me transportou para a seção dos homens, me fez tomar um banho e me deu uma roupa limpa. Então você deve virar a esquerda junto à biblioteca e ao grande anfiteatro onde o médico-chefe ministra seus cursos... Se ouvir música ou cantos através da divisória, adentre a sala. É possível que eu esteja na sala de estar reservada aos convalescentes, onde a gente se diverte com música e livros. Esta manhã o médico-chefe veio, como de costume, fazer sua turnê, acompanhado de seus assistentes e de seus enfermeiros. Depois de me examinar, deu uma ordem ao médico responsável por mim. Este me informou que eu poderia me levantar no dia seguinte e que em breve sairia do hospital. Mas saiba que eu não tenho a mínima vontade de ir embora. Tudo aqui é tão claro e tão limpo.

Aspectos discordantes na forma de interpretar as doenças e tratar os doentes são observados quando, comparadas ao modelo europeu-cristão, tais como; possibilidade efetiva de cura, acompanhamento dos estudantes de medicina no trato dos enfermos, presença de farmácias, melhoria dos equipamentos médicos e excessiva preocupação com a assepsia. Ainda segundo Farah (2001):

No século 10, a cidade de Córdoba, na Península Ibérica, possuía 50 estabelecimentos hospitalares. Ao contrário dos hospitais europeus, onde era oferecido conforto religioso mais que tratamento médico, os do mundo islâmico eram vistos como um lugar em que os doentes podiam talvez ser curados. Escolas de medicina e bibliotecas se ligavam aos hospitais. Os alunos aplicavam o que tinham aprendido na sala de aula no atendimento aos doentes, na ala masculina ou na feminina. No século 11, já havia clínicas móveis, que levavam assistência médica aos que moravam longe ou estavam enfermos demais para ir ao hospital.

As contribuições do "Iluminismo" islâmico permearam o avanço científico da Idade Moderna e, podem ser observados hoje. A matemática com a introdução do número zero possibilitou os cálculos com números inteiros (Z). A mecânica celeste possibilitou a invenção do astrolábio e o primeiro esboço aplicável à gravidade. A lingüística contribuiu com mais de 600 vocábulos, incorporados as línguas européias, em especial as Ibéricas. Enfim poderíamos apontar para várias áreas impulsionadas pelos muçulmanos.Talvez o êxito do islamismo esteja na interpretação do divino, a possibilidade de explorar os recursos naturais e aproveitar as benesses oferecidas. No mundo muçulmano caso tenha ocorrido à dicotomia ciência e religião foi menos intervencionista e mais associativa a ponto de libertar o pensamento.

5 CONCLUSÃO

O Islã nasce da persistência e idealismo de um homem visionário, conhecedor do mundo árabe e percebedor da necessidade de agregar os povos da Península Arábica, então envoltos em disputas territoriais e religiosas. É a partir da mixórdia de religiões, onde o politeísmo dominava o cenário árabe que fomenta e instiga os seus para a necessidade de união entre irmãos em prol de um único deus, Alá e ele próprio como profeta e, representante do anjo Gabriel. Conhecedor das mazelas impostas pelas constantes guerras aos impérios Pérsico e Romano, então arquiinimigos, mostra a possibilidade de juntos, envoltos em um único deus conseguir a liberdade e a melhoria das condições de um povo sofrido e, miserável. Nasce então a última grande religião monoteísta.

O expansionismo muçulmano pode ser descrito em períodos distintos, a dominação da Península Arábica, por Maomé até o limes dos impérios Pérsico e Romano. Após momentos de instabilidade interna decorrente da morte de Mohamed e com promessas de pilhagem e, riqueza o Islã se volta para duas frentes, a Ásia Menor e o norte da África para mais tarde fincar bandeira na Europa através do Estrito de Gibraltar, especificamente a Península Ibéria. A manutenção islâmica na Europa Ibérica exigia um esforço significativo, o que margeou as fronteiras nesta região. Enquanto que o insucesso na tomada de Bizâncio moldou o limes do mundo árabe no oriente.

A herança deixada pelo mundo árabe ao ocidente através das portas de Gibraltar, pode ser definida como um excelente pagamento pela locação da Europa Ibérica. Várias áreas do conhecimento saíram do obscurantismo e o método cientificista passa a ser utilizado. Os avanços são significativos para a medicina, alquimia, matemática astronomia entre outras. A meteórica florescência científica e filosófica do mundo maometano é ponto de acirrada discussão. Muitos estudiosos justificam tal movimento pela assimilação de conhecimentos de várias civilizações que apenas foram catalisados e potencializados. Outros, apregoam a forma sincrética com que os muçulmanos trataram as questõesreligiosa e científica.

O que nos causa perplexidade é a efemeridade do Império Islâmico, todas os ciclos e / ou períodos desta civilização ocorreram com uma rapidez incrível. Os povos arábicos foram forjados em unidade nacional e religiosa em apenas 30 anos. A expansão maximus territorium e tecnocientífica ocorreram em apenas 100 anos. A desintegração ocorreu durante o século 16 com a fundação dos três califados e o declínio tem início no século 18. Com a extinção do último reduto imperialista muçulmano, o califado otomano, o conceito de unidade nacional maometano é desfeito, permanecendo apenas o laço religioso, mesmo assim fragmentado em ramos gênicos distintos, herdados dos descendentes diretos de Maomé.

REFERÊNCIAS

BECKER, Idel. Pequena história da civilização ocidental. 5. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1971.

TOYNBEE, Arnold. A humanidade e a mãe  terra: uma história narrativa do mundo. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.

FARAH, Paulo Daniel. Época áurea legou avanços na ciência e na cultura. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/guerranaamerica/fj2309200130.htm>. Acesso em: 02 out. 2007.

 
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Sobre este autor(a)
Catarinense, formado em Ciências Biológicas e professor da rede estadual de Santa Catarina.
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