Histórias de Vida na Educação de Jovens e Adultos
 
Histórias de Vida na Educação de Jovens e Adultos
 


Oralidade Ferramenta Indispensável nas Histórias de Vida

Este capítulo concerne às histórias de vida dos indivíduos jovens e adultos valorizando seus relatos orais e suas memórias como cultura e construção de sua identidade como seu histórico. A entrevista foi à metodologia abordada neste trabalho.
Este trabalho teve como objetivo mostrar através das histórias de vida de cada indivíduo, que ele tem a capacidade de narrar detalhadamente suas vivências, suas trajetórias no mundo social que vive, de sentir-se valorizado por suas memórias, bem como ter a capacidade de aprender e de ser um cidadão.
Desta forma registraremos aqui todos os relatos pessoais de jovens e adultos que, através de depoimentos de suas histórias de vida, nos mostram as dificuldades e conquistas relacionadas a sua escolarização. Aqui estão as suas entrevistas com alunos de 1ª a 4ª fase do Ensino Fundamental Básico das respectivas instituições pesquisadas uma da zona urbana e outra da zona rural do município de Petrolina, PE, bem como as razões e o interesse que levaram a trabalhar este tema tão importante na vida do indivíduo que é a sua volta a sala de aula.
A história oral é uma metodologia muito usada em pesquisas históricas e sociológicas que valorizam as memórias e recordações de indivíduos, como também o recolhimento de informações através de entrevistas com pessoas que vivenciaram algum fato ocorrido. A história oral também dá acesso aos saberes construídos necessários a construção da escrita e leitura como aponta Joutard (2000, p.33)

A força da história oral, todos sabemos, é da voz aqueles que normalmente não a tem: os esquecidos, os excluídos ou, tomando a bela expressão de um pioneiro da história oral, Nuno Revelli, os "derrotados". Que ela continue a fazê-lo amplamente, mostrando que cada indivíduo é ator da história.

Como parte metodológica que faz parte da história oral, as entrevistas são documentos que possuem uma característica singular, são resultado do diálogo entre entrevistador e entrevistado, entre sujeito do objeto de estudo e tem como base os relatos pessoais, orais de sujeitos que participam do processo de aprendizagem da modalidade de ensino da educação de jovens e adultos. As entrevistas revelam desejos, frustrações, desilusões, esperança e desejo de participação. O individuo senão ator da história, pelo menos produz culturas locais no sentido de sociabilidade tornando possível uma vida digna e decente. E esta clientela bastante complexa e específica nos faz refletir sobre a importância de se valorizar a trajetória de vida deles, bem como o seu modo de pensar o mundo, diferentes subjetividades, suas emoções, seu cotidiano, sua história de construção cognitiva diante das transformações constantes em nossa sociedade.
E com estas transformações constantes em que nossa sociedade passa, cresce também o interesse do jovem e do adulto em fazer parte deste processo participando de alguma maneira. Daí a necessidade deste indivíduo de buscar o seu crescimento, de não deixar ser esquecido e desvalorizado, o leva a retornar a escola por estas e outras razões. E é de grande relevância este acontecimento, porque todos que fazem parte desta sociedade, todos são cidadãos e como tal, devem exercer sua cidadania, sua contribuição em prol do crescimento a que se faz parte. Este tema surgiu desta necessidade, de mostrar que todo o cidadão tem direito a educação e a educação com qualidade e que esta clientela da modalidade de jovens e adultos jamais deverão ser esquecidos, desprezados e condenados a exclusão total. Pelo fato de ser uma modalidade complexa com várias especificidades, não é dada a devida importância nem tão pouco estrutura suficiente que atenda a demanda de suas necessidades.
O presente estudo da educação de jovens e adultos, nos revela que, esta modalidade sofre variadas formas de discriminação e como educadora, isso nos remete a uma reflexão de que, os indivíduos que buscam na EJA um reconhecimento pessoal e social, acredita que a escola, juntamente com todo o corpo que faz parte dela, os beneficiem de maneira que atendam aos seus anseios e desejos de estar e fazer parte do mundo, beneficie de forma a elevar sua auto estima, de atuar na sociedade participando na tomada de decisões importantes do nosso país e além de tudo desenvolver a sua cidadania. É relevante que se tome conhecimento, de que é imprescindível a valorização de se pesquisar e conhecer as histórias de vidas, entender que nela existem diversas especificidades, em que as lições que a vida os propiciaram não foram vãs e que haja por parte dos órgãos responsáveis pela educação, adequação ao educando da EJA embasada na LDB. Lei de diretrizes e base da educação juntamente com os parâmetros curriculares nacionais, oferecer um ensino qualitativo com oportunidades, afinal esta clientela é multicultural e precisa de um suporte que garanta suas especificidades e conscientização de forma crítica o seu papel diante da sociedade.
É importante lembrar que desde os primórdios da nossa era, o homem foi tornando-se história, um ser histórico capaz de promover mudanças transformando sua realidade. Daí a necessidade de valorizar a cultura da oralidade buscando através dela a humanização entre as pessoas que têm histórias de vida diferentes, que tem uma particularidade de ser, uma maneira de expressar-se que é só dela e isso faz parte de sua trajetória de vida, da sua construção de conhecimentos e experiências adquiridas ao longo de suas vidas, como também no mundo cotidiano. Nesse dispositivo Joutard (2000, p.33 ? 34) lembra ainda:

Não se pode esquecer que mesmo no caso daqueles que dominam perfeitamente a escrita e nos deixam memórias ou cartas, o oral revela o indescritível, toda uma série de realidades que raramente parece nos documentos escritos seja porque são considerados "muito significante" ? é o mundo da cotidianidade ? ou inconfessáveis, ou porque são impossíveis de transmitir pela escrita. É através do oral que se pode apreender com mais clareza as verdadeiras razões de uma decisão: que se descobre o valor das malhas tão eficientes quanto às estruturas oficialmente reconhecidas e visíveis; que se penetra no mundo do imaginário e do simbólico que é tanto motor e criador da história quanto o universo nacional.

No Brasil, a história oral foi introduzida da década de 70, mas só na década de 90 tornou-se realmente significativa. Há inúmeros programas e pesquisas que utilizam os relatos pessoais sobre o passado para o estudo dos mais variados temas e as gerações futuras a compreensão das experiências vividas por outros. Às histórias de vida têm como ponto principal permitir que o informante retome a sua vivência de forma retrospectiva. Muitas vezes durante uma entrevista, podemos nos deparar com situações em que o entrevistado pode liberar seus pensamentos reprimidos em forma de confidências. Esse material é extremamente rico para analisar a trajetória de vida pessoal desse individuo que através de suas narrativas, dão vida as suas memórias de acordo com Warshauer(2004):

Uma das características da narrativa é proporcionar espaço para a singularidade. Para incluir o diferente é necessário haver e criar espaços para o singular, concebermo-nos como pessoas únicas, com histórias de vida que não se repetem. Podemos vivenciar os mesmos acontecimentos, mas os vemos (e sentimos) de maneiras diferentes. Nossas narrativas do vivido são nossas experiências sobre os acontecimentos em si. Trata-se do significado que atribuímos ao vivido. Dessa maneira, ao ouvir a história de alguém, podemos extrair significados diferentes dos que ela mesma atribui. (p.14)

Como podemos observar a narrativa é um método bastante utilizado dentro das histórias de vida e que faz parte da história oral que tem a finalidade de buscar maior compreensão para as dificuldades encontradas por esse sujeito com relação aos seus projetos de vida. O educador em sala de aula deve ter essa preocupação em investigar, em trabalhar esse sujeito e tentar compreender através da sua fala a sua exclusão precoce da escola, bem como seu retorno tardio a escolarização. A história oral do educando da EJA deve ser valorizada e privilegiada pelo educador, porque, segundo Meihy (1996):

O verdadeiro serviço que prestamos [(...)] a movimentos e indivíduos consiste em fazer com que sua voz seja ouvida, em levá-la para fora, em por fim a sua sensação de isolamento e impotência, em conseguir que seu discurso chegue a outras pessoas e comunidades. (p. 30).

Em vista disso nós, pesquisadores, devemos aplicar uma metodologia adequada que deve partir de um processo de reconstrução das trajetórias de vida desses educandos, privilegiando a oralidade, valorizando seus saberes, de forma variada mesclando-se a outras atividades. É um grande desafio proporcionar a esses educandos da EJA uma redescoberta de sua autoconfiança para então agir e interagir na sociedade em que ele está inserido de modo que venha realizar suas escolhas conscientemente.
E ao utilizar a entrevista deve-se levar em conta que é um processo sistemático, cauteloso, requer um bom roteiro por se tratar de testemunhas com visões e posturas heterogêneas, sempre respeitando seu ritmo, seu limite físico e cronológico, evitando assim argüições excessivas. É preferível que a entrevista ocorra em seu domicílio por proporcionar maior confortabilidade, segurança e cercada de recordações o que, para o entrevistador, facilita o seu trabalho, pois todas as histórias derivam de um tempo específico, de um lugar específico e de uma herança cultural específica.
 
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Revisado por Editor do Webartigos.com


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Sobre este autor(a)
Sou professora da Rede Municipal de Ensino, Licenciada em História pela Universidade de Pernambuco-UPE e faço parte de uma entidade chamada Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço- SBEC e outros temas relacionados aos movimentos sociais do País, sócia da União Brasileira dos Escritores de Petrol...
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