Hipertensão: Diabetes e Educação em Saúde
 
Hipertensão: Diabetes e Educação em Saúde
 


INTRODUÇÃO

A hipertensão e o diabetes constituem os principais fatores de risco populacional para as doenças cardiovasculares, com agravos de saúde pública. Entretanto, 60 a 80% dos casos podem ser tratados na rede básica (BRASIL, 2002).

Em nosso meio, a hipertensão tem prevalência estimada em cerca de 20% da população em idade adulta, com 80% dos casos associados a acidente vascular encefálico (AVE) e 60% à doença isquêmica do coração. Constitui, sem dúvida, o principal fator de risco para as doenças cardiovasculares, cuja principal causa de morte, o AVE, tem como origem a hipertensão não-controlada (BRASIL, 2002). No Brasil, estudo multicêntrico, realizado de 1987 a 1989 sobre a prevalência de diabetes, mostrou uma prevalência de 7,6% na população de 30 a 69 anos. Estudo recente, realizado em Ribeirão Preto, SP, relatou a prevalência de diabetes em 12% naquela população (BRASIL, 2002), além de revelar que 46,5% dos diagnosticados desconheciam portar diabetes (BRASIL, 2002).

Este artigo visa democratizar o saber sobre hipertensão e diabetes, provocando a discussão da questão da educação em saúde da população. Acreditamos que o conhecimento dos usuários dos serviços de saúde sobre essas enfermidades, alcançando um número maior de pessoas, pode reduzir complicações, número de mortes estas complicações, e por conseqüência, redução nos custos e complexidade com tratamento destas doenças.

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A Hipertensão

A hipertensão arterial sistêmica (HAS) é uma doença crônica não-transmissível, de natureza multifatorial, assintomática (na maioria dos casos) que compromete fundamentalmente o equilíbrio dos mecanismos vasodilatadores e vasoconstritores, provocando o aumento da tensão sangüínea nos vasos que pode comprometer a irrigação tecidual e provocar danos aos órgãos por eles irrigados (BRASIL, 2004).

Ainda se discute sobre os níveis de normalidade da pressão arterial. A Organização Mundial de Saúde preconiza que níveis pressóricos de 130/85 mmHg ou mais, devem ser considerados elevados (WHO, 1999). Já, em relação ao Brasil, a prevalência da hipertensão arterial ainda é desconhecida.

Alguns estudos pontuais estimam que em torno de 20% da população adulta apresenta hipertensão arterial (LESSA, 2001), e que os segmentos sociais mais pobres possuem maior prevalência de hipertensão e de complicações, por exemplo, os acidentes vasculares. As regiões rurais apresentam menor prevalência. Portanto, o ambiente é fator determinante. A urbanização, os hábitos sociais e a atividade profissional são determinantes maiores.

A estimativa de prevalência de hipertensão arterial na população adulta do Brasil, baseada nos dados estatísticos de 1995, é de 30 milhões de hipertensos, se consideradas as cifras entre 140-159 e/ou 90-94. Provavelmente, 50% destes (aproximadamente 15 milhões) desconhecem ser hipertensos.

Prevalência do tratamento e sucesso terapêutico

Mesmo reconhecendo-se que a hipertensão é uma entidade de prevalência elevada, seu tratamento continua inadequado. Estudos americanos demonstram que apenas 27% dos hipertensos mantêm um controle satisfatório da PA (<140/90 mmHg). Embora diagnosticados, apenas 50% dos pacientes utilizam medicação de modo regular, devido ao aspecto assintomático de hipertensão durante os primeiros 15-20 anos de evolução, sendo difícil convencer um paciente do perigo em potencial que corre e da necessidade de mudar seu estilo de vida e utilizar as medicações.

O tratamento não-farmacológico da hipertensão arterial inclui modificações de estilo de vida de comprovado valor na redução da pressão arterial: redução do peso e da ingestão de sódio, maior ingestão de potássio, dieta rica em frutas e vegetais e alimentos com pouco teor de gordura, diminuição ou abolição do álcool e atividade física. Alimentos ricos em cálcio atualmente são preconizados em conjunto com toda a série de medidas dietéticas já citadas, que, juntas, são benéficas para a redução da PA. A interrupção do fumo não interfere diretamente sobre a redução da pressão, no entanto, o fumo é importante fator de risco cardiovascular, e a suspensão do vício deve ser incentivada.

Diabetes mellitus

Diabetes é um grupo de doenças metabólicas caracterizadas por hiperglicemia e associada a complicações, disfunções e insuficiência de vários órgãos, especialmente olhos, rins, nervos, cérebro, coração e vasos sangüíneos. Pode resultar de defeitos de secreção e/ou ação de insulina, envolvendo processos patogênicos específicos, por exemplo, destruição das células beta do pâncreas (produtoras de insulina), resistência à ação da insulina, distúrbios da secreção da insulina, entre outros (BRASIL, 2001).

O diabetes é comum e de incidência crescente. Estima-se que, em 1995, era de 4% da população adulta mundial e que, em 2025, alcançará a cifra de 5,4%. A maior parte desse aumento se dará em países em desenvolvimento, acentuando-se neles o padrão atual de concentração de casos na faixa etária de 45-64 anos (BRASIL, 2004). No Brasil, a estimativa é de 11% da população igual ou superior a 40 anos, cerca de 5 milhões e meio de portadores (população estimada, IBGE, 2005) (BRASIL, 2001).

Mundialmente, os custos diretos para o atendimento do diabetes variam de 2,5% a 15% dos gastos nacionais em saúde, dependendo da prevalência local e da complexidade do tratamento disponível. Além dos gastos financeiros, o diabetes acarreta outros custos associados à dor, ansiedade, inconveniência e menor qualidade de vida dos doentes e suas famílias. O diabetes também representa carga adicional à sociedade, em decorrência da perda de produtividade no trabalho, aposentadoria precoce e mortalidade prematura (BRASIL, 2004).

O cuidado integral ao paciente com diabetes e sua família é importante, porque, em conseqüência da morbimortalidade associada, a prevenção do diabetes e suas complicações é prioridade da saúde pública. Na atenção básica, o cuidado se realiza por meio da prevenção de fatores de risco como sedentarismo, obesidade e hábitos alimentares não-saudáveis; identificação e tratamento de indivíduos de alto risco para diabetes (prevenção primária); identificação de casos não diagnosticados de diabetes (prevenção secundária) para tratamento; intensificação do controle de pacientes já diagnosticados para prevenir complicações agudas e crônicas (prevenção terciária) (BRASIL, 2004).

O cuidado integral a esse paciente e sua família é um desafio para a equipe de saúde, especialmente quanto a ajudar o paciente a mudar o modo de vida, o que está diretamente relacionado à vida de seus familiares e amigos. O paciente deverá aprender a gerenciar sua vida em um processo gradual, visando à qualidade de vida e autonomia.

Os tipos de diabetes mais freqüentes são o do tipo 1, anteriormente conhecido como diabetes juvenil, que compreende cerca de 10% do total de casos; o do tipo 2, anteriormente denominado diabetes de adulto, que compreende cerca de 90% do total dos casos. Outro tipo encontrado com maior freqüência e cuja etiologia ainda não está esclarecida, é o gestacional, em geral um estágio pré-clínico de diabetes, detectado no rastreamento pré-natal.

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Educação em saúde

Ao se pensar saúde/doença, é preciso estabelecer articulação tanto com a educação e os movimentos sociais (organizados) quanto com as necessidades e possibilidades das classes populares na formulação de políticas sociais e das formas de organização social que lhes interessam.

Na área da saúde, a divulgação dos conhecimentos compreende todos os processos de comunicação que ocorrem: no contato com médicos, enfermeiros e demais agentes da assistência e sua tecnologia impessoal; pelos meios de comunicação de massa; pela educação sanitária; pela escolaridade em todos os graus e outras formas. Nem sempre esses processos são verbalizados ou intencionais  o próprio modelo assistencial centrado no indivíduo remete a uma concepção da doença que exclui a visão de um condicionamento social para o processo saúde/doença.

O processo da divulgação é alcançado quando a informação circula pela sociedade  por redes sociais -, sendo reapropriada de acordo com os saberes e valores locais, adquirindo novos sentidos, podendo, às vezes, diferir das intenções originais (ARAÚJO, 2003). A educação sanitária, atualmente conhecida como educação em saúde, embora uma vertente crítica prefira nomeá-la de educação e saúde, é um foco tradicional que agrega a pedagogia aos saberes constituídos com o intuito de divulgá-los para um público de interesse sem prescindir das ferramentas da comunicação (ARAÚJO, 2003).

O reconhecimento e a valorização dos sujeitos coletivos pressupõem que não haja hierarquia dos saberes, mas que os diferentes saberes possam estar a serviço da emancipação. É preciso que os processos de educação popular sejam um exercício de autonomia, com a intenção de provocar transformações originárias dos sujeitos e seus coletivos, dos saberes e dos interesses envolvidos (ARAÚJO, 2003).

Entendemos como educação em saúde as experiências de aprendizagem delineadas para facilitar ações voluntárias de saúde. O ato de facilitar tem o significado de predispor, possibilitar e reforçar, sem coerção e com plena compreensão e aceitação dos objetivos educativos implícitos e explícitos nas ações-medidas comportamentais adotadas por uma pessoa, grupo ou comunidade para alcançar um efeito intencional sobre sua saúde (CANDEIAS, 1997). Ainda, conforme o mesmo autor, a promoção em saúde preconizada é a que contém a mescla de múltiplos determinantes da saúde (fatores genéticos, ambiente, serviços de saúde e estilo de vida) com múltiplas intervenções ou fontes de apoio educacional e ambiental que visam a atingir ações e condições de vida à saúde.

O conceito de educação popular muitas vezes é utilizado em contraponto à educação formal ou como um conjunto de técnicas e dinâmicas que possibilitem a construção do conhecimento com base nos elementos vivenciados pelos sujeitos envolvidos ou ainda como uma ação exclusiva das camadas sociais oprimidas (VII Congresso Nacional da Rede Unida, 2006).

Técnicas de propaganda são utilizadas como auxiliares da educação sanitária desde a criação do Departamento Nacional de Saúde Pública, em 1920 (PITTA, 1995). A comunicação de massa, então veiculada pelo rádio e cinema, baseia-se nas teorias do condicionamento comportamental que pressupõem relação direta entre a aplicação de estímulos ambientais/comunicacionais e a mudança dos hábitos e práticas dos indivíduos e dos grupos sociais.

Quanto aos princípios, a educação popular está relacionada à mudança da realidade opressora, ao reconhecimento, à valorização e à emancipação dos diversos sujeitos individuais e coletivos. Decorre disso, o compromisso da educação popular com a valorização e a emancipação dos sujeitos e não ocorre de forma verticalizada. Ninguém emancipa ninguém, pois o processo de emancipação parte do sujeito que, na condição de sujeito, busca a sua emancipação (PITTA, 1995).

A educação em saúde se sobrepõe ao conceito de promoção da saúde por ser um processo que abrange a participação de toda a população na sua vida cotidiana e não apenas das pessoas sob risco de adoecer.

Essa noção está baseada em um conceito de saúde ampliado, considerado um estado positivo e dinâmico de busca de bem-estar, que integra os aspectos físico e mental (ausência de doença), ambiental (ajustamento ao ambiente), pessoal/emocional (auto-realização pessoal e afetiva) e socioecológico. Entretanto, a par dessa noção ampliada de saúde, observando-se a prática, atualmente persistem diversos modelos ou paradigmas de educação em saúde, os quais condicionam diferentes práticas, muitas das quais reducionistas, o que requer questionamentos e o alcance de perspectivas mais integradas e participativas(SCHALL; STRUCHINER, 1999).

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

As observações aqui apresentadas convergem para a questão da produção e da apropriação social do conhecimento em saúde. Como e para quem esse conhecimento é produzido e com que interesse ele é divulgado?

A vivência coletiva pode ser um momento rico de troca de experiências entre profissionais com diferentes atuações na área da saúde, propiciando crescimento profissional, quando o respeito e a tolerância podem ser exaustivamente testados. Essa construção compartilhada em saúde, segundo Carvalho et al. (2001), pressupõe "interação comunicacional em que sujeitos detentores de saberes diferentes  porém não hierarquizados  se relacionam com base em interesses comuns".

Nós, os ditos "possuidores do saber", precisamos ter uma escuta atenta às vivências dos usuários. A proposta é que se recriem posicionamentos ambivalentes, numa aproximação relacional pacientes / profissionais de saúde, resgatar empatia e reestruturar ações de prevenção em saúde. É preciso extrair o máximo de valor do saber popular e incentivar as falas potencialmente

capazes de gerar novos sentidos, pois é na interação cultural e lingüística que o espírito cria outros e diversos aspectos da realidade (EDELMAM, 1996).

A construção compartilhada do conhecimento se relaciona à tradição da pedagogia problematizadora implantada por Paulo Freire (1983), para quem ninguém sabe tudo, e ninguém é de todo ignorante. Se algum evento for considerado problema de saúde pública, ele terá uma correspondência no imaginário das pessoas supostamente afetadas, se de fato constituir-se como um problema. Assim, o senso comum, à expressão desse imaginário, construirá seus próprios sentidos que podem ser opostos, complementares ou apontem dimensões não previstas pela abordagem tecnocientífica. Freire (1983) ainda defende que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para sua produção ou sua construção. Acredita-se que os meios de educação em saúde sejam instrumentos para formar o conhecimento da população sobre o tema abordado, dando o poder de informação aos indivíduos e fazendo-os coadjuvantes  "atores principais"  no controle de suas doenças, em especial, nas crônicas, como é o caso da hipertensão e do diabetes.

* Baseado no Artigo intitulado "Cartilha Informativa sobre Hipertensão e Diabetes Para a População da Rede Básica de Saúde, Município São Francisco de Paula, RS", de: Anna Maria Hecker Luz, Fernanda Seff Guimarães, Geisa Cibele Ramos do Nascimento, Virgínia Gallas, do livro: SEMENTES DO SUS  SÉRIE TÉCNICA V.2, BRASIL, 2007.

 
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