Funcionalismo e a língua como objeto de ensino: o dinamismo do processo de gramaticalização
 
Funcionalismo e a língua como objeto de ensino: o dinamismo do processo de gramaticalização
 


Funcionalismo e a língua como objeto de ensino: o dinamismo do processo de gramaticalização

Lara Brenda C. T. Kuhn

1 Introdução

Este estudo trata-se de uma discussão teórica realizada como trabalho final da disciplina Teorias Linguísticas do curso de Mestrado em Estudos Lingüísticos da Universidade Federal de Uberlândia.
Discutirei sobre alguns aspectos da Teoria Funcionalista e apresentarei suas possíveis relações com o ensino de línguas, com ênfase no processo de gramaticalização, tema recorrente nas análises e reflexões funcionalistas. Para tanto, inicio a discussão com um breve panorama histórico sobre o ensino de línguas, com sua gênese no período helenístico; para posteriormente retomar questões relacionadas à língua como objeto de ensino inserido na conjuntura das teorias sobre a linguagem. Em seguida apresento, de forma sucinta, a origem dos estudos funcionalistas, na sequência apresento a concepção de língua segundo os princípios da teoria funcionalista, com apontamentos sobre os pontos de vista de Halliday e Dik. Então, discorro sobre o processo de gramaticalização e finalizo com ponderações sobre a língua como objeto de ensino numa perspectiva funcionalista.


2 Um breve panorama

Falar de suas faculdades sempre consistiu numa necessidade do homem, um ato reflexivo em sua essência. Pela linguagem o homem "não falou sempre só das outras coisas, ele também falou de sua própria fala; a linguagem, como coisa entre as outras coisas também é objeto natural da linguagem." (NEVES, 1997, p.18). Remontamos à Grécia Antiga, tempo no qual os gregos já tinham a preocupação em falar sobre a linguagem e entender seu funcionamento, acreditando que pela língua e através dela poderiam manter seu poder político e cultural.
Segundo Neves (1997), primeiramente os gregos buscaram entender o funcionamento da língua e posteriormente, passaram a ver a gramática (língua de um usuário - o ser que fala) como descrição, com vistas à prescrição e normatização de modelos linguísticos.

Se formos à gênese da questão, veremos que na história do pensamento grego, a gramática como busca do mecanismo interno à língua, como busca do sistema de regras responsável pelo cálculo das condições de produção de sentido, precedeu a gramática como descrição, com vistas à prescrição de determinados usos da língua (NEVES, 1997, p.19).

Pode-se dizer que os estudos clássicos sobre a linguagem foram marcados por dois importantes períodos: o helênico e o helenístico. O primeiro apontando o apogeu da civilização grega, bem como um tempo marcado por uma intensa produção literária e ascensão filosófica. O segundo representando o declínio dessa civilização, momento em que a cultura não era mais criada, mas recriada pela leitura. Nessa ocasião, a cultura apoiava-se no ensino e aprendizagem e as obras da criação helênica constituíam-se em padrões a serem difundidos e preservados. Assim, com vistas à educação, os estudiosos colocavam em exame as grandes produções do período (NEVES, 1997).
O contato com outros idiomas em virtude das invasões alexandrinas (também marcante no período helenístico) expõe a língua grega às inevitáveis variações linguísticas, abalando a hegemonia cultural da civilização. Foi um período de confronto entre culturas, e o "usuário", a fim de preservar o grego, deveria falar nos moldes das obras da literatura clássica. Nesse momento o ensino e aprendizagem da língua grega foram sistematizados no intuito de protegê-la dos "barbarismos" provenientes do contato com povos considerados culturalmente inferiores. Desse modo, pode-se dizer que o ensino sistematizado foi uma tentativa de proteger e preservar a "arma" (a língua) que civilização grega possuía para disseminar seus saberes acumulados.
É nesse contexto que nasce a gramática tradicional que nos foi legada pelos gregos: inicialmente pautada numa reflexão sobre o funcionamento da linguagem e posteriormente, com vistas à preservação, sistematizada num ensino que culmina em finalidades prescritivo-normativas.

(...) o pensamento sobre linguagem passou pelo exame filosófico, desde os pré-socráticos, e adquiriu um rigor teórico que culminou em Platão, Aristóteles e os estóicos. O lógos vai-se destacando do ser até constituir-se objeto conceitual de exame, como expressão conceitual das coisas. Em conseqüência desse exame específico, isolam-se fatos concretos de língua, e a lexis, ligada a uma ideia da função da eficiência da linguagem, destaca-se do lógos e se torna objeto à parte. Essa elocução, o dizer bem helênico, por sua vez, enfrenta uma sistematização daqueles fatos que refletiam a língua "eficientemente composta", o grego. A filosofia constrói toda uma teoria do signo, e isola os elementos da significação. Pelo seu próprio rigor, ela reserva apenas o domínio do conceito ? desde que a linguagem não é a imagem das relações dialéticas ? e o exame linguístico como tal passa a constituir um domínio específico de análise. Levantaram-se quadros de flexão como paradigmas e, paralelamente levantavam-se os desvios e irregularidades que o uso determinou (NEVES, 1997:35-36).

Conforme Neves (1997), a gramática tradicional, que o atual ensino tem como referência, resultado desse movimento reflexivo sobre o funcionamento da língua e que posteriormente passou a ser uma obra composta por modelos normativos de comportamentos linguísticos, perdeu seu espaço e sentido. O ato de criar se desenvolve nas obras, mas a língua, em sua heterogeneidade, permite uma combinação de registros e o rompimento de padrões tradicionais tidos por muitos como inalteráveis.
Desse modo, reconhecem-se na Antiguidade Clássica os primórdios da língua como objeto de ensino, e ainda, discussões e reflexões em torno da forma e função da mesma.

Aplicou-se a ciência linguística sobre o objeto mental língua capaz de atualizar-se numa língua particular (é o modelo de gramática formal) ou procurou dar conta do comportamento verbal do falante, da língua que se externaliza, examinada sem ponto de partida nos processos mentais que subjazem ao processo linguístico (é o modelo de gramática funcional) (NEVES, 1997, p. 22).

Séculos nos distanciam dos pensamentos gregos sobre a língua, porém muitas indagações, características desse período, continuam latentes entre nós. Portanto, entender a organização e o funcionamento da língua por meio da análise de suas formas e das escolhas que o falante faz ao produzir seus enunciados, podem ter uma significância maior que, simplesmente prescrever regras, principalmente nos contextos em que a língua é objeto de ensino.
Partindo dessa perspectiva buscarei na Teoria Funcionalista entender o funcionamento da língua, com vistas às suas possíveis aplicações pedagógico-educacionais, haja vista que a orientação funcionalista pode estar mais próxima de um ensino que concebe a língua/gramática em relação ao uso, ou seja, que considera as experiências de mundo concreto e subjetivo do falante no ato de interação verbal (DIK, 1978).


3 Funcionalismo: modelo teórico

A noção de sistema de Saussure muda os rumos dos estudos linguísticos. Por meio de seus discípulos, a língua adquire o sentido de estrutura, termo que subjaz ao conceito de um conjunto de signos que se relacionam entre si num todo organizado. Após a publicação do Cours de linguistique générale em 1916, a tendência em se analisar sincronicamente a estrutura da língua se desenvolveu, tendo como marco inicial trabalhos desenvolvidos no Círculo de Praga. A análise linguística focava as relações internas que estruturavam os elementos da língua. (MARTELOTTA; AREAS, 2003).
Porém, alguns estruturalistas começaram perceber que os elementos do sistema também desempenhavam funções. Fontaine (1978, apud MARTELOTTA; AREAS, 2003) afirma que Bühler foi o "avalista filosófico do aspecto funcionalista do estruturalismo praguense". Estruturalista, Bühler via na linguagem um elemento essencial que era sua função. Este aspecto não fora teorizado por Saussure que ao propor a distinção entre língua e fala, fazendo da primeira objeto de estudo da linguística, descarta aspectos relacionados à função. Sua posição teórica exclui influências externas ao sistema linguístico, das quais fariam parte os aspectos pragmático-discursivos.
Assim, o termo função passa ser recorrente nos estudos da Escola Linguística de Praga que o utiliza relacionado "à dependência de um elemento estrutural com elementos de outra ordem ou domínio" e em relação à função comunicativa deste elemento. Contudo, o que caracterizou as análises funcionalistas dos linguistas de Praga foi a visão de língua como "um sistema funcional, no sentido que é utilizada para um determinado fim" (MARTELOTTA; AREAS, 2003).
Percebe-se, que o movimento estruturalista, legado das concepções saussurianas de linguagem, se ramificou de acordo com as visões dos estudiosos e a significância dada ao termo função. Martelotta e Areas (2003) dizem que em consequência dessa ênfase dada à função, os modelos teóricos podem ser divididos em dois pólos: o formalista e o funcionalista. O primeiro ressalta a forma, ficando a função em segundo plano; o segundo tem como foco de análise a função que a forma linguística desempenha no ato comunicativo.



4 A língua em uso: um olhar funcionalista

A língua, sob uma visão funcionalista, é vista como instrumento de comunicação não-autônomo, isto é, está submetida às pressões comunicativas do meio no qual se insere, ou seja, ao uso. Essas influências refletem diretamente sobre sua estrutura linguística. Givón (apud NEVES, 2004), defende que a língua não pode ser descrita como um sistema autônomo, pois há a uma interdependência entre a gramática e parâmetros como: cognição e comunicação, processamento mental, interação social e cultura, mudança e variação, aquisição e evolução.
Numa gramática funcionalista são pontos centrais: o uso da língua em relação a todo o sistema, o significado em relação às formas linguísticas e o social em relação às escolhas individuais do falante (NEVES, 2004). Nesse sentido, a produção do discurso do falante é uma intrincada interação linguística, em que estão envolvidos diversos fatores como: o contexto, as informações pragmáticas (tanto do falante, como as que ele julga que o ouvinte possui), o planejamento, entre outros, sendo as variações e desvios da gramática normativa imprescindíveis no ato comunicativo.
Segundo Neves (2004), o funcionalismo se interessa em analisar como se dá a comunicação a partir de uma língua natural, ou seja, como os usuários desta língua se comunicam com eficiência. Isso significa colocar sob exame a competência comunicativa do falante, levando em conta as estruturas das expressões linguísticas consideradas como configurações de funções. Portanto, no funcionalismo ao se analisar uma situação comunicativa, são observadas todos os envolvidos no processo: o contexto, os propósitos da fala e os participantes.
Sob essa perspectiva, pode-se dizer que o termo função é entendido como a junção do estrutural (sistêmico) com o funcional (NEVES, 2006). Isto quer dizer que tanto a comunicação como a organização interna da língua são funcionais, pois "estruturas linguísticas são configurações de funções, e as diferentes funções são os diferentes modos de significação no enunciado, que conduzem à eficiência da comunicação dos usuários de uma língua" (NEVES, 2006, p. 18). Há, portanto, um dinamismo entre a forma e a função da língua, ou seja, entre os componentes linguísticos e pragmáticos em contextos de interação verbal.
Com base nos pressupostos da teoria, muitos grupos vêm elaborando construções de análise e reflexões funcionalistas com propostas marcadas por características particulares.
Em sua teoria funcionalista sistêmica, Halliday (1994) procura estabelecer relações entre as escolhas semanticamente relevantes na língua. Busca explicar porque, em meio a uma diversidade de itens que a compõe, o falante escolhe determinados itens em detrimento de outros para produzir seus enunciados.
Segundo Halliday (2004) há uma estreita relação entre o social e o sistema linguístico. Para o autor, o sistema possibilita uma infinitude de combinações que permite ao falante realizar suas escolhas e produzir seus enunciados; o ambiente social, contudo, também concorre para influenciar suas escolhas, pois cada indivíduo faz parte de uma comunidade e possui objetivos específicos a serem atingidos pela linguagem.
Importante ressaltar que Halliday formulou funções básicas da comunicação, o que Neves (1997) chamou de metafunções da teoria de Halliday. Essas metafunções estão estreitamente relacionadas com a identidade do ato comunicativo, que se constrói pelas relações entre os falantes e o contexto discursivo em que estão inseridos. São elas: a ideacional, a interpessoal e a textual.
A função ideacional está relacionada ao entendimento do ambiente. Por meio dela o falante e o ouvinte manifestam suas experiências de mundo real ou subjetivo, ou seja, "suas reações, cognições, percepções, assim como seus atos linguísticos de falar e entender" (NEVES, 1997). A função interpessoal, por sua vez, relaciona-se com a influência exercida sobre os outros através da linguagem. É uma função tanto interacional como pessoal, ou seja, um componente que permite ao falante organizar e expressar seu mundo interno e externo e, da qual o falante se serve para intervir na situação e no ato de fala. Já a função textual, é um instrumental para as outras duas, pois no ato comunicativo há necessidade da criação de discursos. Esta função refere-se à criação de textos e a capacidade do falante e ouvinte distinguir um texto de palavras desconexas (NEVES, 1997). Essas funções são interdependentes, atualizam-se simultaneamente e organizam o contexto conversacional.
Outro funcionalista, Dik (1989 apud NEVES, 1997), afirma que adotar um ponto de vista funcionalista da linguagem é se interessar em analisar como opera o usuário da língua natural. Por ser muito mais que um "animal linguístico", estão envolvidas no ato comunicativo do usuário outras funções humanas mais elevadas que a simples função linguística. Segundo o autor, no uso comunicativo da língua há uma influência mútua entres as capacidades linguística, epistêmica, lógica, perceptual e social. Com a capacidade linguística o usuário é capaz de "produzir e interpretar corretamente expressões linguísticas de grande complexidade estrutural", em variadas situações comunicativas. Pela capacidade epistêmica, o usuário é capaz de construir, reelaborar e modificar uma base de conhecimento. Também pela capacidade lógica, o usuário parte de seu conhecimento acumulado para criar outros, por meio de regras de raciocínio lógico e dedutivo. Com a capacidade perceptual, o usuário é capaz de perceber seu ambiente e utilizar o conhecimento adquirido perceptualmente para criar e interpretar expressões. E finalmente, é pela capacidade social que o usuário consegue adequar seu discurso para atingir seus objetivos comunicativos.
Pode-se dizer que a proposta funcionalista dikiana fixa-se numa teoria de gramática, que se constitui numa teoria do usuário da língua natural e que a descrição gramatical envolve o falante, o ouvinte, os papeis e o estatuto desempenhados por eles na situação de interação, que é determinada socioculturalmente (NEVES, 2006).
Os estudos funcionalistas centram-se numa gramática funcionalista que se aplica às "diversas línguas e aos diversos tipos de língua", pois há nela um equilíbrio entre o geral e o particular (NEVES, 2006).

O homem fala porque tem a capacidade de produzir linguagem (a competência linguística), porque tem o domínio de uma língua particular historicamente inserida (o conhecimento de um idioma) e porque se encontra em uma situação de uso (um evento comunicativo). Configura-se, pois, uma atividade que vai em direção a um equilíbrio entre o geral e o particular, e a descrição dessa atividade se prevê como suficientemente específica para que não obscureça as peculiaridades das línguas individuais e suficientemente geral para que não possa ser indiferentemente aplicada a uma outra língua qualquer (NEVES, 2006, p.20).

Nesse sentido, os temas funcionalistas abrigam diversas questões importantes para o estudo da linguagem, como por exemplo, a relação entre gramática e cognição (GIVÓN, 1991); a prototipia (KLEIBER, 1988); a iconicidade (GIVÓN, 1990, 1991); pragmática na gramática (DIK, 1997) entre tantos outros. Dentre elas, farei uma breve exposição sobre o processo de gramaticalização, para em seguida discutir de que modo esse processo pode contribuir em contextos em que a língua torna-se objeto de ensino.


5 O processo de gramaticalização

As categorias gramaticais são debatidas por estudiosos há tempos. Embora estudos sobre gramaticalização tenham iniciado no século XVIII com os trabalhos de filósofos franceses e britânicos (RODRIGUES, 2006), o termo gramaticalização foi utilizado pela primeira vez por Meillet. Este linguista definiu o processo "como a atribuição de um caráter gramatical a uma palavra considerada anteriormente autônoma" (NEVES, 2006 apud MEILLET, [1912]1948).
Nos anos 70 os estudos sobre esse processo desenvolveram-se com trabalhos de Givón, sobretudo com argumentações de que era preciso conhecer os primeiros estágios do desenvolvimento de uma língua a fim de entender sua estrutura (RODRIGUES, 2006).
O processo de gramaticalização é um processo de regularização do uso da língua, relacionado à variação e à mudança linguísticas. Revela o caráter não-estático da gramática, evidencia as constantes mudanças que as línguas estão submetidas em função das influências externas. Assim, a gramática está imersa num constante fazer-se, o que nos permite ponderar sobre uma relativa instabilidade da estrutura linguística. (CUNHA et al. 2003).
É sob esse aspecto que Hopper (1987 apud RODRIGUES, 2006) propõe tratar o processo de gramaticalização como quase sinônima de gramática emergente, pois para o autor, ambas dizem respeito às estratégias que são usadas na construção do discurso e envolve um movimento contínuo em direção a estrutura.
Continuando na mesma linha de raciocínio, para Heine et al. (1991) e Heine (1997, apud RODRIGUES, 2006) defendem que a gramática é decorrência da inter-relação entre conceptualização e comunicação, e que a teoria da gramaticalização fornece instrumental para reconstrução de algumas motivações extralinguísitcas da gramática.
O processo de gramaticalização pode ser estudado sob duas perspectivas, a diacrônica (histórica) e a sincrônica. A primeira investiga a gênese de formas gramaticais que se desenvolvem em função das mudanças que as afetam. Sob o ponto de vista sincrônico a gramaticalização é um fenômeno discursivo-pragmático, em que o foco de estudo são os padrões de fluidez do uso linguístico. (HOPPER & TRAUGOTT 1993, p. 2 apud RODRIGUES, 2006). Necessidades comunicativas não satisfatórias motivam o desenvolvimento de novas estruturas gramaticais. Assim, a gramaticalização é compreendida como um processo diacrônico e um contínuo sincrônico que abrangem as tanto as formas que vão do léxico para a gramática como as formas que mudam no interior da gramática (CUNHA et al. 2003).
Givón (1979b, apud CUNHA et al. 2003) postulou uma nova perspectiva para representar os processos diacrônicos de regularização do uso da língua, inaugurando uma perspectiva para o entendimento da gramática. O autor defende uma intervenção pragmática no processo de gramaticalização, no qual o processo se configura numa reanálise tanto do material lexical em material discursivo, como dos padrões discursivos em padrões gramaticais. A passagem se daria do discurso > sintaxe > morfologia > morfofonêmica > zero (NEVES, 1997).
De acordo com essa trajetória do processo de gramaticalização, alguns itens lexicais passam a ser usados em contextos desempenhando funções gramaticais ainda não fixadas. O uso faz com que esses itens tornem-se mais previsíveis e regulares. Ainda pelo uso, essa nova construção tende a sofrer desgaste formal e funcional que eventualmente acarreta seu desaparecimento e dá início a um novo ciclo. (CUNHA et al. 2003). Há alguns teóricos funcionalistas que advogam, de um ponto de vista semântico, que essa trajetória manifesta-se da passagem do concreto para o abstrato, pelo fato de entidades abstratas emergirem da experiência humana.
É importante ressaltar que nos estudos sobre gramaticalização características como perda de complexidade semântica, de liberdade sintática e de substância fônica, com a contraparte da ressignificação morfossintática, afetam a estrutura linguística. (NEVES, 2006). Os itens que sofreram gramaticalização ganham novas propriedades específicas dos usos nos novos contextos.
Em síntese o processo de gramaticalização segundo Martelotta (1996 a) pode ser definido como
[...] um processo de mudança unidirecional, segundo o qual elementos lexicais e construções passam a desempenhar funções gramaticais, tendendo, com a continuidade do processo, a assumir novas funções gramaticais. Com a gramaticalização, o elemento tende a se tornar mais regular e previsível em termos de uso, pois perde a liberdade sintática característica dos itens lexicais, quando "penetra" na estrutura tipicamente restritiva da gramática. (MARTELOTTA, 1996, P.19)
Em tais bases, o processo de gramaticalização pode ser uma forma de questionar o tratamento dado à língua como objeto de ensino. Abrindo espaço para contraposições entre o ensino tradicional, pautado em prescrições gramaticais, e o ensino pautado em reflexões sobre uma gramática que está exposta às pressões do uso, portanto submetida a inevitáveis variações e mudanças linguísticas. O processo de gramaticalização possibilita reflexões sobre restrições impostas pela gramática tradicional, como as noções de correto e incorreto. O que se põe em jogo, do ponto de vista da gramaticalização, não é a correção de itens gramaticais, mas sua adequação a contextos específicos de comunicação. Nesse sentido, um termo pode ser analisado de diversas maneiras, pois pode vir a assumir novas funções gramaticais de acordo com seu uso.
Contudo, a gramaticalização não deve ser vista como uma forma de invalidar os pressupostos gramaticais, mas como um meio de estudar a língua liberta de definições categóricas, que muitas vezes restringem as produções linguísticas e alimentam as análises de categorias gramaticais e um ensino prescritivo-normativo.


6 Língua, objeto de ensino: uma perspectiva funcionalista

O ensino gramatical, legado grego, que objetivava a prescrição com vistas a preservá-lo e protegê-lo de possíveis corrupções continua a ser sinônimo de ensino de língua em muitas situações. Assim, língua/gramática é vista como um sistema estático e imutável, com regras a serem seguidas e os desvios considerados como "corrupção da linguagem". Nesses contextos é comum o destaque dado à nomenclatura gramatical e a repetição de conteúdos pautados em prescrição de regras, o que leva os usuários a terem a impressão de não saberem sua própria língua.
A teoria funcionalista pode ser um instrumento para reflexões sobre a língua em situações em que ela é objeto de ensino, representando uma tentativa de mudar os paradigmas seguidos há séculos. Ao adotar uma nova concepção de língua, certamente adota-se uma nova concepção de ensino, portanto, seguir uma concepção funcionalista é compreender que uma estrutura gramatical depende do uso que se faz dela, determinada pelas situações comunicativas, motivadas pelas circunstâncias e pelos contextos específicos de uso (OLIVEIRA; COELHO, 2003).
Numa perspectiva funcionalista a língua a ser ensinada ganha um caráter mais global e motivador, pois ela não é um objeto descontextualizado, leva-se em conta o aspecto social de seu uso. Nesse sentido, o ensino gramatical passa a ter como alvo reflexões sobre a língua, o que permite a investigação dos usos linguísticos partindo de uma visão de gramática flexível e relativamente instável.
Pode-se dizer que a abordagem funcionalista tem como fim capacitar o usuário a analisar e refletir sobre a língua, levando-o a explorar a funcionalidade dos diversos recursos linguísticos a sua disposição. Esse movimento se dá em situações de uso, no qual estão presentes fatores pragmáticos que permeiam as construções dos falantes.

Encontra-se ainda na afirmação que somente em situação de uso, em funcionamento, levando-se em conta a diversidade das interferências intra- e extratextuais, é possível a atividade de análise linguística. A declaração de que a língua em uso é a representação e o reflexo da experiência humana, permeada de emoções, crenças, atitudes e necessidades, sintetiza a relação básica da orientação funcionalista, o binômio função > forma (OLIVEIRA; COELHO, 2003, p. 96).

Portanto, a teoria funcionalista pode ser um ponto de partida na tentativa de ultrapassarmos os limites categóricos impostos pela gramática tradicional. É uma teoria que nos possibilita um trabalho mais prático com a língua, livre de preconceitos e crenças sobre a existência de uma forma gramatical "correta" a ser seguida.


7 Conclusão

Como vimos os modelos e a prescrição de regras a serem seguidos, impostos pela gramática tradicional vêm perdendo seu espaço e sentido. É necessário pensarmos na língua como um instrumento que permite a criação e a apropriação de diferentes registros, pois o falante utiliza com dinamismo formas e funções linguísticas de acordo com seus propósitos de fala.
Nesse sentido, a teoria funcionalista nos mostra que é possível trabalhar a língua como objeto de ensino por meio da reflexão, da análise de situações comunicativas e da concessão de novos sentidos aos atos comunicativos.
A visão funcionalista nos leva a pensar que alguns fracassos ao se ensinar uma língua pode ser fruto de concepções contidas nas prescrições gramaticais, que além de não contemplarem a maleabilidade da língua, desconsideram os fatores pragmáticos da interação sociocultural entre os usuários.
Por fim, é possível que a abordagem funcionalista ao admitir as diferentes funções de um item gramatical, não o restringindo a uma classificação gramatical categórica, coloca em discussão a utilização da gramática tradicional como uma obra de apoio e referência e não como um "receituário" para o alcance de uma língua "culta e correta".


8 Referências Bibliográficas


CUNHA, M. A. F. da; COSTA, M. A.; CEZARIO, M. M. Pressupostos teóricos fundamentais. In: CUNHA, M. A. F. da; OLIVEIRA, M. R. de; MARTELOTTA, M. E. (orgs.) Linguística Funcional: teoria e prática. Rio de Janeiro: DP&A editora, 2003. 137 p.

DIK, S. C. Functional grammar. Dorderecht-Holland/Cinnaminson: Foris Publications, 1978.

____________. The theory of functional grammar. 2.ed. by K. HENGVELD. Berlin/New York: Mouton de Gruyter, 1997.

GIVÓN, T. Syntax: A functional-typological introduction. Amsterdam: John Benjamins, 1990. v.II

____________. Serial Verbs and the Mental Reality of " Event": Grammatical vs. Cognitive Packaging. In: TRAUGOTT, E. C; HEINE, B. (eds). Apporches to grammaticalization. Amsterdam/ Philadelphia: John Benjamins,1991. p. 81-127. v. I.

HALLIDAY, M.A.K. An Introduction to Funtional Grammar. New York, 1994. 434 p.

HALLIDAY, M.A.K.; McINSTOSH, A.; STREVENS, P. As ciências linguísticas e o ensino de línguas. Petrópolis: Vozes, 1974. 349 p.

KLEIBER, G. Prototype, stereotype: um air de famille. DRLAV, N. 38, P. 01-61, 1988.
MARTELOTTA, M. E.; AREAS, E. K. A visão funcionalista da linguagem. In: CUNHA, M. A. F. da; OLIVEIRA, M. R. de; MARTELOTTA, M. E. (orgs.) Linguística Funcional: teoria e prática. Rio de Janeiro: DP&A editora, 2003. 137 p.

NEVES, M. Helena de Moura. A gramática funcional 1.ed.São Paulo: Martins Fontes, 2004. 160 p.

____________________. Texto e Gramática. 1. ed. São Paulo: Contexto, 2006. 334 p.

____________________. A vertente grega da gramática tradicional. 2.ed. São Paulo: editora Unesp, 1997.

NETO, J. B. Ensaios de Filosofia da Linguística. 1.ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2004. 223 p.

OLIVEIRA, M. R.; COELHO, V. W. Linguística funcional aplicada ao ensino de português. In: CUNHA, M. A. F. da; OLIVEIRA, M. R. de; MARTELOTTA, M. E. (orgs.) Linguística Funcional: teoria e prática. Rio de Janeiro: DP&A editora, 2003. 137 p.

RODRIGUES, A. T. C. "Eu fui e fiz esta tese" As construções do tipo foi fez no português do Brasil. 2006. 219 f. Tese (Doutorado em Linguística). Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2006.

SAUSURRE, F. de. Curso de Linguística Geral. Organizado por Charles Bally e Albert Sechehaye com a colaboração de Albert Riedilinger. 27. ed. São Paulo: Cultrix, 2006. 279 p.




 
Avalie este artigo:
3 voto(s)
 
Revisado por Editor do Webartigos.com


Leia outros artigos de Lara Brenda C. T. Kuhn
Talvez você goste destes artigos também