Formação do mundo Atlâtico
 
Formação do mundo Atlâtico
 



Universidade Católica do salvador
Curso de graduação em História
Disciplina " História da África I"
Professora Ialmar Leocadia Vianna
Alunos/Autores: Jorge Miranda, Juliana Gomes Almeida, Pedro Conte



A África e o africanos na formação do mundo atlântico (1400 ? 1800)



Biografia:
John Thorntton nasceu em 1949 em Boston é professor de história da Boston University, tendo lecionado na Millersville University, na University of Virginia, na Allegheny College e na Universidde da Zâmbia. Atuou como curador de mostras sobre a África para museus e fundações, entre eles o Museu de História Natural, Smithsonian Institution, Washington, D.C. É consultor de história africana da Encyclopaedia Britannica desde 2000. Fluente em francês, português, italiano, alemão, holandês, Kisuahili e hausa, já publicou diversos livros, entre eles "A África e o africano na formação do mundo atlântico 1400 - 1800


Resenha de

THORNTON, John. "A África e os africanos na formação do mundo atlântico (1400 - 1800)". Rio de Janeiro: Editora Elsevier, 2004, p. 51 - 430.





O presente texto tem como objetivo, a análise do livro "A África e os africanos na formação do mundo atlântico, 1400 - 1800", de John Thornton. Logo na introdução, o autor discorre sobre sua obra e seu campo de pesquisa, enfatizando que seu livro é uma tentativa de resgate da história da imigração dos africanos para as Américas. É notória, pois, a crítica que Thornton faz a alguns historiadores africanistas, como Braudel, que com sua concentração nos esforços europeus, quase não menciona o papel de outras sociedades atlânticas. Fazendo uma observação sobre o comércio de escravos, no que diz respeito à compra e Venda deles, o autor argumenta que eles eram utilizados a muito tempo nas sociedades africanas antes de pertencer às européias e americanas, mas ao longo do texto nos aprofundaremos mais neste argumento.
Thornton começa seu livro tentando explicar as origens e motivos das navegações no atlântico, esclarecendo-nos que em algumas regiões, tanto a África quanto a América, já conheciam e praticavam o comércio. Para tanto, Thornton deixa claro que ambos os continentes faziam uso de rotas fluviais para fins comercias, principalmente nas rotas internas como os rios e assim como os europeus, na tentativa de expandir seu comércio, os africanos também fizeram tentativas de navegar pela costa atlântica, no entanto essas tentativas foram mal sucedidas.
O autor ainda cita a teoria de Ivan Van Sertima de que os africanos teriam feito diversas viagens à América desde cerca de 800 d.C., salientando que para isso ocorrer seria necessário uma tecnologia naval mais avançada e que as curtas viagens africanas não possibilitaram este avanço. Contudo podemos perceber que Thornton fica "encima do muro" quando ele diz que essas viagens podem ter acontecido acidentalmente devido o forte fluxo da corrente equatorial do oeste da Senegâmbia à bacia do Caribe, não deixando clara sua posição em relação à teoria posta.
Em contrapartida os europeus que de início também não conseguiram navegar no atlântico, pela simples satisfação do descobrimento e para quebrar o monopólio comercial dos mulçumanos no oriente, foram financiados pelo infante D. Henrique, o Navegador, príncipe de Portugal e a rainha Isabel da Espanha, proporcionando um rápido avanço na tecnologia naval, o que possibilitou as tão mencionadas navegações do atlântico. É notório e importante, pois, o outro ponto de vista mencionado pelo autor, dos historiadores portugueses Duarte Leite e Vitorino Magalhães-Godinho, que enfatizam que as viagens e a exploração foram realizadas gradualmente durante um longo período de tempo e que foram estimuladas pela expectativa de um grande lucro em curto prazo.
De fato as minas de Ouro da África ocidental, com o tempo foram se tornando preferência dos mercadores europeus, visto que as Índias estavam muito mais distantes e inacessíveis por mar, somado à sede de lucros a curto prazo, como já foi dito. Thornton foi feliz em nos esclarecer que a Europa já tinha conhecimento da África ocidental e de suas minas, pois alguns países mediterrâneos desde o império bizantino eram abastecidos com o ouro desta região africana, desmistificando assim a idéia erroneamente imposta pela nova história de que a Europa não tinha conhecimento do mundo africano ocidental.
No que diz respeito à colonização européia da África, é de extrema importância destacar que ela não só foi possível pela sua supremacia bélica. Como foi dito, a África já comercializava interna e externamente e de posse desse conhecimento, depois de algumas batalhas mal sucedidas por parte tanto da África quanto da Europa, os europeus começaram um longo processo de comercialização e "parceria" com a costa africana, primeiramente "mercadorias - ouro" e mais tarde "armas - escravos" ou "cavalos ? escravos".
Em relação às mercadorias, o autor expõe que elas eram variadas, iam de produtos semimanufaturados (sua maioria) como couro, cobre, ouro, borracha e marfim, a produtos manufaturados como ferro e tecido, porém com ênfase no ferro, o autor explica que apesar da África também ser uma produtora desse mineral, aliás, de melhor qualidade, o ferro africano era mais caro devido a escassez da matéria prima para a fundição do mineral e portanto mais viável e lucrativo a importação do ferro europeu para artefatos que não necessitavam de uma melhor qualidade do aço. Portugal, no entanto, não fornecia tanto ferro quanto a Holanda e a Inglaterra, por obediência à ordem papal de evitar a comercialização de produtos utilizados na fabricação de armas.
A Igreja católica com o papa, por sua vez, sancionou uma lei que dava à Portugal o monopólio de navegação com a costa atlântica da África, todo e qualquer navio estrangeiro que navegava nesta costa era bombardeado pelos portugueses, com a ajuda dos nativos africanos, criando impasses com os outros países da Europa. Até que em 1660 os holandeses e ingleses guerrearam pela supremacia da costa do ouro, obtendo êxito, no entanto os holandeses não foram tão bem-sucedidos quanto os portugueses.
Como vimos, nos primeiros capítulos do livro, Thornton, faz um apanhado geral, desde as navegações internas na África e na América até as comercializações Europa ? África, como uma introdução ao tráfico negreiro. Com base nisso analisaremos um pouco mais a questão da escravidão.
É valido destacarmos que já existia escravidão na África e ao contrário dos europeus que viam a terra como o principal bem "privado" lucrativo, acima até dos escravos, para os africanos os escravos eram a única forma de propriedade privada que geravam lucro, visto que as terras eram de posse do rei, e cedidas aos nobres apenas enquanto estes lhes servissem. Tendo isso em vista, a captura, compra, venda e o transporte de escravos eram circunstâncias normais nas sociedades africanas.
O autor também argumenta que inicialmente os mercadores portugueses comercializavam os escravos africanos através da revenda na própria África, entre o Benim e a Costa do Ouro. Em contrapartida a coroa de portuguesa proibiu este tipo de comércio para evitar a compra de escravos pelos mulçumanos, no entanto essa tentativa foi mal-sucedida.
Com a crescente colonização e exploração da América, junto à falta de nativos pelo seu extermínio, além de outros motivos que falaremos mais tarde, os europeus se viram necessitados de importar mão-de-obra para este novo mundo.
Como a escravidão na África já tinha sido disseminada, ocasionando uma grande demografia escrava, os europeus embora não tenham capturado os escravos diretamente, promoveram sua captura através da venda militar de cavalos e armas de fogo. Forçando assim, mesmo que indiretamente, a guerra a fim da captura de escravos.
É importante destacar, pois, que na escravização militar, apesar de ter sido o método mais empregado, o rei, na maioria dos casos,não vendia seus súditos, apenas aqueles que julgava estranhos. Com o tempo a venda de escravos passou a ter um sentido político e econômico, visto que os escravos passaram a ser fontes de riqueza ainda maior.
No entanto, Thornton julga importante destacar que algumas regiões africanas como o Congo e o Benim, decidiram interromper a venda de escravos para compradores europeus por motivos políticos e econômicos, por que estas regiões eram produtoras de tecido e pimenta, e necessitavam de trabalhadores, conflitando com os interesses europeus.

John Thornton, ainda faz uma abordagem sobre as "sociedades africanas dinâmicas e independentes. Para os africanos que saíram de seus países para residir no novo mundo atlântico iniciado nas ilhas de São Tomé ou Cabo Verde...".
Como foi dito, o livro vem trazendo a todo momento, os motivos para a vinda dos africanos que vieram suprir as "deficiências" do trabalho indígena. Os africanos assim como todas as sociedades têm a sua cultura e assim trouxeram seus costumes e crenças para o "novo mundo".
Os primeiros colonos ao chegar, utilizaram trabalho livre assalariado mas também utilizaram a mão-de-obra escrava que constituía em uma força de trabalho permanente e assim muito útil para a criação de gado, agricultura, trabalho artesanal especializado e o serviço domestico.
O autor numera alguns motivos para a chegada dos africanos dentre eles estão: os nativos não possuíam grandes animais domésticos e não se adequavam para a criação de gado ou montaria de cavalo o autor procura deixar claro que posteriormente os indígenas aprenderam e até tornaram-se exímios nessa lida, porem nesse primeiro momento saíram atrás dos africanos.
Os africanos eram ótimos mergulhadores e embora os escravos nativos também pudessem ter essas aptidões, foram utilizados para a extração de pérolas. O terceiro motivo que levou os africanos a preencherem a necessidade de trabalho escravo está expressa pela ação humanitária já que os africanos poderiam enfrentar melhor o trabalho, no entanto como o autor relata a política incentivadora da Coroa, a vinda dos africanos seria muito mais interessante para a corte, pois para o governo ficava mais fácil controlar, taxar e arrendar o comércio dos escravos já que com o comercio escravista local essas fiscalização era um tanto quanto deficitária, certamente esse foi o principal motivo para a vinda dos africanos, pois sabemos que o grande objetivo dos europeus era enriquecer a qualquer modo.
Os africanos encontravam-se no centro da parte conquistada do novo mundo atlântico, sua importância foi marcante nas cidades onde muitos europeus e seus descendentes construíram suas casas, os africanos eram responsáveis pelo serviço domestico e nas minas, tipos de trabalhos que inicialmente foram atribuídos aos indígenas. Os africanos também tiveram muita importância no cenário militar e uma de suas funções era ajudar aos colonizadores capturar escravos indígenas.
Segundo Thornton o desenvolvimento da cultura atlântica foi um fenômeno euro-africano, no entanto interpretamos essa afirmação com preconceito, mesmo que imparcial, pois de acordo com os conceitos antropológicos é certo de que todo povo tem cultura, sendo assim em nossa opinião não seria possível que a cultura atlântica tivesse só elementos euro-africano levando em consideração que as três etnias tiveram contato e que certamente de algum modo absorveram pontos das culturas em questão.
Os africanos chegaram à América sendo transportados por navios em péssimas condições, pois os comerciantes tinham o objetivo de trazer o máximo de negros possíveis, os escravos ficavam no porão onde estavam sujeitos a doenças causadas pela falta de água e comida. Sendo assim muitos deles quando chegavam ao seu destino final já estavam mortos. Há relatos no texto de negros que enlouqueceram em meio a tanta desgraça.
Como Thornton descreve em seu livro as condições de vida do escravo depois de chegar ao seu destino final varia muito do tipo de serviço e da personalidade do proprietário e por isso as premissas que relacionam a característica do trabalho ao impacto cultural devem considerar as especificidades de cada região, o livro traz uma imensidão de relatos e casos espalhados por diferentes lugares na América.
No campo a situação é complicada, um exemplo disso é quando em um local a maioria de escravos era do sexo masculino, eles eram abrigados na mesma barraca, trabalhavam muito durante o dia e viviam pouco. Deste modo as interações culturais eram limitadas assim como as construções familiares e socialização das crianças nessa cultura. Em outros lugares onde as condições permitiam, os escravos construíam a própria casa, viviam no seio da sua família e podia educar os filhos. Neste caso, havia uma maior perpetuação da cultura.
Em contrapartida, a vida urbana era bem melhor, suas condições lhes permitiam o controle de seu tempo, facilitando o contato com outros africanos. Às vezes eram bem vestidos e não necessariamente carregados de trabalho. Apesar dessas "melhores" condições de vida, isso não significava não eram explorados ou maltratados, pois como já foi dito o tratamento do escravo variava muito de acordo a personalidade do proprietário.
Mesmo com as más condições de vida, as comunidades de escravos se formaram e a cultura foi passada de geração para geração, dessa forma podemos perceber a cultura preservada em alguns lugares e a influência africana em outros.
Definitivamente, não existem evidências para a afirmativa de que os escravos tivessem como principal intenção a preservação da sua cultura de maneira radical, mesmo porque uma das principais características dos povos africanos foi, sem dúvidas, a flexibilidade no que diz respeito à adaptação cultural diante de novos desafios, o que inevitavelmente acabou fundamentando aquilo que o autor nos convida a entender como uma "nova cultura" no mundo atlântico.
As mudanças oriundas deste choque de culturas, não apenas entre africanos e europeus, nem entre africanos e ameríndios, mas também entre os próprios africanos, não ocorreram de forma isolada ou relativa a apenas alguns aspectos das vidas destas pessoas. Tais transformações têm relações com as estruturas políticas, sociais, familiares e tantas outras que se deram paulatinamente ao longo do tempo. Inseridos nestas estruturas estão diversos elementos culturais, dentre estes destacam-se as línguas que, por sua vez, sofrem um processo, um tanto quanto, mais lento de alteração.
Talvez, pelo fato de que a estrutura e o conteúdo das linguagens sejam, em si mesmo, mais rígidas, estas aparecem como o mais importante método de identificação das culturas. Através desta observação, o texto nos informa, pelo menos, uma noção de distanciamento e interação cultural. Isto é possível porque a linguagem de um povo evidencia sinais de muitas outras estruturas.
As línguas, a essência religiosa, a filosofia, os sistemas políticos, as estruturas familiares e a estética coexistem de maneira harmônica, entretanto acabam não, sobrevivendo às dificuldades como migrações, por exemplo. Por isso, talvez, as culturas africanas são, quase sempre analisadas sob o aspecto dos traços.
Quando estes traços sobrevivem e salvaguardam elementos do sistema cultural antigo, corre-se o risco de tornar esta analise um pouco distante da totalidade, por conta das transformações que tal cultura sofreu.
Herskovitt apresenta a terminologia "passado negro", contudo a idéia de que a história antiga africana emerge a partir do evento escravidão, apresentaria um conteúdo superficial.
Compreendemos que as mudanças ocorreram por meio de suas mudanças internas e através da sua interação com outras culturas. O que certamente aconteceu com o impacto das culturas africanas em face às demais apresentadas, que gerou novas vertentes em conseqüência das relações comerciais e políticas, mas não apenas estas.
A sobrevivência das culturas africanas no mundo atlântico teve as línguas como elementos mais frágeis neste processo de conservação cultural. Alguns argumentam como motivo, as separações das comunidades mediante a escravização. Ao obstante, a própria pujança das línguas demonstra as fragmentações e posteriores adaptações lingüísticas, que por fim geraram novas línguas.
Embora, seja quase unanimidade entre os intelectuais e especialistas, que a dinâmica transatlântica, no que diz respeito ao sistema escravagista, foi o grande causador da perda cultural dos povos africanos, quando desagregou estruturas sociais, e com elas muitas outras.
Outra quase unanimidade é a idéia de que é evidente e inegável que no tocante à estética, dentro dela, a dança e a música, são os elementos que mais contribuem para a propagação, manutenção e identificação destas culturas no mundo Atlântico.
As religiões africanas chegadas às terras americanas, por exemplo, sofreram com as comparações, sobretudo com a essência cristã européia, contudo superando os entraves pejorativos originaram novas expressões religiosas, que serviram de palco para as resistências.
Podemos então concluir que o longo processo de "descobrimento" e exploração do mundo atlântico, além de complexo foi digamos que "doloroso" para as partes exploradas e decisivas para o mundo contemporâneo, visto que além dos esforços europeus de obtenção de maiores riquezas através do novo mundo atlântico, os africanos escravizados foram cruelmente transportados e torturados ao longo da época escravista.




















 
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