Nos últimos anos foram muitas as publicações sobre textos apócrifos da Bíblia, mas o que Jonathan Kirsch defende em "As Prostitutas na Bíblia" (Editora Rosa dos Tempos) vai além do que se poderia imaginar sobre o assunto. A narrativa do autor polemiza com várias correntes religiosas, mesmo afirmando que tudo o que consta de sua obra foi extraído do próprio Livro Sagrado. São algumas das histórias, garante, mais violentas e sexualmente explícitas de toda a literatura ocidental. "Falam da paixão humana em toda sua infinita variedade: adultério, sedução, incesto, estupro, mutilação, assassinato político, tortura, sacrifício e homicídio."
Passagens, segundo Kirsch, excluídas da Bíblia por rabinos, sacerdotes e pastores "para ocultar a linguagem franca do texto hebraico original sob a capa de eufemismos vagos, interpretações improváveis ou erros de tradução propositais". "As Prostitutas na Bíblia" teve como base traduções de The Holy Scriptures According to the Masoretic Text (Filadélfia: Jewish Publication Society, 1961) e trechos referentes à "The New English Bible With Apocrypha", 2ª edição (Nova Iorque: Oxford University Press, 1970).
O escritor defende a publicação destes textos, pois muito podem contribuir para problemas da atualidade, como a questão do aborto e até a luta pela paz no Oriente Médio. "A Bíblia é também um tesouro de narrativas sobre as vidas de homens e mulheres inteiramente humanos, ou seja, de indivíduos que se sentiam tão confusos, tão cheios de conflitos, tão desorientados, torturados e vulneráveis às fraquezas da carne e aos insucessos do espírito quanto qualquer personagem de Homero, Shakespeare, Dostoievski ou de qualquer um dos melodramas, novelas e folhetins que constituem a literatura de nossa época", pondera.
Kirsch chama a atenção para o fato de que nem sempre as traduções do texto bíblico dizem realmente o que ocorreu. É o caso da história de Rute, uma jovem viúva, que foi, a pedido da sogra, ao encontro de Boaz, um rico dono de terras. "E quando ele for se deitar", diz a astuta sogra, "tu entrarás e lhe descobrirão os pés e te deitarás; e ele te dirá o que deves fazer (Rute 3:4)". "A cena é um pouco desconcertante", afirma Kirsch. "Afinal, por que ela vai descobrir os 'pés' de Boaz?". O que não foi dito, completa, é que a palavra "pés" (ou "pernas") no hebraico bíblico é, às vezes, um eufemismo para o órgão sexual masculino.
Com relação às traduções "propositalmente erradas", o escritor lembra o que diz o Livro de Josué sobre a história de dois espiões que são enviados à terra de Canaã na vanguarda de um exército israelita invasor para sondar as defesas inimigas (Jos. 1:1-19). "Os espias recebem guarita de uma cananéia chamada Raabe, a quem o texto original identifica claramente, não uma, mas várias vezes, como prostituta. Na verdade, as palavras em hebraico podem ser interpretadas de modo a sugerir que os espias estão usando os serviços profissionais da mulher quando são interrompidos por uma patrulha inimiga."
Kirsch salienta que alguns professores de religião preferem dizer aos alunos que Raabe é uma estalajadeira. "Na história da humanidade, estalagem e bordel são encontrados em um mesmo estabelecimento."
Jonathan Kirsch, colunista literário do Los Angeles Times, escreve e faz palestras sobre temas bíblicos, literatura e direito. Membro do National Book Critics Circle, trabalha como advogado especialista em direitos autorais.
Os Primeiros Reis
Acertadamente, vários pesquisadores bíblicos consideram os dois livros de Samuel os mais detalhados escritos históricos da Bíblia, no qual especula-se que foram escritos por secretario(s) da realeza de Israel, função cujo ocupante era intitulado de escriba. Tais livros nos permitem verificar, com minúcias, condutas inconcebíveis dos reis israelenses que, como diziam, eram "ungidos de Deus".
O primeiro personagem "sagrado" foi o profeta Samuel que ungiria Saul e, futuramente, Davi como reis israelenses. A grande surpresa surge no momento em que o santo homem passa para o jovem Saul uma ordem divina, onde Deus pretenderia vingar Israel dos amalequitas por um incidente cometido pelos seus ancestrais em séculos passados. A ordem determinava a morte de tudo que tivesse fôlego, não poupando crianças de colo nem animais (1 Samuel 15 a 15:3). Dai Saul devastou implacavelmente o povo visado, porem deixou os melhores animais vivos para que os israelitas os utilizassem para sacrifícios, alem de poupar o rei inimigo Agague que foi, logo depois, despedaçado a espadadas por Samuel (1 Samuel 15:33). O resultado disso e que Deus se revoltou e condenou a desobediência "benevolente" de Saul (1 Samuel 15:10 e 15:11), alem de não deixar de se irritar com Samuel pela sua piedade com aquele (1 Samuel 16).
Tempos depois, as proezas de Davi chamam a atenção de toda Israel causando inveja e medo em Saul que antevia a perda do trono (1 Samuel 18:6 a 18:8). A partir de então, o rei procura matar Davi (1 Samuel 18:9 a 18:11) e no seu primeiro grande plano para aniquilar o rapaz, uma proposta indecente e lançada, na qual o cumprimento da missão daria ao conhecido executor o direito de se casar com a amada Mical (1 Samuel 18:20 a 18:25). Todavia, a armadilha não surte efeito, porque não somente Davi escapou dos filisteus como trouxe o dobro do exigido por Saul: duzentos prepucios de filisteus (1 Samuel 18:27).
Por falar nessa estória de "prepucio", recentemente surgiu uma grande polemica. De acordo com Jonathan Kirsch em Prostitutas na Bíblia, no rodapé da p.98, a bissexualidade de Davi já foi discutida recentemente em Israel, indo a questão ate o Knesset (Assembleia Legislativa de Israel) onde os homossexuais e simpatizantes reivindicavam seus direitos. Também e afirmado que a filha de um combatente israelense chamada Yael Dayan entrou em atrito com seus colegas do Knesset ao acusar Davi de bissexual.
Podemos constatar que realmente se trata de uma hipótese não descartável. O autor bíblico nunca deixa de comentar o amor de Jonathan por Davi, que era maior do que o de todas as mulheres (2 Samuel 1:26) e que a alma dos dois estavam ligadas como uma so por amor (1 Samuel 18 a 18:4). Para concretizar decisivamente esse caso, Saul ainda fala para Jonathan que sempre protegia Davi: "Filho de mulher perversa e rebelde; não sei eu que elegeste o filho de Jesse para VERGONHA do recato de tua mãe?" (1 Samuel 20:30).
Quem já leu a respeito conhece a peculiaridade de Davi em relação aos demais personagens bíblicos, pois era de uma emotividade muito festiva, com a qual cantava e dançava em momentos de exaltação. Sua própria mulher, Mical, o criticou com ironia mordaz quando ele, dançando ao comemorar uma de suas vitorias, deixava aparecer suas intimidadas aos olhos da multidão(2 Samuel 6:20).
Parece acertado também que Davi foi coincidentemente passivo durante o estupro cometido por Armon sobre a meia irmã Tamar (2 Samuel 13:14). Então não esqueçamos que "passividade e cumplicidade". Nada na Bíblia indica que houve punição a Armon pela sua covarde violência, permitindo a justiça privada de Absalao que o matou. Após isso, Absalao, irmão da vitima Tamar, entra em choque com seu pai desejando o trono, principalmente motivado pelo protecionismo do rei com o filho criminoso. Tanto e verdade que Davi lamentou profundamente a morte do filho Absalao, não so por seu filho mas por remorso (2 Samuel 18:33), pois tão desmoralizado estava Davi que o comandante Joabe o repreendeu com muito rigor (2 Samuel 19:5 a 19:7).
De toda forma, o ato de maior dolo de Davi foi o plano para matar o digno soldado Urias, após ter engravidado a mulher deste (2 Samuel 11:5). Pelas mãos do fiel e honrado combatente, Davi mandou uma carta que nada mais era que uma armadilha mortal para o próprio mensageiro, onde o combatente Joabe tinha a missão de colocar Urias na frente de batalha e recuar a tropa no momento certo, de maneira tal que o traído homem morresse (11:14 e 11:15). Urias era tão confiável que Davi tinha certeza absoluta de que ele não abriria a carta que determinava sua sentença. A premeditação e a frieza do rei era tão verdadeira que mesmo após o jejum do seu filho doente, que acabou falecendo, se comportou com tanto descaso que surpreendeu seus servos (2 Samuel 12:21), respondeu cinicamente a eles e foi se deitar com a ex-mulher de Urias. Segundo o Talmud, o profeta Nathan era vigiado na corte para não divulgar esse fato.
Para quem não sabe, e mister frisar que Davi foi bandoleiro do rei Gate, Aquis, que era estrangeiro e amigo dos filisteus. Servindo voluntariamente a esse rei como um autentica mercenário, Davi saqueava cidades e aldeias, matando homens e mulheres para não deixar pistas (1 Samuel 27:11). Enquanto isso, a Historia Oficial sempre tem taxado os inimigos dos hebreus de truculentos, mas entre eles o ódio não era maior que o ódio dos hebreus a eles. Os amalequitas quando saquearam Ziclague, por exemplo, poupou a vida de todos seus habitantes (1 Samuel 30:2). Já os hebreus se deliciavam com a morte do estrangeiro mais pacifico, como demonstra o episódio em que Saul matou os gibeonitas só para agradar seu povo (2 Samuel 21 e 21:2).
Convém lembrar que existe uma incógnita curiosa em uma passagem (2 Samuel 5:6 e 5:8) onde Davi pode ter sido responsável pelas seqüelas físicas de jebuseus que viviam em Jerusalém ou ate pode estar vigente a hipótese do preconceito aos deficientes físicos estrangeiros cuja ira era visível contra Davi.
Após os livros de Samuel, cabe ressaltar a futura ingratidão de Salomão, filho predileto de Davi, para com o rei de Tiro chamado Hirao. Este grande amigo dos hebreus que nunca foi devidamente correspondido, sentir na pele a não reciprocidade, pois recebia terras infrutíferas (1 Reis 9:12 e 9:13) em troca de ouro (1 Reis 9:14) e fortunas incalculáveis (1 Reis 10:22 e 10:23).
Essas são apenas algumas informações que, pela genuína ótica judaica, expressa um conceito de moral ao cristão onde os "louváveis" heróis tem como valor a capacidade de sobrepujar os gentios e de alimentar o orgulho da raça.
As outras mães de Deus
Ao concluir o quarto dos Evangelhos, o apóstolo João, preferido de Jesus Cristo, disse que caso se fosse relatar tudo o que seu mestre fizera, "nem o mundo inteiro poderia conter os livros que se deveriam escrever". O evangelista tinha razão, porque passados 2 mil anos, Jesus continua sendo o personagem mais intrigante da história do Ocidente ou provavelmente do próprio mundo. Não pára de crescer, como uma vertigem, a bibliografia sobre ele e sobre a cultura que o engendrou, uma cultura que não se limita à Palestina e vai da suntuosa antigüidade egípcia ao milagre da sabedoria grega. Um dos últimos livros que ajudam a entender Jesus Cristo, ainda que não trate diretamente dele, é As Prostitutas na Bíblia, do escritor norte-americano Jonathan Kirsch, publicado em 1997 nos Estados Unidos e lançado no Brasil pela Editora Rosa dos Tempos, no ano passado. O livro se ocupa especificamente de mulheres do Antigo Testamento, recriando e dissecando "algumas histórias censuradas" de que elas participam.
A idéia de escrever o livro, segundo Kirsch, surgiu quando se pôs a ler a Bíblia inteira para seu filho de cinco anos e, logo na história do dilúvio, teve de recriar oralmente o texto, engasgando na leitura, quando tentou suavizar a estranha cena em que Cam, um dos filhos de Noé, surpreende o pai bêbado e nu. A cena, que alguns intérpretes radicais chegam a considerar um caso de homossexualismo incestuoso, induziu Kirsch a desencovar na Bíblia outras histórias do gênero. Juntando esse viés sensacionalista com uma vasta cultura, ele não apenas recria as fartas histórias escabrosas que o texto bíblico oferece como também se empenha num instigante projeto de reinterpretação delas. Seu objetivo, como ele próprio deixa claro em vários momentos do livro, é ressaltar a dimensão dramaticamente humana da Bíblia e, com isso, ajudar homens e mulheres do mundo de hoje a compreenderem melhor suas próprias fraquezas.
Essa preocupação didática às vezes torna seu livro quase esquemático, quando Kirsch sublima, em excesso, o papel de algumas mulheres avulsas da Bíblia, tendo por base apenas contraditórias suposições difíceis de comprovar. Mas, ao cabo, ele consegue seu intento e deixa pouco à vontade as autoridades religiosas que, em todos os tempos, selecionaram das Escrituras, para consumo dos crentes, "somente pronunciamentos morais prístinos vindo do alto e não revelações de homens e mulheres reais, que têm de lidar com problemas menos puros da vida na Terra". Ao virar a epopéia dos hebreus pelo avesso, ressaltando exatamente suas histórias nada exemplares, Jonathan Kirsch procura mostrar que também no mais sagrado livro da cultura ocidental não há uma verdade estabelecida, mas apenas verdades cambiantes, ora brandidas como senha divina para o massacre de cananeus, ora olvidadas como uma desculpa humana para as torpezas do rei Davi, o ancestral mais ilustre de Jesus Cristo, segundo rezam os evangelistas.
Kirsch recria e analisa sete narrativas bíblicas: o incesto que as duas filhas de Ló praticam com o próprio pai; a suposta violação de Diná, filha de Jacó, pelo príncipe Siquém; o ardil que a bela Tamar engendra para ter um filho com Jacó, seu sogro; a emboscada que Deus arma para Moisés no deserto, tentando matá-lo; o sacrifício da filha de Jefté pelo próprio pai, ao cabo de uma guerra sangrenta; a história do estupro e esquartejamento de uma concubina; o estupro de Tamar, filha de Davi, praticado por seu próprio irmão, Amnon. Lidas na própria Bíblia, essas narrativas costumam passar despercebidas, porque, quando essas mulheres se deitam com seus homens ou são deitados à força por eles, os autores bíblicos não dão detalhes das cenas. Talvez por obra de seus muitos censores, ao longo dos séculos, a Bíblia nem sempre alcança o mesmo colorido literário de outras mitologias, como a grega ou a hindu, mas muitas de suas cenas de alcova parecem ecoar uma liberalidade que ficou perdida no tempo.
Entretanto, talvez o aspecto mais importante de seu livro não seja o pitoresco das histórias em si mas o estranho determinismo que há nelas a genealogia de Jesus Cristo. Os quatro evangelistas se esmeram em mostrar que toda a trajetória dos judeus, de Abraão a João Batista, não passa de um romance escrito por Deus que tem seu final feliz em Jesus. E, para provar essa tese, Mateus remonta os antepassados de Jesus até Abraão, enquanto Lucas estende a árvore genealógica de Cristo até Adão. Em ambos, como nos demais evangelistas, há uma evidente necessidade de ressaltar a origem nobre de Jesus, em que pese seu nascimento na manjedoura de Belém. E, para isso, recorrem a Davi, o rei a quem coube transformar as 12 tribos seminômades que descendiam de Abraão no povo urbanizado que daria origem a um longo reinado na Palestina. Esse afã de fazer de Jesus o "Filho de Davi", talvez se explica pela própria origem de seus discípulos pescadores, pastores, lavradores, cobradores de imposto. Engendrar um passado nobre para o carpinteiro a quem consideravam um mestre era uma forma de justificá-lo aos olhos discriminatórios da nobreza judaica.
Mas Jonathan Kirsch mostra que nem só de reis se faz um Messias. Como os evangelistas, ao relatar a genealogia de Jesus, dão preferência à linhagem masculina, o leitor da Bíblia quase nunca percebe que, antes de nascer de uma Virgem, segundo a crença dos cristãos, Jesus Cristo precisou de outros ventres, alguns deles não muito puros, como ficam evidentes ao cabo da leitura de As Prostitutas na Bíblia. Cercado por civilizações muito mais poderosas, como egípcios, babilônios e persas, os hebreus estiveram prestes a ser varridos da história, como muitos outros povos antigos, que desapareceram dizimados pela brutalidade das guerras tribais ou pelos caprichos inesperados da natureza. E, de acordo com as narrativas bíblicas, em muitos desses momentos críticos, foram as mulheres do povo, algumas delas prostitutas, que garantiram a continuidade da linhagem de Abraão até chegar em Davi e desaguar em Jesus.
Jonathan Kirsch começa analisando antigas sagas do Gênesis, que ele situa entre os anos de 1800 e 1700 a.C., quando os patriarcas do que seria Israel teriam migrado de Ur, na Caldéia, para Canaã, na Palestina. Sua certeza nessa datação precisa é tão ousada quando a de Paul Johnson em sua apaixonada História dos Judeus (Imago, 684 páginas). Outros especi-alistas, como Norman Gottwald, sequer admitem que os antigos hebreus tenham sido nômades, e boa parte da crítica hesita em situar os antigos pa-triarcas bíblicos em contextos históricos precisos, até porque nem sempre concordam que eles possam ser individualizados.
Mas Jonathan Kirsch, mesmo referindo-se às interpretações contrárias, prefere tratá-los como pessoas. E começa narrando a história de Ló, um parente de Abraão. Quando Sodoma e Gomorra são destruídas, restam apenas Ló e suas duas filhas, já que sua mulher vira estátua de sal. Ameaçadas pelo deserto e por um futuro sem homens, num tempo em que não havia outro destino para as mulheres, a filha mais velha de Ló arquiteta um plano e o executa com a mais nova embebedam o pai, em duas noites seguidas, e com ele se relacionam. Desse incesto, nascem dois filhos, Moabe e Amom, que darão origem aos moabitas e amonitas, tribos que, talvez meio milênio mais tarde, entre 1240 e 1200 a.C., serão ferrenhos inimigos dos hebreus nas recém-conquistadas terras de Canaã.
Mas, como mostra Kirsch, é desses dois povos inimigos dos israelitas, originários de um incesto, que vão surgir mulheres fundamentais para a genealogia que leva até Davi e, portanto, a Jesus. A moabita Rute, depois de casar-se com o israelita Booz, gerou Obed, avô do rei Davi, segundo o livro de Rute. E a amonita Naamá, uma das mil esposas e concubinas de Salomão, é a mãe de Roboão, sucessor de Salomão no trono e, portanto, também ascendente de Jesus Cristo. Como afirma Jonathan Kirsch, "a caverna da montanha na qual Ló e suas filhas se refugiam termina se transformando no ventre da História, e o acasalamento bêbado dos três constitui uma união santificada que irá trazer para o mundo aquele que a Bíblia vê como seu salvador supremo".
Todavia, se o incesto de Ló e suas filhas apenas indiretamente interfere na linhagem que levaria a Jesus Cristo, uma vez que a destruição de Sodoma e Gomorra não acaba com o mundo bíblico, outro episódio de fornicação, entre o patriarca Jacó e a prostituta Tamar, tem quase o mesmo efeito restaurador da humanidade que tiveram as presumíveis cópulas dos casais que povoaram a Arca de Noé nos dias do dilúvio. Tamar era esposa de Er, o primogênito de Jacó. Mas Er foi morto diretamente por Deus, sob a alegação de que era mau. Então, Jacó determinou a seu outro filho, Onã, que se deitasse com Tamar, para gerar-lhe os filhos que seu irmão não pudera gerar. Esse era o costume do tempo, o "casamento levirático", em que o cunhado se encarregava de cuidar da esposa do irmão morto. Só que nem os filhos nem a herança seriam dele, mas do irmão a quem sucedia no leito da cunhada.
Foi por isso que Onã passou para a história, erroneamente, como o Pai da Masturbação, já que, quando se deitou com a bela Tamar, "desperdiçou o seu sêmen na terra, para não dar descendência ao seu irmão", descumprindo a ordem paterna. Seu gesto, que nada tem de maníaco, é absolutamente racional o filho que daria a Tamar, por ser de Er e não seu, faria com que não tivesse direito de herança, sucessivamente reservado aos primogênitos. Só que Deus não gostou nem um pouco da atitude de Onã e, como naquele tempo ainda não tinha sido inventada a Inquisição, ele próprio, Deus, se encarregou de matar o rebelde filho de Jacó. Então, como precisava, a qualquer custo, gerar sua descendência e cumprir a lei, Jacó prometeu a Tamar que poria para dormir com ela seu filho mais moço, Selá. E mandou que a mulher voltasse para a casa de seu pai, enquanto esperava o futuro marido crescer.
Mas Jacó, que havia barganhado sua própria primogenitura com o escuso negócio do prato de lentilhas, não era um homem muito preocupado com a palavra empenhada. E se esqueceu de fazer com que seu filho Selá se casasse com sua nora. Mas Jesus Cristo, uns 18 séculos depois, não deve ter-se esquecido das implicações dessa história, porque, provavelmente, foi pensando nela que ele impediu o apedrejamento de Maria Madalena. Quando desafiou um suposto inocente a atirar a primeira pedra na pecadora de seus dias, Jesus deve ter-se lembrado da pecadora dos dias de Jacó. Porque, depois de certo tempo, quando Jacó soube que sua nora Tamar estava grávida e sem marido, como uma meretriz, Jacó, como patriarca zeloso das leis de sua gente, não hesitou: "Trazei-a para fora e que seja queimada". Mas antes que fosse queimada, Tamar, estendendo aos seus algozes um anel de chancela, um cordão e um cajado, pediu que dissessem a Jacó: "Estou grávida do homem a quem pertence essas coisas".
O anel de chancela era um brasão de senhores de terras e escravos e servia para marcar a superfície de documentos de argila e papiro, como uma assinatura, segundo informa Jonathan Kirsch. Ao receber dos anciãos de sua tribo os objetos que Tamar enviara, Jacó reconheceu-se neles. Ele lembrou-se de uma beira de estrada, três meses antes, quando vira uma mulher sensual, em trajes de meretriz, à exceção do rosto, coberto por um véu. Naquele dia, a anônima prostituta acendeu-lhe, por baixo das vestes de viúvo, um fogo que ele só conhecera igual quando viu Raquel, a filha de Labão, por quem trabalhou, como escravo, por sete anos, arredondados em quatorze pelo esperto sogro, como nos contaria Camões. E para obter os favores da meretriz, ele aceitou dar-lhe o cajado, um cordão e um anel de chancela, como garantia de que, mais tarde, haveria de enviar à mulher um gordo bezerro de seu rebanho em pagamento do prazer que ela lhe dava. Ao reconhecer em Tamar aquela prostituta, Jacó arrependeu-se de pensar em queimá-la e admitiu-se culpado: "Ela é mais justa que eu que não lhe dei meu filho Selá".
Jesus Cristo, ao impedir que Madalena fosse apedrejada, deve ter-se lembrado de Perés, o filho do patriarca Jacó com a quase prostituta Tamar, sua nora. O fruto dessa fornicação de Jacó tornou-se ancestral de Davi, estabelecendo o elo entre Abraão e o Messias e fazendo Tamar ser tão necessária ao seu nascimento quanto Maria, sua mãe, assim como Judas, com sua traição, foi tão fundamental para o cristianismo quanto Pedro e sua obediência. Conhecedor das fraquezas humanas, como muitos homens e mulheres que protagonizaram e escreveram a Bíblia ao longo de séculos, Jesus Cristo provavelmente sabia o que comumente se sabe que Deus escreve certo por linhas tortas. Essa é a grande moral que Jonathan Kirsch procura imprimir em sua avessa seleta da Bíblia a moral da tolerância.
Um ataque moral a Cristo
O cristianismo, em seus primórdios, teve que enfrentar, derrotar e até absorver muitas heresias. A maioria delas, de ordem doutrinária, ora negando a divindade de Cristo, ora atribuindo-lhe uma divindade relativa. Modernamente, desde o século passado, com base na comparação entre os Evangelhos e textos mitológicos do Antigo Oriente, há autores que simplesmente renegam a historicidade de Jesus Cristo. Para esses autores, geralmente judeus, Jesus seria apenas o resultado de uma compilação de antigos mitos orientais, como Horus e Tamuz, em que elementos basilares do cristianismo, especialmente de sua versão católica, como o nascimento virgem, a eucaristia e a ressurreição, já existiam.
Argumentos para essa tese não faltam. Primeiro, porque, em seus relatos, os evangelistas obedecem menos a uma inserção de Jesus em seu contexto histórico que a um arranjo de sua vida numa disposição divina, o que se percebe, facilmente, nas abundantes analogias entre os Evangelhos e os textos do Antigo Testamento. Segundo, porque nenhum dos quatro Evangelhos tem um autor historicamente comprovado. Mateus, Marcos, Lucas e João só encontram personalidade histórica caso se considerem históricos os próprios Evangelhos. E Paulo, tido por muitos estudiosos como o verdadeiro criador do cristianismo, tem sido questionado como autor da maioria das epístolas que lhe são atribuídas, não por pensadores anticristãos, mas por exegetas católicos e evangélicos.
Entretanto, se hoje a crítica a Jesus Cristo costuma revestir-se da assepsia acadêmica, entre muitos autores dos primeiros séculos da Era Cristã, quase sempre judeus, o ataque a Jesus se dava de um modo mais terreno e muito mais apaixonado, pondo em dúvida, às vezes, até sua honestidade pessoal ou a moral de sua família. Um desses autores foi Celso, que por volta do ano de 178 escreveu, em grego, uma polêmica contra o cristianismo a que chamou O Verdadeiro Discurso. O texto de Celso se perdeu (talvez intencionalmente, como muita coisa que se escreveu contra o cristianismo), mas dele restaram longas citações em Orígenes, que, por volta de 248, escreveu o Contra Celsum.
Celso acusava Jesus de ter inventado a história de que nascera de uma virgem, com o objetivo de se passar por Deus perante seus discípulos. O autor pagão dizia ter ouvido de um judeu que Jesus, na verdade, era filho de uma jovem judia que, traindo o noivo carpinteiro, cometera adultério com um soldado romano chamado Jesus Ben Pendera ou Jesus Ben Pantere. "Essa idéia, que provoca horror nos devotos e regozijo nos descrentes, poderia ser deixada de lado, não fosse pelo fato de a ilegitimidade de Jesus ter sido proposta como tese viável por alguns estudos recentes", escreve o padre John Meier, autor do erudito Um Judeu Marginal: Repensando o Jesus Histórico, obra publicada no Brasil pela Imago e já no terceiro volume.
Segundo relata John Meier, alguns autores contemporâneos consideram "plausível", ainda que não "provável", a teoria da ilegitimidade do nascimento de Jesus. Entre eles, a feminista norte-americana Jane Schaberg, que chega a considerar o nascimento virginal de Cristo, relatado por Mateus e Lucas, como um possível disfarce para uma situação real em que Maria teria sofrido estupro ou praticado uma fornicação voluntária. Mas, para John Meier, Schaberg desperdiça uma "grande dose de erudição" num "projeto quixotesco". O que não impede seus leitores de constatarem que também Meier emprega uma grande erudição num projeto de fé. Enquanto isso, Jesus Cristo, como de resto a Bíblia, permanece inexplicável o que se constitui num dos fundamentos de sua eternidade.
Polêmica sobretextos da Bíblia
Nos últimos anos foram muitas as publicações sobre textos apócrifos da Bíblia, mas o que Jonathan Kirsch defende em "As Prostitutas na Bíblia" (Editora Rosa dos Tempos) vai além do que se poderia imaginar sobre o assunto. A narrativa do autor polemiza com várias correntes religiosas, mesmo afirmando que tudo o que consta de sua obra foi extraído do próprio Livro Sagrado. São algumas das histórias, garante, mais violentas e sexualmente explícitas de toda a literatura ocidental. "Falam da paixão humana em toda sua infinita variedade: adultério, sedução, incesto, estupro, mutilação, assassinato político, tortura, sacrifício e homicídio."
Passagens, segundo Kirsch, excluídas da Bíblia por rabinos, sacerdotes e pastores "para ocultar a linguagem franca do texto hebraico original sob a capa de eufemismos vagos, interpretações improváveis ou erros de tradução propositais". "As Prostitutas na Bíblia" teve como base traduções de "The Holy Scriptures According to the Masoretic Text" (Filadélfia: Jewish Publication Society, 1961) e trechos referentes à "The New English Bible With Apocrypha - 2ª edição" (Nova York: Oxford University Press, 1970).
O escritor defende a publicação destes textos, pois muito podem contribuir para problemas da atualidade, como a questão do aborto e até a luta pela paz no Oriente Médio. "A Bíblia é também um tesouro de narrativas sobre as vidas de homens e mulheres inteiramente humanos, ou seja, de indivíduos que se sentiam tão confusos, tão cheios de conflitos, tão desorientados, torturados e vulneráveis às fraquezas da carne e aos insucessos do espírito quanto qualquer personagem de Homero, Shakespeare, Dostoievski ou de qualquer um dos melodramas, novelas e folhetins que constituem a literatura de nossa época", pondera.
Kirsch chama a atenção para o fato de que nem sempre as traduções do texto bíblico dizem realmente o que ocorreu, e que expressões idiomáticas ganharam mais suavidade. É o caso da história de Rute, uma jovem viúva, que foi, a pedido da sogra, ao encontro de Boaz, um rico dono de terras. "E quando ele for se deitar", diz a astuta sogra, "tu entrarás e lhe descobrirás os pés e te deitarás; e ele te dirá o que deves fazer (Rute 3:4). "A cena é um pouco desconcertante", afirma Kirsch. "Afinal, por que ela vai descobrir os 'pés' de Boaz?". O que não foi dito, completa, é que a palavra "pés" (ou "pernas") no hebraico bíblico é, às vezes, um eufemismo para o órgão sexual masculino.
Com relação às traduções "propositalmente erradas", o escritor lembra o que diz o Livro de Josué sobre a história de dois espiões que são enviados à terra de Canaã na vanguarda de um exército israelita invasor para sondar as defesas inimigas (Jos. 1:1-19). "Os espias recebem guarita de uma cananéia chamada Raabe, a quem o texto original identifica claramente, não uma, mas várias vezes, como prostituta. Na verdade, as palavras em hebraico podem ser interpretadas de modo a sugerir que os espias estão usando os serviços profissionais da mulher quando são interrompidos por uma patrulha inimiga", destaca.
Kirsch salienta que alguns professores de religião preferem dizer aos alunos que a "bondosa e corajosa Raabe" é uma estalajadeira. "Estudiosos da Bíblia já tentaram validar essa pequena e bem-intencionada mentira, ressaltando que, 'na história da humanidade, estalagem e bordel são encontrados em um mesmo estabelecimento'".
"A Bíblia é um mapa da alma humana, e nenhuma sala secreta ou passagem escondida é omitida. E é um mapa cujo criador, fosse ele humano ou divino, via com olhos bondosos e compassivos até mesmo nossas mais exóticas paixões", salienta Kirsch, que completa: "Por isso é que as histórias proibidas da Bíblia não são apenas leitura boa e divertida; acima de tudo, afirmam as qualidades essenciais que, para começar, nos tornam humanos."
Jonathan Kirsch, colunista literário do "Los Angeles Times", escreve e faz palestras sobre temas bíblicos, literatura e direito. Membro do National Book Critics Circle, também trabalha como advogado especialista em direitos autorais.