Ensino de Geografia: O uso da arte e da Literatura como uma proposta Interdisciplinar
 
Ensino de Geografia: O uso da arte e da Literatura como uma proposta Interdisciplinar
 


Ensino de Geografia: o uso da arte e da Literatura como uma proposta Interdisciplinar

Ana Lucia Teixeira

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

[email protected]

Iara da Conceição Frederico

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

[email protected]

* Eixo Temático: Geografia e Interdisciplinaridade

Resumo:

A Geografia tem se utilizado cada vez mais das artes, do cinema, da música, e da literatura em suas pesquisas sobre o espaço geográfico. Por isso este estudo busca contribuir para a ampliação do debate sobre o uso destes recursos no ensino de Geografia e como a utilização destes meios nos permite realizar relações interdisciplinares.

Introdução

A realidade é composta por múltiplas relações que só podem ser apreendidas numa visão complexa e não fragmentária. Para superar as dissociações das práticas escolares, é necessária uma atitude interdisciplinar.A importância de construir um ensino interdisciplinar reside na integração do ensino à realidade, formando alunos capazes de compreender a sociedade da qual fazem parte como sujeitos. (ARALDI, 2000)

As percepções que os indivíduos, grupos ou sociedades têm do lugar nos quais se encontram e as relações singulares que com ele estabelecem fazem parte do processo de construção das representações de imagens do mundo e do espaço geográfico. As percepções, as vivências e a memória dos indivíduos e dos grupos sociais são, portanto, elementos importantes na constituição do saber geográfico.

De acordo com PCN's (1999, p.39/40) a Geografia é em si um saber interdisciplinar abandonou a posição de se constituir como uma ciência de síntese, ou seja, capaz de explicar o mundo sozinha, por isso a necessidade de buscar relacionar-se com outras ciências, transcendendo seus limites conceituais sem, no entanto perder sua identidade e especificidade. Na sua busca por pensar o espaço enquanto totalidade, de estabelecer uma unidade na diversidade e de abrir outras possibilidades mediante a visão de conjunto a Ciência Geográfica pode ajudar a romper a fragmentação factual e descontextualizada.

Ainda conforme os Parâmetros Curriculares Nacionais a Geografia tem buscado um trabalho interdisciplinar, lançando mão de outras fontes de informação e que a relação da Geografia com a Literatura tem sido redescoberta, proporcionando um trabalho que provoca interesse e curiosidade sobre a leitura do espaço e da paisagem.

É possível aprender Geografia desde os primeiros ciclos do ensino fundamental pela leitura de autores brasileiros consagrados — Machado de Assis, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, entre outros — cujas obras retratam diferentes paisagens do Brasil, em seus aspectos sociais, culturais e naturais. Dessa forma acreditamos ser a literatura um importante meio para o entendimento do espaço geográfico como construção histórica.

Também outras linguagens vêm sendo utilizadas pela Geografia na pesquisa sobre a construção/ organização do espaço geográfico. Nos últimos anos a Geografia vem se utilizando das artes, do cinema, da literatura como instrumento de análise do espaço geográfico. Sobre a utilização da arte e da literatura na Geografia Carlos (2002; p. 175 - 176) declara:

A geografia começou a refletir sobre o impensável, até bem pouco tempo. Hoje, muitos trabalhos se debruçam sobre a festa, a música, a literatura, o cinema, colocando em cena a relação entre a geografia e a arte, o que vem abrindo muitas possibilidades de pesquisa.

No entanto a utilização destes recursos na maioria das vezes está relacionado especificamente ao conteúdo de geografia estando dissociado de outras disciplinas. O uso da arte, da literatura, da música e da produção cinematográfica também se faz presente em outras disciplinas, então porque este uso não é realizado de uma maneira que integre as diferentes áreas do conhecimento em uma abordagem interdisciplinar.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais esclarecem que há diferença conceitual entre interdisciplinaridade e transversalidade. A interdisciplinaridade refere-se a uma abordagem epistemológica dos objetos do conhecimento - questiona a visão compartimentada disciplinar da realidade sobre a qual a escola tal como é conhecida, historicamente se constituiu. Refere-se por tanto a uma relação entre disciplinas; enquanto a transversalidade diz respeito principalmente à versão didática, a possibilidade de se estabelecer, na prática educativa, uma relação entre aprender na realidade e da realidade de conhecimentos teoricamente sistematizados e as questões da vida real.

Conforme Bovo (s/d, p.2) a interdisciplinaridade surgiu no final do século XIX como resposta a fragmentação da ciência propostas pelo positivismo, pois esta foi subdivida dando origem a diversas disciplinas. Com os reducionismos causados pelo positivismo a interdisciplinaridade surgiu a fim de restabelecer um diálogo entre as diversas áreas do conhecimento científico.

Apesar disto ainda hoje quando se fala em abordagem interdisciplinar nas escolas de modo geral esta se refere à Educação Ambiental. Ao contrário do que se aborda a interdisciplinaridade vai muito além da Educação Ambiental. Os Parâmetros Curriculares Nacionais apresentam inicialmente como temas transversais, a Ética, a Pluralidade Cultural, o Meio Ambiente, a Saúde e a Orientação Sexual que devem ser abordados nas escolas abrangendo todas as disciplinas em um trabalho coletivo do corpo docente e da comunidade. Somando-se a estes tem se ainda os Temas Locais que chamam atenção para as particularidades de onde a escola está inserida, pretendendo contemplar os temas de interesse específicos em diferentes escalas, Estado, cidade e/ou escola.

Faz-se necessário ressaltar que a possibilidade de inserção dos Temas Transversais nas diferentes áreas do conhecimento não é uniforme, uma vez que precisa-se respeitar as singularidade tanto dos diferentes temas quanto das áreas. Existem afinidades maiores entre determinadas áreas e determinados temas, como é o caso de Ciências Naturais e Saúde ou entre Historia, Geografia e Pluralidade cultural, em que a transversalidade é fácil e claramente identificável. Não considerar essas especificidades seria cair num formalismo mecânico. (PCN's, 1997).

No nosso entender é possível ir além da abordagem ambiental ou dos temas transversais propostos pelos PCN's e aproximar a Geografia de disciplinas como a Literatura, a História, a Língua Portuguesa, as ciências Naturais, a Sociologia – neste caso em se tratando do ensino médio – a partir do uso de textos literários, letras de músicas, filmes, e das artes visuais.

A interdisciplinaridade normalmente é compreendida como a prática de cruzamento de disciplinas ou de partes do conteúdo disciplinar que eventualmente ofereçam ponto de contato nas atividades letivas, dessa forma as práticas "interdisciplinares" acontece geralmente entre professores cujas disciplinas possuam afinidades e que coincidam na organização dos horários de aulas facilitando a "integração" das mesmas disciplinas (CAICINO, 2000 p.67/68).

Entretanto a interdisciplinaridade deveria ser uma proposta curricular elaborada em conjunto com todo o corpo escolar objetivando algo único que venha a oferecer perspectivas positivas na vida do aluno e melhorias no ensino e em sua qualidade de vida refletindo-se na comunidade em que este está inserido, sendo uma constante no cotidiano educacional. Por isto este estudo propõe uma aproximação ao cotidiano do aluno através da utilização de meios como a arte e a literatura buscando fazer com que os alunos percebam sua participação na construção do espaço geográfico, pois a geografia se faz no dia a dia, a partir das praticas e das relações sociais que se materializam no espaço.

O uso da música e das artes como recurso no ensino de geografia

Na atualidade se torna cada vez mais complexo a forma de se obter a atenção do aluno para os conteúdos referentes às matérias presentes em seus currículos, com a geografia não poderia ser diferente. Esta que por vezes se torna um amontoado de assuntos defasados distantes da realidade do aluno e de difícil compreensão faz com que o professor busque alternativas para facilitar o processo de ensino-aprendizagem.

Ir além da aula descritiva e distante exige um esforço do professor, para trazer para realidade do aluno àquilo que está sendo estudado; Para ir além das descrições -sejam elas aulas expositivas realizadas pelo professor, escritas no livro didático ou apresentadas nos mapas - quando procura estudar o porquê do espaço se apresentar de um ou de outro modo. (CALLAI, 1998, p.60), é preciso que o professor esteja disposto a realizar um trabalho que mude a forma como o ensino de geografia vem sendo ministrado no Brasil nas ultimas décadas.

Na busca para tornar as aulas mais atraentes muitos professores se baseiam e dão suporte as suas aulas através de recursos encontrados nas artes visuais e na música, no cinema e na literatura.

Um dos recursos utilizados que chama e muito a atenção dos alunos são as músicas. Estas em suas letras e melodias ressaltam de diversas maneiras os temas presentes no cotidiano do aluno ou aqueles que ajudaram a compor o cenário atual no qual este está inserido. A música é um importante recurso no ensino de geografia, pois tem um poder de penetração que une as várias culturas, diminuindo distância e diferenças.

A música pode ser um instrumento de difusão de idéias, valores e atitudes, e essas propriedades somadas a presença deste meio no cotidiano dos alunos, a torna um instrumento valioso no desenvolvimento de capacidades como contextualização, análise, expressão de idéias, produção de letras e músicas, construção de conhecimento e mudança de atitudes.

Podemos considerar que a música ouvida no dia-a-dia é instrumento educador, já que difunde idéias em letras e sentimentos em melodias. E por estar presente quase que integralmente na vida de cada um, a música pode se tornar um recurso eficaz na educação formal. Sobre os recursos que podem ser utilizados em sala de aula Vieira (1995) declara,

os recursos de ensino servem para a exposição do professor, para o trabalho independente do aluno, para a busca, exercitação ou problematização. Servem ao professor, ao aluno, para aprender ou controlar o aprendido.

Dentre os recursos utilizados pelo professor os visuais tendem a atingir maior êxito no aproveitamento dos mecanismos sensoriais, a junção dos recursos visuais aos recursos auditivos podem promover um aproveitamento e uma retenção de conhecimentos ainda maiores. E neste caso a música é um mecanismo completo, pois une tanto a parte visual (letras, vídeos-clipe) quanto sonora,

Um exemplo de utilização da música como recurso foi aplicado no Município de Duque de Caxias, RJ em uma escola do Terceiro Distrito, com o tema "Se todos fossem iguais a você", foi desenvolvido na escola através do Projeto Tom Jobim. O projeto propunha uma série de atividades em diferentes áreas do conhecimento, desde os Conteúdos de educação Artística com a representação de trechos de músicas do artista, que ressaltam pontos turísticos do Rio de janeiro, análise das formas físicas da Cidade dentro da disciplina geografia, a interpretação e a analise gramatical das letras das músicas entre outras atividades.

O projeto que teve duração de dois meses e culminou com a exposição dos trabalhos desenvolvidos pelos alunos e apresentações artísticas, atuou em várias áreas do conhecimento demonstrando ao aluno como existem aplicabilidades entre os conteúdos que lhe são apresentados em classe e as produções culturais presentes em seu dia a dia. Dando lhes a oportunidade de um enriquecimento cultural através do contato com um gênero musical próximo de sua vida cotidiana.

Outros artistas podem ser citados como mecanismos para tornar as aulas mais interessantes. No entanto devemos atentar para o fato de que isto não é o ponto principal, a utilização da música ou de qualquer outro recurso didático tem como finalidade aproximar da realidade dos alunos os temas que serão expostos pelo professor, e utilizando a fala de Kaercher (1998, p.19) esclarecemos que,

o objetivo aqui não é simplesmente trabalhar com música em sala de aula. É chamar a atenção que as músicas ouvidas cotidianamente por nós e nossos alunos trazem a questão social/espacial em suas letras e que podemos começar alguns assuntos novos com esse "chamariz". Desperta mais a atenção do que iniciarmos nossa fala, ainda que bem intencionada e de cunho progressista, com aulas expositivas abstratas e distantes do mundo do aluno [...] o objetivo não é (só) tornar a aula mais "legal" [...] mas sim, a partir das letras, questionar o que o aluno já sabe a fim de superar visões de mundo conformistas, conservadoras ou ligadas somente ao senso comum.

De acordo com os PCN' as músicas podem ser utilizadas no ensino tendo como referencia três eixos:

  1. O eixo da produção - "expressão e comunicação em música, improvisação, composição e interpretação";
  2. O eixo da fruição/apreciação - "apreciação significativa em música: escuta, envolvimento e compreensão da linguagem musical";

Para o ensino especificamente de geografia o terceiro eixo é o que mais nos interessa a música como produção histórico-cultural, mas em uma proposta interdisciplinar devemos levar em consideração todos os eixos propostos, pois desta forma poderia haver uma integração entre diferentes disciplinas a partir da utilização de uma determinada composição.

Algumas músicas representam em suas letras momentos importantes no processo de construção do espaço geográfico, mesmo (e talvez principalmente) aquelas que têm temas específicos como os regionalismos ou retratam momentos da história política recente do Brasil.

Artistas como Raimundo Fagner, Zeca Baleiro, Zé ramalho, Chico Science com seu movimento Mangue Beach, os tradicionais Luiz Gonzaga e Dominguinhos tratam em suas letras das características da região do nordeste e das questões sociais especificas desta região, mas que não podem entendidas sem se considerar a totalidade complexa do território brasileiro.

Nos anos de 1980 um novo estilo musical surgiu, as músicas tinham conteúdo critico e contestavam a ditadura militar e as questões sociais, o estilo ficou conhecido como Rock Brasil e teve como expoentes Cazuza e Renato Russo com o grupo Legião Urbana. Os artistas representaram em suas composições a insatisfação com o momento pelo qual o país estava passando. No entanto as músicas não são tão agressivas e violentas, o rock usa uma linguagem mais poética e suas mensagens são geralmente implícitas na letra. Mesmo assim as letras destes artistas são muito ricas e nos permitem trabalhas diversos temas em sala de aula, temas como democracia, ideologia, globalização, segregação sócio espacial e outros.

Citamos artistas já consagrados na historia da cultura musical brasileira, mas existem outros gêneros que vêm crescendo muito nos últimos anos e com o qual os jovens muito se identificam - principalmente nas periferias das grandes cidades – o RAP (Rhythm and poetry), e o Hip Hop.

RAP surgiu entre os negros norte-americanos. É um gênero caracterizado por ritmo acelerado e quase inexistência de melodia e harmonia, com letras longas e entremeadas de gírias dos guetos e das gangues, que englobam a crítica social. Assim como o RAP, o Hip Hop também surgiu nos guetos e se baseia na denúncia de situações de injustiça social, de violência institucional, de preconceito e de descaso do estado em relação aos problemas sócio-culturais da periferia. Usam termos contundentes, e citam em suas letras nomes de pessoas e de instituições que no entender dos compositores praticam atos que prejudicam a população menos favorecida, contando estórias fictícias ou fatos reais de forma detalhista e integral. Por denunciar as injustiças sofridas pelas classes pobres, podemos considerar que estes gêneros atendem a esta classe, com a ideologia de não aceitação das condições vividas pela mesma e a mudança de atitudes que levariam à reversão de tais situações.

Estes gêneros musicais têm no Brasil representantes famosos como Marcelo D2, MV Bill, RZO, o Grupo O Rappa, Os Racionais MC's entre outros, trazem em suas letras a situação de miséria e abandono na qual a maioria das comunidades da periferia estão sujeitas, além de retratarem a forma preconceituosa e até mesmo violenta como a grande parte dos moradores destas é tratada.

O movimento Hip Hop não é composto apenas do estilo musical, fazem parte dele todo um trabalho de reconhecimento e valorização da cultura da periferia, a arte visual também é uma característica marcante deste movimento, a partir dos grafites os jovens expressam suas percepções do lugar vivido.

Neste ponto podemos relacionar o ensino de geografia e sua proposta interdisciplinar as artes visuais, obras de artistas como Candido Portinari, Tarsila do Amaral e até mesmo os mais tradicionais como Debret ou Rugendas podem ser utilizadas para abordar temas como escravidão, miscigenação, migrações, industrialização, consumismo e globalização e mesmos conceitos como de paisagem.

Artes visuais e geografia

As artes visuais permitem aos alunos realizarem uma abordagem mais subjetiva dos temas expostos, não ficando presos aos mecanicismos da abordagem racionalista. As obras de arte retratam momentos da sociedade em que o artista estava inserido podendo ser muitas vezes a única fonte de referência visual de determinados acontecimentos ou de momentos do processo de construção do espaço geográfico.

A esse respeito MARANDOLA JR (2008, p.1) explica que,

A capacidade de produzir arte faz parte daquilo que torna o homem único. A ciência moderna, no entanto, tratou de dissociar arte de pensamento e, com isso, ciência de arte. A Geografia, enquanto ciência moderna respeitou essa separação, embora em certos momentos tenha se utilizado de descrições artísticas como ilustração para seus trabalhos, em especial as literárias. Nas reestruturações epistemológicas contemporâneas, no entanto, reconduzir a Geografia para seu encontro com a Arte é tanto necessário quanto imprescindível para seu desenvolvimento. Isso não ocorre apenas pela incorporação da arte como documento, mas, sobretudo como símbolo e marca de um espaço-tempo cultural.

No processo histórico da formação da sociedade brasileira muitos foram os artistas que retrataram a paisagem, seja natural seja humanizada deste território em construção. Podemos citar como exemplo Johann Moritz Rugendas, pintor alemão que chegou ao Brasil em 1821, como desenhista da expedição do barão von Langsdorff, desentendeu-se com os demais componentes da expedição, abandonou seu compromisso e passou a viajar por conta própria, anotando em seus magníficos desenhos os diversos aspectos da paisagem, dos tipos e dos costumes da sociedade brasileira do século XIX. (LEVY et al, 1994, p.29)

As artes estiveram presentes retratando as transformações na paisagem em diferentes momentos históricos da sociedade brasileira e mesmo da sociedade mundial, haja vista a repercussão da tela Guernica (1937) de Pablo Picasso que retrata os horrores da Guerra Civil espanhola. Cabe ainda ressaltar ao aluno as datas significativas em que as obras foram produzidas.

A seguir selecionamos algumas telas que podem ser utilizadas como recurso no ensino de geografia:

O lavrador de Candido Portinari: Nesta obra Portinarichama a atenção para o trabalho do negro lavrador realçando o gigantismo de seus braços e pernas e a pequenez de sua cabeça. Isso nos leva a refletir que o negro era sempre associado a trabalhos braçais e nunca ou quase nunca e trabalhos intelectuais.

Café de Candido Portinari: É um exemplo de como as artes das décadas de 1930 e 1940, conservando o interesse pelo tema nacional, buscavam retratar as varias faces de um país miserável e sofrido,

Retirantes (1944) de Candido Portinari: Mostra uma família de retirantes nordestinos fugindo da seca, a tela representa uma forte critica social a situação de miséria e abandono das populações do nordeste brasileiro.

Operários de Tarsila do Amaral: A tela representa um portão de uma fábrica onde estão vários operários de diferentes tipos físicos, percebemos a miscigenação do povo brasileiro e a forte presença de tipos europeus demonstrando ainda a pequena presença do elemento negro, pouco utilizado no inicio do processo de industrialização brasileiro.

Embora estas produções artísticas, ricas em traços e cores, sirvam de subsídios para uma visualização de fatos vividos e percebidos deve-se sempre ressaltar ao aluno que o fato de servirem como objeto de estudo, estas telas foram produzidas por vezes com intuito apenas de expressar a angústia ou contemplação do artista diante de determinada paisagem ou de algum fato social. Servindo acidentalmente, sem objetivos curriculares, de base para muitos estudos, desde as séries iniciais ao fim do ensino médio.

A literatura e o ensino de Geografia.

Conforme dito na introdução deste estudo a Geografia vem se utilizando nas últimas décadas de diferentes recursos na tentativa de aproximar os conteúdos e temas do currículo aos alunos e assim fazer com que os mesmos sintam-se inseridos na produção/organização do espaço geográfico.

Na busca por aproximar o ensino de geografia a realidade do aluno alguns professores vem se utilizando de metodologias alternativas como a utilização da arte, da música, do cinema, mas é a literatura que tem tido especial destaque.

Teixeira (2008) citando Mello esclarece que a literatura tem sido utilizada, embora timidamente, por geógrafos para empreenderem análises espaciais desde o início do século XX, por ser um meio eficaz de investigação, que relata em diferentes escalas os lugares, o cotidiano, a paisagem, o mundo vivido. Por isso a literatura pode ser um meio eficaz de investigação para os geógrafos, pois os textos literários evocam a alma dos lugares, neles os escritores captam, interpretam e divulgam os sentimentos, o desempenho dos seres humanos, a fixação aos lugares, às viagens, o cotidiano. Entretanto a Geografia brasileira, diferentemente da Geografia internacional, continua negligenciando os textos literários como fonte de informação, apesar de toda riqueza espacial representada pela Literatura brasileira.

Apesar da literatura ainda ser pouco utilizada nas análises do espaço geográfico esta tem sido apontada pelos Parâmetros Curriculares Nacionais como possibilidade interdisciplinar com a Geografia.De acordo com os PCN's é possível aprender Geografia a partir da leitura de autores consagrados de nossa literatura.

Acreditamos realmente que isto seja possível, pois a produção literária brasileira é rica em autores que retratam em suas obras diversas paisagens, regiões e aspectos sociais e culturais da sociedade brasileira em diferentes temporalidades.

Muitos são os literatos que podem nos auxiliar na busca pelo entendimento da construção do espaço geográfico como produto histórico e social, pois para entendermos o espaço como ele é hoje devemos estar atentos aos processos que influenciaram e que de alguma forma continuam influenciando ainda hoje a produção do espaço como totalidade.

Autores como José de Alencar e o romance indianista, O Guarani, que está inserido na corrente filosófica do Romantismo baseados nas idéias do pensador iluminista Jean Jacques Rousseau onde o Homem é visto como ser originalmente puro sendo corrompido pela sociedade, pode ser utilizado tanto pela Geografia quanto pela História, Sociologia ou Filosofia. Alencar tem outras obras que também podem ser utilizadas pela Geografia, o autor não se limitou a escrever romances classificados como indianistas há em sua produção literárias romances regionais e urbanos, como O gaúcho e Senhora respectivamente.

Embora tenha sido feita referência à obra de José de Alencar, classificada na Literatura como Romântica, os estudos entre Geografia e Literatura tem sido realizados principalmente com autores das correntes Realista e Naturalista, justamente por estes buscarem dar a suas obras um caráter documental aproximando-as ao máximo da realidade. Temos como autores destas correntes Machado de Assis, Aluisio de Azevedo, Lima Barreto e outros que representam à cidade do Rio de Janeiro em seus romances.

Conforme Teixeira (2007) no romance naturalista O Cortiço, Aluísio de Azevedo traça um painel da sociedade brasileira representando em seus personagens os fatos sociais e políticos da época. O romance retrata a transformação na organização espacial na Cidade do Rio de Janeiro, particularmente do bairro de Botafogo, a partir a construção d'O Cortiço. O autor descreve minuciosamente o cotidiano dos habitantes deste tipo de habitação popular, suas expectativas, seus hábitos, seus sentimentos em relação àquele ambiente, enfim seu mundo vivido. Azevedo dá a obra um enfoque de denúncia social, denuncia a miséria, a prostituição e a exploração, aponta as falhas do sistema ao denunciar a exploração dos cortiços, o romancista utilizou suas obras como veículos de divulgação do que se queria combater: a especulação imobiliária e o enriquecimento dos proprietários das habitações coletivas. Podemos afirmar que a obra de Azevedo é um importante meio para entendermos a produção do espaço geográfico carioca no final século XIX.

No romance O triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto podemos identificar uma critica ao nacionalismo absurdo representado na figura de Policarpo Quaresma, e também ao nacionalismo extremo que pode se tornar perigoso nas mãos de ditadores autoritários, por isso alguns críticos literários acreditam que o livro de Lima Barreto escrito em 1911 é uma profecia sobre os regimes autoritários nazi-fascistas que cresceriam a partir de 1930. Em seus romances Lima Barreto também descreve o subúrbio carioca sua população e seu modo de vida e faz uma critica a forma como o
Estado age em relação a essa parcela do espaço urbano.

No romance já citado o autor descreve o cotidiano do subúrbio, sua paisagem, a forma urbana a maneira como as casas são construídas, o movimento das pessoas andando pelas ruas, o trem que leva os trabalhadores do subúrbio para o centro, mas Barreto também critica a ausência dos municipais com a falta de infra-estrutura nos subúrbios. No romance Clara dos Anjos o autor nos diz que o "subúrbio é o lugar dos infelizes". Veja nestes fragmentos como Lima Barreto descreve o subúrbio em O triste fim de Policarpo Quaresma (p.86-87) :

Os subúrbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa coisa em matéria de edificação de cidade. A topografia do local, caprichosamente montanhosa, influi decerto para tal aspecto, mais influíram, porém os azares das construções.

Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser imaginado. As casas surgiram como se fossem semeadas ao vento, e conforme as casas as ruas se fizeram. Há algumas delas que começam largas como boulevards e acabam estreitas que nem vielas; dão circuitos inúteis e parecem fugir ao alinhamento reto com ódio tenaz e sagrado.

No romance Clara dos Anjos (p.52- 55) o literato segue mostrando o processo de ocupação do subúrbio carioca e a falta do Estado neste processo.

O subúrbio propriamente dito é uma longa faixa de terra que se alonga, desde o Rocha ou São Francisco Xavier até Sopopemba tendo para eixo a linha férrea da Central.

Para os lados, não se aprofunda muito, sobretudo quando se encontra com colinas e montanhas que tenham a sua expansão; mas, assim mesmo, o subúrbio continua invadindo, com as azinhagas e trilhos, charnecas e morrotes. Passa-se por um lugar que supomos deserto, e olhamos, por acaso, o fundo de uma grota, donde brotamainda árvores de capoeira, lá damos com um casebre tosco , que para ser alcançado torna-se preciso descer uma ladeirota quase a prumo. [...]

Há casas, casinhas, casebres, barracões, choças por toda a parte onde possa fincar quatro estacas de pau e uni-las por paredes duvidosas. Todo o material para essas construções serve: são latas de fósforos distendidas, telhas velhas, folhas de zinco, e, para as nervuras das paredes a taipa, o bambu, que não é barato. [...]

Mais ou menos é assim o subúrbio, na sua pobreza e no abandono em que os poderes o deixam. [...]

O Rio de Janeiro, que tem, na fronte na parte anterior, um tão lindo diadema de montanhas e arvores, não consegue faze-lo coroa e cingi-lo todo em roda. A parte posterior, como se vê não chega a ser um neobarbante que prenda dignamente o diadema que lhe cinge a teta olímpica.

Nos fragmentos citados dos romances de Lima Barreto destacamos as questões urbanas que mostram como a expansão da cidade em direção ao subúrbio segregou espacialmente a população mais pobre, e como a ausência do Estado neste processo de expansão ocupação do subúrbio carioca lhe conferiu características especificas. No entanto a contribuição deste autor para o ensino de geografia e das demais disciplinas é muito maior. Lima Barreto escreveu romances que denunciam a escravidão, criticam o ufanismo republicano e maneira como as mulheres eram educadas. Lessa (2001, p.224) nos fala que Lima Barreto em seus romances,

não se especializa nem é atraído pelos transgressores. Fala dos cinzentos e "não-folclorizaveis", fala dos anônimos, que sustentam e mantêm viva a cidade. Fala com carinho e sem mistificação do povo dos subúrbios e do escalão humilde da pirâmide social.

Diversos outros literatos representaram a cidade do Rio de Janeiro em suas obras para se fazer uma leitura do espaço geográfico da cidade e das relações sociais que se desenvolviam em um momento de construção da sociedade brasileira, sociedade esta que buscava uma identidade nacional o Rio de Janeiro foi referencia principal da literatura nacional. A cidade esta presente nas obras A moreninha de Manoel de Macedo, Senhora de José de Alencar, O encilhamento de visconde de Taunay, Casa de Pensão e O Cortiço de Aluisio de Azevedo entre outras.

Mas há também os romances ditos regionalistas como Grandes Sertões Veredas d Guimarães Rosa, Vidas Secas de Graciliano Ramos, Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto e Meninos do Engenho de José Lins do Rego que retratam a região nordeste, o sertão e o povo nordestino e os diversos problemas sociais da região. Temos ainda Érico Veríssimo com sua obra o Tempo e o vento que trata da formação do Rio Grande do Sul, que nos permite fazermos uma leitura das questões sociais, da grandiosidade do território brasileiro e de sua diversidade natural e cultural.

Em Vidas Secas Graciliano Ramos chama a atenção do leitor para as adversidades naturais e as injustiças sociais as quais o povo nordestino está exposto. O autor nos mostra os caminhos que seus personagens percorrem e como sofrem com a aridez do lugar, a exploração e o abuso por parte do poder dos coronéis, a humilhação cotidiana, e o pior a escassez de água e comida. A obra de Graciliano Ramos nos permite realizar uma aproximação com diversas disciplinas, assim como todas as obras literárias citadas neste estudo, pois as mesmas representam momentos da construção da sociedade brasileira que com sua integração com o meio físico e a partir das relações sociais estabelecidas pelos seus membros imprimiram ao longo do tempo características especificas ao espaço geográfico brasileiro.

A partir do exposto acreditamos que os textos literários sejam eles do século XVIII, como os de José de Alencar, sejam do século XX como os de Lima Barreto ou Graciliano Ramos são importantes fontes de informação geográfica além de nos permitir uma interação com outras áreas do conhecimento cientifico.

Considerações Finais

Tendo em vista que ainda hoje o ensino de geografia é visto como uma coisa chata e enfadonha onde os conteúdos são apresentados de forma fragmentada e distante da realidade do aluno este estudo se propôs a apresentar mecanismos que permitissem uma maior interação entre o aluno e o professor e destes com o conteúdo a ser apresentado. Sim porque muitas vezes o conteúdo das aulas é chato e enfadonho para o professor também que fica preso às abordagens tradicionais de repetição e memorização.

Por isso apresentamos em nosso estudo alguns recursos que pensamos ser de grande ajuda nesta empreitada, acreditamos que o processo de ensino aprendizagem deva se dar de uma forma interdisciplinar para que o aluno possa ter uma visão da totalidade. Para que isso seja alcançado a arte, a música e a literatura nos são de grande ajuda uma vez que através de suas representações permitem ao aluno realizar interpretações subjetivas onde podem expressar seus entendimentos sobre determinados assuntos de maneira mais espontânea. Acreditamos que a partir do uso da arte, e da literatura os alunos consigam relacionar os fatos apresentados em Geografia com as outras áreas do conhecimento, que tenham a noção de que o espaço Geográfico é construído por todos nós nas nossas praticas diárias e que ele vive isso cotidianamente, construindo e reconstruindo a cada ação o lugar onde vive, trabalha, estuda e se diverte,

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Guernica é uma antiga aldeia da região basca da Espanha, país de origem de Pablo Picasso, que pintou a obra em poucas semanas, buscando denunciar e despertar a opinião publica pra a tragédia da Guerra Civil espanhola.

 
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Mestranda em Geografia pelo Programa de Pós Graduação do Instituto de Geografia da UERJ. Leciono Geografia na Rede Estadual de Ensino do Rio de Janeiro para o segundo Segmento do Ensino Fundamental e para o Ensinio Médio Tenho como áreas de interesse: História da Geografia Brasileira, História do P...
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