Egito: Costumes E Curiosidades
 
Egito: Costumes E Curiosidades
 


Habibe!

Salamalico!

O presente texto é um extrato do II e III Capítulos de meu livro "Egito ? uma viagem ao berço de nossa civilização", Editora Thesaurus, Brasília, 1995.

Leiam também "Egito ? 5.000 anos de história" (Cap. I), e "Islã: conflito com civilizações?" (Cap. VIII), também disponível em Usina de Letras.

Espero que gostem, intchaalá!

Chukrán!

Fíliks


EGITO ? costumes e curiosidades

Comparados aos povos do Ocidente, os árabes são bastante conservadores. Isso pudemos notar pelos assuntos de suas conversas, por suas vestimentas, programas de televisão e pela leitura de jornais e revistas locais. Embora, como se diz, Cairo seja uma espécie de "Paris do Oriente Médio", e o Egito - junto com a Turquia - muito mais liberal que qualquer outro país muçulmano, lá os costumes são bem diferentes daqueles encontrados no Brasil.

Embora haja muita influência do Ocidente, seja através das parabólicas que se multiplicam nos telhados das residências, seja através das músicas de rock ou dos filmes americanos na televisão, o Egito procura preservar a cultura árabe e a religião muçulmana com bastante rigor. Mesmo nos jornais mais liberais, pode-se observar as duras críticas feitas ao modus vivendi do Ocidente - principalmente dos EUA -, onde existe a degradação dos costumes, o incentivo à violência, drogas e apelo sexual. Pode-se dizer que é uma guerra de cultura que está apenas começando: Ocidente versus Oriente.

Coisas que se vê na televisão brasileira jamais entrarão no Egito. Novelas brasileiras, talvez só A Escrava Isaura. Tieta, Pátria Minha, ou as peladas "garotas do Fantástico", nem pensar. As produções egípcias não mostram sequer beijos. Filmes americanos, às vezes, mostram alguns beijos, mas as cenas mais fortes são simplesmente cortadas. Ou então, a tela fica negra, sem imagens, só com o som. O filme de Franco Zefirelli que vimos - Romeu e Julieta - tinha um pouco mais da metade do tempo normal.

Apesar da qualidade precária da televisão egípcia, que é estatal, ela apresenta uma grande variedade de assuntos culturais que não se costuma ver no Brasil, ao menos nas emissoras mais famosas. Na apresentação de filmes, a TV não mostra nenhum comercial. Não há aquela quebra de interesse na estória. Em compensação, em alguns vídeos que vimos, a cada 5 minutos havia um comercial. Era de lascar.

Devido à diferença cultural, nem por nada que no início sentimos um "choque" quando presenciamos alguns costumes egípcios, bastante estranhos sob o ponto de vista ocidental. No Egito eu vim aprender que, para o muçulmano, a mão direita é usada para fins nobres, ao passo que a mão esquerda é considerada "suja", por ser utilizada para fins negativos e menos nobres, como lavar o ânus. A seguir são descritos alguns costumes egípcios que chamaram nossa atenção enquanto dávamos os primeiros passos naquele exótico país.


O beijo entre os homens

Em público, os beijos entre casais são proibidos. A desobediência a essa lei pode levar o indivíduo à delegacia de polícia. Ou à casa do pai da moça, para explicações, se ela não for casada.

Enquanto é proibido o beijo entre casais, para não despertar "imaginações impuras", é comum o beijo entre os homens: três beijinhos na face, às vezes bem molhados... O adido militar, na primeira vez em que se apresentou às autoridades militares egípcias, ficou corado de vergonha, todo vermelho, quando um general sapecou um beijo em seu rosto. Um não, três... Mas esses beijos entre os homens não chegam a causar a mesma estranheza no Ocidente como aqueles beijos na boca tipo "desentupidor de pia" de antigos figurões soviéticos, que as manchetes estamparam em volta do mundo.

Existe o costume egípcio de os homens andarem de mãos e braços dados. Às vezes, só com o dedo "mindinho". Víamos, no início, com bastante surpresa oficiais ou praças, tanto das Forças Armadas quanto da Polícia, andarem de braços dados, mesmo fardados.

Depois nos acostumamos com isso e eu não via nenhum mal em meu filho Wagner, às vezes, em plena rua, quando fazíamos as costumeiras caminhadas pelo Cairo, também me dar seu braço. Era um sinal de aconchego e amor filial que eu não podia negar só por causa dos nossos costumes diferentes no Ocidente.

As moças egípcias, em princípio, casam virgens. Não é permitido à moça solteira manter conversa com homens. Nas escolas, os meninos sentam em bancos separados das meninas. Segundo os árabes, "a mulher é uma flor tenra que precisa ser preservada". Por isso o uso do purdah (véu), que esconde os cabelos das mulheres. A mulher muçulmana casada, no Egito, não mostra seus cabelos a não ser para o marido e pessoas da família.

Há a nequab, uma vestimenta islâmica que cobre as mulheres da cabeça aos pés, usada por uma quantidade razoável de mulheres no Egito, mas que não é normal. Com essas vestimentas, apenas são vistos os olhos das mulheres. A gente as chamava de "mascaradas", algumas até apresentando figuras grotescas, quando colocavam óculos "fundo de garrafa" por sobre a "máscara". Dava até para se assustar, quando encontradas, inopinadamente, numa dobra de esquina.

É bom lembrarmos que há 50 anos atrás, no Brasil, as mulheres também andavam com vestidos longos, até os calcanhares, e com véus nas cabeças. E a cor predominante era a preta, como posso ainda hoje observar em uma foto de minha avó junto com minha bisavó. Como as mulheres ocidentais mudaram de traje em tão pouco tempo...

Há muitos egípcios que se vestem como os ocidentais, tanto homens quanto mulheres. Mas é grande o número de egípcios, de ambos os sexos, que vestem as longas túnicas, as galabeyias, principalmente os da classe mais pobre, como os beduínos que vêm do interior. Talvez agora tenha aumentado o número de mulheres com vestidos longos, pela imposição dos fanáticos muçulmanos fundamentalistas. Enquanto Muamar Khadafi, da Líbia, se veste espalhafatosamente, cheio de panos esvoaçando ao vento, o Presidente egípcio, Hosni Mubarak, nunca é visto usando uma galabeyia.

Há mulheres que vestem galabeyias pretas, que é uma demonstração de fidelidade ao marido. O desconforto deve ser imenso, pelo calor que provoca. O ideal seria usar túnica branca, como os sauditas, que reflete a luz e, portanto, o calor. Era comum vermos mulheres, aos bandos, todas vestidas de preto. O que levou nossas crianças a comentarem: "Olha só, quantas Perpétuas!" (da novela Tieta).

Antes da ocupação francesa, todos os egípcios usavam barba e bigode. Como os franceses tinham o rosto escanhoado, o antigo costume começou a cair em desuso, embora com alguma resistência.



Antigamente, uma punição exemplar para os egípcios era cortar seu bigode à força, o que causava uma vergonha enorme. No tempo dos mamelucos, homens sem bigode não eram tolerados a entrar nas cortes de justiça e criminosos eram forçados a raspar o bigode e mandados a andar no lombo de burros, de costas, pelas ruas da cidade, para aumentar a vergonha.

Observa-se, ainda hoje, no Egito uma grande quantidade de homens que cultivam seu bigode com bastante esmero. Geralmente são bigodes enormes, como os do ex-jogador de futebol Rivelino. Quanto à barba, esta é hoje cultivada, principalmente, pelos sacerdotes coptas e pelos fundamentalistas islâmicos.


O ouro das mulheres

Há muita pobreza no Cairo. Mas a quantidade de ouro que se vê em toda a cidade, em lojas simples ou sofisticadas, nos dá a real dimensão que esse precioso metal tem na vida árabe. As mulheres são extremamente vaidosas, se adornam com colares, pulseiras e brincos enormes, carnavalescos. Não colocam uma barra de ouro em cada orelha porque iria rasgar...

É comum mulheres, as mais ricas, usarem uma penca de pulseiras de ouro em cada braço. O ouro tem, para essas mulheres, o mesmo que para nós tem a função da caderneta de poupança ou a guarda de dólares: é um patrimônio que a mulher leva consigo durante a vida e serve para fazer face a algum imprevisto, como doença ou separação do marido. No aperto, é só ir ao joalheiro e vender as jóias. Quando o dinheiro sobra, passa a comprar mais ouro. Desde quando é pedida em noivado, com autorização do pai, a moça já começa a receber jóias do futuro marido. Nos dias de festas, que no Egito são muitas, ela continua a receber seu cobiçado ouro, assim como no dia do aniversário.

Mesmo as meninas e senhoras mais pobres não deixam de usar suas jóias. Ficávamos admirados em observar muitas dessas mulheres, mal vestidas, de chinelos e pés sujos, porém exibindo seu reluzente patrimônio.

O uso ostensivo de jóias no Egito é possível pela inexistência de assaltantes. A lei é rigorosa, existe a pena de morte e não há essa demagogia, como no Brasil, em que grupos de defesa dos direitos humanos geralmente só se lembram de defender bandidos.


O mês do ramadã

Com 30 dias de duração, o nono mês do calendário árabe, o ramadã, é o mês das preces e do jejum. O fiel muçulmano, durante o dia, fica proibido de comer ou ingerir qualquer tipo de líquido, a não ser por ordem médica. O crente deve também se portar de modo mais pacato, conservar os olhos baixos durante o dia, para não "sofrer tentação" ao avistar uma mulher. A relação sexual também é proibida durante o dia. Outros pecados que devem ser evitados nesse mês são a luta e a perda da calma. A guerra também deve ser evitada, como diz o Corão, embora ela possa ser feita por uma "causa justa", como foi a Guerra do Ramadã, de 1973, contra Israel...

O jejum pode ser quebrado com o anúncio dos alto-falantes nas mesquitas, ao anoitecer, ou então o fiel deve saber pelos jornais, rádio ou TV quando está apto a fazer a primeira refeição do dia, o ifthar. O horário, dia após dia, varia um pouco.

Como o calendário árabe é lunar, o início do ramadã é sempre uma incógnita. Pode ser num dia ou somente em outro. Depende da acuidade visual do religioso para observar a ro'ya, ou seja, a lua no início da fase do quarto crescente. Ao menos é isso que acontece em países mais conservadores, como a Arábia Saudita. No Egito, ficávamos aguardando, até próximo do início do ramadã, para que informassem a data precisa, embora os astrônomos, com muita antecedência, pudessem prever o aparecimento da lua quarto crescente.

No Cairo, uma característica única dentre os países muçulmanos, o anúncio do fim e do início do jejum, nos dias do ramadã, é feito com o disparo de um velho canhão alemão, que pode ser ouvido em muitos pontos da cidade. O canhão encontra-se numa colina perto da Cidadela de Saladino.

Como o descrito no jornal Al-Ahram nº 3 de 14 Mar 91, a tradição começou em 1811, por puro acidente. O canhão era tão velho que o Pasha (Governador) Muhammad Áli decidiu parar de usá-lo e fazer dele um monumento. Enquanto os soldados estavam limpando o canhão, este acidentalmente disparou um tiro. Os egípcios ficaram muito felizes, pois pensaram que era o sinal dado para a quebra do jejum, à tardinha. Os grandes sheikhs (xeques) foram agradecer ao Governador e este decidiu continuar a disparar o canhão no início e no fim do jejum. Desde então, isto veio a se estabelecer como tradição. O canhão também dispara em dias de festas e feriados nacionais.

O ifthar é a primeira refeição à noitinha, após o jejum. Os mais pobres podem se servir em mesas que são arrumadas junto a muitas ruas da cidade. Cena interessante é você observar aquele povo humilde sentado à mesa, com mais de uma hora de antecedência, para garantir o lugar, com os talheres prontos para entrar em ação, como se fosse uma competição, e só iniciando a refeição com a devida autorização dos alto-falantes das mesquitas.

Um ifthar tradicional começa com um prato de tâmaras embebidas em água ou leite, como o prescrito pela sunna (ensino religioso). Muitas famílias irão incluir no menu um prato de fuul (espécie de feijão com limão e óleo de oliva), assim como uma refeição normal que pode conter sopa, carne, ave, peixe e uma grande variedade de legumes.

Se durante o dia a barriga ficou a perigo, à noite, após o ifthar, outras refeições são feitas, até alta madrugada. É a época em que mais se come no Egito - ao menos entre aquelas pessoas das classes mais altas - e muitos religiosos criticam isso, justamente por ser o mês do jejum. Açúcar e farinha de trigo você tem que fazer estoque em casa, para se prevenir contra a falta desses produtos em quase todos os armazéns da cidade.

O sohour, às 3 horas da manhã, é normalmente a última refeição, geralmente uma comida ligeira à base de iogurte e frutas, depois do que as pessoas vão dormir.

O brasileiro Zagalo, quando dirigia a seleção de futebol dos Emirados Árabes Unidos, teve um problema bastante difícil de resolver, ao assumir o trabalho na preparação para a Copa do Mundo na Itália, em 1990. Os treinos durante o ramadã só podiam ser feitos à noite, pois, com a barriga vazia, os jogadores de modo algum se prontificavam a obedecer seu treinador...

Crianças do pré-escolar acreditam que o ramadã é uma pessoa, como Papai Noel, que virá trazer as lanternas e os doces, além dos presentes que são comuns nessa época.

A fanus (lanterna) é um costume unicamente egípcio e data da época dos fatímidas. Quando Al-Muz Lidin Allah Al-Fatimi transferiu a capital muçulmana para o Cairo, na sua chegada, à noite, os cairenses saíram às ruas para recebê-lo com lampiões coloridos para iluminar as ruas que o levaram até seu palácio.

No início, a lanterna era feita de vidro colorido e vela, com formatos hexagonal ou octogonal. Hoje, as lanternas utilizam pilhas elétricas e pequenas lâmpadas para emitir luz através do material plástico. Durante o ramadã, pudemos observar os efeitos especiais dessas lanternas, com suas luzes coloridas em todos os pontos do Cairo, nas lojas, nas ruas, nas casas.

As crianças ficam impacientes em começar a jejuar e participar dos rituais do ramadã. Embora a idade "oficial" seja de 9 anos, muitas crianças de 7 anos procuram imitar seus pais durante alguns dias. Muitos estrangeiros residentes no Cairo também jejuam alguns dias, durante o ramadã, independentemente de sua religião. Que é, sem dúvida, bastante saudável para o corpo.

Nas ruas e nos canteiros das avenidas são armadas muitas tendas, emolduradas com uma infinidade de pontos de luz para iluminar a noite do ramadã. Milhares de lâmpadas caem em cascatas do alto de alguns prédios, mormente hotéis. Árvores também são enfeitadas com lâmpadas multicoloridas, apresen- tando um espetáculo típico do nosso Natal. O ramadã é uma festa de som, luz e calor humano.

Na época do ramadã, durante o dia, o movimento dos veículos diminui muito depois das 14 horas. Porém, após a primeira refeição do muçulmano, à noitinha, a cidade do Cairo se transforma completamente. Todo mundo combina em sair ao mesmo tempo para as ruas e o leitor não pode imaginar o pandemônio que fica o trânsito da cidade.

Uma noite, durante o ramadã, fomos levar um amigo paranaense, Anwar El Tassa, até sua residência, no Khan Al-Khalili. Em um trecho que não se leva normalmente mais de 10 minutos de carro, ficamos presos no trânsito por mais de três horas.

Mas ninguém se incomoda com isso: todo mundo enche o carro, a família toda, cantando, a música no toca-fitas brigando com o volume das buzinas, e sai satisfeito da vida, enfrentando o trânsito infernal, até alta madrugada. Os mais pobres fazem piquenique nas praças e canteiros das avenidas, com sacolas de comida, no estilo "farofeiro" das praias brasileiras. Há muitos vendedores de milho assado na brasa, shai (chá) gelado, pipoca. As crianças andam no lombo de burrinhos. Ou correm atrás da bola.

O egípcio é fanático por futebol. O leitor não acredita o carnaval que fizeram, em 1990, quando conseguiram dois simples empates na Copa da Itália. Foi um buzinaço fenomenal que avançou madrugada adentro. Eles adoram o futebol brasileiro. Imagino que tenham vibrado muito com a nossa conquista do tetra.

No meio da confusão toda de automóveis, pessoas, burrinhos, durante o ramadã pode-se observar, em todos os cantos da cidade, muitas charretes, parecidas com aquela que a ex-ministra Zélia Cardoso usou como táxi em Nova Iorque. No Egito, quando víamos uma dessas charretes (hantur, em árabe), a sugestão era imediata: "Vamos andar no táxi da Zélia?"

O horário normal de trabalho, em todos os setores, é mais ou menos de 9:30 até às 15 horas. Durante o ramadã, o horário de trabalho encurta ainda mais, de 11 às 14 horas. A tarde é sempre utilizada para a sesta, tudo pára, nada funciona. O relógio biológico do egípcio é diferente do nosso: à tarde todos dormem, saem às ruas à noite e só dormem de madrugada, mesmo que não seja época do ramadã. O ritmo de trabalho normal do egípcio é muito lento. Durante o ramadã fica mais lento ainda. De certa forma, eles têm razão em não trabalhar muito. No verão, o clima é muito seco e quente, de torrar os miolos. Eu quero ver o leitor pegar no batente, no pesado mesmo, durante mais de 4 horas, com uma temperatura que, como medimos no Cairo, ultrapassava os 45 graus centígrados. O general Schwarzkopf não foi nada delicado ao chamar os soldados egípcios de "tartarugas" nas operações militares que tiraram Saddam Hussein do Kuwait.

No final do mês do ramadã há a festa do Aid Al-Fitr, o Pequeno Bairã, 4 dias de feriado que servem como coroamento do sagrado mês do jejum e das orações.


A pechincha, um costume árabe

Os árabes são loucos por perfumes e roupas multicolori- das. Eles usam roupas que no Brasil só se prestariam para pular carnaval. Ou para subir no picadeiro. As mulheres usam vestidos superenfeitados, sapatos cheios de cores e brilhos, uma penca de pulseiras de ouro em cada braço, brincos enormes, colares de proporções faraônicas. Os homens também usam camisas e blusas enfeitadas, sapatos floridos, às vezes na cor vermelha berrante ou, até, rosa.

Havia em nossa chancelaria um funcionário egípcio, Yunes Choucry, que gostava de se vestir com ternos de cores as mais esdrúxulas possíveis: cor rosa, verde. E sapatos coloridos, muito brilhantes. Até o ex-Presidente Collor, antes de assumir o mandato no Brasil, quando esteve no Cairo, não deixou escapar a oportunidade de se fazer fotografar ao lado de tão exótica criatura.

Os táxis andam enfeitados, muitos parecendo uma árvore de Natal ambulante, com luzes piscando e buzinas melódicas entrando madrugada adentro. O táxi funciona no sistema de lotação: pára somente se quiser e apanha o passageiro que seguir o itinerário já combinado com os outros passageiros a bordo. Quando pegam um estrangeiro, fazem a mesma coisa que no Brasil: esfolam o cara. Minha mulher Nice muitas vezes pagava 20 ou 30 libras egípcias por uma corrida de 5 libras. Depois, ela combinava de pagar o preço que pediam e, depois de saltar do táxi, pagava só a quantia correta, deixando o motorista a reclamar e gesticular sozinho.


De modo geral, todo estrangeiro é explorado no Egito. Você começa cortando o cabelo a 12 libras, depois eles baixam para 8 e até 5 libras. Minha mulher, no início, era muito explorada quando ia ao salão de beleza. Cobravam até 60 dólares por uma pintura do cabelo e um permanente.

A pechincha, no Egito, é fundamental. Sabendo que você é estrangeiro, eles sempre jogam os preços nas nuvens. Quando o preço não está afixado no produto, você pode dividir por 2, 3 ou até 10 vezes o que pedem. E não adiantava eu perguntar o preço em árabe. Quando eles olhavam minha cara de gringo, já me respondiam em inglês, perguntando se eu era russo, alemão, holandês ou sírio. A Nice, por sua vez, tem alguns traços árabes - ao menos era o que diziam: "you look like Egyptian"! (você parece egípcia) - e por isso muitas pessoas começavam a falar árabe com ela. Mas, quando abria a boca, também não convencia ninguém. Assim, tivemos que conviver com esse eterno jogo da pechincha.

O Egito é auto-suficiente em petróleo, porém é um produtor pequeno, se comparado aos ricos países árabes do Golfo Pérsico. A metade de sua produção (de mais ou menos 800 mil barris diários) é exportada, inclusive para Portugal. Outros produtos que o Egito coloca no exterior são: tâmaras (é o maior produtor mundial), cebola, alho, produtos em couro, algodão, perfume, cosméticos, cigarros, roupas, carpetes, tapetes, ônibus, móveis de cozinha, doces, peças para computador, hena para tingimento dos cabelos. Sem mencionar a grande quantidade de desenhos em papel-papiro e produtos metálicos levados como souvenirs pelos turistas.

A maior fonte de divisas estrangeiras o Egito obtém com a exploração do Canal de Suez. Seguem em importância o movimento de turistas - que em 1990 foram 2.600.000, sendo 46,7% de estrangeiros - e o dinheiro remetido ao Egito por trabalhadores espalhados pelo mundo árabe, especialmente nos ricos países do Golfo Pérsico. É fácil imaginar o impacto que teve sobre a economia egípcia a eclosão da Guerra no Golfo Pérsico, quando milhares de nacionais tiveram que voltar para casa, sem emprego. Só no Iraque trabalhavam mais de 1 milhão de egípcios. Com a onda de atentados contra turistas promovida por fundamentalistas muçulmanos, a segunda maior fonte de divisas - o turismo - sofreu duro golpe. De 1992 a 1994, já foram 12 os turistas assassinados no Egito. Os hotéis e os navios luxuosos que singram o Nilo entre Lúxor e Assuã perderam de 50% a 70% do seu movimento.


A circuncisão árabe - masculina e feminina

Há uma prática muito antiga dos árabes, que é também comum entre os judeus e era usada, ainda, pelos antigos egípcios da época dos faraós: a circuncisão. Aquele cortezinho no "peru" do menino, uma cerimônia registrada no Antigo Testamento. O motivo é, sem dúvida, de se tornar mais higiênico esse importante apêndice masculino, fazendo com que o prepúcio se "descasque" com mais facilidade. Para a limpeza e para o ato sexual. Isso, todos sabemos.

O que eu não sabia é que há também a circuncisão aplicada às meninas. Embora esteja caindo em desuso nos grandes centros, no interior do Egito ainda é muito comum. Consiste em se cortar um pedaço do clitóris da menina, para ela não sentir prazer sexual quando crescer. O prazer permitido às mulheres é terem filhos, muitos filhos. E os árabes, sem exceção, têm muitos filhos. Em 1994, uma mulher da Somália fugiu com sua filha para os EUA, onde pediu asilo. Motivo: evitar que sua filha fosse mutilada em suas partes íntimas.

Sempre nos perguntavam porque não tínhamos mais filhos, se a Nice não podia ter mais. Não conseguiam entender um casal ter somente 2 filhos, como a gente. O Egito tem uma das maiores taxas de natalidade do mundo, cada mulher tendo em média 5 filhos. E o resultado aí está: superpopulação, falta de empregos e a vida miserável de milhões de habitantes. Foi bem simbólica a escolha da cidade do Cairo para sediar a Conferência das Nações Unidas sobre População e Desenvolvimento, no ano de 1994.

O motorista da aditância militar, Abdul, um dia convidou o meu chefe para que fosse participar de uma festa em sua casa. A festa era para a comemoração da circuncisão de sua filha.


Gordinhas do Egito

Como os judeus, os árabes não comem carne de porco. Dizem que é impura. Além do porco, o Corão proíbe comer carne de qualquer animal que tenha morrido de morte natural. Ou alimento feito com sangue.

Muitas casas são facilmente encontradas na cidade, onde você consegue comprar pernil para assar no forno, ou presunto e até lingüiça. A carne de porco é muito boa, assim como o presunto. Mas a lingüiça você só compra uma vez. Tem uma casa, Morcos, que faz até anúncio em um jornal escrito em inglês, para vender carne de porco.

A população mais pobre não come carne nunca, a não ser na época do Aid El-Adha, a Festa do Sacrifício, quando os ricos doam pedaços de carne aos pobres. A diversificação dos pratos egípcios mereceria um capítulo especial.

Dentre as comidas típicas, o fuul é bastante popular. Consiste de um feijão forte como soja, temperado com óleo de oliva e limão. É comido puro ou colocado dentro do aesh, aquele pão redondo, principalmente no café da manhã. Mas é preciso ter estômago de camelo quem não estiver acostumado.

Interessante era vermos as carroças passando nas ruas, com seus vasilhames enormes, de boca pequena, de onde era tirado o fuul para vender às mulheres que desciam dos apartamentos, ainda cedo pela manhã. Pelo tamanho reduzido da boca daquelas vasilhas, e a conseqüente dificuldade em lavar as mesmas, pode-se imaginar que a higiene não devia ser grande coisa.

Minha mulher adorava comer uára al-áinab, um bolinho de arroz e tempero enrolado em folha de videira. Em Brasília, um libanês faz o mesmo bolinho, só que utiliza folha de repolho ou couve na falta de folha de uva.



O aesh baladi é um pão chato e redondo, parecido com boina de milico, o mais popular do Egito. Tem uma cor escura, talvez pela adição de milho ou batata. Dizíamos, brincando, que era feito de areia do deserto. Esse tipo de pão era também encontrado nas calçadas, estendido sobre jornais velhos, cheio de poeira e moscas em volta. Só comprávamos o aesh shami, mais branco e higiênico, encontrado nos supermercados, também conhecido como "pão sírio". Há, ainda, no Egito o aesh shamsi (pão do sol), feito em Lúxor de acordo com a antiga prática de deixar crescer a massa com fermento do lado de fora da casa, e o aesh saraia (pão do palácio), de cor laranja, feito de grãos finos embebidos em geléia de frutas. Há, ainda, o pão uras, também redondo e chato, popular nas festas cristãs coptas, e levado aos cemitérios para alimentar os pobres. Como se sabe, milhares de pessoas vivem nos cemitérios do Cairo.

Uma figura típica no Cairo é o ciclista que, com uma espécie de cesta rasa e muito comprida, feita de bambu, cheia de aesh, equilibrando aquilo tudo em cima da cabeça, sai pedalando em alta velocidade, dando fechada em carros e, vez por outra, dando uma trombada e espalhando o pão pelo chão, alguns rolando para longe. O sujeito, na maior calma, recolhe todos os pães na cesta, equilibra tudo de novo na cabeça e sai pedalando a destino. À vezes, a rua onde caiu o aesh é imunda, totalmente podre. Mafísh mushkêla! (Não tem problema!).

A taamiya é um tipo de lanche que faz sucesso entre os egípcios e os turistas que querem economizar seu dinheiro. É feito à base de feijão, legumes e salada.

O khusháf consiste de tâmaras e frutas cristalizadas com leite. Outro doce para o final das refeições é o kounáfa, à base de nozes ou amendoim, coberto por um doce feito de farinha de trigo, açúcar queimado, água e gotas de limão. O khusháf e o kounáfa são pratos típicos do ramadã.

O kóshari é composto de arroz, tomate, macarrão, pimenta, salsa e cebola frita. O que não pode faltar na comida árabe é pimenta, cebola, alho, páprica e salsa, usados em profusão.

A panqueca egípcia fitir é diferente daquela conhecida no Ocidente. Consiste de camadas de um tipo de massa especial e é feito com vários ingredientes, incluindo carne ou queijo. Há, ainda, o tipo doce, muito delicioso também.



Era um espetáculo à parte vermos o chef da cozinha pegando um pouco de massa já preparada e golpeando a mesma no ar, em movimentos giratórios, com uma habilidade própria de malabarista de circo, tornando a massa do fitir fina e quase transparente. Gostávamos de comer fitir, a Nice e eu, quando voltávamos do British Council, à noite, onde estudávamos inglês.

O árabe é, antes de tudo, um comedor de salada. Isso eu já sabia, desde criança, quando um turco ia até o sítio de meu pai, em Santa Catarina, e levava consigo uma grande quantidade de verdura. Até uma espécie de caruru que a gente dava aos porcos e às vacas o turco levava para comer. No Brasil é usado erradamente o termo "turco". Muitas vezes são sírios ou libaneses e até egípcios. É que os países árabes durante muito tempo foram dominados pelos turcos otomanos, daí a generalização desse termo para todos os árabes provenientes do Oriente Médio.

As frutas encontradas no Egito são dulcíssimas. Com exceção talvez do abacaxi, que lá custa 6 dólares a unidade, todas as frutas que temos no Brasil também existem por lá. Como todas as plantações são irrigadas pelas águas do Nilo, não há o problema da falta de chuvas no Egito e vários tipos de frutas podem ser escolhidos para o cardápio durante o ano inteiro. Com o sol dardejando seus raios de fogo o ano todo no Egito, as frutas se tornam muito doces, a exemplo das do Vale do Rio São Francisco e da região do cerrado brasileiro, onde também há muito sol e calor. Laranja, figo, pera, melancia, melão, uva, tangerina, pêssego, manga, tâmara. Nunca em minha vida tinha degustado frutas tão saborosas.

Há milhares de quitandas espalhadas por todo o Cairo, onde podem ser encontrados legumes, frutas e verduras viçosas. Há legumes de proporções faraônicas, como a berinjela. Tem repolho que enche uma bacia. Em compensação, o melão é pequeno e há maçãs ácidas minúsculas, do tamanho de uma bola de gude.

Além das quitandas, podem ser observadas carroças percorrendo todas as ruas do Cairo, com vendedores anunciando seus produtos a brados altos. O mishmish (damasco), durante a época da colheita, é um dos produtos que mais se vê anunciado pelos carroceiros.

O egípcio é também um grande comedor de sementes. Em frente de armazéns, nas calçadas, podem ser vistas muitas sacas contendo sementes de girassol, melancia e abóbora, dentre outras. É incrível a habilidade que eles têm para descascar as sementes só com os dentes. Não ficam devendo nada a papagaios e araras. Durante as horas de folga, durante um bate-papo ou no recreio do colégio, é comum a gente ver egípcios mordiscando sua semente preferida.

No Cairo, é grande a quantidade de casas com doces. Em cada esquina você encontra enormes confeitarias, com tortas dos mais variados sabores, nozes cobertas com chocolate, suspiros. É uma tentação que as mulheres egípcias não conseguem resistir. Por isso, elas normalmente são enormes. Tudo é conseqüência da grande quantidade de comida que ingerem, o dia todo, comendo sempre, muita coca-cola, doces, chicletes e chocolate.

Quando jovens e solteiras, as egípcias são bonitinhas. Mas quando casam, a tendência geral é ficarem mais parecidas com uma Wilza Carla do que, por exemplo, uma Lucinha Lins. É uma estética da época do Renascimento, com aquelas matronas rechonchudas e redondinhas. Enormes, as egípcias, ao andarem, jogam o corpo de lado, para facilitar o levantamento das pernas. E os egípcios têm uma preferência confessa pelas gordinhas.

Embora o Corão permita beber vinho no paraíso, os muçulmanos não podem ingerir bebida alcoólica na vida terrena. Os egípcios têm uma cerveja sem álcool, de marca Stella, que pode ser encontrada em todos os cantos do país. Essa cerveja não tem gosto de nada e só desce bem pela garganta depois de você atravessar o deserto, durante um dia inteiro, sem beber água.

Os antigos egípcios, além do vinho, também bebiam cerveja. E era uma cerveja bem forte. Como se pode ler numa reportagem do jornal O Globo de 6 Set 72, os egípcios já em 1500 a.C. espalhavam mensagens de advertência pelo país: "Não faça de ti mesmo um desamparado, bebendo na cervejaria. Pois não adiantarão as palavras deste aviso serem repetidas pela tua boca, sem que tua inteligência as pronuncie também...".

Fico imaginando: os antigos egípcios nos legaram o ano solar, foram pioneiros na astronomia, medicina e na escrita, foram precursores de entidades esotéricas como a sociedade Rosa-Cruz, fazem parte das Sagradas Escrituras, com a palavra "Egito" aparecendo inúmeras vezes na Bíblia, criam na imortalidade da alma, construíram os primeiros monastérios cristãos, influenciaram os judeus e os primitivos cristãos coptas, e muitos dos costumes hoje em voga no Ocidente derivaram-se daquele antiqüíssimo povo. E nos deixaram como herança a deliciosa cerveja. O leitor tem alguma dúvida de que o Egito é o berço de nossa civilização?


Dura lex, sed lex

"A lei é dura, porém é lei", diz o provérbio latino. Não sei se o número de leis no Egito chega aos pés das dezenas de milhares que devemos ter no Brasil. Mas que lá a lei é dura e muito mais eficaz que em nosso país, não tenho a menor dúvida.

No Egito existe a pena de morte, feita por enforcamento. O funcionário egípcio Helmi Sultan, em 20 anos de serviço, já enforcou mais de 240 condenados. Motivo para este tipo de condenação no Egito: assalto com armas, assassinato, latrocínio, estupro e tráfico de drogas.

Cansamos de ver pessoas sendo levadas a pescoções pela polícia até à delegacia. Direitos humanos? Segundo as autoridades egípcias, esses direitos só valem para a grande massa da população, que é séria e precisa ter preservados seus direitos e sua integridade física. Para os presos não há moleza na prisão e durante o dia vão quebrar pedra no deserto. Os ladrões, no Egito, muitas vezes acabam ficando com as mãos quase que mutiladas, de tanto levar pauladas. Na Arábia Saudita é pior: os ladrões têm as mãos decepadas.

A segurança que se tem nas ruas do Cairo deve-se ao espírito religioso da maior parte da população, das leis severas e da presença constante da polícia em todas as esquinas da cidade, militares com seus walkies-talkies e muito bem aparelhados, com viaturas e motos prontos para entrar em ação. Atualmente, com a crescente falta de recursos, esse aparato policial tem diminuído bastante, o que facilita as ações de extremistas islâmicos. Até camelos são utilizados no serviço de segurança, na área das pirâmides. Todas as pontes sobre o Nilo na cidade do Cairo têm barricadas instaladas à noite, com policiais revistando todos os carros que por lá passam.

Uma coisa me traz uma certeza definitiva: não é só a religião, levada bem mais a sério no Egito que em nosso país, que freia as ações dos marginais. O que diminui a bandidagem é a presença da polícia, ostensiva e onipresente, e a dura lex que tornam a cidade do Cairo tranqüila, segura, onde você pode andar a qualquer hora do dia ou da noite sem ser importunado. No Brasil, infelizmente, é mais fácil você encontrar um pingüim andando no calçadão da praia de Copacabana do que encontrar um policial na rua.

Não posso deixar de registrar a violência que atingiu parentes e amigos no primeiro ano que estivemos no Egito: o tenente Adílson, do Rio de Janeiro, teve sua casa no Realengo assaltada, tendo que se refugiar em um apartamento na Tijuca à procura de maior segurança. O sargento Arnaldo, da Escola de Instrução Especializada, no Rio, onde servi por 6 anos, foi assassinado. Até meu irmão Günther teve sua moto roubada, em Joaçaba, SC, comprovando que a falta de segurança no Brasil é total, mesmo nas pequenas cidades do interior.

O adido militar no Egito, quando esteve de férias em 1991 no Rio, encontrou seus habitantes sitiados, trancados em seus apartamentos com milhares de fechaduras, temendo a violência a qualquer momento. Fazia lembrar o filme Fuga de Nova Iorque, uma cidade com muros de 20 m de altura, de onde ninguém podia fugir e onde cada um que resolvesse por si mesmo os seus problemas, a seu jeito.


Um Papa no Egito

Não é só a Igreja Católica que tem o seu Papa. O Egito também possui um, o Papa Shenouda III.


Como 116º sucessor de São Marcos, o Evangelista, que primeiro levou a religião cristã à África, Shenouda III é o Patriarca da Igreja Cristã Ortodoxa do Egito, a Igreja Copta.



Os coptas se consideram descendentes dos antigos egípcios. Pudemos observar que alguns coptas que trabalham na Embaixada do Brasil têm uma feição facial mais delicada, fina, se comparada com a dos árabes, que têm os traços geralmente mais grosseiros. Os coptas trazem nos braços, numa espécie de tatuagem, o símbolo da cruz.

A liturgia na Igreja Copta, como pudemos observar algumas vezes no Cairo Velho, onde há muitos templos, é um pouco parecida com a antepassada liturgia da Igreja Católica, com muitos cânticos, parecidos com o canto gregoriano, as mulheres separadas dos homens, o celebrante voltado de costas para os fiéis. Os sacerdotes coptas se vestem de preto e têm longas barbas.

O monasticismo cristão nasceu nos desertos do Egito com São Pacômio, no século IV de nossa era, e se espalhou pelo mundo inteiro. Inicialmente, os conventos eram só para homens, porém rapidamente surgiram conventos para mulheres, desde que a irmã de São Pacômio, Maria, também ingressou na vida celibatária.

Segundo alguns autores, a religião cristã copta, em sua fase primitiva, sofreu influência dos antigos egípcios, cujas entidades religiosas foram assimiladas também pela religião cristã em geral. J. Cerny, em seu livro Ancient Egyptian Religion, nos lembra que é muito grande a semelhança entre São Jorge matando o dragão com sua espada e o deus egípcio Horus matando seu inimigo, o demônio Setekh, em forma de crocodilo. O mesmo autor afirma que a escolha do dia 25 de dezembro como a data do nascimento de Jesus e a celebração do Natal apenas perpetuou a velha festividade solar do nascimento de Rá.

Mohamed Hussein, o Dr. "Chimy", é um pintor bastante popular no Cairo. "Chimy" tem belas coleções de esculturas e desenhos sobre a vida egípcia. Muitos cartões-postais com temas árabes, faraônicos e coptas contêm a marca "Chimy". As paredes da pizzaria Hut, no bairro de Dokky, têm gravuras suas. Além de telas a óleo, o Dr. "Chimy" compôs belas coleções de gravuras da vida egípcia, com temas faraônicos, coptas ou islâmicos, a exemplo de Oásis de Siwa e Os antigos mosteiros e igrejas no Egito. Esta última coleção nos fez conhecer como são alguns dos mosteiros mais importantes do Egito, como os de Santo Antônio e São Paulo, junto ao Mar Vermelho; o famoso mosteiro de Santa Catarina, aos pés do Monte Sinai; o mosteiro de São Simeão, em Assuã e os mosteiros do Wadi El-Natrun.

No Museu Copta, no Cairo Velho, vêem-se muitos objetos dos antigos cristãos, como afrescos antiqüíssimos, vestimentas, instrumentos rudimentares de cirurgia, objetos em metal, madeira, marfim, ouro, prata, cobre, bronze e ferro. Uma das coleções mais interessantes e valiosas do Museu é a de ícones. Ícones são pinturas coloridas em base de madeira, com a parte superior arredondada, contendo normalmente figuras de santos. Um dos ícones no Museu representa Santo Antônio e São Paulo, o Ermita. Segundo a crença copta, o alimento diário de São Paulo consistia em meio pão, que lhe era trazido por um corvo. No dia em que Santo Antônio foi visitá-lo, o corvo levou um pão inteiro.

Antigamente, como Patriarca de Alexandria, a sede papal ficava naquela cidade. Posteriormente, a sede foi mudada para a igreja de Al-Mo'allaqa, construída sobre os pilares de antiga fortaleza romana da Babilônia, no atual Cairo Velho. Atualmente, a sede de Shenouda III fica na catedral de São Marcos, no Cairo, no bairro de Abayssya, e é a maior basílica da África.

Muito dinâmico e popular, com aparições freqüentes na televisão e bem relacionado com as autoridades egípcias, Papa Shenouda participa de sessões na Assembléia do Povo - o Parlamento Egípcio -, mantém estreita ligação com o Grão-Sheikh da Mesquita Al-Azhar, Gad-Al-Haq Ali Gad-Al-Haq, e o grande Mufti do Egito, o Sheikh Muhammad Sayed Tantawi, os dois maiores líderes religiosos muçulmanos do Egito quando lá estávamos. Com aquelas autoridades religiosas, Shenouda algumas vezes participa do ifthar, o desjejum à noite, durante o mês do ramadã.

Contrastando com a intolerância dos fundamentalistas muçulmanos, para os quais nunca poderá haver qualquer espécie de ecumenismo, foi com grande satisfação que vi uma foto dos líderes religiosos muçulmanos comungando o ifthar com o Papa Shenouda, tendo na parede os símbolos das duas religiões: um crucifixo copta e o crescente islâmico. Em Mínia, cidade a caminho de Lúxor, durante um festival universitário, uma cruz copta e o crescente islâmico foram carregados à frente dos grupos de atletas que desfilaram no interior do estádio. O ex-Presidente Sadat também tinha um grande senso de ecumenismo quando quis construir aos pés do Monte Sinai o "Centro de Descanso e Meditação", com uma mesquita, uma igreja e uma sinagoga. A obra, porém, nem sequer foi começada. Certamente, é por aí que se conseguirá construir alguma coisa de útil num país como o Egito - como em outro qualquer -, para a paz social de todo um povo, independente de sua fé.

De hábitos muito simples, Papa Shenouda gosta de sair do burburinho do Cairo e seguir para o deir (mosteiro) de Anba Bishoi, em Wadi El-Natrun, a oeste do Cairo, onde entra em contato com o trabalho braçal na fazenda dos monges, auto-suficiente em leite, queijo, frango, frutas e legumes.


Maalêsh! - Bukra, Intchaalá!

Maalêsh (o "sh" com som de "x" de xícara) é talvez a palavra-chave que exprime todo o pensar do egípcio, seu humor, sua filosofia de vida, a predestinação árabe. Quer dizer "perdão, desculpe-me", "deixa p'ra lá", "não tem problema". Ou "dane-se!". Se o passador de roupa queimou tua camisa de seda, maalêsh! Se alguém te dá uma esfregada no carro - como aconteceu comigo, quando um microônibus me imprensou na rua -, maalêsh! Se o mecânico não te entrega o carro no dia prometido, mas somente uma semana depois, maalêsh! Se o funcionário não chega cedo ao local de trabalho, após uma série de escusas e mil explicações inexplicáveis, ele diz: maalêsh! E assim vai.

Como escreveu Dalia Baligh em um artigo no Herald Tribune de 14 Nov 83, "maalêsh reflete a crença de muitos egípcios em fatalismo e na inevitabilidade daquilo que está escrito nas estrelas".

O governo egípcio já tentou proibir a circulação de carroças no centro do Cairo. E também já chegou a fazer uma campanha para não se utilizar essa mágica palavra maalêsh, querendo bani-la do dicionário. Besteira. São dois símbolos vivos dos costumes egípcios. Seria o mesmo que querer acabar com o samba e a cerveja no Brasil.

Tivemos o privilégio de assistir a alguns pequenos acidentes de carro nas ruas do Cairo. Como já foi dito, o trânsito é infernal, o fluxo de veículos é lento e as batidas de carros, normalmente, não passam de danos materiais.



Nesses acidentes, os motoristas saem de seus carros em altos brados, aparentemente agressivos, gesticulando muito. Os carros são deixados no meio da rua de qualquer jeito, o trânsito fica ainda mais caótico. A gente até aposta que uma briga feia terá início. Mas, que nada. Após uma acalorada discussão, com os contendores prometendo resolver a questão pelas vias de fato, grupos do "deixa disso" segurando os machões, finalmente o problema é resolvido com um amistoso maalêsh. Ninguém paga o prejuízo do outro. E para selar o acerto de contas, antes de irem embora, os brigões se dão três beijinhos na face. Maalêsh!

Na época em que estivemos no Egito, pudemos observar a aplicação prática dessa filosofia do maalêsh, muitas vezes relacionada ao desleixo e à irresponsabilidade. Uma vez vimos, espantados, um motociclista carregando um garotinho de uns 4 ou 5 anos, possivelmente seu filho, e fazendo malabarismos na avenida congestionada, andando em cima de uma só roda, a moto empinada. Nas comemorações - Copa do Mundo na Itália, fim da Guerra no Golfo -, era comum as crianças andarem em cima dos capôs dos carros, ou agarradas nos estribos, sem que os adultos tomassem qualquer iniciativa para coibi-las.

Outras vezes, víamos pessoas atravessando as ruas movimentadas sem precaução alguma, os carros tendo que frear bruscamente. Um dia, perto de nossa residência, uma mulher literalmente deu uma pirueta no ar, ao ser atropelada quando tentava atravessar a Rua da Liga Árabe, uma avenida larga e moderna. Ela entrou na rua movimentada como se estivesse andando despreocupada dentro de sua casa. O motorista do carro que atropelou a mulher escapou por pouco de ser agredido por uma pequena multidão que apareceu de repente. Em vez de levarem a acidentada imediatamente ao hospital, ficaram discutindo em altos brados, como costuma acontecer nesses casos. Aproximamo-nos do grupo e misturando algumas palavras de inglês e árabe, como mustáshfa (hospital), parece que conseguimos o intento: o grupo deixou de discutir e embarcou a mulher no carro para levar ao médico.

A filosofia do maalêsh também se observa na falta de cuidado com as coisas. Na chegada ao Egito, quando tivemos que procurar um apartamento para morar, as residências normalmente tinham péssimo aspecto, com a cozinha impregnada de gordura pelas paredes e o fogão caindo aos pedaços. Preferem comprar um fogão novo a manter o mesmo limpo.

Um exemplo de desleixo, de maalêsh, o jornal semanal egípcio Al-Ahram, editado em inglês, nos brindou em sua edição nº 16, de 13 Jun 91: uma página inteira estava com a impressão às avessas. Porém, o jornal não perdeu o rebolado. No número seguinte pediu desculpas e, com humor, garantiu que em outro problema desse tipo um espelho acompanharia o jornal... Maalêsh!

Apesar de existir o fatalismo do maalêsh, convém ressaltar a solidariedade dos egípcios uns com os outros. Nas rodovias, quando ocorrem desastres de automóveis mais graves, com mortos ou feridos, todos procuram parar para prestar ajuda. Várias vezes observávamos, no Cairo, a presteza de todos em correr com extintores de incêndio para auxiliar um companheiro em apuros, com o carro em chamas, o que ocorre com freqüência devido ao forte calor e à falta de manutenção dos veículos.

Um ato de solidariedade típica do egípcio observamos por ocasião do incêndio em uma escola pública do pré-escolar, aos fundos da Embaixada Brasileira. Todos os transeuntes procuravam ajudar os bombeiros, muitas vezes mais atrapalhando do que auxiliando, porém todos solidários na tentativa de extinguir o incêndio. Os carros nas imediações foram levados para longe com as forças das mãos, não se sabe como. Houve até cenas hilárias, como do rapaz voluntário, que segurou uma mangueira de bombeiro para ajudar no combate ao fogo e deu o maior banho na multidão em volta quando a água foi ligada.

Outra expressão muito conhecida no Egito é bukra, intchaalá (amanhã, se Deus quiser). Esse amanhã, muitas vezes, pode ser amanhã mesmo, semana que vem ou no próximo mês. Tem uma tabuleta nas repartições públicas onde se lê: "Alá abençoa os pacientes".

Intchaalá é uma expressão que se ouve em toda conversação árabe, praticamente em cada frase. Na rua, no rádio ou na TV, da boca dos jogadores de futebol durante a Copa de 1990 na Itália, assim como nas entrevistas dos soldados indo ou retornando da Guerra no Golfo Pérsico, pudemos observar que a expressão intchaalá era constantemente usada. Isso demonstra a grande religiosidade arraigada nos costumes árabes, que não esquecem de afirmar que tudo conseguirão, se Allah assim o permitir.


O bakshish

A corrupção no Egito é bastante grande. Há sempre um "jeitinho" para tudo. As gorjetas ou bakshish são solicitadas a todo momento, tanto pelos pobres pedintes e garotos "flanelinhas" nas ruas junto aos automóveis, quanto nas repartições públicas.

Na rua, o bakshish tem seu ritual. Você não deve entregar a nota de dinheiro aberta. Deve dobrá-la várias vezes ou enrolá-la como um cigarro de palha, escondê-la sob a palma da mão e entregar com discrição. Principalmente se for para um policial...

Uma vez, no Museu do Cairo, um soldado que estava de serviço se aproximou da gente e, muito atencioso, nos levou para uma sala ao lado, para nos dar algumas explicações, que não entendemos, sobre algumas estátuas do período ptolomaico e romano, longe da vista de seu superior. Para, logo em seguida, na maior cara-de-pau, nos pedir o bakshish.

Quando da transferência do carro Fiat Fura, do Edison Netto - meu antecessor - para o meu nome, em 1990, o bakshish solicitado foi de 400 libras, mais ou menos 150 dólares. O carro deve ficar no nome do estrangeiro durante 5 anos para depois poder ser vendido. Como só ficamos 2 anos, tempo de nossa missão no exterior, esse foi o "jeitinho" arranjado para eu comprar o carro. O mesmo valor foi pedido posteriormente, em 1992, quando tive que vender o carro. Porém, o problema todo daquela transferência do carro para o meu nome não foi só o bakshish citado. Após obter o nada consta referente a multas e outras exigências, tive que voltar várias vezes ao Departamento de Tráfego local, com o contínuo que trabalha na aditância, Salah, me ajudando como intérprete.

A cada entrada naquela repartição pública tínhamos que preencher fichas e comprar selos (no Egito, até os cheques ainda usam selos). Lá dentro, em cada escaninho - e são muitos - tivemos que deixar uma "contribuição". O engenheiro que checou o número do chassis do carro, depois de receber 20 libras, exigiu mais 10. E a gente correndo de um lugar para outro, comprando selos aqui, formulários acolá, e cada um querendo a sua parte. Ninguém tinha pressa, muitos funcionários andando de um lado para outro, uns tropeçando nos outros, copos de chá quente sendo trazidos a todo instante.

Depois de quase 2 horas perambulando como alma penada, já perto do meio-dia, o funcionário que tinha a chave do cofre onde ficam os formulários dos certificados de propriedade a serem preenchidos disse que o "processo" estava dando muito trabalho a eles e que o expediente já tinha encerrado. Lógico, era a senha para mais um bakshish...

Por último, deram-me um papel para assinar, escrito em árabe, onde eu não entendia nenhum rabisco. Perguntei ao Salah do que se tratava e ele me garantiu que era uma declaração de que eu havia resolvido todos os trâmites burocráticos do veículo e que eu não tinha pago nenhuma gratificação naquela repartição. Fazer o quê? Maalêsh! Passei a entender por que Alá abençoa os pacientes...

A corrupção é mesmo uma praga mundial. Em 1991, o Egito chegou a possuir uma "bancada do pó", com 10 deputados suspeitos de pertencerem ao tráfico de drogas. Por ocasião do encerramento do exercício financeiro - em julho -, era comum no Egito aparecer incêndios "casuais" em muitas lojas comerciais e repartições públicas. Muitos alunos egípcios das escolas públicas só conseguem passar de ano se deixarem uma quantia "por fora" nas mãos dos professores.

Essa corrupção generalizada talvez seja resultado dos péssimos salários pagos aos funcionários egípcios. Na época, um funcionário público começava ganhando 80 libras egípcias, o que dava menos de 25 dólares por mês. Esse era também o salário de um subtenente do exército egípcio, meu colega de graduação naquele tempo. Um general egípcio ganhava o equivalente a 200 dólares. E um soldado recruta, 5 libras, mais ou menos 1 dólar e meio. Um engenheiro formado, com vários anos de serviço, recebia em torno de 200 libras, como nos disse o gerente italiano da Fiat no Cairo, Domênico, casado com uma brasileira.

O leitor certamente dirá: "Mas o que vale é o poder aquisitivo. O preço das coisas no Egito deve ser baixo". Nem tanto assim. Senão vejamos.


A miséria da classe mais pobre

Embora uma parcela da população egípcia tivesse, na época em que lá estivemos, uma espécie de "vale de ração", com o objetivo de mensalmente adquirir uma cesta básica em armazéns públicos por um preço bastante baixo, devido aos subsídios do governo, os produtos não eram baratos para o povo em geral. Agora, com a ingerência do FMI depois da Guerra do Golfo para sanear as finanças do Egito e com o governo cortando todos os subsídios de alimentos e serviços públicos, além de manter um câmbio artificial entre a moeda egípcia e o dólar americano, a situação é muito pior. Dois terços dos alimentos são importados. O "povão" nunca come carne.



Vejamos alguns preços de produtos, à época, encontrados no Cairo, em libras egípcias (LE) e dólares americanos (US$):

- café em pó, 1 kg LE 12,80 ou US$ 3,86;

- café solúvel, 200 g LE 10,20 ou US$ 3,08;

- carne para bife, 1 kg LE 12,00 ou US$ 3,62;

- batata, 1 kg LE 1,25 ou US$ 0,37;

- açúcar (cristal), 1 kg LE 2,00 ou US$ 0,60;

- queijo, 1 kg LE 15,00 ou US$ 4,53;

- frango, 1 kg LE 5,00 ou US$ 1,51;

- banana d'água, 1 kg LE 3,00 ou US$ 0,90;

- maçã local (ácida) 1 kg LE 3,00 ou US$ 0,90;

- maçã red, 1 Kg LE 12,00 ou US$ 3,62;

- uva branca, 1 kg LE 1,50 ou US$ 0,45;

- pão de forma LE 2,60 ou US$ 0,78;

- coca-cola, 2 l LE 3,00 ou US$ 0,90;

- leite em pó, 400 g LE 5,75 ou US$ 1,73.

O câmbio utilizado foi de 1 dólar para 3,31 libras, a cotação de 26 de agosto de 1991, data em que terminei de escrever uma "cartinha" de 29 folhas datilografadas para parentes e amigos no Brasil. Aquela "cartinha" acabou se tornando o gérmen deste livro. Quando saímos do Egito, em abril de 1992, o câmbio era de 1 dólar para 3,33 libras. O câmbio pouco tinha mudado. Porém, o pão de forma tinha aumentado para 5 libras e o queijo para 17 libras o quilo.

Muitos egípcios se mostraram bastante criativos frente à alta dos preços. Como me confidenciou um amigo que recentemente voltou do Egito, alguns comerciantes sem escrúpulos descobriram um meio bastante simples de não aumentar os preços: diminuiram o tamanho das embalagens. Os preços do feijão e do arroz não subiram. Mas as embalagens foram decrescendo com o correr do tempo e por fim só continham 400 gramas do produto... Maalêsh!

A verdade é que o povo humilde do Egito só come carne uma vez por ano, na época da Festa do Sacrifício, quando são abatidos carneiros e ovelhas para lembrar Abraão, que quase sacrificou seu próprio filho, ocasião em que os árabes mais ricos distribuem carne aos mais pobres. Senão, no resto do ano, a única alimentação da classe humilde é o aesh, aquele pão redondo, com algumas folhas de alface ou algumas fatias de tomate conseguidas nas "xepas" de final de feira. E o indispensável e onipresente shái (chá), que pode ser local, do Sudão ou do Sri Lanka.

Um chá muito popular no Egito é o de karkadeh (ibíscus), de grande valor medicinal. Uma das bebidas preferidas durante o mês do ramadã, o ibíscus é rico em proteínas, minerais e óleo orgânico, e bom para asma e problemas do estômago.

Com os salários muito baixos e os preços nas nuvens - o mesmo que acontece no Brasil, onde os oligopólios e os comerciantes sem escrúpulos espoliam o povo -, é fácil imaginar a penúria em que se encontra a população mais pobre do Egito. E pobreza, no Egito, é pobreza mesmo. As favelas cariocas, com muitas casas em alvenaria, luz, água por perto, não se comparam, em conforto, aos ranchos de barro batido com estrutura em bambu e cobertura de folhas de tamareira que são os barracos encontrados na periferia do Cairo, ao longo de muitos canais do Rio Nilo e no interior do país. Aquilo é, realmente, pobreza. Miséria semelhante vimos, também, em alguns barracos de refugiados palestinos na cidade de Jericó, quando viajamos a Israel.

Em compensação, a classe mais abastada costuma esbanjar. A mesa sempre tem que ser muito farta. Por isso, há muito desperdício. Foi o que pudemos notar quando íamos a restaurantes ou lanchonetes: invariavelmente, eles pediam uma quantidade enorme de pratos diferentes e deixavam tudo pela metade. Nós, que pedíamos só o que conseguíamos comer, devíamos ser taxados de sovinas.

Alguns preços no Egito eram melhores que no Brasil. Por exemplo, baixelas em aço inox, sapatos, camisas, roupas de couro. Sem dúvida, devido à baixa remuneração da mão-de-obra local. No Brasil deveria ser o mesmo, com os salários, de modo geral, muito baixos. O Brasil consegue a proeza de colocar no mercado produtos com preços de 1º Mundo, pagando salários não de 3º mas de "5º Mundo".


O casamento egípcio

A bem da verdade, o que conseguimos decifrar naquele mundo exótico e surrealista - o Egito - é que a classe mais alta, bem instruída, que tem parabólicas, que fala inglês e passa as férias na Europa, tem um modo de vida bem diferente da classe mais humilde, que deve ser a única a sofrer as desvantagens provenientes dessa sociedade onde os homens ditam as normas.

No Cairo, é uma coisa, a mulher é bastante liberal. No interior do Egito é bem diferente. Lá há ainda o costume do pai exigir um dote para entregar a filha ao futuro marido: pode ser dinheiro, ouro, camelos, bois, ovelhas, carneiros ou terras. Nos grandes centros isso já não acontece.
 
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Revisado por Editor do Webartigos.com


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Sobre este autor(a)
"Natural de Luzerna, SC (antigo Distrito de Joaçaba), Félix Maier é militar da reserva e ensaísta. Autor do livro "Egito - uma viagem ao berço de nossa civilização", Thesaurus, Brasília, 1995, escreve para Usina de Letras, Usina das Palavras, Domínio Cultural, Texto Livre, Recanto das Letras, Ternum...
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