Educação popular e multiculturalidade uma experiencia em programas sociais
 
Educação popular e multiculturalidade uma experiencia em programas sociais
 


EDUCAÇÃO POPULAR E MULTICULTURALIDADE UMA EXPERIÊNCIA EM PROGRAMAS SOCIAIS

Giseide Maria Ferreira dos Santos¹
Renata Moreira Pires²



Resumo

Discutimos neste artigo, a Educação Popular e sua atuação nos programas sociais. A proposta desta temática é a Educação Popular e multiculturalidade que nos dias de hoje indentifica no cidadão jovem, seu valor na comunidade e como tal, convive com múltiplas culturas. Para execução deste trabalho, foi realizada uma pesquisa-ação e aplicação de um questionário, para construir e analisar os dados utilizando a metodologia interativa que dará uma resposta sobre a educação e as experiências individuais e coletivas dos adolescentes/jovens do programa Conexões de Saberes, Programa Escola Aberta, ambos do Ministério da Educação e o Programa Vida Nova do Centro da Juventude do governo estadual. Com essa educação, os jovens de nossas periférias enfrentam os desafios sociais, é necessário que as políticas públicas sociais investirem não apenas na sua formação profissional, mas também na sua formação como sujeitos ativos, críticos e solidários. Segundo Freire, uma educação libertadora constrói-se para e pela cidadania. Nesse contexto o trabalho do professor, adquire um novo papel. Ele será o instrutor de novas relações sociais, culturais e multiculturais.

Palavras-chave: Educação popular; Programa; Multiculturalidade.













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1. Mestranda em Enino das Ciências na UFRPE, Especialista no Ensino de Ciências-UFRPE, Licenciada em Pedagogia pela UNICAP, Professora da rede pública e Universidade Estadual Vale do Acaraú, UVA-PE. [email protected]

2. Mestranda em Ensino das Ciências da UFRPE, Licenciada em Química pela UFRPE, funcionária do [email protected]


Introdução


No Brasil, a educação teve seu marco inicial com os jesuítas no período colonial os únicos responsáveis pela educação dos índios, escravos, dos trabalhadores livres e dos senhores de engenhos. Com a função de incentivar a fé católica, ensinavam a ler e contar no ensino primário e mantiveram o ensino público no Brasil até o ano de l759, quando foram expulsos por Pombal, deixando o ensino desorganizado, e a partir de mais precisamente do século XIX, a educação passa a ser discutida e as chamadas camadas menos privilegiadas e marginalizadas passam a ter acesso às escolas. Segundo Romanelli(1997) a Lei de Diretrizes e Bases de 1996 reflete essa situação, afirmando que esta Lei determina que a educação é para todos os cidadãos, como único caminho capaz de abrir os horizontes culturais, e que habilita o individuo ao exercício de sua cidadania tornando-o mais produtivo, capacitado e participativo.

A Educação Popular na sua concepção é sinônimo de povo, que tem no seu ideal, diz Freire, ser homens, na contradição em que sempre estiver [...], o homem novo individualista ou ser mais (FREIRE, 1970, p.32-7), essa visão de homem novo pelos oprimidos. Nesta relação a Educação Popular, avançou com a alfabetização do povo, do ser mais como homem, aprendendo no círculo de cultura discutindo sua experiência de vida dentro da realidade que está inserido no meio, ou seja, reinventando sua cultura na educação, na permanência de valores comuns e constante. Essa cultura é o acúmulo de conhecimento sobre temas diversos, o modo de vida das pessoas que vivem em sociedade. Assim, para entendermos a cultura, é preciso saber como as pessoas comem, se vestem, quais religiões e muito mais, e Freire nos círculos de culturas ouvia as pessoas e dialogava, o saber de pura experiência (FREIRE, 2007, p.31).

Nos Parâmetros Curriculares Nacionais, a cultura e cidadania está construída na prática educativa do individuo que mostra sua diversidade cultural, pois há diversas culturas quando se verifica a coexistência de uma pluralidade de identidades culturais, no respeito aos diferentes grupos e culturas que a constituem (PCN,1997, p.32). Dessa forma, o homem contemporâneo, tem defendido sua identidade cultural nacional no sentido das ligações afetivas pessoais ao local de nascimento, as tradições, as religiões e a certos valores herdados da comunidade, isto é a educação popular como saber da comunidade (BRANDÃO, 1984, p15), é pela educação que a gênese da cultura se opera no individuo a medida que ele vai assimilando. (idem, p.18).

Até aqui, neste artigo, falamos da Educação Popular comprometida com a população que tem no conhecimento cultural sua ferramenta de aprendizagem, enriquecida no momento da fala, da palavra vivenciada em grupo. O que se aprende em grupo, o que é alegria e o que é tristeza. Nesse grupo que Freire conscientizou o alfabetizando a expressar juízos para a sua libertação (FREIRE, 1979, p.62). O objetivo, é contribuir para esse compromisso da Educação Popular, apresentando a integração e articulação com a comunidade que freqüentam programas sociais oriundo das ações sócio-assistenciais comprometida com o direito dos adolescentes/jovens. Sendo assim, perguntamos: Qual a relação entre Educação Popular e cultura vivenciada nos programas? Tentaremos responder de acordo com o desenvolvimento da temática em questão nas respostas dos protagonistas pesquisados.


Pensamos não apenas nos adolescentes/jovens, que por meio de idéias compartilhadas promovem a sua caminhada profissional após uma ressocialização com o meio em que vivem. Mas, na educação escolar que não trás no seu cotidiano a interação com a educação Educação Popular cultural e artística como um subsídio necessário a vida dos alunos, a não ser vivenciadas nas datas comemorativas, dia do folclore ou quando o tema da feira de conhecimento for a cultura brasileira. Contudo, cita Trindade, situar a atitude do professorado nesse campo não traz novidade ? há quanto tempo fala-se na necessidade de melhoria da escola? (TRINDADE, 2002, p.92), em todos os segmentos, ou no que é vivenciado e programado na educação escolar.


1. A Inclusão do Protagonismo na Educação Popular

Neste item, vamos pensar na educação dos programas que funcionam em espaços não escolares, criados a partir da constituição de 1988, que gerou a constituição cidadã. Não vamos descrever mobilização social desta época. Pretendemos apontar aspectos que promovem ações contínuas de acesso a educação nos programas sociais. Nesses programas a juventude é fonte de motivação, criatividade, vontade e efetivação de mudanças. Apontamos situações e vivência que justificam essas mudanças para a construção de um modelo de desenvolvimento inclusivo e participativo, com oportunidades iguais para todas as pessoas com valor igual.


Diante disso, Gadotti, questiona: pode a educação operar a mudança? Que mudança? A mudança de uma sociedade de oprimidos para uma sociedade de iguais e o papel da educação nesse processo (FREIRE, 1985, p.10). Esses programas que orientam as mudanças com ações configuram- se compreender a juventude como segmento social especifico, que valorizam as instituições dos programas nas trocas culturais e possibilidades de aprofundamento e reflexão da educação para a vida. Pensar nessa educação, pensar o papel social, pensar as atividades como ação cultural (SOUZA, 2002, p.41). Em tal sentido, o contato com os programas, a inclusão do protagonismo na Educação Popular como principio educacional freireano é centrado no compromisso como as questões apresentadas, como prática pedagógica autêntica, coerente com a situação de diversidade, cultural.


Para Mantoan, a inclusão implica uma mudança de perspectiva educacional, pois não atinge apenas alunos com deficiências, mas todos os demais, para que obtenha sucesso na corrente educativa geral (MANTOAN, 2006, p.24) e Freire fala dessa mudança no sentido de transformação ou o jogo dialético da mudança-estabilidade não são "em si", algo separado ou independente da estrutura ou resultam ambas da ação, do trabalho que o homem exerce sobre o mundo (FREIRE, 1985, p.46). A mudança como perspectiva e transformação significa o caminho que o programa oferece aos adolescentes/jovens em situação de vulnerabilidade social, contribuindo para o desenvolvimento pessoal, bem como para a formação profissional ou contribuindo para a melhoria das condições de empregabilidade. Assim, o protagonismo, segundo, Gohn, ampliou-se não somente entre vários setores da sociedade civil como invadiu a sociedade política, realizando parcerias com o Estado, desenvolvendo uma esfera pública (GOHN, 2005, p.9). Em síntese, afirma Gohn:


O paradigma vigente nos trabalhos com os movimentos populares anos 70-80 estruturava- se segundo fundamentos semelhantes ao da Educação Popular, quais sejam: a valorização da cultura popular, a centralidade atribui ao diálogo, a ética e a democracia no processo de construção de relações sociais mais justas; a de qualquer processo pedagógico ou de mudança social, a realidade da vida dos educandos e a forma como eles encaram esta realidade-a relação entre conhecimento e politização, entre a educação e movimentos sociais; o estímulo a participação dos educandos em toda a fase do processo educativo (ibidem, 2005, p.73) .



A adoção do Programa Escola Aberta: educação, cultura esporte e trabalho para a juventude, se propõe a promover a ressignificação da escola como espaço alternativo para o desenvolvimento de atividades de formação, cultura, esporte, lazer para alunos da educação básica das escolas públicas e suas comunidades nos finais de semana. Entretanto, tem como base de experiência em outros paises, como Estados Unidos, França e Espanha, nos quais o trabalho com jovens nas áreas artística, cultural e esportiva tem se mostrado eficaz para mudança da auto-estima e melhoria da relação dos jovens com a sociedade, com a escola. Com adoção do programa como política pública educacional vislumbra possibilidade de influenciar outras políticas e contribuir para mudança tanto no ambiente escolar quanto na vida dos adolescentes/jovens brasileiros. Sendo o programa, que os bolsistas do Programa Conexões de Saberes: diálogos entre a universidade e as comunidades populares participam, segundo Souza, o programa é da Universidade, o professor só vai encontrar soluções se os alunos forem protagonistas. É um programa participativo, os alunos tem um papel em todos os níveis [...] . O papel da universidade é a excelência acadêmica, encontrar os melhores talentos, que sejam úteis para a sociedade brasileira (SOUZA, 2006, p.87). Nessa articulação, do Programa Conexões de Saberes com o Programa Escola Aberta, representa a possibilidade de uma nova relação entre os universitários de comunidade populares e os alunos da rede pública de ensino básico. Os bolsistas do Conexões desenvolvem oficinas sobre direitos humanos e de estímulo a leitura nos colégios vinculados ao Escola Aberta.

O programa Conexões de Saberes, teve inicio em uma conexão real entre uma experiência existente nos espaços populares, dentro das comunidades, e o aparelho público. Atuando em duas frentes prioritárias: aproximar as instituições públicas de ensino das comunidades populares e melhorar as condições para a permanência dos estudantes de origem popular nas universidades federais. O seu principal objetivo, disse Henriques, é estimular o convívio com a diferença, e que o risco das ações afirmativas é cair na armadilha do exótico, do excêntrico, o que agente está fazendo é mostrar que a diferença pode produzir outro campo de conhecimento. Não é uma visão paternalista nem idealista (HENRIQUES, 2006, p.115). Com um total, de 65 alunos bolsista que participam do Programa da UFRPE, passam a trabalhar na elaboração de análises socioeconômicas do ambiente acadêmico e a desenvolver diagnóstico e ações sociais em comunidades populares. Esses jovens trazem para a vida universitária esperanças e experiências que precisam ser valorizadas e incorporadas ao saber crítico que a universidade promove. A universidade tem muito a aprender com a crescente participação de estudantes oriundos de comunidades populares na vida acadêmica. A construção de uma nova universidade, capaz de contribuir no atendimento das demandas centrais de grandes parcelas da população, sem perder a excelência, é um desafio contemporâneo a que o programa Conexões de Saberes pretende responder de modo criativo e inovador a construção de uma rede sócio-pedagógica na universidade, formada por professores e alunos de diferentes perfis. É um caminho possível para acolher os jovens na vida universitária, sistematizar as experiências que trazem e dotá-los de instrumentos metodológicos para compreender e construir para a superação histórica de desigualdades que vivem. Assim, o Programa pretende: 1- aprimorar a formação dos estudantes como pesquisadores e agentes sociais; 2 ?democratizar o acesso ao ensino superior e garantir a permanência dos universitários de origem popular que lá chegam; 3- implementar projetos de assistência a grupos socialmente vulneráveis.


O Programa Escola Aberta, se restringe aos indicadores clássicos e educacionais nem reduz a educação a um instrumento que serve apenas para ampliar a maturidade intelectual, por meio da aprendizagem de conhecimentos técnicos e acadêmicos. Vai além, propõe a formação integral, capaz de desconstruir o muro simbólico entre a escola e a comunidade. Além disso, o Programa Conexões de Saberes possibilita o monitoramento e a avaliação, pelos próprios estudantes bolsistas, do impacto das políticas desenvolvidas em espaços populares, principalmente do Programa Escola Aberta com indivíduos e culturas diferentes, convivem nos finais de semana com os universitários do Programa Conexões de Saberes. Segundo Sodré, cita Trindade, o reconhecimento dessa diversidade cultural pode obrigar à revisão de si mesmo, pode levar a educação a desembaraçar-se do peso de ter se tornado máquina de produção de profissionais e diplomas burocratizantes (TRINDADE, 2002, p.22).


Nesse reconhecimento, a partir das idéias das 32 universidades, o SECAD/MEC realizou uma pesquisa com o nome (Re)conhecendo Diferenças, a distribuição étnico-racial, por cor e raça. A média de idades dos calouros autodeclarados brancos é de 20,8 anos. A média de idade dos pardos é de 21,3, e a média de idade dos pretos é 21,5. A população negra entra com uma idade média de um ano e pouco acima daquelas pessoas autodeclarados brancos. Sendo que, entre essas 32 universidades da pesquisa, há as que já tem programas de acesso, como políticas de cotas. Mesmo assim, os estudantes de origem popular tem quatro anos de idade a mais do que os estudantes de origem não-popular (HENRIQUES, 2006, p.37).


Os protagonistas desses Programas, exercem cidadania na inclusão do protagonismo na Educação Popular sendo um dos objetivos do programa. A cidadania no seu significado varia de acordo como se emprega seu conceito, porém no século XX, a concepção estatal de cidadania no comentário de Gohn, se amplia e se disciplinará não só os direitos mas, fundamentalmente, os deveres (GOHN, 2002, p.25). Todavia, a inclusão desses indivíduos na sociedade por meio da ampliação de sua participação nos assuntos relativos à comunidade e aos direitos que a eles são conferidos. Esses direitos estão na declaração elaborada em 1789, durante a revolução Francesa, que é considerada uma espécie de primeira Declaração Internacional dos Direitos do Homem e do Cidadão em todo o mundo. O seu artigo 6º diz, que todos os cidadãos tem o direito de concorrer pessoalmente ou por seus representantes à sua formação. Sendo assim, os jovens protagonistas desses programas, tem os seus direitos de cidadãos garantidos por lei, por ser sujeitos vítimas ou não de suas incertezas, indagações, riscos, danos e outros.

2. Multiculturalismo, Frevo, Maracatu e Cultura

Pernambuco tem uma dança
Que nenhuma terra tem,
Quando a gente entra na dança
Não se lembra de ninguém.
Capiba(José Lourenço Barbosa)


Quem não conhece o frevo, que teve seu ínicio no século XX, nas ruas do bairro de São José, surgiu uma dança carnavalesca da mistura de capoeira e marcha acelerada. Nesse cenário, a quinhentos anos atrás, no período colonial, os ritmos portugueses eram importados dos árabes e demais países e as danças africanas, eram batuques e maracatus, pois o maracatu era de mais importância por ter guardado usos e costumes africanos. Consiste num cortejo régio, que desfila com toda solenidade, enriquecendo o folclore brasileiro, o seu batuque ressoa:

Meu maracatu é da Coroa Imperial
Meu maracatu é da Coroa Imperial
É de Pernambuco, ele é
Da Casa Real.
Paulo e Sebastião Lopes.Coroa Imperial.


Essa representatividade, de dança e cortejo tem em comum a Educação Popular, o povo. A multiculturalidade está no povo com a educação. Para Souza, a educação popular para a multiculturalidade vem mantendo-se horizonte utópico do Projeto Político Pedagógico, Paulo Freire não abre mão de seu realismo crítico [...] e uma possível construção da multiculturalidade não eliminam as tensões permanentes que atravessam essas mesmas relações (SOUZA, 2007, p.296), sendo assim, o Projeto Político Pedagógico da escola, deve ser dinâmico e nortear o cotidiano escolar e a organização do trabalho didático-pedagógico, com a participação efetiva de todos atores.

Por outro lado, com tantos ritmos, danças, música e outros tem nas suas origens populares a cultura que nasceu da adaptação do homem ao ambiente onde ele vive e abrange inúmeras áreas de conhecimentos: crenças, artes, moral, linguagem, idéias, hábitos, tradições, usos, costumes, artesanatos, etc. Nesse contexto, na década de 90, em Recife, surgiu o movimento manguebeat, que é a mistura do rock, maracatu, coco-de-Roda, hip-hop e música eletrônica. Esse estilo tem como representante o músico Chico Science. O objetivo do movimento surgiu de uma metáfora idealizada por Zero Quatro ao trabalhar com vídeos ecológicos. Como mangue, era o ecossistema biologicamente mais rico do planeta, o manguebeat precisava formar uma cena musical tão rica e diversificada como os manguezais.

Desse modo, junto com o frevo, maracatu e a fusão de ritmos do manguebeat, a diversidade da cultura teve sua origem no encontro do branco europeu com os nativos da terra, o índio, que foi a primeira raça encontrada pelos portugueses, tendo o inicio da mistura cultural que é a nossa realidade na diversidade cultural colonial e do império onde não existia a igualdade e sim a desigualdade entre os brancos com o negro e o índio. Nesse propósito, afirma Mc Laren, a igualdade implica tanto a similaridade quanto a diferença e exige que cada uma delas seja definida de maneira a incluir outra pessoa. As pessoas deveriam ser tratadas da mesma forma, mas essa "igualdade" deve levar em conta as suas diferenças... (MC LAREN, 2000, p.294). Se as etnias, tem hoje sua diversidade, seus costumes e hábitos que prevalecem até os dias atuais, é que sua identidade cultural predomina na sociedade.


Esse gênero de cultura se manifesta na nossa realidade cultural e folclórica, no caso do carnaval, que é uma festividade popular com grande participação da população dançando ao som de orquestras, batuques, fanfarra numa mistura de cores e ritmos, contribui para essa diversidade cultural: a cultura indígena que preserva seus valores e costumes integram nossa cultura; a cultura negra com seus cultos ao adotar os orixás e nagôs, conceberam axé, uma força espiritual contida em vários elementos dos reinos animal, vegetal e mineral, que torna a vida possível. O axé é entendido como energia positiva ou benções; a cultura do branco que adota muitos valores das culturas indígenas e africanas, nessa visão, Trindade fala, a ideia cultura, se limita ao que está presente nos momentos do passado, é o que está presente nos arquivos, é o que permitiu [...] a formação de riquezas...Isso também é cultura (TRINDADE, 2002, p.18) e Souza acrescenta, a educação no campo da Educação Popular é compreendida enquanto atividade cultural e de desenvolvimento da cultura, capaz de contribuir com a democratização da sociedade, da própria cultura (SOUZA, 2007, p.294-376).

3 -Professor versus Instrutor

Quando fui Instrutora no Programa Vida Nova no Centro da Juventude em Olinda, no primeiro semestre de 2008, eramos cinco Instrutores: Mércia, Ilka, Levi, Ebson e Giseide. Nesse momento, pensei: Qual o meu papel de professor ou instrutor do programa? Embora, existe uma pequena diferença o Instrutor, segundo Aurélio, o que instrui, ensina, habilita, adestra, esclarece ou informa, é diferente do Professor, aquele que ensina uma ciência, arte, técnica; mestre (AURÉLIO, 2000). Assim sendo, colocava a minha prática pedagógica a todo momento, conciliando instrução e aprendizagem dos jovens sem diferenciar da prática social do programa. Porém, lembrando da autonomia nos dois aspectos:

1. autonomia dos sujeitos, escreve Gohn:

Os sujeitos autônomos vêem e aceitam as diferenças e as singularidades das pessoas e das regiões do mundo; acatam e assumem a diversidade cultural dessas pessoas, olham para suas crenças e valores como algo cosntitutivo do ser humano; aprendem a dialogar com os diferentes e as diferenças sem ter como meta aniquilá-los ou vencê- los a qualquer custo; buscam o diálogo para uma aprendizagem que leve ao entendimento a construção de consensos, e não para apropriar-se/apoderar-se do saber do outro aniquilando-o (GOHN, 2005, p.33).


Essa autonomia na ação do professor como sujeitos autônomos, na relação com jovens, mostrando as diferentes formas de identidade vivida no nas interações.
Como professor não devo poupar oportunidade para testemunhar aos alunos a
segurança com que me comporto ao discutir um tema , ao analisar um fato, ao expor
minha posição [...] A questão da identidade cultural, de que fazem parte a dimensão
individual e a de classes dos educandos cujo respeito é absolutamente fundamental
na prática educativa progressista, é problema que não pode ser desprezado.
(FREIRE, 1996, p.41-135)


2 . autonomia dos saberes de Freire, fundada na ética, no respeito à dignidade e à própria autonomia do educando, Oliveira comenta:
Isto demanda do educador com os demais saberes um exercício permanente, e a convivência amorosa com seus alunos e na postura curiosa e aberta que assume, ao mesmo tempo, provoca-os a se assumirem enquanto sujeitos sócio-histórico-culturais do ato de conhecer, é que ele pode falar do respeito a dignidade e autonomia do educando (OLIVEIRA, 2007, p.10).

Nessa abordagem dos saberes necessário à prática educativa, o Instrutor antes de tudo reflete sua prática de professor em sala de aula, baseia-se, cita Alarcão:

Na consciência da capacidade de pensamento e reflexão como criativo e não mero reprodutor de idéias e práticas que lhe são exteriores. É central, nesta conceptualização, a noção profissional como uma pessoa que nas situações profissionais, tantas vezes incertas e imprevistas, atua de forma inteligente e flexível, situada e reativa. Na concepção schoniana (Schön, 1983, 1987), uma atuação deste tipo é produto de uma mistura integrada de ciência, técnica e arte e evidencia uma sensibilidade quase artística aos índices, manifestos ou implícitos, na situação em presença (ALARCÃO, 2008, p.41).


O Professor/ Instrutor, que instrui, informa, habilita e ensina, inicia-se no processo de dar sentido as ações individuais ou coletivas que participam no programa, que trata os indivíduos, de atores sociais e transformam-se em sujeitos no desempenho individual ou grupal, pressupõe Gohn:


Os sujeitos re-interpretam o significados das coisas e fatos que recebem, dão sentidos as ações de que participam, e produzem novos significados, porque, embora os significados sejam conceitos, eles não são fixos nem imutáveis; não são eternos, inativos, e sim ferramentas dinâmicas que nos ajudam a decodificar o que é uma coisa (GOHN, 2005, p.32 p.32).

De acordo, com o que foi visto, diz Freire: ninguém é sujeito da autonomia de ninguém, e que os alunos percebam o esforço que faz o professor ou a professora procurando sua coerência (FREIRE, 1996, p.103). É isso, que o Instrutor versus Professor procura nos jovens, ser coerente na sua formação moral, intelectual, educacional, tendo autonomia na construção de uma Vida Nova.

Nesse entendimento, nós instrutores, ficamos com o trabalho Educação para a Vida, baseada nas temáticas: O adolescente/jovem enquanto ser individual e coletivo; o adolescente/jovem enquanto sujeito de conhecimento; o adolescente/jovem e a construção da cidadania; o adolescente/jovem e a inclusão digital. Ao longo do semestre vivenciei com os alunos, o tema adolescente/jovem enquanto sujeito de conhecimento, já que, os conteúdos eram matemática e arte. Esses são os instrumentos essenciais de aprendizagem, os conteúdos instrumentais serão a expressão das compensações em construção por meio das linguagens verbais, artísticas e matemáticas. Alguns já atuam na dança, artesanato, música, teatro e outras modalidades. Na matemática, o interesse era grande por se tratar de disciplina do ensino regular, mostrando interesse e dificuldade, era uma das aula mais esperada pelos jovens. Nesses momentos, que se alternava ora Professora, ora Instrutora, exercia o papel de Instrutora nos conflitos envolvendo a realidade deles se sobrepondo ao conteúdo da aula, ou Professora, quando a matemática e arte se entrelaçavam em artematemática, no momento das atividades pedagógicas.


Lamento, não ter registrado na época que fui Instrutora alguns diálogos, lembro que houve várias situações enquanto sujeito de conhecimento entre nós, não entendia a escolha daqueles jovens, nas histórias de vidas que fazem questão de registrar a todo momento, fatos que vivenciam dentro e fora da comunidade que residem, a turma em silêncio entendia e compartilhava sendo solidários, mostrando compreensão e carinho. Aquilo me deixava impressionada, ao escutar experiência do cotidiano violência, esperança e indignação, nesse caso afirmou Freire:


Muitos terão, possivelmente, sofrido, e não pouco, ao refazer sua leitura do mundo sob força de nova percepção: a de que na verdade, não era o destino, nem o fado nem a irremediável sina explicavam sua impotência [...] carregamos conosco a memória de muitas tramas, o corpo molhado de nossa história, de nossa cultura; a memória [...] clara, de rua da infância, da adolescência (FREIRE, 1984, p.32-33).


Diante disso, entendo que professor e/ou instrutor exerce nos jovens respeito e conscientização, principalmente se forem comprometidos com projetos de educação, dirigidos a populações adultas e geralmente consideradas como marginalizadas de processos nacionais de desenvolvimento (FREIRE, 1980, p.17).



4 -Metodologia


Para a execução desta pesquisa foi utilizada a pesquisa-ação em uma perspectiva qualitativa, numa investigação realista e detalhada dos objetivos propostos. Oliveira (2007), define essa perspectiva como um processo de reflexão e análise da realidade através da utilização de métodos e técnicas para compreensão detalhada do objeto de estudo em seu contexto histórico segundo sua estrutura.

4.1-Amostra e caracterização dos sujeitos


Nesta pesquisa participaram dezesseis pessoas da equipe técnica e coordenação dos programas, tais como: técnico, instrutor, educador social, assistente social, monitor e coordenador que responderam seis questões abertas sobre o funcionamento e suas atividades no programa. O questionário abordava questões envolvendo o trabalho do programa, atividades dos/para os alunos, contribuição e ação pedagógica proposta no projeto pedagógico do Programa. Foram realizados questionários com o Programa Escola Aberta em Olinda e o Programa Conexões de Saberes da UFRPE em Dois Irmãos, Programa Vida Nova do Centro da Juventude em Olinda e Recife. Considerando que nesses programas, a participação, identidade, reconhecimento é uma forma especifica, que leva a mudança e a transformação social, desse individuo (GOHN, 2005), e esse tipo de pesquisa qualitativa teve as respostas na forma especifica, que ajudem na compreensão detalhada do objeto de estudo no seu contexto social.

.
Participaram também trinta e oito adolescentes/jovens, que são os atores das ações dos programas, que responderam as seis questões do questionário, com questões abertas sobre as atividades e suas participações dentro do programa. Na categorização mostrada no quadro abaixo, do ponto de vista didático, a ideia de que o sujeito que aprende o faz a partir de estruturas prévias e de uma maneira ativa, de sua cultura singular. Não responderam apenas como receptor de informações, responderam com suas formulações da experiêcia popular que o programa propõe.


4.2- Categorização da Educação Popular e Multiculturalidade

Categorias Teóricas Categorias Empíricas Unidades de Analises




Educação popular

Conceito sobre Educação Popular como movimento freireano

Explicação sobre perspectiva do jovem no programa

Protagonismo nas ações sociais

Mercado de trabalho
Qualificação
Ação pedagógica
Cidadania
Mudança
Conhecimento
Aprendizagem
Atividade
protagonista




Multiculturalidade Explicação sobre Multiculturalidade
Cultura
Inclusão
Comunidade
Pluralidade
Multiculturalismo
oficinas



5. Perguntas e Respostas da equipe técnica dos Programas

Primeira questão: A sua função no programa contribui em que sentido na Educação Popular dos adolescentes/jovens:

Todos contribuem nas ações e atividades oferecidas pelo programa de forma intelectual e cultural, na elevação de escolaridade de alguns dos jovens.

Realizamos eventos, aulas extras, oficinas culturais e de literatura.

Tem aluno que trabalha como monitor como uma referência para outros alunos.

A contribuição principal é que os jovens aprendam, sejam agente multiplicador, que
melhore sua vida e sua auto-estima, crie hábitos, mude o modo de pensar, agir e
que o conhecimento do aluno valorize a cultura que possui sua peculiaridades
através da metodologia aplicada, estimulando o aprendizado de forma democrática
e participativa, abordando temáticas transversais voltadas as suas experiências.


Sou professora comunitária, participo diretamente com o coordenador da Escola Aberta, oficineiros e alunos. Contribuição esta na socialização e integração dos alunos da escola e comunidade.

Na conscientização de que eles ou qualquer um pode e deve crescer aprender uma profissão ter dignidade, a saber valorizar a si próprio e aos outros ao seu redor.

É um despertador de sonhos, incentivador de aptidões e motivador para ir em busca de conhecimentos ser ouvinte passivo, sempre elevando a estima dos jovens.

Quando fui selecionada para o Centro da Juventude, foi levado em consideração as minhas experiências com juventude e infância em vulnerabilidade, atuo como educadora, mas sempre atuei como educadora alfabetizadora com jovens e adultos.Procuro reforçar com propostas a vontade/desejo de oficinas culturais, literatura, etc.

Segunda questão: O que você fala para os adolescentes/jovens que chegam no programa com perspectiva de ressocialização:

Abracem esta oportunidade que é única, absorvam e aproveitem o processo de
formação cidadã e profissional que vocês são sujeitos do processo de mudança,
e vivencie as normas do programa e o contrato de convivência para melhorar as
relações interpessoais.

Conversamos com eles sobre todas as oficinas trabalhadas, inscrevendo cada um na
oficina em que o mesmo acha que mais se identifica.

A função do educador social é muito complexa, soma atores que procura atuar na
escuta afetiva respeitando as particularidades com ética e sigilo com respeito a
vivência do jovem aguçando, a criatividade você pode, você deve, você é ator de
mudança em sua vida.

Juntos na direção certa, criando vínculo de amizade e respeito para sua vida
dentro da sociedade.

Se prepare para o mercado de trabalho através das atividades sócio inclusivas,
na procura de construir o resgate da cidadania.
Procurar participar das atividades que o centro oferece dando valor a tudo que estar ao seu redor.

Trabalhar com o público jovem não é fácil, então não adianta iludir os jovens com promessas que pode vir a ser cumprida. Então tento orientá-lo da melhor forma possível que esse projeto é uma preparação para a sua vida dentro da sociedade.

Nós tentamos fazer que eles entendam como entrar na Educação Popular para entrar no mercado de trabalho.



Terceira questão: Como vocês trabalham as multiculturas no programa. Explique:

Falando das suas origens, mostrando as diferentes culturas em cada localidade,
nas datas comemorativas, nas temáticas caminhada de paz conhecendo os
pacifistas, socializando as informações dos vídeos, filmes, na oralidade,
pesquisas , cartazes, enquete, hip-hop, teatro, dança, percussão, crochê, frevo, afoxé, maracatu e outros, interagindo na diferença, no pensar, no agir, como forma
de estimular a busca da cultura popular, mistura popular e valorizando tudo que
está ao seu redor.


Quarta questão: A Educação Popular é um movimento freireano, a pedagogia do projeto é Freire ou vocês adotam outro tipo de ação pedagógica. Explique:


O método, se inicia pelo levantamento do universo vocabular dos alunos, um ponto
fundamental do método ´os temas sugeridos a partir das palavras geradoras e dos
fatos que ocorrem no seu dia-a-dia, na sua comunidade são desenvolvidas em
forma de histórias ou contos, tirando daí, ortografias e gramáticas para eles
apresentarem em forma de peças teatrais.

É freireano, com temas, assuntos e fatos que correm no seu dia-a-dia, na sua comunidade. Assim são desenvolvidos, em forma de contos ou estórias, tirando daí, ortografias e gramáticas e até algumas peças e apresentações.

Buscando direcionar a metodologia de Paulo Freire, que é inclusiva e participativa
através da realidade do aluno carente.

Adotamos outro tipo de ação pedagógica, para melhorar a vida dos jovens na qualificação profissional, onde cada curso desenvolve suas técnicas, teorias e práticas.

Não discuto essa pedagogia.

Não. Atendemos a comunidades carentes tentando levar aos participantes, além das oficinas comuns as escolas abertas, introdução aos valores humanos.

Questionamos as diferenças do pensar, dos agir como forma de estimular a busca da cultura popular que são apresentadas por meios de grupos de danças, teatros, posesia, etc. Todos da cultura popular.


Quinta questão: Qual o tipo de público que o programa atende:

O atendimento são jovens em situação de rua, alta vulnerabilidade, usuário de drogas com alto risco de violência, um público que está em estado de exclusão social em geral carentes de apoio dos órgãos públicos e com problemas familiares, alunos da FUNDAC, todos na faixa etária de 17 a 29 anos dos bairros de Olinda e Recife, que necessitam de uma base para a sua formação pessoal e profissional.



Sexta questão: Apesar de todas as dificuldades que vocês enfrentam, o que sabem sobre Educação Popular versus multiculturalidade dentro deste espaço aberto a comunidade:


A Educação Popular é todo o ensino que levam os alunos a terem uma formação educacional, ou uma educação diferenciada, eles buscam as suas raízes culturais que através dela ser útil no seu dia-a-dia e para melhora de vida.

Conheço a Educação Popular versus Multiculturalidade porque temos seminários e o programa Escola Aberta para Cidadania está no meio cultural, a educação começa de casa, a explicação do programa muda a mentalidade do aluno.

Contudo a maior dificuldade em integrar alguns jovens que se postulam viciados e que tem na violência um tipo de idéia fixa, tipo uma cultura de violência justamente são os mais carentes de educação básica e valores morais.


Desconheço esse assunto.

Todos os cursos oferecidos pelo centro onde o aluno desenvolve o seu lado artístico.

Nessas respostas, aprendizagem e ensino nos programas são oferecidos nas interações com as oportunidades, diz Alarcão, que o mundo oferece. Mas do que isso: aprender a ser aprendente ao longo da vida [...] observa o mundo e se observa a si, se questiona e procura atribuir sentidos aos objetos, aos acontecimentos e as interações (ALARCÃO, 2008, p.26).




5.1. Perguntas e respostas dos adolescentes/jovens


Apresentamos todas as questões respondidas pelos 38 alunos do Programa Escola Aberta e Programa Vida Nova, do questionário com seis questões abertas, da seguinte maneira: 1- Você mora com sua família ou com outras pessoas?; 2 -Você estuda?; 3-O que você espera desse projeto e quais as suas perspectivas em relação a ele?; 4-A comunidade oferece outros programas ou movimentos?; 5-Você acha que precisa desta Educação Popular e multicultural? Por que?; 6- Como você tomou conhecimento desse programa?


A maioria dos alunos, moram com a família, estudam, pois é um dos requisitos para permanecer no programa. Nesse sentido, o programa oferece qualificação profissional para empregabilidade, alguns encaminhamentos com parcerias de empresas privadas e as perspectivas em relação ao programa são: emprego, conhecimento, oportunidades, um futuro melhor, desenvolver habilidades, ser bem preparado, ter boa educação, tornar-se bom cidadão, estágio, amizade, coisas boas, tirá-los das drogas, melhor infra-estrutura e aumentar a quantidade de vagas no programa. Por tudo isso, eles acreditam no programa, citam outros do seu conhecimento tais como: Retome a Vida, PETI, Rede Jovem, Projovem, Adolescer, Meninos e Meninas de Santo Amaro, Programa Agente Jovem, Teatro de Rua (língua ferina de Peixinhos), Conselho de Moradores e outros.


Nas últimas questões, os jovens dos programas são unânimes na necessidade de participar do programa Vida Nova no Centro da Juventude e respondem:


A educação nunca é demais porque aprendem, tem conhecimentos, se não fosse a educação
não estaríamos aqui.

Aprender algo novo é sempre muito bom e interessante.



Vou me disciplinar, serve como uma terapia que disciplina, corrige e educa como a arte marcial.

Saber separar as coisas que passam experiências para o mercado de trabalho, multiplicar os conhecimentos.

Todo ser vivo existente na terra deve ter uma cultura e conhecer as outras culturas, porque esse programa pode me constituir de ser alguém no futuro.

Dar continuidade ao que eu aprender, aprender coisas novas que vão mudar minha vida mais tarde.

Ninguém sabe tudo.

A gente aprende como se em turma com vários tipos de pessoas e respeita cada um.
Eu ser alguém na vida.

Conhecer melhor o bairro onde moro e poder passar minhas informações para os amigos.


Todos os jovens chegaram ao Programa Vida Nova encaminhados por amigos, comunidade e outros, frequentam cursos profissionais: Telermarketing, Recepção em hotelaria, Inclusão digital, Elevação de escolaridade, Estética Caplilar, Garçom, Manutenção de Micro, Grupo cooperativo, Culinária, Informática, Costumização e artesanato, Construção civil, além de atividades esportiva e lazer. O Programa Escola Aberta nos finais de semana parceria com Conexões de Saberes oferece: esporte, lazer, reforço escolar, artesanatos, vôlei, taekwondo, futebol, capoeira, coral, dança popular, frevo, afoxé, swingueira, percussão e outros, existe uma proposta para o programa Escola Aberta, funciona nas escolas todos os dias da semana.



5.2. Perspectiva dos adolescentes/jovens


Nas respostas dos jovens, todos esperam se qualificar profissionalmente ingressar no mercado de trabalho, ter uma boa educação. Nesse sentido, passamos a transcrever o que eles escreveram:


Davi: Eu espero que esse programa me leve a um estágio. E minhas perspectiva é que um dia eu possa sair empregado.


Hoje, a lei acoberta o programa de aprendiz, lei no artigo 227-CF/88, que tem como finalidade: É dever da família e do Estado assegurar ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito a profissionalização. Isso como forma de romper o ciclo perverso, excludente e hereditária da pobreza. A nova aprendizagem defendida pela Educação Popular, processo que tem por finalidade preparar o homem para o exercício pleno da cidadania e a sua qualificação para o trabalho, visando o permanente desenvolvimento de aptidões para a vida produtiva interagindo as diferentes formas de educação incorporando processos que desenvolvam o raciocínio, critico e criativo que ocorre em instituições especializadas ou no local de trabalho (Glossário da Educação popular SENAI/DN,1999).


Rosiane: Espero que o projeto continue ajudando os jovens de Santo Amaro e outras comunidades.


Os programas sociais estão na comunidade atendendo aos jovens moradores, a comunidade é entendida, segundo Max Weber, como um grupo que se pertence por aceitação de valores afetivos, emotivos ou tradicionais, considerando que a ação comunitária refere-se a ação que é orientada pelo sentimento dos agentes pertencerem a um todo (BARSA, 1979). Portanto, a comunidade seria pois, um tipo especial de associação que teria a ver com as imposições profunda do próprio ser, que diz respeito mais a vontade de escolher.








5.3 . Por que da Educação Popular e Multicultural


Jéssica: Preciso porque sem a educação, a gente não significa nada e a multicultural, é uma coisa boa que vem de dentro da gente e que passa a energia pra outras pessoas.

Elaine.: Para ficarmos ricos em conhecimentos e desempenhar bem a função no mercado de trabalho.

Nas respostas das jovens, notamos a preocupação com a educação e sua importância para a vida delas, diz Trindade, a educação representou, especialmente aqui no Brasil, um meio de ascenção das classes pobres, um meio de ascensão social (TRINDADE, 2002, p.30), e Souza acrescenta:

Desenha-se como exigência da Educação Popular, o fortalecimento da dimensão pedagógica das ações coletivas escolares ou dos movimentos sociais a fim de que aumente sua capacidade de contribuir com a construção dos poder dos segmentos populares da sociedade em suas ações locais e globais tendo em vista [...] o sentido de mobilizador dos valores da justiça da solidariedade, e da igualdade, bem como o protagonismo dos movimentos sociais, populares e políticos (SOUZA, NUPEP, p.5).

Neste protagonismo, os jovens entendem suas reais necessidade de saber, de conhecer, de trabalhar a vida através da arte, de fazer deste momento de juventude, que é singular na vida de todos os momentos de seu crescimento seguro, com informação e maturidade, com responsabilidade e sabedoria, com respeito aos seus limites e a sua individualidade compreendendo seu processo de evolução. Diante disso, existe a reflexão multiculturalidade da jovem:


Wanessa.: Podemos conhecer um pouco da cultura nordestina, da cultura brasileira que deram origem ao nosso país.


Nos PCN, essa pluralidade cultural está, no respeito ao conhecimento e a valorização das características étnicas e culturais dos diferentes grupos sociais que convivem no território nacional, as desigualdades socioeconômicas e a critica as relações sociais discriminatórias e excludentes que permeiam a sociedade brasileira (PCN, 1979, p.19). Neste caso, a multiculturalidade e pluriculturalidade, são sinônimos de cultura, e consiste reconhecer a existência dessa sociedade plural e diferenciada promovendo as diferentes culturas.



Jefferson: Quero ter outros horizontes e contribuir com políticas públicas e social do
bairro, é uma instrução a mais além do currículo escolar.



Esse jovem foi mais além, tem preocupação com o bem estar social, político e educacional, é esta educação popular que faz a escola cidadã, segundo Fávero, a educação para a cidadania passa por ajudar o aluno a não ter medo do poder do Estado, nem tampouco ambicioná-lo como forma de subordinar seus semelhantes. Esta é a cidadania que almejamos. (FÁVERO, 2002, p.124).


6- Explicação sobre as multiculturas no programa


Neste item vamos analisar as respostas da equipe técnica.

Instrutora:Trabalhamos as multiculturas através de atividades e temas transversais desenvolvidos e socializados pelos instrutores em sala de aula. Culminamos os temas com apresentações de cartazes, enquetes, palestras, hip-hop, etc, tudo produzido pelos jovens. Sempre que possível temos convidados nas programações culturais no Centro da Juventude (Maria de Lourdes).


Educador: A partir de reuniões com representantes de turma, a coordenação pedagógica organiza o planejamento geral através de oficinas culturais temáticas. Ao final do mês faz-se a culminância dos temas vivenciados onde é socializado com todos de maneira festiva, em equipe e por sala de aula (Edna Souza).


Nessas atividades, são incorporadas questões da ética, da pluralidade cultural, do meio ambiente, da Saúde, e da Orientação Sexual, em que os jovens aprendem com a cultura, em que a convivência e a comunicação transferem tipos e modos de saber necessário a reprodução da vida individual e coletiva. Contudo, a educação forma comenta Brandão, a personalidade do individuo médio e o prepara para viver a cultura: é pela educação que a gênese da cultura se opera no individuo. Pode-se descrever a cultura mostrando como o individuo a assimila e como nele se constitui, a medida que ele vai assimilando (BRANDÃO, 1984, p.18).



6.1. Explicação da Ação Pedagógica


Assistente: Nossa proposta pedagógica é baseada no jovem enquanto agente de sua
formação social e profissional, o jovem cidadão e ator em sua comunidade na perspectiva da mudança de acordo com Paulo Freire (Bruno Hermes).


Educador: Penso que, Paulo Freire está presente quando a literatura de cordel,a percussão, a dança afro a poesia popular e clássica são pluralmente articulados em sala de aula. a forma de ensinar, de construir conhecimentos tem sim, um viés freireano (Edna Souza).


Instrutor: Ensinamentos num formato mais dinâmico, dando aos jovens autonomia e responsabilidades, os que aprendem ensinam aos mais fracos criando um apadrinhamento entre eles com a idéia que um é a força do outro(Rubem Gusmão).

Segundo Lira, Paulo Freire entende a cultura com uma produção especificamente humana que ao mesmo tempo pode contribuir a construir a construção da humanidade do ser humano, ou, mais ainda, garantir na história da terra e da humanidade, a marca que nos distingue como humano em meio aos seres (SOUZA, 200l, p.56-57). E quando a mudança, Paulo Freire combate a concepção ingênua da pedagogia que se crê motor ou alavanca da transformação social e política. A tradição pedagógica insiste ainda hoje em limitar o pedagógico a sala de aula, a relação professor-aluno, educador- educando, ao diálogo singular ou plural entre duas ou várias pessoas. Não seria esta uma forma de cercear, de limitar a ação pedagógica? (GADOTTI, 1979, p.10-15).



6.2. Sabendo sobre Educação popular versus Multiculturalidade


Instrutora: Abraçar o que nos é ofertado pelo"povo" a sabedoria do trabalho dos mais
"velhos" da comunidade, as atividades dos mais jovens (Maria da Conceição) .

Educador: São caminhos que cruzam, com a Educação Popular o jovem aprende com
elementos recicláveis, costumes, estórias, fatos, acontecimentos marcantes, fotos e movimentos criados dentro de sua comunidade, que tudo isso pode ser mostrados de forma multiculturais como música, dança e apresentações (Jodson Laurentino).

Instrutor: Maior dificuldade em integrar alguns jovens que se rotulam viciados e que tem na violência um tipo idéia fixa tipo uma cultura de violência, justamente são os mais carentes de educação básica e valores morais (Rubens Gusmão).


Educador: A comunidade de Santo Amaro é muito rica em movimentos culturais, ONGs que tratam de cultura voltada para o jovem. A intenção de ativar, efervecer , de brotar as expressões de cultura e arte seja no programa e na comunidade. A Educação Popular é presente nas pessoas principalmente no jeito de pensar, vestir, comer, se organizar. A multiculturalidade, é algo "novo" é uma expressão "nova", porém já havia, afinal Pernambuco, Recife é um berço cultural, plural, filisófico onde todas as tribos expressam suas culturas (Edna Souza).

Educador: A partir das atividades propostas diante do projeto pedagógico estimulamos a participação dos alunos nas atividades desenvolvidas como dança, coral, percussão valorizando os saberes populares dos alunos (Maria Angélica).


De fato, com as expressões culturais nas atividades, a aprendizagem é recriada na cultura e a educação forma a personalidade do individuo médio e o prepara para viver a cultura: [...] ele vai assimilando (BRANDÃO, 1984, p.18). Tudo isso tem em comum a identidade cultural na prática educativa do programa.


Por isso, a multiculturalidade, que iniciou no século XX, tem uma relação de cultura, diversidade com a Educação Popular numa relação social que coincidem com as fronteiras geográficas de cada comunidade ou região nos seus costumes, tradições, ideologias, deixam de ser marcadas por fronteiras territoriais. A Educação popular é contrária ao multiculturalismo em que uma valoriza o saber social na dimensão pedagógica das ações coletivas escolares ou dos movimentos sociais a fim de que a construção do poder dos segmentos populares da sociedade em ações locais, em projetos e programas como práticas de educação popular com os participantes dos projetos (SOUZA, 1996, p.6). Podemos comparar Educação Popular versus Multiculturalidade nos comentários:


Monitor: Não vejo uma diferença relevante entre ambas as partes, educação e
multiculturalidade tem muito a ver uma com a outra (Paulo Adriano).


Educadora: É uma educação diferenciada, eles buscam suas raizes culturais, que através dela pode ser útil no seu dia-a-dia, para melhora de vida (Maria Lucia).


Instrutor: Não sabia destas informações, tomei conhecimento através da pesquisadora (Ebson).


A globalização atual, provocadora das diversas transculturações que vem se verificando nos últimos 50 anos, não provoca uma unidade na diversidade de culturas, mas sim uma diversidade cultural ou pluriculturalidade que tende, predominantemente, a fragmentação cultural, como tem sido identificado por vários pesquisadores, entre eles Walerstein (1996), Ianni (2000), o próprio Paulo freire (1992, 1993, 1996). Os diferentes movimentos sociais tem denunciado permanentemente essa problemática. Hoje, esses processos estão marcados pela diversidade cultural entre as nações, no interior de cada nacionalidade, a partir de diferentes recortes ? como classe, etnia, sexo, gênero, idades, religiões, opções políticas e religiosas, entre outros ? que criam identidades, pluriculturalidade, bem como possibilidades/dificuldades para a interculturalidade e probabilidades/obstáculos à multiculturalidade (SOUZA, 2007, p.296).


Em outro momento, Souza esclarece, [...] a partir da experiência da interculturalidade nas instituições educativas, com a construção da multiculturalidade possa vir a ser a característica fundamental de uma sociedade democrática (SOUZA, 2002), isso quer dizer que a diversidade cultural pode possibilitar um diálogo inter e intracultural na construção de processos educativos com as camadas populares, trabalhando pelo diálogo entre as culturas, por meio de sua prática pedagógica.


Enquanto, o multiculturalismo é um fenômeno debatido pelos críticos, a multiculturalidade implica respeito ao outro, diálogo com os valores do outro, junto com a Educação Popular enquanto mudança implica Freire, em si mesma, uma constante ruptura, ora lenta, ora brusca, da inércia a estabilidade encara a tendência desta pela cristalização (FREIRE, 1985, p.47). Dentro desta visão, fizemos a leitura do Protagonismo juvenil, que deve ser para o jovem uma leitura de ação do reflexo de seu desejo em conquistar metas, porém, na busca das soluções, fazendo uso dos conhecimentos e que sejam eficientes, para a sua formação, e o mais importante, que tomem consciência de sua realidade para o seu crescimento como cidadão.






Considerações Finais

A Educação é Popular, é o povo, no protagonismo social, na elevação de escolaridade dos jovens, numa pesrpectiva estratégica de alfabetização no Brasil, representam a autenticidade de uma legitima prática pedagógica e educativa. Como movimento popular, ela se situa hoje, segundo Costa, a concreção de espaços de reflexão na busca das soluções coletivas para os problemas da maioria das populações latino-americanas do continente é o desafio maior das ações coletivas tanto escolares quanto dos movimentos sociais (COSTA, 1998, p. 21). Nos programas sócio-educativo, é vista como um ato de conhecimento e de transformação social que utiliza o saber cultural da comunidade como matéria para um ensino plural, que valoriza características dos diferentes grupos sociais, as desigualdades socioeconômicas e as relações excludentes.


Buscamos mostrar a Educação Popular e a Multiculturalidade, nos conceitos dos participantes dos programas, nas falas simples respondidas nos questionários, demonstrando que o diálogo prevalece e os círculos de cultura, continua vivo na escuta afetiva, no confronto do saber com a real situação da aprendizagem, fazendo com que essa prática educativa seja a combustão da educação popular obrigatória.

.
Se recordar é viver, revivi nesta pesquisa os momentos pedagógicos e culturais, nas respostas destes jovens e coordenadores, numa mistura de compromisso educacional as vezes conflitantes, outras vezes alegres e descontraídos, como o hap, contando fato de sua vida real do ex- aluno do Centro da Juventude, e agora monitor do Programa Vida Nova, Mc Flávio canta, Se liga irmão, um novo jeito de rimar:


Se liga irmão, já fui drogadão,
isso não tem cabimento.
Eu tô estudando, me qualificando
agora é esse o meu procedimento
Vivia nas ruas sendo injusto
isso nunca quero mais.
Agora ando certo, tento ser correto
vida com drogas nunca mais;
As trombas é o remédio
pra aprender viver o dia-a-dia,
A garotada de hoje, em dia
não respeita pai, nem mãe e tia
Eu falei várias vezes, não fico cansado
e novamente vou falar
Se liga meus jovens é bom tá ligado
essa vida não tem o que dar
Por isso, te digo, te sai logo disso
não quero te ver no presídio
Lá dentro, humilhado e arrependido
lavando roupa de bandido.
Porque essa vida,
não tem o que dar não meus amigos,
Eu canto de coração,
deixa a ganância e ambição,
Fala pouco e baixo no coração.
Mc Flávio canta real sem kaô,
Mc Flávio bate a real sem kaô,
Mc Flávio canta mais é sem kaô,
Mc Flávio canta mais é por amor.

( Flávio Antonio Ferreira).

Referências

ALARCÃO, Isabel. Professores reflexivos em uma escola reflexiva. 6ª ed. São Paulo, Cortez, 2008.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Educação Popular.Brasiliense,, 1985.
BASTOS, Laura. Pernambuco em poesia.Recife: editora do Autor, 2002.
BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Pluralidade cultural, orientação sexual. Brasilia: MEC/SEF, 1997.
COSTA, Marisa Vorraber, et al. Educação Popular hoje. São Paulo: Loyola, 1998.
FÁVERO, Osmar. Democracia e construção do público no pensamento educacional. São Paulo: Vozes, 2002.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Minidicionário século XXI escolar.4ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
FREIRE, Paulo. Educação e mudança. 7ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
_______. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários a prática educativa, 21 ed.São Paulo: Paz e Terra. 1996.
_______. Pedagogia da Indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: Editora Unesp, 2000.
GOHN, Maria da Glória. O protagonismo da sociedade civil: movimentos sociais. ONGs e redes solidárias. São Paulo: Cortez, 2005.
JUREMA, Ana Cristina Loureiro, Thamy Pogrebinschi. Sociologia. 1ª ed. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho, 2008.
MANTOAN, Maria Teresa Eglér. Inclusão escolar: o que é? por quê? como fazer? São Paulo: Moderna, 2003.
MC, Peter. Multiculturalismo revoluvionário: pedagogia do dissenso para o novo milênio. Porto Alegre: Artes Médica , 2000.
OLIVEIRA, Maria Marly de. Como fazer projetos, monografias, dissertações e teses. 3ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.
Programa de Aprendiz. http://www.mte.gov.br/
SECAD ? Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade.
http://portal.mec.gov.br/secad/arquivos.
Seminário Nacional Anais: Programa Conexões de Saberes: II Seminário Nacional. ? Brasília: Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, 2006.
SILVA, Francisco de Assis. História. São Paulo: Moderna, 2001.
SOUZA, João Francisco. E a Educação popular: ? Quê??. Uma pedagogia para fundamentar a educação inclusive escolar. NUPEP.
TRINDADE, Azoilda Loretto da, Rafael dos Santos.(orgs) . Multiculturalismo: mil e uma faces da escola. 3ª ed. Rio de Janeiro: DP&A editora, 2002
























 
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Revisado por Editor do Webartigos.com


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