EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS: POR UM ENSINO DE QUALIDADE
 
EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS: POR UM ENSINO DE QUALIDADE
 


Walérya Caminha

RESUMO

A Educação para Jovens e Adultos (EJA) é uma forma de ensino da rede pública no Brasil, com o objetivo de desenvolver o ensino fundamental e médio com qualidade, para as pessoas que não possuem idade escolar e oportunidade. Essa educação, visa à transformação necessária, com o objetivo de cumprir de maneira satisfatória sua função de preparar jovens e adultos para o exercício da cidadania e para o mundo do trabalho, necessita de mudanças significativas.

PALAVRAS - CHAVES: Educação de adultos; Leitura; Alfabetização de adultos.

ABSTRAT

Education for Youth and Adults (EJA) is a form of education of the public in Brazil, aiming to develop the elementary and high school quality, for people who do not have school age and opportunity. This education aims at the transformation needed in order to fulfill its function in a satisfactory way to prepare youth and adults to the exercise of citizenship and the world of work, it needs significant changes.

KEY-WORDS: Adult Education; Reading; Literacy for adults.

1. INTRODUÇÂO

Toda a história das idéias em torno da alfabetização de adultos no Brasil acompanha a história da educação como um todo que por sua vez, acompanha a história dos modelos econômicos e políticos e conseqüentemente história das relações de poder dos grupos que estão no poder.

A alfabetização de adultos tem sido alvo de lutas de interesses e movimentos distintos na história da educação.

A educação de jovens e adultos é um campo de práticas e reflexão que inevitavelmente transborda os limites da escolarização em sentido estrito. Primeiramente porque abarca processos formativos diversos, onde podem ser incluídas iniciativas visando a qualificação profissional, o desenvolvimento comunitário, a formação política e um sem número de questões culturais pautadas em outros espaços que não o escolar. Além disso, mesmo quando se focalizam os processos de escolarização de jovens e adultos, o cânone da escola regular, com seus tempos e espaços rigidamente delimitados, imediatamente se apresenta como problemático.

Trata-se, de fato, de um campo pedagógico fronteiriço que bem poderia ser aproveitado como terreno fértil para a inovação prática e teórica.

Quando se adotam concepções mais restritivas sobre o fenômeno educativo entretanto, o lugar da educação de jovens e adultos pode ser entendido como marginal ou secundário, sem maior interesse do ponto de vista da formulação política e da reflexão pedagógica . Quando, pelo contrário, a abordagem do fenômeno educativo é ampla e sistêmica, educação de jovens e adultos é necessariamente considerada como parte integrante da história da educação em nosso país.

Historicamente, durante muitos anos, a Educação de Jovens e Adultos não se chamava assim. Ela já se chamou madureza, suplência, supletivo, alfabetização entre outros nomes. Por não representar um direito, este ensino nem sempre foi assumido por profissionais do ensino. Era muitas vezes atendido por pessoas de boa vontade, voluntários ou mesmo por docentes que aplicavam sobre adultos os mesmos métodos que trabalhavam com crianças e adolescentes.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional não quis deixar este campo em aberto. Ela exige que seus professores, além de serem competentes como quaisquer outros profissionais do ensino, devem saber que vocês não são crianças nem adolescentes. Devem aprender com vocês, pois muitos deles são mais jovens que vocês e nem têm tanta experiência quanto a que vocês possuem em determinadas áreas. Eles sabem que vocês estão começando ou recomeçando a vida escolar como jovens e adultos, freqüentando uma escola num horário em que poderiam estar em casa. Eles sabem que este é um direito sério e sagrado.

2. ALFABETIZAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS

O grupo cultural constituído pelos chamados analfabetos que vivem inseridos na sociedade industrial contemporânea tem, como discutimos anteriormente, um lugar social bem definido e a característica de não dominar completamente o sistema simbólico da escrita. A identidade de um membro desse grupo constrói-se, em grande parte, por uma negação: ele é não- alfabetizado, não dominao sistema da escrita, não tem acesso a certos modos de funcionamento claramente presentes na sociedade em que vive. Sua situação é muito diferente da situação em que vive numa sociedade sem escrita, relativamente isolada do mundo letrado (um grupo tribal, por exemplo). Um membro de uma sociedade sem escrita vive como os demais de seu grupo social e se insere numa cultura em que a ausência de escrita não é uma lacuna, mas é parte integrante do modo de funcionamento predominante nessa cultura. Ser iletrado é uma característica que explica a pertinência do indivíduo a um grupo cultural sem escrita; ser analfabeto na sociedade letrada, por outro lado, é uma característica que indica a ausência, no nível individual, de uma competência presente e valorizada nessa sociedade.

As outras características desse grupo cultural tão homogêneo (posição subalterna na sociedade, baixa qualificação profissional, origem rural, falta de escolaridade) explicam a falta de oportunidade de acesso ao domínio da capacidade de leitura e escrita, e ao mesmo tempo, combinam-se com o não-domínio da escrita para definir a situação do analfabeto como a de um indivíduo com lacunas na sua constituição como membro de uma cultura letrada.

A questão das relações entre cultura e pensamento ganha, nesse caso, uma dimensão específica: não comparando sociedades científicas e não-científicas, sistemas astronômicos de grupos indígenas com a astronomia construída pela ciência contemporânea, formas de classificar plantas para uso religioso com a classificação da Botânica. Estamos, isto sim, comparando subgrupos de uma mesma cultura abrangente, que vivem integrados na vida urbana, industrial, burocratizada, com forte presença dos meios de comunicação de massa, e têm condições diversas de interação com esse material cultural. O pensamento de um indígena que classifica a baleia como peixe, porque na sua cultura não existe a informação de que a baleia é um mamífero, e o pensamento de um analfabeto que diz que "estamos no ano 15", porque é o 15º aniversário de uma rede de televisão, têm conseqüências diferentes para a discussão das relações entre cultura e pensamento. O indígena está falando a linguagem de sua cultura; o analfabeto está interpretando mal um dado por falta de instrumental para lidar com uma informação de sua própria cultura.

3. O PAPEL DO PROFESSOR NA CONSTRUÇÃO DE CONHECIMENTO DE SEUS ALUNOS

Numa concepção construtivista de educação, o professor não é, nem tampouco pode ser, mero espectador da construção de conhecimentos de seus alunos. Cabe a ele o papel de organizar as situações de aprendizagens, as intervenções pedagógicas que auxiliem os alunos em suas próprias construções, que considere seus conhecimentos e os mecanismos envolvidos nessa construção, além das questões relacionadas à didática do objeto a ser ensinado e aprendido.

A atuação do professor torna-se necessária para que os alunos avancem, aprendam e desenvolvam suas competências, em situações didáticas planejadas, com objetivos previamente definidos, em tarefas que propõem desafios, com organização das formas de trabalho, previsão do tempo a ser utilizado e intervenções pedagógicas consistentes.

Mas, como isso se realiza na prática pedagógica? Como realmente realizar intervenções pedagógicas adequadas para que os alunos avancem em seus conhecimentos? O que se deve levar em conta para que a aprendizagem realmente ocorra?

Estas são questões que rodam o cotidiano dos educadores compromissados com sua prática, que esperam que seus alunos estejam envolvidos em uma realidade de sucesso escolar e não do fracasso, como tem sido.

Não existem fórmulas mágicas, nem receitas a serem seguidas para que os professores possam garantir que seus alunos aprendam. Mas, existem alguns pressupostos importantes, que necessitam ser considerados no processo de ensino e aprendizagem e que podem auxiliar na reflexão sobre como proceder para que a aprendizagem ocorra.

Em um contexto que considera o aluno como construtor de conhecimentos, o professor deixa de ser mero transmissor de conhecimentos definidos por uma lógica externa ao aluno, para considerar seus conhecimentos prévios, as suas possibilidades de aprendizagem e as características do objeto a ser ensinado.

É fundamental que os professores consigam conhecer o que seus alunos sabem sobre o objeto de conhecimento a ser ensinado e aprendido, pois é a partir da possibilidade de relacionar o novo conhecimento com o conhecimento que possui que a aprendizagem ocorre. Assim, quando o professor toma conhecimento sobre os conhecimentos prévios de seus alunos pode planejar situações didáticas que tentem garantir a aprendizagem, ou seja, que permitam que o aluno consiga estabelecer relações substantivas e não-arbitrárias entre o que aprendeu e o que já conhecia.

As situações didáticas planejadas não podem considerar que o simples contato do aluno com o objeto de conhecimento promova a aprendizagem, ou que a simples imersão do aluno em ambientes informadores garanta o aprendizado. Caso isso ocorresse, não teríamos membros não alfabetizados em comunidades letradas. A intervenção pedagógica deliberada é essencial para que a aprendizagem ocorra, o professor deve planejar situações desafiadoras, ou seja, boas situações de aprendizagem.

4. IMPORTÂNCIA DA LEITURA

A leitura sempre foi e continua sendo muito importante, pois sem leitura não temos como desenvolver a escrita, nem enriquecermos a fala. É a partir dela que alimentamos nosso vocabulário para melhor comunicação com os mais diversos públicos.

Para cultivar o hábito da leitura, necessário se faz estabelecer no projeto político pedagógico da escola, o princípio da leitura para todos os conteúdos a serem trabalhados no currículo dos cursos oferecidos pela unidade escolar, e, em cada situação uma leitura crítico reflexiva, onde o compreender lido imponha-se.

Este hábito deve ter início com a chegada do aluno ao estabelecimento de ensino, em qualquer idade e com indicação de leituras adequadas ao seu estágio de desenvolvimento intelectual. Essa iniciação provoca à formação de bons leitores, especialmente, após deixar a escola. As leituras fora da escola deixaram de ser indicadas, portanto, deverá o aluno estar capacitado a selecionar suas leituras pelo gosto adquirido quando no espaço da escola.

O alcance deste objetivo, formação do hábito da leitura, como projeto político-pedagógico da escola, somente poderá ser alcançado com uma ação voltada à proposta filosófico pedagógica do educar para o pensar. Daí se faz ser necessário a presença de professores reflexivos, atuando de forma articulada na perspectiva de formar para um fazer crítico reflexivo e criativo, onde o preparar para continuar aprendendo seja uma ferramenta utilizada no fazer pedagógico de todos e de cada um.

5. A IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS

A importância de se investir na educação de jovens e adultos no Brasil reside, primeiramente, no reconhecimento dessas pessoas como sujeitos de um direito universal que, em virtude de situações de desigualdades, lhe foi negado no passado e lhe é dificultado no presente. 

Propomos que as políticas públicas, tomadas como instrumento para a concretização de direitos, sejam, na área da educação, propositadamente dirigidas a estas pessoas. Isto implica em admitir que um direito universal só se realiza universalmente quando são reconhecidas e acolhidas as especificidades daqueles que não são atingidos pelas ações gerais na formulação da ação do Estado.  

As ações de caráter afirmativo, ou discriminações positivas são muitas vezes denominadas "focalização", e criticadas porque esta noção se contrapõe à de universalidade, característica inerente às políticas públicas. Sem desconsiderar o debate em torno deste tema, sobretudo em relação ao seu significado para o estabelecimento de critérios para a alocação de verbas públicas, acreditamos que reivindicar o caráter de ação afirmativa para a educação de jovens e adultos, ao contrário, é uma etapa decisiva no processo de universalização da educação no Brasil. 

Não há, neste caso, a tensão colocada entre universalidade e focalização nas ações públicas como a que decorreu sobretudo a partir do evento do Fundef (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério), que centrou suas ações de financiamento apenas em crianças de 7 a 14 anos, excluindo pessoas jovens e adultas do ensino fundamental, sem falar das crianças pequenas da educação infantil, e os jovens e adultos do ensino médio. 

O que se propõe, então, é a garantia, a grupos específicos, de acesso diferenciado a serviços e ações públicas destinadas à realização de direitos, ampliando as possibilidades de desenvolvimento, pessoal e coletivo. A importância de se investir na educação de jovens e adultos reside no fato de ser uma ação afirmativa para superação das desigualdades. Isto implica no reconhecimento da sua particularidade no contexto da universalidade do direito humano à educação e da condição de exclusão deste grupo, baseado na ausência da oferta dos serviços escolares. 

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Educação de Jovens e Adultos é um direito tão importante. É tão valiosa que ela é uma condição prévia a muitas outras coisas de nossa sociedade: ler livros, entender cartazes, escrever cartas, sentar-se ao computador, votar com consciência, assinar o nome em registros, ler um manual de instruções e, se você for um poeta ou um músico, escrever e ler seus próprios versos e notas. Assim você estará participando também do mundo da cultura escrita.

Ao entrar em um curso de Educação de Jovens e Adultos, você não estará apenas sendo alfabetizado. Isto é muito pouco para o conteúdo do direito à educação. Além da alfabetização, você terá, ao longo de certo tempo, o acesso a vários conhecimentos que serão importantes para você conhecer o mundo em que vive e para poder agir sobre ele com consciência. Assim, você conhecerá conteúdos importantes de Matemática, pois só saber contar é pouco. Você saberá mais sobre a Geografia e a História do Brasil e do mundo. E poderá se expressar em sua língua materna com precisão também na escrita. E terá conhecimentos importantes próprios das Ciências que explicam as coisas materiais, as doenças, a fórmula de um remédio, a composição de uma bebida e o som de uma corda de viola.

É verdade que alguns colegas de vocês podem preferir estudar em casa, sozinhos ou com outros, tendo um curso a distância, por correio, rádio ou televisão. Sendo assim, caso queiram obter um certificado de conclusão, deverão prestar os chamados exames supletivos "abatendo" matéria por matéria.

Não podemos fechar as possibilidades e as alternativas de as pessoas estudarem e prestarem exames oficiais. Mas quem estuda em um curso presencial e é avaliado durante toda a duração deste curso fará todo seu trajeto nesta escola e ela mesma poderá certificá-los. Mas atenção! Esta escola tem que ser autorizada e reconhecida pelos poderes públicos, em especial pelos Conselhos de Educação e pelas Secretarias de Educação.

Estes cursos devem apresentar para vocês as datas de validade desta autorização e deste reconhecimento.

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAMBERGER, Richard. Como incentivar o hábito de leitura. 7 ed.São Paulo: Ática,2002

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 15 ed. São Paulo: Cortez, 1982.

GADOTTI, Moacir; ROMAO, José E.(orgs). Educação de jovens e adultos. 4. ed. São Paulo: Cortez: Instituto Paulo Freire. 20

KLEIMAN, Angela; SIGNORINI, Inês (Org.). O ensino e a formação do professor: alfabetização de jovens e adultos. Porto Alegre: Artmed, 2000.

DEMO, Pedro. A nova LDB: ranços e avanços. 19. ed. Campinas: Papirus, 2006.

 
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Sobre este autor(a)
Waléria Caminha, 23 anos.Natural da cidade de Aracati - CE.Formada em Letras pela Faculdade do Vale do Jaguaribe-FVJ, Pós-Graduada em Gestão e Coordenação Escolar, na mesma. E-mail: [email protected]
Membro desde novembro de 2008
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