Deus, Segundo A Filosofia De Descartes
 
Deus, Segundo A Filosofia De Descartes
 


INTRODUÇÃO

É inquestionável a importância de nos ocuparmos com problemas clássicos da filosofia.Estudar e procurar um filósofo clássico, como Descartes, já possui em si relevância.Olhar para a filosofia cartesiana, é olhar para o marco da filosofia moderna.Esta, por sua vez, caracteriza-se pelo fato de colocar na razão o fundamento de todas as coisas, ou seja, a razão buscará nela mesma a sua própria fundamentação.

Encontramos, portanto, na filosofia de Descartes uma grande mudança de paradigma.É no cartesianismo que se fundamenta a gênese do paradigma da consciência.A subjetividade expressa pelo eu pensante tornou-se o novo ponto de partida da filosofia. Posto isso, podemos dizer que a partir de Descartes a estrutura da subjetividade passa a ser o elemento fundamental da razão, no sentido de ser o seu próprio sentido de fundamentação.

Essa subjetividade apresenta-se claramente em Descartes através da estrutura do cogito (eu penso).Isso proporcionou uma mudança muito grande, não só em filosofia, mas também em todas as áreas do saber humano.Encontramos, portanto, na filosofia de Descartes uma nova maneira de fundamentar o conhecimento.

Desta forma acontece a revolução do pensamento da Idade Moderna: o homem é colocado como centro e agente do pensamento,. Assim sendo, a filosofia volta-se para a subjetividade pensante.A totalidade do real, agora, é o próprio homem, ou seja, a filosofia torna-se antropocêntrica.Sem sombra de dúvidas, esta mudança radical possuiu como protagonista principal, René Descartes.

As conseqüências de tal giro - filosófico percebem-se até hoje.A filosofia, desde então, recebeu caracteres que se tornaram marcantes.Assim sendo, o estudo da filosofia deste iniciador mostra-se indispensável. Neste contexto, insere-se a presente pesquisa que propõe a elaboração de um estudo sobre a filosofia cartesiana evidenciando o papel de Deus na mesma.

Tal estudo revela-se importante, haja vista a formulação de inúmeras interpretações por parte de comentadores de Descartesa respeito de tal questão e de outras pertinentes à filosofia cartesiana. Tais posições só demonstram a riqueza e complexidade desta mesma filosofia

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CAPÍTULO I

O MÉTODO NA FILOSOFIA DE DESCARTES

A filosofia de Descartes, como toda produção intelectual, está intimamente ligada ao contexto histórico no qual tal doutrina se formou.Neste caso particular temos um tempo histórico complexo e saturado de inúmeros fatos, os quais ocasionaram toda a derrocada e redirecionamento da vida humana em todos os seus aspectos, desde interiores até supérfluos.

Urbano Zilles afirma que "... ao finar o século XIV forma-se na Europa, um sentimento de que a vida deve renascer ".Não mais no sentido original da palavra que remete ao segundo nascimento, de ênfase espiritual, de que tratam o Evangelho de São João e as Epístolas de São Paulo, mas num sentido totalmente novo: designa a mudança moral, intelectual e política decorrente do retorno aos valores da civilização greco-romana, a qual é reconhecida como o berço das maiores realizações humanas.Surge assim o famoso Renascimento.

Seu início se dá nas cidades italianas como resultado do crescimento urbano, haja vista a intensa atividade mercantil.Neste contexto surge uma nova figura na estrutura social como protagonista de toda a mudança: o burguês, aquele que se dedica às finanças, ao comércio e à manutenção. Nicola Abbagnano apresenta as seguintes características do Renascimento:

·Humanismo, como reconhecimento do valor do homem e crença de que a humanidade se realizou em sua forma mais perfeita na Antiguidade Clássica;

·Renovação Religiosa, através da tentativa de reatar os laços com uma revelação originária, na qual se teria inspirado os próprios filósofos clássicos, como é o caso do platonismo, ou através da tentativa de restabelecer o contato com as fontes originárias do cristianismo, ignorando a tradição medieval, como é o caso da Reforma protestante;

·Renovação das Concepções Políticas, com o reconhecimento da origem humana ou natural das sociedades e dos Estados (Maquiavel) ou com a tentativa de voltar às formas históricas originárias ou à natureza das instituições sociais;

·Naturalismo, como novo interesse pela investigação direta da natureza, tanto na forma do aristotelismo, das manifestações de magia ou da metafísica da natureza, quanto na forma das primeiras conquistas da ciência moderna.

Neste já citado retorno à cultura clássica o Renascimento se via forçado a evidenciar os caracteres que o diferenciavam do corrente período medieval.Entretanto, "não faltam elemento de continuidade entre a Idade Média e o Renascimento, e muitos dos problemas preferidos por humanistas e filósofos do Renascimento eram os mesmos já discutidos pela Idade Média, com as mesmas soluções".

É importante ressaltar que o espírito medieval vai morrendo pouco a pouco. Vale lembrar o quanto foi importante o papel do Renascimento ao criar condições para a arrancada científica do século XVII.Dentre tais condições e conseqüências podemos citar a geração de riquezas, resultado da atividade burguesa, e a correspondente contratação de sábios filósofos; o estudo das humanidades  história, poesia, retóricas, gramática e filosofia moral; avanços técnicos na navegação, na metalurgia, na siderurgia, nas máquinas e equipamentos e na imprensa; concepção matemática do mundo; etc.

Outro importante fato foi à perda da unidade do pensamento ocidental.Este se mantinha unitário em boa parte devido à hegemonia da instituição católica naquele período.Até a baixa Idade Média, a Igreja Católica detinha a unidade político-cultural de todo o lado oeste do mundo. Com o abalo do modelo geocêntrico ptolomaico pelo modelo heliocêntrico copernicano inicia-se tal perda de unidade, pois o sustento de todo o discurso eclesial começa a ser destruído.

Neste ínterim, acontece a divisão e fragmentação do Cristianismo através da Reforma.Divisões acontecem dentro da Igreja Católica e dentro do Protestantismo. Zilles afirma que a reação da Contra-Reforma Tridentina chegou tarde e não conseguiu deter o que naquele momento era inevitável: a perda da unidade ocidental.

Sem a Igreja como referência o mundo torna-se fragmentado, sendo o palco de manifestações cada vez mais antitéticas e diversas. Tal ocorrência não poderia deixar de ser observada e afetar toda a produção intelectual do ocidente. Contudo, surge outra referência como fundamento do pensar ocidental. Trata-se da razão, o homem, descobrindo que não há um apoio sólido para a sua existência fora de si mesmo, volta-se para o seu interior e aí encontra uma alternativa satisfatória.

A partir deste momento a razão mostra-se com a função de coordenar e guiar toda a ordenação do mundo, assim como guiar todo o pensamento produzido, a partir de então se preocupando em se evitar o erro e em procurar aquilo que é certo e verdadeiro. Daí inicia-se toda a preocupação com o método ideal de se conhecer, pois a "a razão perdeu todo o apoio fora de si mesma.

Com o entendimento que mostra-se acima, nascem desta forma, a ciência e a filosofia moderna.Desta nova filosofia tida como moderna Bertrand Russel declara justo considerar Descartes, o seu fundador. Mondim, referindo-se a Descartes, resume muito bem:

Com Descartes, a filosofia registra uma reviravolta decisiva, recebendo uma colocação nova, substancialmente diferente da que tivera na Antiguidade e na Idade Média.A sua orientação era então essencialmente ontológica, tendo como objetivo constante e primário a investigação da razão última das coisas (do homem, domundo, de Deus).Só acidental e ocasionalmente se tomava em consideração o problema do conhecimento, cujo valor, em todo caso, quase sempre era dado como fora de dúvida.Com Descartes, a filosofia recebe uma colocação crítica e gnosiológica: o que se quer verificar em primeiro lugar é o valor do conhecimento humano.

1.1 Questionando o Método

Ao findar a Idade Média, começou a surgir uma preocupação com o conhecimento sem uma referência explícita a Deus.A razão torna-se o sujeito, enquanto o mundo torna-se objeto do conhecimento.Tal ocorrência só se efetivou, graças à queda da base teológica que sustentava o conhecimento racional do homem.A respeito disto, Zilles afirma:

[...] o homem se sente só no universo. Sente-se sozinho diante da penosa tarefa de forjar uma visão da realidade, sem outra garantia que sua própria razão. Começa a nascer o homem moderno. Esse lança-se direto à natureza exterior.Desta forma nascem as ciências naturais ou também chamadas positivas.Com Galileu, Newton, Kepler e outros, abre-se um novo horizonte no mundo das ciências.As novas ciências se caracterizam pela expressão simbólico-matemática.

Como resultado de todo este lançar-se do homem à natureza exterior, usando a razão como único sujeito do conhecimento, surge a questão que caracteriza toda a gênese da ciência e da filosofia moderna: o método.Qual o método certo para se conhecer? Como conhecer? Quais os passos deste processo? Qual o caminho que nos leva à verdade de toda e qualquer ciência? Foram perguntas que surgiram neste contexto.Para tais indagações, surgiram, desde cedo, duas respostas que correspondem a dois métodos distintos e opostos.Trata-se do Racionalismo e do Empirismo.

O Racionalismo defende que a verdade tem por única origem a razão, sem nenhuma necessidade de recorrência à experiência do mundo dos fatos.Configura-se assim, um método apriorístico. Foi defendido por Descartes, Malembranche, Espinosa, Leibniz etc.

O Empirismo defende que a verdade tem por única norma e origem a experiência do mundo dos fatos, revelando-se assim, um método aposteriorístico radical.Nasceu com Francis Bacon e Hobbes, mas teve seu auge nas formulações paradigmáticas do inglês John Locke, sem esquecer os acréscimos dados posteriormente por Berkeley e Hume.Nota-se que "ambas as correntes filosóficas dão, pois, certo primado ao problema do conhecimento, criticando as próprias fontes do mesmo  experiência ou razão".

No tratamento privilegiaremos aqui o método racionalista, na figura do filósofo francês René Descartes.Tal pensador mostra-se como o primeiro a preocupar-se com tal questão filosófica, pois estava convencido de que a verdade existe e pode ser atingida pelo homem.Mas, para tal façanha, faz-se necessário um método seguro, ou seja, antes do estudo do conhecimento, mostra-se indispensável à estruturação de como pode desenvolver-se tal estudo.Surge assim, com suas características próprias, o método cartesiano.

1.2 O Método Cartesiano: Necessidade e Regras

Já no início da sua obra "Discurso do Método", Descartes já explicita a importância augusta do método para a aquisição da ciência.Porém, Ferdinand Alquié nos lembra que, em Descartes:

[...] a idéia de ciência universal preexistiu a qualquer formulação concreta do método dessa ciência.É certo que, em 1619, Descartes não deixa de declarar que encontrou os fundamentos da ciência nova; mas, precisamente, não podemos datar de 1619 qualquer descoberta exata: não podemos considerar que nessa data Descartes estivesse de posse de uma técnica matemática verdadeiramente original, e as numerosas considerações não científicas que o seu entusiasmo lhe sugere vêm então perturbar-lhe a inspiração.Em 1628, as coisas passam-se de modo diferente: a idéia de uma ordem única e análoga à ordem matemática domina as Regulae.Seja qual for, portanto, o problema que se nos depare (...), teremos que proceder do mesmo modo e procurar uma quantidade desconhecida a partir de quantidades conhecidas, com as quais ela tem relações determinadas.

Ora, Descartes só encontrou certeza na Matemática e seu desejo de atingir a verdade, leva-o, portanto, a considerar universal um método que, de fato, é de estilo matemático e nunca foi aplicado de forma rigorosa a não ser no domínio da quantidade.É nesta linhaque segue a primeira parte do "Discurso do Método".

Na primeira parte da citada obra Descartes afirma que o bom senso (a razão) é a coisa mais bem distribuída que existe, sendo igual em todos os homens.Este bom senso é defendido pelo autor, como o "poder de julgar de forma correta e discernir entre o verdadeiro e o falso".Contudo, mesmo o bom senso sendo igual em todos os homens, existem diversidades de opiniões que são originadas não do mais elevado grau de raciocínio de alguns em detrimento de outros, mas apenas de "dirigirmos nossos pensamentos por caminhos diferentes e não considerarmos as mesmas coisas" .

Neste contexto, Descartes apresenta o seu método pessoal, que julga tê-lo proporcionado aumentar de forma gradativa seu conhecimento ao mais alto nível.Admite que possa se enganar, mas acredita que "se entre as ocupações dos homens puramente homens existe alguma que seja solidamente boa e importante, atrevo-me a acreditar que é aquela que escolhi".

No desenrolar da sua obra filosófica, Descartes cita os diversos conhecimentos que adquiriu num dos mais famosos colégios para nobres, o La Flèche, dirigido pelos jesuítas. Tece detalhes sobre as letras, línguas, leituras, poesia, teologia, filosofia, outras ciências originadas de princípios filosóficos, más-doutrinas e as matemáticas.Define todas elas, exceto a matemáticas, como possuidoras de alicerces frágeis e enganadores.A matemática aparece-lhe como uma alternativa mais que útil. Diz:

"Deleitava-me principalmente com as matemáticas, devido à certeza e à evidência de suas razões; mas ainda não percebia sua verdadeira aplicação, e, julgando que só serviam às artes mecânicas, espantava-me de que, sendo seus fundamentos tão seguros e sólidos, não se houvesse construído sobre eles nada de mais elevado".

Nesta transcrição, podemos ver implicitamente o desejo de Descartes: construir sobre os fundamentos da matemática, coisas mais elevadas, ou seja, regulamentar a validade e o método do conhecimento através de critérios matemáticos do saber.A respeito disto, Alquié afirma:

Quanto à matemática, em que se comprazia, sobretudo por causa da certeza e da evidência de suas razões, o ensino era essencialmente orientado para as aplicações práticas, agrimensura, cartografia, arquitetura, etc.Descartes admira-se, portanto, por nada se ter construído de mais elevado, isto é, que se não tenha tentado fundamentar sobre ela uma ciência que permitisse ao homem conduzir-se na vida, resolver os problemas que todos os dias a difícil procura da felicidade coloca.

Podemos perceber claramente este pensamento, quando o francês, na segunda parte do Discurso, critica a lógica, a geometria e álgebra, declarando suas limitações e vantagens.Logo após isso, Descartes afirma que considera "ser necessário buscar algum outro método que, contendo as vantagens desses três, estivesse desembaraçado de seus defeitos".

A matemática tem um papel importantíssimo na elaboração do método cartesiano, contudo, Cottingham já nos alerta que "embora a inspiração, por detrás desta concepção unificada de conhecimento, seja matemática, o raciocínio científico que Descartes imagina é de uma espécie bastante geral e abstrata".E acrescenta: "a visão cartesiana representa, em suma, nada mais nada menos do que uma mathesis universalis, que englobaria todos os objetos do conhecimento humano", não somente a matemática, mesmo sendo inspirado pela clareza e indubitabilidade de ciências de seu âmbito, como a aritmética e a geometria.

No desenrolar da segunda parte do Discurso, Descartes enumera as quatro regras ou passos do seu método, a saber:

·O primeiro, era o de nunca aceitar algo como verdadeiro que eu não conhecesse claramente como tal; ou seja, de evitar cuidadosamente a pressa e a prevenção, e de nada fazer constar de meus juízos que não se apresentasse tão clara e distintamente a meu espírito que eu não tivesse motivo algum de duvidar dele.

·O segundo o de repartir cada uma das dificuldades que eu analisasse em tantas parcelas quantas fossem possíveis e necessárias a fim de melhor solucioná-las.

·O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, iniciando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para elevar-me, pouco a pouco, como galgando degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e presumindo até mesmo uma ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros.

·E o último, o de efetuar em toda parte relações metódicas tão completas e revisões tão gerais nas quais eu tivesse a certeza de nada omitir.

A primeira regra é chamada de regra da evidência.Trata-se de um princípio que norteará categoricamente a filosofia cartesiana, pois tudo deverá direcionar-se para a clareza e distinção, nas quais se formará aquilo que se apresenta à razão de maneira evidente.Reale afirma: "falar de idéias claras e distintas efalar de idéias evidentes é a mesma coisa".Esta evidência é alcançada pelo ato intelectual da intuição, que é um ato pelo qual a mente pura adquire um conceito unicamente através da razão, mais certo do que a própria dedução.

A segunda regra é a regra da análise, pois consiste em dividir cada uma das dificuldades em quantas parcelas forem possíveis e necessárias para melhor resolvê-las.Podemos ver aqui a defesa do método analítico.Segundo Reale, o método analítico é o "único que pode levar à evidência, porque, desarticulado o complexo no singular, permite à luz do intelecto dissipar as ambugüidades".

A terceira regra é a regra da síntese, que cuida do papel de recompor os elementos que foram separados na regra anterior, dando lugar a um encadeamento de raciocínio que se desenrole do simples ao composto.Podemos notar aqui, características do ato dedutivo.Desta forma, o todo recomposto estará totalmente já iluminado pelo pensamento que examinou cada particularidade, o que evidenciará os erros.

A quarta e última regra é a regra da enumeração e revisão. Ela consiste em enumerar completamente os dados do problema e fazer revisões gerais, de modo a ter certeza de nada omitir, tendo por resultado, uma enumeração suficiente e ordenada.

As regras do método destacam a necessidade de se ter pleno conhecimento de cada momento em que se desenrolar uma pesquisa filosófica rigorosa.Tal tarefa só se torna possível graças à clareza e distinção que dão garantia contra possíveis equívocos existentes no saber universal.Reale, sobre o método de Descartes, conclui: "(...) para proceder com correção, é preciso repetir o propósito de qualquer pesquisa, aquele movimento de simplificação e rigorosa concatenação constituído pelas operações típicas do procedimento geométrico".

1.3 Exigência de uma Metafísica

Ao relembrarmos as regras do método de Descartes, especialmente a primeira, podemos vislumbrar que o nosso filósofo usa como critério de verdade, a clareza e a distinção, ou seja, a evidência. Critério este que só pode ser atingido através de dois caminhos: a intuição (evidência adquirida de maneira imediata) ou a dedução (evidência adquirida de maneira derivada).Ao declarar isto, podemos instaurar uma nova questão sobre a validação do conhecimento na doutrina cartesiana.

Tal questão diz respeito ao fato de que a evidência só é definida no ato intelectual do espírito que o apreende. Assim sendo, como a evidência pode ser uma marca da verdade se ela funciona subjetivamente? Tal crítica já foi feita por Giambatista Vico. Desta forma, Descartes poderia ser bem denominado como um idealista. Entretanto, segundo Alquié:

[...] Descartes, ao declarar que só trata das coisas enquanto são concebidas pelo entendimento, mantém que elas existem realmente, fala de naturezas simples materiais, admite que o sentido externo é posto em movimento pelo objeto, interroga-se sobre se as qualidades passam por inteiro e sem qualquer alteração das coisas exteriores para os sentidos (Regra 12).

Desse modo, há uma confusão entre idealismo e realismo, entre objetividade e subjetividade. De um lado, Descartes define muitas vezes a certeza pela evidência do objeto, sendo o sujeito apenas o verificador de tal singularidade. Todavia, o erro é definido exclusivamente ao nível da operação intelectual do sujeito, o que invalidaria a tese totalmente subjetiva e idealista, haja vista a possibilidade do erro humano.

De outro lado, defende que a evidência é real na mente do espírito que a edifica. Tal confusão se finda, ao sabermos que até 1628, "Descartes é ainda um puro sábio (...) no qual a direção do espírito é inteiramente orientada para o mundo das coisas".Tal período inicial do pensamento cartesiano seria então, o período da construção realista e objetiva sem fundamentos firmes.

O amadurecimento do pensamento de Descartes proporcionou e exigiu a formulação de uma metafísica que iria estabelecer um estatuto do conhecimento válido e subjetivamente definido. A metafísica seria então uma conseqüência da solicitação de fundamento efetuada pelo método e pela ciência.Nasceria então um novo estilo de filosofar: o racionalismo.

  CAPÍTULO II

A METAFÍSICA CARTESIANA

Como já citado, a metafísica cartesiana surge como resultado de uma solicitação feita pelo método e pela ciência, ambos já desenvolvidos por Descartes. Porém, tal feito sucedeu-se após um amadurecimento do pensamento do nosso filósofo, que buscava ardentemente um paradigma de um conhecimento eficaz, válido e subjetivamente delimitado.

Devido a tal amadurecimento, certamente encontraremos, haja vista a produção de Descartes ser freqüente em todas as fases do seu processo de construção filosófica, várias explicitações de uma metafísica. Aqui, destacaremos a quarta parte do Discurso do Método (1637) e as Meditações (1641). Além destas, existe a exposição na primeira parte dos Princípios da Filosofia (1644). A respeito de tais exposições, afirma Luciano Marques de Jesus:

Embora haja algumas diferenças (como a ordem das provas da existência de Deus), estas exposições seguem caminho idêntico: a dúvida, o cogito, Deus.Isto, todavia, não quer dizer que possuam a mesma profundidade e que a diferença se esgote no tão-só fato de serem dirigidas a públicos diferentes como objetivos diversos.O Discurso é, ainda, o escrito de um homem de ciência, as Meditações tratam da problemática que se poderia denominar ontológica.

2.1 A Dúvida como Ponto de Partida do Edifício Metafísico Cartesiano: Perspectiva e Argumentos

Ao vislumbrarmos as exposições metafísicas cartesianas podemos perceber que a dúvida configura-se como o ponto inicial. Embora Descartes fosse, várias vezes, erroneamente acusado de cético, ele deixou bem claro, desde a primeira explicitação e divulgação de sua metafísica, feita na quarta parte do Discurso, que:

"[...] por desejar então dedicar-me apenas à pesquisa da verdade, achei que deveria agir exatamente ao contrário, e rejeitar como totalmente falso tudo aquilo em que pudesse supor a menor dúvida, como o intuito de ver ser, depois disso, não restaria algo em meu crédito que fosse completamente incontestável" (grifo nosso).

A dúvida, em suma, é um meio para um fim e não um fim em si mesmo configura-se, desta forma, uma dúvida metódica que busca a verdade em antagônica a qualquer dúvida cética. A dúvida reforça-se como metódica devido ao fato de que somente aquilo que se mostra evidente pode resistir à sua força. Assim sendo, a dúvida fundamenta o método e tem por objetivo a busca da verdade/certeza.

Tal idéia da existência da verdade mostra-se tão clara que Descartes chega a nomear a sua primeira obra, publicada em 1637, de "Discurso sobre o método de bem conduzir a razão e buscar a verdade nas ciências" (grifo nosso). A perspectiva da dúvida cartesiana não conduz a ceticismo, mas ao conhecimento, até mesmo ao conhecimento do próprio Deus.

Descartes chega a descartar suas dúvidas anteriores e até argumentos que sustentava, chegando até a defini-las de "exageradas" e "ridículas".Tais palavras só reforçam o caráter provisório da dúvida. Afirma:

"E devo rechaçar todas as dúvidas desses dias passados como sendo exageradas e ridículas, especialmente esta incerteza tão geral no que se refere ao sono que eu não podia diferenciar da vigília: porque agora encontro uma diferença muito significativa no fato de que nossa memória nunca pode ligar e juntar nossos sonhos uns com os outros e com toda a seqüência de nossa vida, assim como costuma juntar as coisas que nos ocorrem quando nos encontramos acordados".

No Resumo das Meditações, o próprio autor fala que na primeira meditação ele antecipará as razões pelas quais colocou todas as coisas em dúvida, ou seja, expôs os argumentos da dúvida.São quatro: o argumento da Ilusão dos Sentidos, o argumento do Sonho, o argumento do Deus Enganador e o argumento da Gênio Maligno. É importante lembrar que o objetivo de Descartes na primeira meditação é livrar-se de todas as opiniões nas quais até aquele momento acreditara e iniciar tudo de novo pelos fundamentos a fim de construir algo sólido e duradouro.

Esta nova construção poderá, com certeza, usar os meios que foram possuidores da potencialidade do erro atualizado e percebido por Descartes, entretanto, os novos fundamentos não permitirammais a atualização do erro. O primeiro argumento  da Ilusão dos Sentidos - nasce da percepção cartesiana a respeito da baixa confiabilidade da percepção sensorial:

"Até o momento presente, tudo o que considerei mais verdadeiro e certo, aprendi-o do sentido ou por intermédio dos sentidos; mas às vezes me dei conta de que esses sentidos eram falazes, e a cautela manda jamais confiar totalmente em quem já nos enganou uma vez".

Entretanto, Descartes percebe que existem percepções dos sentidos das quais não se pode duvidar: "[...] por exemplo, que eu me encontre aqui, sentado perto do fogo, trajando um robe, tendo este papel nas mãos e outras coisas deste tipo".Surge então uma possibilidade de conhecimento através dos sentidos.Descartes, porém, destruirá esta possibilidade através do segundo argumento.

O segundo argumento  do Sonho - nasce da percepção cartesiana de que "não existem quaisquer indícios categóricos, nem sinais bastante seguros por meio dos quais se possa fazer uma nítida distinção entre a vigília e o sono".Com esta consideração, coloca-se em nível máximo de suspeita, qualquer proposição dita acerca da existência de coisas exteriores, inclusive, o próprio corpo.O que restoude possibilidade no argumento anterior, agora fora destruído por completo.

Também, como conseqüência deste argumento e do que já fora exposto anteriormente, Descartes conclui que qualquer ciência que pretenda referir-se a objetos exteriores (astronomia, química, física etc.) pode estar sujeita à dúvida.Contudo, o nosso fílósofo declara que o sonho é uma representação oriunda de algo verdadeiro e real.Entretanto, até objetos tidos por causa das representações dos sonhos, podem ser imaginários, como o exemplo do pintor que representa sereias.Tal ocorrência permite que até os sonhos possam ser imaginários, pois no início do discurso, sono e vigília foram equiparados.Assim sendo, será que resta algo de confiável nos sonhos ou na vigília? Descartes diz que sim:

Pelo mesmo motivo, mesmo que essas coisas gerais, [...] possam ser imaginárias, é necessário confessar que existem outras bem mais simples e universais, que são verdadeiras e existentes, de cuja mistura, nem mais nem menos do que da misturas de algumas cores verdadeiras, são formadas todas essas imagens das coisas que se situam no nosso pensamento, quer verdadeiras e reais, quer fictícias e fantásticas.Desse gênero de coisas é a natureza corpórea em geral, e sua extensão; juntamente com a figura das coisas extensas, sua quantidade, ou grandeza, e seu número; como também o lugar em que se encontram o tempo que mede sua duração e outras coisas análogas.

O que resta, portanto, de confiável são as categorias universais de natureza simples, como extensão, quantidade, grandeza, espaço e tempo, as quais constituem o objeto da maior paixão do nosso filósofo.Justifica Descartes: "[...] quer eu esteja acordado, quer esteja dormindo, dois mais três formarão sempre o número cinco".

Como a matemática e seus objetos "escapam contrariamente aos objetos sensíveis, a todas as razões naturais de duvidar", o segundo argumento encontra algo que o detém. Igualmente, Descartes não cessa seus questionamentos e, nos dois últimos e próximos argumentos, estende a dúvida até o âmbito das verdades matemáticas.

O terceiro argumento - do Deus Enganador - origina-se da opinião cartesiana de que existe um Deus todo poderoso e criador. Descartes analisa o que implicaria a existência ou a não existência de tal Ser. No primeiro caso, cita que não há garantias que o livrem da possibilidade de que esse Deus "tenha desejado queeu me equivoque todas às vezes em que realizo a adição de dois mais três, ou em queenumero os lados de um quadrado". Fala ainda que seja possível que Deus, devido ser considerado bom, não tenha permitido que tais equívocos acontecessem. Porém Deus permite que o homem se equivoque algumas vezes, o que Sua bondade perfeita não poderia permitir. Disto Descartes não pode duvidar.

Este fato torna compatível a permissão do erro eterno e do erro ocasional o que poderia legitimar o argumento.No segundo caso, ou seja, considerando a inexistência de Deus e a não existência de um criador divino responsável pela existência do homem, Descartes concluiria que a existência humana deve-se ao acaso, o que tornaria ainda mais provável a possibilidade do engano eterno. O próprio Descartes afirma: "posto que errar e equivocar-se é uma imperfeição, quanto menos poderoso for o autor a quem imputarem minha origem, tanto mais era provável que eu seja de tal maneira imperfeito que me equivoque sempre".

O quarto e último argumento da dúvida - do Gênio Maligno - fala da hipótese da existência de um gênio malicioso decidido a enganar:

Presumirei, então, que existe não um verdadeiro Deus, que é a suprema fonte da verdade, mas certo gênio maligno, não menos astucioso e enganador do que poderoso que dedicou todo o seu empenho em enganar-me. Pensarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas exteriores que vemos não passam de ilusões e fraudes que Ele utiliza para surpreender minha credulidade.

Ao vermos o texto acima, percebe-se que este último argumento não demonstra ser um argumento adicional para a dúvida, mas revela-se como um ato de vontade do próprio pensador (Presumirei, então...).Assim sendo, mostra-se como um elemento artificial introduzido para auxiliar o pensador a persistir no seu objetivo já declarado de suspender e livrar-se de "todas as opiniões nas quais até aquele momento acreditara".A respeito deste último argumento, John Cottingham é feliz ao comentar:

O Gênio Maligno representa a dúvida extrema ou 'hiperbólica', levada ao seu limite último; sua aparição prepara o terreno, portanto, para Descartes chegar a seu 'ponto arquimediano' - a certeza do meditador quanto a sua própria existência, que sobrevive a todos os esforços do gênio para enganar de todas as maneiras possíveis.

É importante lembrar que os dois últimos argumentos são incompatíveis com o que Descartes defenderá posteriormente: a existência de um ser perfeito e a confiabilidade da mente humana (criada por Deus). Contudo, Cottingham nos lembra que ambos os argumentos estão na primeira meditação, onde "nada ainda é certo: pode haver uma divindade onipotente, mas, pelo que sei (até agora) ela pode enganar-me".É fácil, porém, definir a hipótese do Deus Enganador como de ordem metafísica e a do Gênio Maligno de ordem metodológica.

Vale lembrar ainda que, ao tentar conduzir a mente para longe dos sentidos através de uma condenação pelos argumentos, Descartes segue em direção às verdades acessíveis à luz da razão que ele acreditava ser inata em cada alma.Tal postura segue uma perspectiva racionalista, que se propõe lançar as bases da ciência a partir de dados oriundos não dos sentidos, mas do intelecto puro.

2.2 O Cogito como Primeira Certeza

A dúvida, como já dito, fundamenta todo o método cartesiano sendo o seu ponto de partida e objetivando a busca da certeza.Ela, devido a sua força, foi capaz de se impor a todos os conhecimentos.Entretanto, tentando hiperbolizar esta dúvida, ou seja, duvidar de tudo, Descartes viu que tal atitude era impossível:

Porém, logo em seguida, percebi que, ao mesmo tempo que eu queria pensar que tudo era falso, fazia-se necessário que eu, que pensava, fosse alguma coisa.E, ao notar que esta verdade: eu penso, logo existo, era tão sólida e tão correta que as mais extravagantes suposições dos céticos não seria capazes de lhe causar abalo, julguei que podia considerá-la, sem escrúpulo algum, o primeiro princípio da filosofia que eu procurava.

Vemos claramente no texto transcrito, que a certeza do meditador em relação à sua própria existência emergem como resultado direto do processo sistemático da dúvida, já citado e encontrado na primeira meditação.Tal certeza origina-se também da conjuntura estabelecida pela possibilidade da existência de um Deus enganador como poderes extremos, como mostra o trecho das Meditações abaixo:

(...) não me convenci também de que eu não existia? Com certeza, não; sem dúvida eu existia, se é que me convenci ou só pensei alguma coisa.Mas existe alguém, não sei quem, enganador muito poderoso e astucioso, que dedica todo o seu empenho em enganar-me sempre.Não há, então, dúvida alguma de que existo, se ele me engana; e, por mais que me engane, nunca poderá fazer com que eu nada seja, enquanto eu pensar ser alguma coisa.De maneira que, depois de haver pensado bastante nisto e analisado cuidadosamente todas as coisas, se faz necessário concluir e ter por inalterável que esta proposição, eu penso, eu existo, é obrigatoriamente verdadeira todas as vezes que a enuncio ou que a concebo em meu espírito.

Neste contexto, é fácil inferir que enquanto o ser pensante ocupa-se em pensar, tal ser tem necessariamente que existir. Tais explicações resumem-se em dizer que, pelo próprio fato do pensador duvidar de sua existência ou levantar a possibilidade de estar sendo enganado, confirma aqui, enquanto este ser pensa, a sua existência de fato.

Aqui é provada a primeira existência: a do ser pensante enquanto pensa (aqui e agora). A respeito disto, Cottingham cita:"'Dubito ergo sum' (Duvido, logo existo) seria um argumento igualmente válido do ponto de vista de Descartes, assim como o 'fallor ergo sum', de Santo Agostinho (Engano-me, logo sou)".Mostra-se entretanto, uma diferença entre estas duas maneiras de se empregar a dúvida metódica: para Agostinho, o si fallor constitui a superação do ceticismo, enquanto para Descartes, ocogito representa, além desta superação, uma primeira certeza.

Assim como Arquimedes, Descartes alimenta grandes esperanças em encontrar apenas uma coisa que seja segura e incontestável.O incrível é perceber que tal fundamento descoberto - cogito -foi encontrado através da dúvida, ou melhor, já compunha a dúvida.O pensamento mostra-se, então, como algo que pressupõe existência.Portanto, 'penso logo existo' não é um entinema (silogismo incompleto), mas sim, uma intuição, ou seja, uma evidência imediata.

Assim sendo, o cogito é considerado a primeira verdade e o fundamento da metafísica cartesiana.Descartes mesmo afirma: o cogito é o "conhecimento que afirmo ser mais certo e mais patente do que todos os que tive até agora".

2.3O Cogito como novo Ponto de Partida

Tecemos comentários anteriores a respeito da dúvida exercer o papel de ponto de partida do edifício metafísico cartesiano.Contudo, surge outro ponto de partida, pelo menos num segundo momento: o cogito.Trata-se de uma nova procura.O ser que existe enquanto ser pensante procura conhecer as idéias que ele possui a fim de descobrir a existência de alguma tão certa e evidente como o cogito.Num momento inicial, o eupessoal, cogito,mostra-se solitário e ansioso por encontrar o que deseja.Afirma Descartes no início da terceira meditação:

(...) ocupando-me somente comigo mesmo e considerando meu interior, procurarei tornar-me pouco a pouco mais conhecido e mais familiar a mim mesmo.Sou uma coisa que pensa, ou seja, que duvida, que afirma, que nega, que conhece poucas coisas, que desconhece muitas, que ama, que odeia, que quer e não quer, que também imagina e que sente.Porque, assim como notei acima, se bem que as coisas que sinto e imagino talvez não sejam nada fora de mim e nelas mesmas, tenho certeza de que essas formas de pensar, que denomino sentimentos e imaginações apenas na medida em que são formas de pensar, se encontram em mim.E neste pouco que acabo de dizer, acredito haver relatado tudo que realmente sei, ou, ao menos, tudo o que até aqui percebi que sabia. Agora refletirei mais precisamente se talvez não se encontrem em mim outros conhecimentos que ainda não haja percebido. (grifo nosso)

Descartes irá analisar as suas idéias considerando-as na sua realidade objetiva (conteúdo representacional) e na busca de alguma possível exterioridade ontológica.Fazendo isto, descobre que há três tipos de idéias: as adventícias, que são aquelas que sobrevêm em nós postas pela presença da realidade externa; as idéias fictícias, que são as que nós mesmos, por meio da nossa imaginação, formamos na alma e as idéias inatas, que são o acervo próprio do espírito, sem origem exterior nem imaginativa.

Ao analisar as idéias adventícias, Descartes considera razões que lhe obrigam a julgá-las análogas aos seus objetos de origem.Tais razões são:

A primeira dessas razões é que se me afigura que isso é ensinado pela natureza; e a segunda, que experimento em mim mesmo que essas idéias não dependem, de maneira alguma, de minha vontade; pois com freqüência se me apresentam, apesar de mim, como agora, quer eu queria quer não, sinto calor, e por este motivo convenço-me de que este sentimento ou esta idéias de calor é provocada em mim por algo diferente de mim mesmo, isto é, pelo calor do fogo ao lado do qual me encontro.E nada vejo mais razoável do que julgar que essa coisa estranha envia-me e imprime em mim sua semelhança, mais do que qualquer outra coisa.

Além destas duas razões, Descartes enumera outro caminho para provar a existência real das causas das idéias adventícias, ou seja, provar a existência atual e extra-mental de coisas externas. Descartes tenta passar da realidade objetiva (mental) para a realidade formal (atual).Neste intuito parte do princípio de que este tipo de idéia é um efeito, daí declara:

É coisa evidenciada pela razão que deve existir ao menos tanta realidade na causa eficiente e total quanto em seu efeito: porque de onde é que o efeito pode tirar sua realidade a não ser da sua causa? E como poderia esta causa lha comunicar se não a possuísse em si própria? (grifo nosso).

A partir de então, fica claro supor o que Descartes constrói a respeito da idéia de Deus, a qual existe na mente humana, possuindo maior realidade objetiva do que a realidade formal da mente, o que conclui que o intelecto não poderia ser sua causa. Pode-se perceber que Alquié é feliz a afirmar que só no caráter individual e finito do eu, resplandecerá a discussão que nos levará até Deus, até Sua veracidade e até a validação da evidência como critério de certo e eficaz.

  CAPÍTULO III

A QUESTÃO DE DEUS NA FILOSOFIA DE DESCARTES

Como foi exposto no capítulo anterior, Descartes descobre e afirma a existência do cogito como princípio de sua filosofia.Entretanto, este fundamento, até aqui, só possui a certeza de existir como ser pensante e nada mais do que isto.Desta forma, o fundamento configura-se como exclusivamente subjetivo.Entretanto, Descartes necessita de um fundamento objetivo.É preciso passar da certeza (subjetiva) à evidência (objetiva).

A fim de isto conseguir, Descartes, após a descoberta do cogito na segunda meditação, inicia a meditação seguinte buscando conhecer melhor a si mesmo: "... ocupando-me somente comigo mesmo e considerando meu interior procurarei tornar-me pouco a pouco mais conhecido e familiar a mim mesmo". Busca conhecimentos que talvez ainda não haja percebido, mas crê que é uma coisa pensante, ou seja, Descartes busca algo além da certeza do cogito.Procura um fundamento de certeza.Da análise do cogito conclui: "... acredito que já posso determinar como regra geral que todas as coisas que concebemos clara e distintamente são verdadeiras" .Desta forma, estabelece o seu critério de verdade.

3.1 Introdução às Provas da Existência de Deus: o Questionamento do Eu, as Idéias, a Idéia de Deus e o Princípio de Causalidade.

Continuando a sua meditação, Descartes afirma que admitiu várias coisas como muito certas e patentes, as quais, no entanto, reconheceu posteriormente como duvidosas. Concluiu isto devido à incerteza do conhecimento sensível.Mas algo restou de claro e distinto no conhecimento sensível: "as idéias ou pensamentos dessas coisas se apresentavam ao meu espírito".Mas aqui, nada garante ao meditador a existência de um mundo exterior, ou seja, de uma certeza objetiva.

Descartes considera até os simples conhecimentos oriundo da Geometria e da Aritmética possíveis de serem falsos, pela hipótese do Deus enganador que lhe vem ao espírito nos seus pensamentos.Visto que não há razão para crer que exista um Deus que seja enganador e mesmo que ainda não tenha considerado aquelas que provam que existe um Deus, Descartes considera que a razão de duvidar, que depende somente desta opinião, é bastante frágil e, por assim dizer, metafísica.Contudo, Descartes quer afastar totalmente tal hipótese, pois dela depende todas as certezas possíveis:

Porém, para poder afastá-la totalmente, devo analisar se existe um Deus, tão logo surja a oportunidade; e, se concluir que existe um, devo também analisar se Ele pode ser embusteiro: já que, sem o conhecimento dessas duas verdades, não vejo como possa jamais ter certeza de alguma coisa. E para que eu possa ter a oportunidade de analisar isto sem interromper a ordem de reflexão que me propus, que é de passar gradativamente das noções que encontrar em primeiro lugar no meu espírito para aquelas que aí poderei achar depois, é necessário que eu separe aqui todos os meus pensamentos em certos gêneros e avalie em quais deles existe verdade ou equívoco. (grifo nosso)

Observa-se, nesta nota, que Descartes é fiel ao seu método, especialmente às etapas da análise e da síntese.Continuando seu pensamento, Descartes fala que entre os pensamento que o sujeito possui existem as idéias, as vontades ou afecções e os juízos.As idéias são as imagens das coisas.As vontades ou afecções são os desejos.

Os juízos são os atos nos quais eu afirmo ou nego, ou seja, acrescento alguma coisas por esta ação às idéias que tenho daquela coisa. Descartes cita que, no que diz respeito às idéias, elas não podem ser falsas "porque, quer eu imagine um cabra quer uma quimera, não é menos verdadeiro que imagino tanto uma quanto a outra" . Também não há falsidade nas vontades ou afecções, "já que, mesmo que eu possa desejar coisas más, ou nunca existindo, não é por isso menos verdade que as desejo".O erro, portanto, só pode acontecer na esfera dos juízos e logo Descartes distingue o principal deles:

O principal erro e o mais normal que se pode mostrar consiste em que eu julgue que as idéias que se encontrem em mim são semelhantes ou conformes às coisas que se situam fora de mim; pois, com certeza, se eu considerasse as idéias somente como certos modos ou formas de meu pensamento, sem querer relacioná-las a algo de exterior, mal poderiam elas oferecer a oportunidade de errar.

Após dizer isso, o nosso autor analisará as idéias e concluirá que elas podem ser de três tipos: fictícias, adventícias e inatas.Descartes se deterá nas idéias adventícias e buscará as razões de porque considerá-las análogas aos seus objetos de origem.Acerca destas razões, o nosso filósofo diz: "a primeira dessas razões é que se me afigura que isso me é ensinado pela natureza, e a segunda, que experimento em mim mesmo que essas idéias não dependem, de maneira alguma, de minha vontade".

Descartes irá julgar estas razões e verificar a convencibilidade das mesmas.Segundo ele, não se pode confiar numa inclinação natural, pois, esta se evidencia apenas com certa propensão a acreditar em algo e não numa razão que garante a verdade desta mesma situação.

Nem podemos da aparente independência das idéias adventícias em relação à vontade do sujeito, concluir que estas mesmas têm uma origem exterior a ele pois, da mesma forma que as inclinações naturais existem sem perfeito acordo com a vontade do sujeito, não há porque supor que não haja no sujeito alguma faculdade capaz de produzir idéias sem o auxílio de quaisquer coisas externas.Entretanto, ainda que se aceite que as idéias são causadas por objetos externos, não se pode afirmar que ela lhe seja semelhante, pois, percebe-se, em alguns casos, uma elevada diferença entre o objeto e as suas idéias correspondentes.

Descartes cita como exemplo desta afirmação a existência de duas idéias do sol inteiramente diferentes: uma, oriunda dos sentidos, caracteriza o sol com extremamente pequeno; outra, oriunda das noções da Astronomia, que Descartes considerava inatas no espírito, evidencia o sol com muitas vezes maior do que a terra. Daí Descartes conclui que nada, até agora, pode fundamentar a existência objetiva de alguma coisa:

Tudo isso me leva a ter o suficiente conhecimento de que até esse momento não foi por um julgamento certo e premeditado, mas somente por um cego e arrojado impulso que julguei existir coisas fora de mim, e diferentes de meu ser, as quais, por intermédio dos órgãos de meus sentidos ou por qualquer outro meio que seja, enviam-me suas idéias ou imagens e fixam em mim suas semelhanças.

Mas o nosso filósofo não desiste da sua busca e cita que há outro caminho para verificar se, dentre as coisas das quais possui idéias na mente, há alguma que existe realmente fora dela. Trata-se da distinção a respeito da representação que cada idéia possui.Tomadas somente como formas de pensamento, as idéias são semelhantes, mas tomadas como imagens representativas, elas são muito diferentes entre si. Diz:

Porque, de fato, aquelas que me representam substâncias são, sem dúvida, algo mais e contêm em si (por assim falar) mais realidade objetiva, ou seja, participam, por representação, num maior número de graus de ser ou de perfeição do que aquelas que representam somente maneiras ou acidentes.Ademais, aquela pela qual eu concebo um Deus soberano, eterno, infinito, imutável, onisciente, onipotente e criador universal de todas as coisas que estão fora dele; aquela, digo, tem com certeza em si mais realidade objetiva do que aquelas pelas quais as substâncias finitas me são representadas.

É neste contexto que Descartes insere o princípio de causalidade que terá caráter primordial na análise da idéia de Deus.O princípio da causalidade manifesta-se na concepção de que a idéia é um efeito.Afirma: "É coisa evidenciada pela razão que deve existir ao menos tanta realidade na causa eficiente e total quanto em seu efeito".O princípio de causalidade é usado como meio de se efetuar uma transição entre a certeza da própria existência e o conhecimento de Deus.

Assim sendo, Descartes concluiu que o nada não pode produzir coisa alguma e que o que contém em si mais realidade não pode ser uma conseqüência e uma dependência do menos perfeito. É evidente que há no ser existente (realidade formal ou atual) que causa uma determinada idéia (realidade objetiva) pelo menos tanta realidade quanto a que existe nesta idéia. Aqui está o porquê da existência de idéias com mais realidade objetiva do que outras.Aqui está a causa da distinção.

Descartes supõe que uma idéia pode originar outra idéia, o queeliminaria a necessidade temporária do objeto atual. Ele diz que isto pode acontecer. Contudo, isso não pode estender-se ao infinito, mas é necessário chegar a uma primeira idéia, cuja causa seja como um padrão ou original, na qual toda a realidade ou perfeição esteja contida formalmente e a qual só se encontre objetivamente ou por representação nessas idéias.Daí conclui, "as idéias são em mim como quadros ou imagens, que podem na verdade não conservar a perfeição das coisas de onde foram tiradas, mas que nunca podem conter algo maior ou mais perfeito".

De tudo isto que foi exposto é fácil perceber as conseqüências: caso Descartes perceba que a realidade objetiva (representação de algo) de alguma de suas idéias é tal que ele reconheça claramente que ela não se encontra nele nem formal nem eminentemente e que, portanto, o próprio eu não pode ser-lhe a causa, daí deriva obrigatoriamente que o meditador não existe sozinho no mundo, mas que há ainda algo que existe e que é a causa desta idéia.Certo disso, Descartes afirma:"enquanto não se encontrar em mim uma tal idéia, não terei argumento algum que me possa persuadir e me certificar da existência de qualquer coisa além de mim mesmo" .

Descartes cita que o sujeito tem em si a idéia que representa a si mesmo (cogito), outras que representam Deus, as coisas corporais e inanimadas, os anjos e os outros homens.Destas idéias, a que possibilitará ao sujeito sair de seu isolamento é a idéia de Deus, pois se deve considerar que ela é a única que não pode proceder do sujeito:

E, portanto, é necessário obrigatoriamente concluir, de tudo o que foi dito antes, que Deus existe, porque, mesmo que a idéia de substância esteja em mim, pelo próprio fato de ser eu uma substância, não teria a idéia de uma substância finita, eu que sou um ser finito, se ela não me tivesse sido colocada em mim por alguma substância que fosse de fato infinita.

Em outras palavras, se não soubéssemos que Deus existe e não é enganador, não poderíamos ter outra certeza além da que resulta de uma evidência presente.Desta forma, um ateu não é capaz de alcançar certeza alguma, como é esclarecido nas Respostas às Segundas Objeções.

Ora, que um ateu possa conhecer claramente que os três ângulos de um triângulo são iguais a dois retos, não o nego, mas sustento apenas que não conhece isso por uma ciência verdadeira e certa, porque todo conhecimento que se poder tornar duvidoso não deve ser denominado ciência, e uma vez que se supõe tratar-se de um ateu, não pode ele ter certeza de não ser enganado nas coisas que lhe parecem muito evidentes, como já foi mostrado mais acima; e, embora essa dúvida talvez não lhe ocorra ao pensamento, pode no entanto ocorrer-lhe, se a examinar, ou se lhe for proposta por outrem; e nunca estará fora do perigo de concebê-la, caso não reconheça primeiramente um Deus.

É importante ressaltar que, mesmo a Idéia de Deus sendo a idéia mais luminosa que Descartes possui, segundo ele mesmo, o ser por ela representado, paradoxalmente, permanece misterioso. Ao homem só é possível entender que Deus lhe é incompreensível: "... pois, para ter uma verdadeira idéia do infinito, ele não deve ser de maneira alguma compreendido, tanto mais que a incompreensibilidade mesma está contida na razão formal do infinito...".A respeito desta posição de Descartes, Gérard Lebrum é feliz ao tecer nota na qual transcreve um texto do célebre comentar cartesiano M. Guéroult:

Se não posso compreender Deus, já que está além do finito, posso ao menos entender que é incompreensível. "Longe, portanto de me tornar Deus incognoscível, a incompreensibilidade, embora envolva certa limitação necessária de meu conhecimento (eu jamais poderia esgotar o infinito, possuir dele um conhecimento 'adequado', isto é, completo), é ao mesmo tempo... o que me permite conhecer o infinito como tal. (Guéroult, op. Cit., t. I, 206)

Em suma, Deus é o ser mais conhecível, mas seu ser ultrapassa em demasia nosso conhecimento. Só com a ciência destas informações, torna-se possível a Descartes expor os seus argumentos a favor da existência de Deus.

3.2 As Provas da Existência de Deus

Como foi possível perceber no item anterior, não compreender a essência de Deus não impede a filosofia de provar Sua existência.É isto que Descartes tentará realizar através de três argumentos.

Na primeira prova, a existência de Deus é demonstrada por seus efeitos, pelo simples fato de Sua idéia estar em nós. Na segunda prova, a existência de Deus é ainda demonstrada, pelo fato de nós próprios, que temos em nós a idéia de Deus, existirmos.

Na terceira e última prova, a existência de Deus é conhecida pela simples consideração de Sua natureza. Como é possível perceber, nas duas primeiras provas, o argumento procede a partir dos efeitos (da idéia de Deus presente no sujeito e do sujeito que possui a idéia de Deus) de maneira causal; já na terceira prova, o argumento procede a priori, sendo uma reedição do argumento ontológico de Santo Anselmo denominado por Kant de argumento ontológico, deduzido da idéia de Deus a sua existência.

É preciso que se observe ainda que as duas primeiras provas da existência de Deus, presentes no Discurso do Método e as Meditações Metafísicas, são comumente unidos em um único argumento denominado argumento da "marca impressa".Desta forma, o presente argumento passará por duas fases distintas que corresponderiam às duas já citadas provas: na primeira, Descartes pondera que nossa idéia de Deus só pode ser explicada pela postulação de Deus como sua causa; na segunda, ele afirma que "desejo passar adiante e averiguar se eu mesmo, que possuo essa idéia de Deus, poderia existir, no caso de não haver Deus".

Conclui-se, na segunda fase: "... pelo simples fato de que existo e de que a idéia de um ser perfeito, ou seja, Deus é em mim, a existência de Deus está muito claramente provada.".A respeito disto, Cottingham é feliz ao comentar:

Embora a segunda fase do argumento apresente algumas características próprias interessantes, parece ter sido considerada por Descartes como simples variação expositiva da primeira.Ambas as versões, em todo caso, dependem da necessidade (suposta) de explicar como minha mente (finita e imperfeita) pode trazer em si a idéia de um ser perfeito e infinito.

A questão de Deus é tratada em vários escritos de Descartes: na quarta parte do Discurso do Método, na terceira e na quinta parte das Meditações Metafísicas, na primeira parte dos Princípios e nas Repostas às Objeções.Existem, sem dúvida, diferenças entre as diversas exposições das provas da existência de Deus.

Jesus nos lembra, citando Descartes, que, no Discurso do Método e nas Meditações Metafísicas, é seguido o caminho que Descartes denomina de "ordem da descoberta", ao passo que nos Princípios segue-se a "ordem da exposição", que se inicia com o argumento ontológico. Neste trabalho, nos deteremos nas exposições presentes no Discurso e nas Meditações Metafísicas.

Em caráter geral, observa-se que o ponto de partida das provas cartesiana encontra-se nas conclusões oriundas do cogito: a existência dos meus pensamento e do eu que os possui.O espírito humano é conduzido a Deus, a partir de si mesmo.

3.3A Primeira Prova

3.3.1 Exposição do Discurso do Método

No Discurso do Método, Descartes, ao refletir acerca da dúvida que tanto utilizara, conclui que o seu ser "não era totalmente perfeito, pois via claramente que o conhecer é perfeição maior do que duvidar". Decide então procurar de onde aprendera a pensar em algo possuidor de mais perfeição do que ele próprio, que, com certeza, deveria ser de alguma natureza que fosse realmente mais perfeita.

Ao proceder a sua análise, Descartes afirma que a idéia de perfeito, presente em seu espírito, não poderia originar-se do nada nem de si próprio, pois "visto que que não é menos repulsiva a idéia de que o mais perfeito seja uma conseqüência e uma dependência do menos perfeito".É fácil vislumbrar aqui a utilização do princípio de causa e efeito. Diante disto, Descartes conclui seu argumento:

De maneira que restava somente que tivesse sido colocada em mim por uma natureza que fosse de fato mais perfeita do que a minha, e que possuísse todas as perfeições de que eu poderia ter alguma idéia, ou seja, para dizê-lo numa única palavra, que fosse Deus.

3.3.2Exposição das Meditações Metafísicas

Analisando o conjunto de idéias que estão presentes no eu, Descartes afirma que algumas (homens, animais, anjos, etc.) "podem ser formadas pela mescla e composição de outras idéias que tenho das coisas corporais e de Deus", outras, como as idéias das coisas corporais, não possuem nada de tão grande ou excelso que não pareça poder proceder do próprio eu. A respeito das idéias claras e distintas que dizem respeito às coisas corporais, como a de substância, duração, número ou de outras coisas análogas, Descartes afirma que parece que as tirou da idéia que tem de si mesmo.

Já as outras qualidades de cujas idéias são compostas as coisas corporais, como por exemplo, a extensão, o aspecto, a situação e o movimento, não estão formalmente no eu, visto que a sua essência é o pensamento.Contudo, Descartes afirma que por elas serem "apenas certos modos da substância (...), parece que elas podem estar contidas em mim eminentemente", pois o eu é uma substância.

Resta então a idéia de Deus que, ao analisar os atributos da sua substância  infinita, eterna, imutável, independente, onisciente, onipotente, criadora  evidencia-se cada vez mais que a sua origem não pode estar no eu. Daí, Descarte conclui que Deus existe:

E, portanto, é necessário obrigatoriamente concluir, de tudo o que foi dito antes, que Deus existe; porque, mesmo que a idéia da substância esteja em mim, pelo próprio fato de ser eu uma substância, não teria a idéia de uma substância infinita, eu que sou um ser infinito, se ela não tivesse sido colocada em mim por alguma substância que fosse de fato infinita.

Após a exibição do argumento, Descartes irá afirmar que a idéia do infinito não pode ser obtida pela negação do finito, pois "vejo claramente que existe mais realidade na substância infinita do que na substância finita, e, logo, que, de alguma forma, tenho em mim a noção do infinito anteriormente à do finito, ou seja, de Deus antes que de mim mesmo". Acerca disto,Rodis-Lewis comenta muito bem:

O infinito é ontologicamente primeiro em relação ao finito, mesmo se cronologicamente a primeira certeza é a do meu ser finito. A este respeito é essencialmente que o cogito não tenha atingido de imediato o Pensamento universal e intemporal.A argumentação cartesiana conclui da minha finitude a impossibilidade para mim de ser causa deste infinito positivo representado pela idéia de que tenho dele.Assim se instaura uma verdadeira dialético ascendente, em que o ser limitado do ego pensante se subordina ao Ser infinito, o único capaz de ser absolutamente Princípio.

Como a idéia de Deus é muito clara e distinta e contém mais realidade objetiva do que qualquer outra, apresenta-se como a idéia mais verdadeira e menos sujeita a erro e falsidade. Tudo o que é concebido clara e distintamente de real e verdadeiro pelo espírito, e que contém em si alguma perfeição, está contido na idéia de Deus. E isto não deixa de ser verdadeiro, apesar do eu não compreender o infinito.Deus pode ser entendido, alcançado pelo pensamento, mesmo sendo incompreensível, pois "é da natureza do infinito que minha natureza, que é finita e limitada, não possa compreendê-lo".

Segundo Jesus, esta é a única prova propriamente cartesiana, pois as outras duas não passam de reedições de argumentos já existentes: "a segunda, versão cartesiana do argumento da contigentia mundi (...), a terceira é uma reedição do argumento ontológico de Santo Anselmo".O próprio Descartes considera esta a prova mais importante; no Resumo das Meditações Metafísicas cita que "na terceira meditação, afigura-se-me haver explicado bastante longamente o principal argumento de que me utilizo para provar a existência de Deus" (grifo nosso).

3.4A Segunda Prova

3.4.1Exposição do Discurso do Método

A segunda prova da existência de Deus é, também ela, elaborada com base no princípio de causalidade.Distingue-se, no entanto, da primeira no sentido em que tem como objetivo procurar não a causa da realidade objetiva da idéia de Deus, mas antes a causa da existência do ser pensante como possuidor da idéia do ser infinito e soberanamente perfeito. Diz Descartes:

A isso acrescentei que admitindo que conhecia algumas perfeições que eu não tinha, não era o único ser que existia (usarei aqui livremente, se vos aprouver, alguns termos da Escola); mas que devia necessariamente haver algum outro mais perfeito, do qual eu dependesse e de quem tivesse recebido tudo o que possuía.

3.4.2Exposição das Meditações Metafísicas

Na terceira meditação, Descartes passa a "averiguar se eu mesmo, que possuo essa idéia de Deus, poderia existir, no caso de não haver Deus". E continua:

E, pergunto de quem originaria minha existência?Talvez de mim mesmo, ou de meus pais, ou ainda de quaisquer outras causas menos perfeitas que Deus, já que nada se podeimaginar mais perfeito, nem mesmo igual a ele. (grifo nosso).

Descartes irá analisar estas possíveis origens da sua existência.Elimina logo a primeira, que supões a origem da existência do próprio eu, pois, com certeza, se o eu fosse o autor do ser, o pensador não duvidaria de nada, não anseiaria nada, não lhe faltaria perfeição alguma; "pois eu me teria concedido todas aquelas (perfeições) das quais possuo alguma idéia e, assim, seria Deus".

Descartes apresentará agora a hipótese do eu existir sem uma causa, hipótese que fica invalidada pela descontinuidade e independência dos momentos do tempo e, conseqüentemente, pela necessidade do eu ser preservado, a cada instante, por uma causa. Pois:

De fato, é uma coisa muito distinta e evidente (para todos os que analisarem com zelo a natureza do tempo) que uma substância, para ser preservada em todos os instantes de sua duração, precisa do mesmo poder e da mesma ação, que seriam necessários para produzi-la e criá-la de novo, se ainda não existisse.De maneira que a razão nos mostra distintamente que a preservação e a criação não diferem a não ser no que se refere à nossa maneira de pensar, e não em decorrência dela.

Ciente disto, o nosso autor interrogará a si mesmo a fim de saber se possui tal poder ou virtude capaz de preserva-lhe a existência, pois, se tal poder existisse no eu seria possível pensá-lo e ter conhecimento dele.Ao fazer isto conclui:"não sinto poder algum em mim e por isso reconheço forçosamente que dependo de algum ser distinto de mim".

Descartes voltará, agora, à hipótese de que origem da sua existência se encontraria numa possível produção por parte dos seus pais ou por outras causas menos perfeitas do que ele. Logo reafirmará o princípio de causalidade, segundo o qual deve existir, ao menos, tanta realidade na causa quanto em seu efeito (idéia de Deus). Daí, conclui:

(...) qualquer que seja a causa que se atribua à minha natureza, é preciso confessar que ela deve ser de igual maneira uma coisa pensante e possuir em sim a idéia de todas as perfeições que atribuo à natureza divina.

Descartes analisa ainda a hipótese de que o eu possa ser produzido por muitas causas juntas e que, de alguma delas, tenha recebido a idéia de um das perfeições atribuídas à Deus.Assim sendo, estas perfeições encontram-se em alguma parte do Universo e não reunidas em uma causa só, que seria Deus.Segundo Descartes, esta hipótese é infundada, pois, "a unidade, a simplicidade ou a inseparabilidade de todas as coisas que existem em Deus é uma das principais perfeições que concebo haver nele".

Continuando a sua análise, Descartes irá investigar agora como adquiriu a idéia de Deus.Confessa que não a recebeu dos sentidos, nem é umas pura produção ou ficção do seu espírito, "porque não possuo o poder de lhe diminuir ou de lhe acrescentar coisa alguma".Daí concluir que a idéia de Deus, semelhante à idéia do eu (cogito), nasceu e foi produzida no eu desde o instante da sua criação.

Agora, então, encontram-se preparados todos os fundamentos diante dos quais Descartes lançará o seu argumento que defende que a idéia de Deus é como "a marca do operário impressa em sua obra". Diz:

E toda a força do argumento de que aqui me servi para demonstrar a existência de Deus consiste em que reconheço que seria impossível que minha natureza fosse tal como é, isto é, que eu tivesse em mim a idéia de um Deus, se Deus não existisse de fato; esse mesmo Deus do qual existe uma idéia em mim, ou seja, que possui todas essas altas perfeições de que nosso espírito pode imaginar, sem, contudo, compreendê-las a todas, que não é sujeito à necessidade alguma e que nada possui de todas as coisas que indicam alguma imperfeição.

Descartes conclui o seu argumento afirmando que Deus não é embusteiro, pois, como vemos na citação acima, Deus possui em si todas as altas perfeições e, ser embusteiro, caracteriza-se como uma imperfeição devido a originar-se de uma carência.Assim sendo, é incompatível Deus ser perfeito e, ao mesmo tempo, embusteiro.

Guéroult, citado por Lebrun, de maneira feliz, afirma em relação à esta prova cartesiana da existência de Deus:

Guéroult acentua que, se a primeira prova é mais importante (ao menos na ordem das razões que não se deve confundir com a ordem das coisas), posto que só ela me permite colocar Deus, passar do subjetivo ao objetivo, esta segunda prova, por seu turno, me faz conhecer melhor quem ele é.Cf. Princípios, I, 22.

Esta prova cartesiana não possui uma relevante originalidade, pois configura-se como uma versão do argumento denominado por Leibniz de contigentia mundi e por Kant de prova cosmológica.Tal prova é originada da distinção entre o ser necessário e o ser possível, onde este não existe por si, mas tem necessidade de alguma coisa para existir. Em Descartes, se algo existe (eu mesmo, o cogito  como Descartes afirma), logo existe o ser necessário, Deus.

3.5A Terceira Prova

3.5.1 Exposição do Discurso do Método

Segundo Pascal, as duas primeiras provas podem ser consideradas como sendo uma só, "na medida em que ambas partem de um fato, ou seja, que tenho a idéia de Deus".A terceira prova, que aqui apresentaremos, é denominada ontológica porque parte da própria essência de Deus e não da existência do eu ou da existência de uma idéia no eu, como acontece nas provas anteriores.Tal argumento encontra-se sobre a sua primeira forma no Proslogium de Santo Anselmo de Cantuária:

Mas o ser do qual não pe possível pensar nada maior não pode existir somente na inteligência. Se, pois, existisse apenas na inteligência, poder-se-ia pensar que há outro ser existente também na realidade, e que seria maior.Se, portanto, o ser do qual não pe possível pensar nada maior existisse somente na inteligência, este mesmo ser, do qual não se pode pensar nada de maior, torna-se-ia o ser do qual é possível, ao contrário, pensar algo maior: o que, certamente, é absurdo.Logo, o ser do qual não pe possível pensar nada maior existe, sem dúvida, na inteligência e na realidade.

Citando Descartes:

Enquanto, ao voltar a examinar a idéia que eu tinha de um Ser perfeito, verificava que a existência estava aí inclusa, da mesma maneira que na de um triângulo está incluso serem seus três ângulos iguais a dois retos, ou na de uma esfera serem todas as suas partes iguais igualmente distantes do seu centro, ou ainda mais evidentemente; e que, por conseguinte, é pelo menos tão certo que Deus, que é esse Ser perfeito, é ou existe quanto seria qualquer demonstração de geometria.

3.5.2.Exposição das Meditações Metafísicas

A prova a priori da existência de Deus, é exposta na Quinta Meditação.Partindo de que o eu encontra em si a idéia de Deus como também a idéia de várias outras coisas, Descartes cita que, mesmo "acostumado em todas as outras coisas a fazer distinção entre a existência e a essência", não é possível separar a existência da essência de Deus. Afirma:

Porém, sem embargo, quando penso nisso com maior atenção, verifico claramente que a existência não pode ser separada da essência de Deus, tanto quanto da essência de um triângulo não pode ser separada a grandeza de seus três ângulos iguais a dois retos, ou, da idéia de uma montanha, a idéia de um vale; de maneira que não sinto menos aversão em conceber um Deus (ou seja, um ser perfeitíssimo) ao qual falte existência (ou seja, ao qual falte alguma perfeição), do que em conceber uma montanha que não possua vale.

Descartes reconhece que a este argumento "se afigura ter alguma aparência de sofisma", porque estamos acostumados a fazer a distinção entre essência e existência em todas as outras coisas. Contudo, conceber Deus é um ato privado do pensamento e mesmo que não se possa conceber um Deus sem existência, como uma montanha sem vale, "parece não resultar daí que haja algum Deus existente", pois não se poder conceber uma montanha sem vale, não segue que devam existir na realidade, mas somente que, existentes ou não, são inseparáveis.

Deus, no entanto, supera este raciocínio, pois, do simples fato de eu não poder conceber Deus sem existência resulta que a existência lhe é inseparável, e, portanto, que existe verdadeiramente". Desta forma, a necessidade da existência é uma característica própria da idéia do ser perfeito:"Pois não me é dada a liberdade de conceber um Deus sem existência (isto é, um ser supremamente perfeito sem uma suprema perfeição), como me é dada a liberdade de imaginar um cavalo sem asas ou com asas".

Segundo Descartes, há uma necessidade de se atribuir todas as espécies de perfeição à idéia de Deus, quanto esta se manifesta no espírito. E esta necessidade "é suficiente para me fazer concluir (após reconhecer ser a existência uma perfeição) que este ser primeiro e soberano existe de verdade".Reafirmando a característica matemática de seu pensamento, Descartes continua:

(...) da mesma maneira que não é necessário que eu imagine triângulo algum; mas todas as vezes que quero considerar uma figura plana composta somente de três ângulos, é absolutamente necessário que eu lhe atribua todas as coisas que servem para concluir que seus três ângulos não são maiores do que dois retos, mesmo que talvez na ocasião no considere isto especificamente.Mas quando analiso que figuras são passíveis de ser inscritas no círculo, não é de forma alguma necessário que eu pense que todas as figuras de quatro lados se encontram nesta lista; ao contrário, nem mesmo posso fingir que isso se dê enquanto eu nada quiser receber em meu pensamento que não possa conceber clara e distintamente.E, conseqüentemente, existe uma grande diferença entre as falsas suposições, como essa, e as verdadeiras idéias que nasceram comigo e, dentre as quais, a primeira e mais importante é a de Deus.

Finalizando a explicitação do seu argumento, Descartes relembrar o seu critério de evidência afirmando que qualquer que seja a prova empregada, é necessário sempre admitir que, apenas as coisas concebidas clara e distintamente, possuem a força de persuadi-lo totalmente. Embora, para bem se compreender a idéia de Deus, haja a necessidade de uma "grande aplicação do espírito", Descartes está convencido de que ela é a mais certa de todas as idéias, pois a "certeza de todas as outras coisas depende dela de tal forma que, sem esse conhecimento, é impossível algum dia jamais conhecer algo perfeitamente". Gérard Lebrun, acerca deste argumento, diz:

Compreende-se aqui por que a prova ontológica, em relação às outras, não é apenas uma prova a mais: ela nos fornece imediatamente no plano da 'natureza', isto é, da Psicologia, a certeza de que Deus existe eternamente.Poupa assim o constante recurso às difíceis provas a priori. O raciocínio matemático, por exemplo, está assegurado, sem que eu tenha necessidade, ao efetuá-lo, de reativar as 'razões' da Meditação Terceira.

É fácil perceber a ligação existente entre o pensamento de Descartes e Santo Anselmo a respeito da prova ontológica.Entretanto, Pascal afirma que Descartes dá uma forma ao raciocínio anselmiano capaz de torná-lo um argumento completamente diferente. Diz:"Antes de mais nada, já não se trata de invocar a grandeza de Deus, noção ambígua, mas sim sua perfeição; e, sobretudo, a idéia de Deus é uma idéia inata que se nos impões com uma verdadeira e imutávelnatureza". Nesta mesma perspectiva está o pensamento de Fraile.

4.O Círculo Vicioso

Recebe o nome de Círculo Vicioso um problema estrutural enfrentado por Descartes na sua tentativa de firmar seu novo sistema científico em uma base metafísica completamente sólida. Como já sabemos, Descartes afirma que não podemos ter a certeza de que as coisas existentes de fato, como as concebemos, enquanto que supuséssemos que não conhecíamos o autor da nossa origem.

A certeza só é possível se reconhecermos a existência de um Deus perfeito que, por sua própria natureza, é impossibilitado de em enganare que, além disso, doa a todos nós a capacidade de julgar, de tal forma, que nunca poderemos nos equivocar quando a utilizarmos como convém.O erro seria produto do uso equivocado do dom divino, pois, "se devo a Deus tudo o que possuo e se Ele não me deu poder algum para errar, parece que jamais devo equivocar-me".

Desta forma, a certeza depende necessariamente da existência de um Deus que não seja embusteiro. Em outras palavras, podemos dizer que a certeza da veracidade das idéias claras e distintas (critério de verdade) depende da certeza na veracidade divina.Entretanto, ao finar a exposição dos argumentos que provam a existência de Deus, Descartes afirma:

Qualquer que seja a prova e argumento que eu empregue, é preciso sempre retornar a este ponto, ou seja, que são apenas as coisas que concebo clara e distintamente que possuem a força de me convencer totalmente.E, apesar de entre as coisas que concebo dessa forma haver na verdade algumas manifestamente co9nhecidas por qualquer um, e de haver outras também que não se revelam senão àqueles que as analisam de mais perto e com mais cuidado, uma vez descobertas, não são consideradas menos certas umas do que as outras. (grifo nosso)

Vemos claramente que, para validar as aprovas da existência de Deus, é preciso, necessariamente, se recorrer ao critério de verdade.Diante disto, percebemos o círculo, pois, de um lado, afirma-se a existência divina por causa da evidência das idéias claras e distintas e, por outro lado, afirma-se a veracidade destas mesmas idéias fundamentadas pela veracidade divina.Tal crítica ao pensamento cartesiano é levantada pelos próprios contemporâneos de Descartes, em especial, Marin Mersenne, Antoine Arnauld e Gassendi nas Segundas, Quartas e Quintas Objeções respectivamente.

A esta objeção Descartes responde que a intuição (evidência imediata) é suficiente por si mesma.Já a veracidade divina é necessária para garantir a verdade dos raciocínios (intuições sucessivas), onde intervêm a memória.Acerca disto Descartes diz:

Em terceiro lugar, onde afirmei que nada podemos saber de certo, se não conhecermos primeiramente que Deus existe, afirmei, em termos expressos, que falava apenas da ciência dessas conclusões, cuja lembrança nos pode retornar ao espírito, quando não mais pensamos nas razões de onde as tiramos.Pois o conhecimento dos primeiros princípios ou axiomas não costuma ser chamado ciência pelos dialéticos.

Podemos concluir então que o nosso filósofo não cai em círculo pois o mesmo, faz uma distinção entre "as coisas que concebemos de fato mui claramente e das que nos recordamos haver outrora concebido mui claramente".

5.Acusação de Ateísmo

Especialmente no que diz respeito à dúvida exposta na Meditação Primeira, Descartes é acusado de ateísmo e ceticismo.Contudo, tais acusações são equivocadas. É válido citar Descartes:

Ao renunciar a todas as minhas crenças, tiver o cuidado de tomar como exceção todas as questões relativas à fé e à moral em geral.Além disso, a (proposta) renúncia às crenças aplica-se somente a aqueles que ainda não perceberam nada de forma clara e distinta.Os céticos, pra quem tal renúncia é o mais comum, qua céticos, jamais perceberam qualquer coisa claramente; pois o próprio fato de ter percebido algo claramente implicaria deixar de ser cético. (Sétima Respostas, AT VII 476-7: CSM II 321).

Observamos que a fé e a moral são resguardadas da dúvida, o que evidencia, ao menos, o respeito pelo religioso por parte de Descartes.Além disso, o nosso filósofo, sendo um convicto pensador na busca de um conhecimento sistemático e bem fundamentado, não podia ser ateu sem implicar numa contradição entre a sua vida e o seu pensamento, pois, segundo ele, o ateu pode até alcançar um ato isolado de cognição, mas não pode obter um corpo de conhecimento sistemático e bem fundamentado, pois, não dispõe de algo que valide de forma também sistemática, a confiabilidade da mente humana. Citando Descartes:

(...) quanto menos poder oi ateu atribui ao autor do seu ser, mais razão tem para suspeitar que talvez a imperfeição de sua natureza seja tamanha que lhe permita enganar-se até mesmo em assuntos que lhe pareçam completamente evidentes; e jamais estará livre de sua dúvida até que reconheça que foi criado por Deus veraz, que não pode ser enganador. (Sextas Respostas, AT VII 428: CSM 289).

Retomando a categoria da fé, é simples concluir que esta assinala uma máxima certeza imune a toda e qualquer dúvida.Esta fé anda em paralela relação com a razão, mesmo observando que há uma nítida distinção entre as duas, ao passo que a fé é proveniente de Deus:

No que diz respeito à teologia, já que uma verdade jamais pode chocar-se com outra, seria ímpio temer que qualquer verdade descoberta na filosofia pudesse entrar em choque com as verdades de fé.Com efeito, insisto em que não há nada que se relacione à religião que não possa ser explicado por meio de meus princípios, tão bem ou ainda melhor do que por aqueles que são habitualmente aceitos. (AT VII 581: CSM II 392).

Em suma, Deus é o ser mais conhecível, mas seu ser ultrapassa infinitamente o nosso limitado conhecimento. Pascal diz que, assim sendo, "não há nenhuma oposição entre fé e razão, e Descartes pode escrever a Mersene, em 28 de Janeiro de 1641: 'Nunca tratei do infinito senão para submeter-me a ele, e não para determinar o que é, ou o que não é' (AT III, 293)".  

  CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente pesquisa possuiu como objetivo evidenciar e explicitar o eixo metafísico da construção filosófica de René Descartes, como uma característica dos mais novos recentes comentadores do pensamento cartesiano, dentre os quais, evidenciamos Ferdinand Alquié.

Tentamos relacionar a questão metafísica de Deus com o método, com a metafísica, com a dúvida e com o cogito, todas as características mais que relevantes do pensamento cartesiano.Desta forma, foi possível tentar construir uma visão geral da temática estudada, buscando sempre evitar o costumeiro erro de se dividir o pensamento de Descartes em eixos distintos e independentes: método, ciência e metafísica.

O método, como vimos, tem como característica básica a evidência racional. A ciência evidencia o mecanicismo. A metafísica parte da dúvida ao cogito e se finda na idéia de Deus. Separar estes três eixos e delimitá-los como independentes constitui-se como uma leitura parcial de Descartes.

Em Descartes, a metafísica é de onde tudo se origina, portanto, olhar a visão metodológica e científica sem a visão metafísica, seria, no mínimo, privilegiar matizes que, por sua própria natureza, dependem de algo pra fundamentá-las. A nós parece claro que Descartes inicia seu itinerário filosófico com a idéia de uma ciência universal, posteriormente, preocupa-se com o método e, por fim, chega à metafísica na qual preocupa-se com o homem, com Deus, com a liberdade e com a moral.

A metafísica, em Descartes, tem como característica primordial a afirmação e fundamentação da liberdade do espírito em conhecer e, em primeiro lugar, descobrirem-se como a primeira certeza irrefutável.Talvez aqui esteja o porquê de tantas acusações imprecisas ao pensamento cartesiano: ceticismo, ateísmo. E, sem dúvida, aqui está a grande contribuição do pensamento cartesiano ao discurso filosófico posterior a ele.

A metafísica de Descartes e as suas provas da existência de Deus, cerne deste trabalho tiveram o mesmo destino que as provas de Aristóteles e Tomás de Aquino.E, no entanto, a grande descoberta cartesiana, a descoberta da primazia intelectual do sujeito diante do infinito, parece permanecer adequada.Aqui, compartilhamos com o pensamento de Koyré, ao afirmar que "continua a ser verdade que o pensamento envolve e implica o infinito, continua a ser verdade que o pensamento finito (...) não se pode apreender nem compreender senão a partir de uma idéia infinita.É verdade que é livre e que é autônomo".

Descartes é complexo e de um raciocínio brilhante, na tarefa de argumentar todos os seus pensamentos.Em suma, nenhum homem é mais inteiro do que Descartes (...), enquanto tentamos concordar aqui, negar ali, e enfim explicar pelo peso da história por que talvez ele não disse tudo como devia (...), Descartes, pelas leis da glória, subsiste inteiro".

Tudo isto, sem dúvida, configuram-se como razões que nos impulsionam a admirar e, sempre mais e mais, buscar entender este pensador de caracteres monásticos no que diz respeito ao seu filosofar.Citanto novamente Alain, findamos aqui as nossas últimas considerações:"Devemos aprender (...) e saber dizer: 'Nosso pai, Descartes' ".

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