Desafios da Educação Ambiental Para Educação Infantil
 
Desafios da Educação Ambiental Para Educação Infantil
 


1. INTRODUÇÃO

Se perguntarmos a uma criança urbana de onde vem o leite, as frutas, o arroz, a água e os ovos, é bem provável que ela responda imediatamente que vem do supermercado. Em seu texto em defesa das arvores, Ruben Alves diz que "há crianças que nunca viram uma galinha de verdade, nunca sentiram o cheiro de um pinheiro, nunca ouviram o canto do pintassilgo e não tem prazer em brincar com a terra. Pensam que terra é sujeira. Não sabem que terra é vida" (ALVES, 1999).

A incapacidade de relacionarmos nosso bem-estar com a natureza na vida artificial e mecanizada que levamos hoje, nos centros urbanos, afasta-nos da nossa real mantenedora. Vivemos segundo Rita Mendonça, sob o desejo de nos apropriarmos da natureza, e não de nos conhecermos como seus filhos. Para satisfazermos nossas "necessidades" de consumo, nós a transformamos em simples recurso para utilizamos hoje no futuro. A mesma autora cita a proposta de trabalho de Joseph Cornell, que visa promover a aproximação e interação do indivíduo como a natureza, possibilitando às pessoas expandirem sua auto-identidade, de modo a incluir todas as coisas como parte de si mesmas. Assim, elas começam realmente a se interessar pela natureza e a cuidar dela (MENDONÇA, 2000).

A ecologia profunda, corrente de pensamento criada no início dos anos70, pelo filósofo Arne Naess, defende a idéia de que contato do homem, seja de qual idade for, com natureza é o único modo de sensibiliza-lo para oproblema ambiental. O contato direto com o ambiente (experiência) desperta nas pessoas a percepção da degradação ambiental e da posição do homem como ator principal neste cenário (questionamento). Essa reflexão inspira a mudança de atitudes no cotidiano, resultando na conservação do ambiente (NAESS, 1999).

Leonardo Boff,em Saber Cuidar: Ética do Humano-Compaixão pela Terra, vai mais longe quando afirma que "tudo começa com o sentimento. É o sentimento que nos faz sensíveis ao que está à nossa volta, que nos faz gostar ou desgostar. É o sentimento que nos une às coisas e nos envolve com as pessoas. É o sentimento que produz encantamento face à grandeza dos céus, suscita veneração diante da complexidade da Mãe-Terra e alimenta enternecimento face à fragilidade de um recém-nascido. Esse sentimento profundo se chama cuidado. Somente aquilo que passou por uma emoção, que evocou um sentimento e provocou cuidado em nós, deixa marcas indeléveis e permanece definitivamente". (BOFF, 1999).

Será que já pensamos na possibilidade de minimizar os problemas ambientais, desenvolvendo o sentimento de comunhão das pessoas com a Terra? Não se trata de uma questão simples. Há duas correntes em discussão sobre o aspecto determinante da consciência ecológica: a positiva (o desenvolvimento de prazer, alegria e maravilhamento de contato com a natureza  visitas, passeios, trilhas e excursões em áreas conservadas) e a negativa (o choque traumático  episódio do césio em Goiânia, racionamento de energia, inundações por acúmulo de lixo etc.).

Soulé sintetiza seu pensamento a respeito da conscientização ambiental, afirmando que "não conseguimos ensinar as pessoas o amor à vida com argumentos econômicos e raciocínio lógico. A conscientização depende de um sentimento de comunhão com a natureza. Para amá-la, é preciso um contato direto, um pé na trilha, a caminhada em parques, o pôr-do-sol na praça. Não há argumentos que substituem a experiência direta com o mundo natural" (SOULÉ, 1999).

Mas apenas o conhecimento de informação é capaz de produzir mudanças de comportamento em relação ao meio-ambiente? Para Vera Mendel, não. Ela afirma que "o conhecimento de um problema ambiental é condição necessária, mas não suficientes para a mudança de valores que leves ao surgimento de atitudes positivas, desencadeando a criação de uma consciência ecológica. Ou seja, o domínio cognitivo não resulta linearmente em mudanças comportamentais" (MANDEL, 2000).

Portanto, se as atitudes são desencadeadas por sentimentos e conhecimento, fica clara a necessidade de se trabalhar a sensibilização em conjunto com a informação e a ação. Não se trata de optar por um destes, mas por todos, e a todo tempo.

É com base nessa recomendação e nos princípios já apresentados aqui, que devem ser realizadas visitas e excursões a Áreas de Proteção Ambiental ou entidades afins, como alunos da educação infantil ao ensino superior, como tema principal ou como parte de projetos interdisciplinares. Visitas ao lixão, ao horto botânico, às nascentes de um rio a museus, à estação de tratamento de água, a uma residência ecologicamente correta; trilhas em matas conservadas e passeio pela cidade; excursões a parques estaduais e nacionais são exemplos de atividades que podem ser desenvolvidas. Esses momentos de visitação e vivência devem ser acompanhados de um trabalho prévio de coleta, apresentação e discussão de informações, e permeados por atividades envolvendo os diferentes conteúdos.

2.OS RECURSOS NATURAIS E O AMBIENTE EM QUE VIVEMOS

Nada que dispomos na Natureza é indestrutível ou inexaurível, nem o solo que usamos nem a água que bebemos, nem o ar que respiramos; todos sofrem constantes ameaças de severas contaminações que podem dar fim a esses preciosos "recursos naturais", e a designação dada aos elementos da Natureza, em referência aos seres vivos, existindo basicamente, três categorias: recursos naturais renováveis (animais e vegetais), recursos naturais não-renováveis(solos, minerais, fósseis,) e recursos livres(ar, água, luz solar, entre outros recursos mais abundantes). Consideramos "livres" porque esses recursos, mesmo ameaçados pela poluição galopante, sempre existiam em abundância no Planeta.

3. Ar

Você já parou para pensar na qualidade do ar que respira, e que sua deterioração poderá significar em termos de possibilidade de vida? A crescente poluição do ar tem acarretado, principalmente, em um aumento considerável dos problemas respiratórios na população de muitas comunidades dos a centros industriais e suas redondezas. O ar, tão indispensável à nossa vida, começa a se tornar fonte de doenças.

Um dos maiores problemas que a poluição do ar pode causar é o efeito estufa, um fenômeno natural da atmosfera, que foi exacerbado pela poluição, que tem determinado mudanças climáticas em todo o planeta Terra. A poluição do ar também tem alterado a composição da água das chuvas, aumentando sua acidez, fenômeno conhecido como chuva ácida. Isso acontece porque a queima de combustível fósseis, como carvão ou derivados de petróleo, libera elementos químicos os quais, combinados com a água presente na atmosfera, formam os ácidos nítrico (HNO3) e sulfúrico (H2SO4). Essa solução de água e ácidos acaba se precipitando, na forma de chuva, geada, neve ou neblina, e, ao caírem na superfície, determinam alterações na composição química do solo e das águas, destroem florestas e lavouras, corroem estruturas metálicas, monumentos e edificações.

"Entretanto, entre os muitos problemas que a poluição do ar pode causar o que tem mais preocupado pessoas no mundo inteiro é o efeito estufa, um fenômeno natural da atmosfera, que tem sido exacerbado pela poluição e que tem determinado mudanças climáticas no planeta Terra". (BOFF, 1999, p. 38).

O efeito estufa propiciado pela natureza é benéfico ao planeta, pois colabora para o equilíbrio térmico, reduzindo as variações excessivas de temperatura ao longo do dia e da noite. O problema é que, ao longo do último século, houve um aumento muito intenso da concentração de gases que causam o efeito estufa, gerado pela maior atividade industrial, agrícola e de transporte em todo o planeta, e principalmente por causa do uso combustível fósseis como o petróleo e o carvão. Isso tem causado pouco a pouco um efeito estufa mais intenso, ou seja, a superfície do planeta está se aquecendo, trazendo como conseqüência alterações climáticas diversas, que podem causar maior número e furacões, tempestades, enchentes ou secas, sem contar o derretimento do gelo das regiões polares elevando o nível do mar, e o surgimento de áreas desérticas.

4. Água

A sociedade como um todo, e nela os educadores têm u papel fundamental, precisa estar consciente dos problemas imediatos e futuros que a poluição da água causa e irá causar. Além disso, é preciso que nos preocupemos com o desperdício da água, seu uso indevido, que tendem a reduzir sua disponibilidade.

". . . Considere que o Brasil detém entre 12% e 15% de água doce do planeta e que cerca de 80% dessa reserva esta concentrada na bacia Amazônica. E um detalhe importante: os 20% restantes estão distribuídos pelo resto do país, atendendo a 95% da população. E é justamente nessas regiões que temos os maiores problemas quanto à poluição e ao uso da água".(KHOL, 1995, p. 65).

5. Poluição

A contaminação da água pode acontecer por causas da falta de saneamento básico nas cidades (despejo de esgoto diretamente nos rios e cursos d água), por material líquido descartado por indústrias (Chamados de efluentes) descarte de lixo na água, agrotóxicos usados na agricultura entre outros materiais.

A poluição tem uma ação direta sobre as pessoas que têm contato com a água poluída, causando doenças, como cólera, tifo e hepatite, sem contar leptospirose, perturbações gastrointestinais, infecções nos olhos, ouvidos, garganta e nariz. Essa ação também pode ocorrer por causa da contaminação dos peixes que servem de alimento às populações que vivem às margens dos rios e mares. Mas a poluição das águas não exerce apenas ações diretas sobre os seres humanos. A poluição causa muitos outros danos indiretos, tão graves quanto às doenças.

O solo é um elemento que pode prejudicar muito a água, quando carreado para os cursos de água.Por causa de atividades agrícolas e pecuárias, especialmente durante o plantio de culturas, soa feitas operações mecanizadas que incluem aração, gradagem e outras, que desagregam o solo, deixando-o sem cobertura vegetal, e reduzindo sua capacidade de infiltração de água. Alem disso, estas práticas expõem o solo, à ação da chuva durante um longo período de tempo, o que acarreta erosão laminar e em sulcos. Esse material é carregado para as partes mais baixas do terreno, e acaba sendo depositado nos cursos, causando assoreamento, com redução de profundidade, eutrofização da água, piorando sua qualidade. Menor profundidade de um rio determina o aumento de ocorrência de enchentes.

6. Mau uso da água

O custo para tratamento da água é alto para toda a sociedade. Muitas vezes o desperdício e o mau uso feito por poucos é pago por todos. É o caso de torneiras, válvulas com defeito e vazamentos que dão um prejuízo enorme. É necessário usa-la racionalmente nos jardins, nas hortas, nos condomínios e na lavagem de carros.

Está dito que a poluição é uma das principais causas da deterioração da qualidade do ar e da água, contribuindo para fenômenos como o efeito estufa e a eutrofisação dos cursos de água. Mas, o que podemos classificar como poluição? Com definir esse problema de uma forma mais exata?

7. Conservação da fauna e da flora

Muitas vezes, a educação ambiental trabalha sentimentos de conservação dos recursos naturais, não apenas por seu valor econômico ou por influenciar a qualidade de vida das pessoas.

Mas também podemos considerar que a conservação de habitats, de espécies vegetais e animais silvestres, têm também valores científicos, culturais e morais.

8. Biodiversidade

Outro conceito importante que determinam as diretrizes para as políticas de conservação, é o de Biodiversidade, que merece ser estudado num módulo à parte.

"O artigo 2º da Convenção sobre Diversidade Biológica, assinada durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada na cidade do Rio de Janeiro, no período de 5 a 14 de Junho de 1992, considera que "Diversidade biológica significa a variabilidade de organismo vivos de todas as origens, compreendendo, dentre outros, os ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte; compreendendo ainda à diversidade dentro de espécies, entre espécies e de ecossistemas".

Essa convenção foi assinada pelo governo brasileiro, e transformada em lei parao país. Da mesma maneira que enumeramos diversos motivos para as preocupações com o meio ambiente, também podemos considerá-los para a biodiversidade. A sua conservaçãodeve ser feita por causa de sua contribuição econômica direta ao ser humano e à sociedade (produtos alimentares, farmacêuticos de uso industrial derivados da fauna e da flora, que já contribuem, ou que ainda poderão contribuir direta ou indiretamente para a vida humana). E também devem ser considerados fatores como a participação na manutenção dos grandes ciclos ambientais gerais do planeta (ciclo da água, dos climas, dos nutrientes do solo e etc.); e ainda o valor estético (beleza ou "poder de fascinação", que causa sentimento de admiração, sem contar a admiração também pela complexidade e variedade de interligações entre diferentes formas de vida presentes no planeta).

9. Convenção sobre diversidade biológica

Os objetivos desta Convenção, segundo consta em seu texto é: "a serem cumpridos de acordo comas disposições pertinentes, são a conservação da diversidade biológica, a utilização sustentável de seus componentes e a repetição justa e eqüitativa dos benefícios derivados da utilização dos recursos genéticos, mediante, inclusive, o acesso adequado aos recursos genéticos e a transferência adequada de tecnologias pertinentes, levando em conta todos os direitos sobre tais recurso e tecnologias, e mediante financiamento adequado". Abaixo são listados os principais conceitos utilizados na convençãoe que constam de seu texto:

  • Área protegida significa uma área definida geograficamente que é destinada, ou regulamentada, e administrada para alcançar objetivos específicos de conservação;
  • Biotecnologia é qualquer aplicação tecnológica que utilize sistemas biológicos, organismo vivos, ou seus derivados, para fabricar ou modificar produtos ou processos para utilização específica;
  • Conservação ex situ é a conservação de componentes da diversidade biológica fora de seus habitats naturais;
  • Conservação in situ é a conservação de ecossistemas e habitats naturais e a manutenção e recuperação de populações viáveis de espécies em sues meios naturais e, no caso de espécies domesticadas ou cultivadas, nos meios onde tenham desenvolvido suas propriedades características.

10. EDUCAÇÃO INFANTIL E EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Para que nós professores possa traçar estratégias de trabalho com educação ambiental na educação infantil, é importante conceituar bem essa fase. Podemos inicialmente, dizer que a educação infantil corresponde à educação oferecida para a criança do nascimento até aproximadamente os seis anos de idade. Considerado nos dia atuais como indispensável, é ela que vai oferecer os fundamentos para o desenvolvimento da criança em seus diversos aspectos:

  • Físico
  • Psíquico
  • Cognitivo
  • Social

Uma característica marcante nas crianças mais novas da Educação Infantil é o forte vínculo que elas têm com seus familiares. Por isso, nessa fase, a escola terá também a função de buscar um equilíbrio na integração família/escola. Nessa primeira fase da escolaridade, as crianças buscam ativamente o conhecimento; para elas, brincar é mais importante que a ação mental. É pela brincadeira que ela aprende a conhecer a si própria e o mundo que a cerca. Durante a escolarização, haverá momentos de ação e de concentração, mas o importante é que todas as situações de ensino sejam interessantes para a criança. Essa fase deve priorizar vivências em que a criança amplie seus conhecimentos através da busca e da descoberta, de forma prazerosa, aprendendo a ser confiante e a participar de atividades em grupo.

11. PEDAGOGIA DE PROJETOS

Segundo a pedagoga, Lúcia Helena Alvarez Leite, o trabalho por projetos dá um novo significado ao espaço escolar, transformando-o em um espaço vivo de interações, aberto ao real e às suas múltiplas dimensões. Traz uma nova perspectiva para entendermos o processo ensino/aprendizagem, pois aprender deixa de ser um simples ato de memorização e ensinar não significa mais repassar conteúdos prontos. Nessa postura, todo conhecimento é construído em estreita relação com contexto, em que é utilizado; sendo, por isso impossível separar os aspectos cognitivos, emocionais e sociais do processo.

12. Etapas do trabalho com projetos

Primeiro o que chamamos de formulação do problema, ou seja, a problematização, que tem início com base nos conhecimentos prévios e nas expectativas e objetivos do grupo, de forma a se chegar na organização do projeto. Depois, vem a fase de desenvolvimento, quando se estabelece estratégias para atingir os objetos, fazendo-se pesquisas bibliográficas e de campo, entrevistas e debates até que se chegue à realização do projeto. Por fim, temos a fase de síntese com base em conceitos, valores e procedimentos construídos, em informações adquiridas, em questões esclarecedoras, que podem levar a novos problemas a serem resolvidos, de maneira que se tenha novas aprendizagens no processo.

A formação dos alunos não pode ser pensada apenas como uma atividade intelectual. É um processo global e complexo, no qual "conhecer e intervir no real" não se encontram dissociados. Aprende-se participando, vivenciando sentimentos, tomando atitudes diante dos fatos, escolhendo procedimentos para atingir determinados objetivos. Ensina-se não só pelas respostas dadas, mas principalmente pelas experiências proporcionadas, pelos problemas criados e pela ação desencadeada.

É importante privilegiar, durante os diferentes projetos, as saídas a campo e as excursões ecológicas: passeio pelo bairro, onde a escola está inserida, visita à estação de tratamento de água, trilha no parque municipal ou excursão a um parque estadual. Um exemplo desse tipo de metodologia é o método vivencial em excursões ecológicas, baseada na ecologia profunda, que acredita que uma situação de contato com o ambiente desperta nas pessoas a consciência para a natureza e para o fato de que somos parte dela. Essa experiência leva à percepção da degradação ambiental e ao questionamento sobre o lugar do homem no centro de tudo. Assim, o pensamento ecologicamente correto inspira a ação e as mudanças no cotidiano que vão preservar e conservar o ambiente.

"Um projeto é uma atividade instrucional. Num projeto, a responsabilidade e autonomia dos alunos são essenciais. A autencidade é uma características fundamental de um projeto. Um projeto envolve complexidade e resoluçãode problemas". (LEITE, 1996, p. 32).


13. ATIVIDADES

Todas as atividades a serem desenvolvidas devem ter por base o que determina o Referencial Curricular Nacional para a Educação, que, em seu capítulo sobre "Natureza e Sociedade", diz o seguinte sobre os conteúdos a serem utilizados:

Os conteúdos aqui indicados deverão ser organizados e definidos em função das diferentes realidades necessidades, de forma que possam se de fato, significativos para as crianças. Os conteúdos deverão ser selecionados em função dos seguintes critérios:

  • Relevância social e vínculo com as práticas sociais significativas;
  • Grau de significado para a criança;
  • Possibilidade que oferecem de construção de uma visão de mundo integrada e relacional;
  • Possibilidade de ampliação do repertório de conhecimentos a respeito do mundo social e natural.

Propõe-se que os conteúdos sejam trabalhados junto às crianças, prioritariamente, na forma de projetos que integrem diversas dimensões do mundo social e natural, em função da diversidade de escolhas, possibilidades por esse eixo de trabalho.

14. ATIVIDADES CONTATOS COM OS ELEMENTOS

Um agravante à destruição do meio ambiente hoje é a pouca valorização que o ser dá ao mundo natural. Uma das explicações para isso é a crescente urbanização, que afasta o indivíduo da natureza, produzindo uma sensação de desligamento do natural. Crianças e adolescentes de centros urbanos frequentemente desconhecem a origem dos alimentos e bens de consumo, não estabelecendo nenhuma relação deles com o ambiente.

É de fundamental importância que as crianças travem contato com a natureza, despertando sentimentos e exercitando todos os sentidos. Ver e compreender a natureza como o resultado de inúmeras relações de causa e efeito pode contribuir para uma religação, um novo despertar para a valorização do todo. Quando se altera qualquer dos elementos pertencentes ao mundo natural, há uma reação em quase todo seu sistema, num processo de busca de um novo equilíbrio.

15. Lixo

Através das novas técnicas de industrialização do aumento populacional e da febre de consumo que impera no mundo, onde cada pessoa busca incansavelmente satisfazer seus desejos e necessidades, estamos transformando cada vez mais recursos naturais em bens de consumo. E, nesse processo geramos de forma direta e indireta uma série de resíduos e criamos uma situação, que se não adotarmos medidas que visem a redução, a reutilização e a reciclagem desses resíduos em pouco tempo não teremos mais recursos naturais necessários a produção de novos bens de consumo e transformaremos o mundo em um verdadeiro lixão.

16. NATUREZA E SOCIEDADE

Como integrantes de grupos socioculturais singulares, vivenciam experiências e interagem num contexto de conceitos, valores, idéias, objetos e representações sobre os mais diversos temas que têm acesso na vida cotidiana, construindo um conjunto de conhecimentos sobre o mundo que as cerca.

Muitos são os temas pelo quais os alunos se interessam: pequenos animais, bichos de jardim, dinossauros, tempestades, tubarões, castelos, heróis, festas da cidade, programas de TV, noticias da atualidade, histórias de outros tempos etc. As vivências sociais, as histórias, os modos de vida, os lugares e o mundo natural são para as crianças parte de um todo integrado.

O eixo de trabalho denominado natureza e sociedade reúne temas pertinentes ao mundo social e natural. A intenção é que o trabalho ocorra de forma integrada, ao mesmo tempo em que são respeitadas as especificidades das fontes, abordagens e enfoque advindos dos diferentes campos das ciências humanas e naturais.

17. PRESENÇA DO CONHECIMENTO SOBRE NATUREZA E SOCIEDADE NA EDUCAÇÃO INFANTIL: IDÉIAS E PRÁTICAS CORRENTES

Determinados conteúdos pertinentes às áreas das Ciências Humanas e Naturais sempre estiveram presentes na composição dos currículos e programas de educação infantil. Na maioria das instituições, esses conteúdos estão relacionados à preparação dos alunos para os anos posteriores da sua escolaridade, como no caso do trabalho voltado para o desenvolvimento motor e de hábitos e atitudes, no qual é fundamental a aquisição de procedimentos como copiar, repetir e colorir produções prévias (desenhos, exercícios etc.).

No trabalho com os conteúdos referentes às Ciências Naturais, por sua vez, algumas instituições limitam-se à transmissão de certas noções relacionadas aos seres vivos e ao corpo humano. Desconsiderando o conhecimento e as idéias que os alunos já possuem, valorizam a utilização de terminologia técnica, o que pode constituir uma formalização de conteúdos não significativa para os alunos. Um exemplo disso são as definições ensinadas deforma descontextualizadas sobre os diversos animais: "são mamíferos" ou "são anfíbios" etc., e as atividades de classificar animais e plantas segundo categorias definidas pela zoologia e pela biologia. Desconsidera-se assim a possibilidade de as crianças exporem suas formulações para posteriormente compara-las com aquelas que a ciência propõe.

Algumas práticas também se baseiam em atividades voltadas para uma formação moralizante, como no caso do reforço a certas atitudes relacionadas à saúde e à higiene. Muitas vezes nessas situações predominam valores, estereótipos e conceitos de certo/errado, fio/bonito, limpo/sujo, mau/bom etc., que são definidos e transmitidos de modo preconceituoso. Outras práticas Ciências realizem experiências pontuais de observação de pequenos animais ou plantas, cujos passos já estão previamente estabelecidos, sendo conduzidos pelo professor. Nessas atividades, a ênfase recai apenas sobre as características imediatamente perceptivas.

O trabalho com os conhecimentos derivados das ciências Humanas e Naturais deve ser voltado para a ampliação das experiências dos alunos e para construção de conhecimentos diversificados sobre o meio social e natural. Nesse sentido refere-se à pluralidade de fenômenos e acontecimentos físicos, biológicos, geográficos, históricos e culturais, ao conhecimento da diversidade de formas de explicar e representar o mundo, ao contato com as explicações científicas e à possibilidade de conhecer e construir novas formas de pensar sobre os eventos que as cercam.

É importante que os alunos tenham contato com diferentes elementos, fenômenos e acontecimentos do mundo, sejam instigadas por questões significativas para observá-los e explicá-los e tenham acesso a modos variados de compreendê-los e representa-los.

Por exemplo, para os antigos hindus, a terra tinha forma plana e era sustentada por diversos animais. Para os ianomâmis, o mundo está dividido em três terras: a "terra de cima", que é muito velha e cheia de rachaduras por onde escoam as águas dos rios e dos lagos, formando chuvas que cai sobre a terra a "terra do meio", que é o lugar onde vivem os seres humanos, e a "terra de baixo", que mais recente esta sob nossos pés. Para algumas crianças, na perspectiva da superfície terrestre, a terra pode parecer um grande disco plano recoberto por um gigantesco guarda-chuva o céu.

Assim diferentes formas de compreender, explicar e representar elementos do mundo coexiste e faz parte do repertório sociocultural da humanidade. Os mitos e as lendas representam uma das muitas formas de explicar os fenômenos da sociedade e da natureza e permitem reconhecer semelhanças e diferenças entre conhecimentos construídos por diferentes povos e culturas.

O conhecimento científico socialmente construído e acumulado historicamente, por sua vez, apresenta um modo particular de produção de conhecimento de indiscutível importância no mundo atual e difere das outras formas de explicação e representação do mundo, como as lendas e mitos ou os conhecimentos cotidianos, ditos de "senso comum". Por meio da ciência, pode-se saber, por exemplo, que a terra e esférica, ligeiramente achatada nos pólos.

As descobertas científicas, ao longo da história, marcaram a relação entre o homem e o mundo.

Se por um lado o conhecimento científico imprime novas possibilidades e relação do homem com o mundo, por outro, as transformações dessa relação permitem que algumas idéias sejam modificadas e que novas teorias e novos conhecimentos sejam produzidos. Ainda que revistos e modificados ao longo do tempo e em função de novas descobertas, algumas idéias, hipóteses e teorias e alguns diagnósticos produzidos em diferentes momentos da história possuem uma inegável importância no processo de construção do conhecimento científico atual.

O trabalho com este eixo, portanto, deve propiciar experiências que possibilitem uma aproximação ao conhecimento das diversas formas de representação e explicação do mundo social e natural para que as crianças possam estabelecer progressivamente a diferenciação que existe entre mitos, lendas, explicações provenientes do "senso comum" e conhecimentos científicos.

18. A CRIANÇA, A NATUREZA E A SOCIEDADE

Os alunos refletem e gradativamente tomam consciência do mundo de diferentes maneiras em cada etapa do seu desenvolvimento. As transformações que ocorrem em seu pensamento se dão simultaneamente ao desenvolvimento da linguagem e de suas capacidades de expressão.

Á medida que crescem se deparam com fenômenos, fatos e objetos do mundo; perguntam, reúnem informações, organizam explicações e arriscam respostas; ocorrem mudanças fundamentais no seu modo de conceber a natureza e a cultura.

Nos primeiros anos de vida, o contato com o mundo permite à criança construir conhecimentos práticos sobre seu entorno, relacionados à sua capacidade de perceber a existência de objetos, seres, formas, cores, sons, odores, de movimentar-se nos espaços e de manipular os objetos. Experimentar expressar e comunicar seus desejos e emoções, atribuindo as primeiras significações para os elementos do mundo e realizando ações cada vez mais coordenadas e intencionais, em constante interação com outras pessoas com quem compartilha novos conhecimentos.

Ao lado de diversas conquistas, as crianças iniciam o reconhecimento de certas regularidades dos fenômenos sociais e naturais e identificam contextos nos quais ocorrem. Costumam repetir uma ação várias vezes para constatar se dela deriva sempre à mesma conseqüência. Inúmeras vezes colocam e retiram objetos de diferentes tamanhos e formas em baldes cheios d água, constatando intrigadas, por exemplo, que existem aqueles que afundam e aqueles que flutuam. Observam, em outros momentos, a presença da lua em noites de tempo bom e fazem perguntas interessantes quando localizam no céu durante o dia.

Movidas pelo interesse e pela curiosidade e confrontadas com as diversas respostas oferecidas pro adultos, outras crianças e/ou por fontes de informação, como livros, noticias e reportagens de rádio e TV etc., as crianças podem conhecer o mundo por meio da atividade física, afetiva e mental, construindo explicações subjetivas e individuais para os diferentes fenômenos e acontecimentos. Quando menores forem as crianças, mais suas representações e noções sobre o mundo estão associadas diretamente aos objetos concretos da realidade conhecida, observada, sentida e vivenciada.

"O crescente domínio e uso da linguagem, assim como a capacidade de interação, possibilitam, todavia, que seu contato com o mundo se amplie, sendo cada vez mais mediado por representações e por significados construídos culturalmente." (NAESS, 1999, p. 84).

19. OS SERES VIVOS

O ser humano, os outros animais e as plantas provocam bastante interesse e curiosidade nos alunos: "por que a lagartixa não cai do teto"?, "Existem plantas carnívoras"?, "Por que algumas flores exalam perfume e outras não"?, " O que aconteceria se os sapos comessem insetos até que eles acabassem"?. São muitas as questões, hipóteses, relações e associações que as crianças fazem em torno deste tema. Em função disso, o trabalho com os seres vivos e suas intricadas relações com o meio oferece inúmeras oportunidades de aprendizagem e de ampliação da compreensão que a criança tem sobre o mundo social e natural. A construção desse conhecimento também é uma das condições necessárias para que as crianças possam, aos poucos, desenvolver atitudes de respeito e preservação à vida e ao meio ambiente, bem como atitudes relacionadas à sua saúde.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVES, R. O amor que acende a lua. Campinas, SP: Papirus: Speculum, 1999.

ANDRADE, P. O. "Excursões Ecológicas". Relatório Vivencial, Viçosa, MG, 2002.

BOFF, L. Saber cuidar: ética do humano  compaixão pela terra. Petrópolis, RJ:k Vozes, 1999.

KOHL, M.F. GAINER, C. 1995. Fazendo arte com as coisas da Terra  arte ambiental para as crianças. São Paulo: Augustus.

LEITE, L. H. A. Pedagogia de Projetos  Intervenção no Presente. Presença Pedagógica, Belo Horizonte, 1996.

MENDONÇA, R. Educador ambiental  6 anos de experiência e debates. São Paulo: WWF Brasil, 2000.

NAESS, A. In: BARBOSA, Mariana. "De bem com a natureza". Superinteressante, São Paulo: 1999.

SOULÉ, M. In: ALVES, Liana Camargo de Almeida. "Um mundo por conhecer e preservar". Os caminhos da terra. São Paulo, 1999.

TRIGUEIRO, A. Meio ambiente no século 21. Rio de Janeiro: Sextante, 2003

 
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Sobre este autor(a)
Biólogo, especialista em educação interdisciplinar e metodologia do ensino superior. Atualmente sou professor da rede pública do estado de Mato Grosso.
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