CONSIDERAÇÕES SOBRE: “O RETORNO À ÉTICA ARISTOTÉLICA DAS VIRTUDES COMO UMA TRADIÇÃO MORAL DE PE...
 
CONSIDERAÇÕES SOBRE: “O RETORNO À ÉTICA ARISTOTÉLICA DAS VIRTUDES COMO UMA TRADIÇÃO MORAL DE PESQUISA RACIONAL”
 


CONSIDERAÇÕES SOBRE: “O RETORNO À ÉTICA ARISTOTÉLICA DAS VIRTUDES COMO UMA TRADIÇÃO MORAL DE PESQUISA RACIONAL”[1] 

                                                                Por Luiz Carlos Ferreira Braga Júnior.[2] 

Antes de tocar no ponto central da questão proposta, é válido explorar sobre o conceito de tradição segundo MacIntyre, que estará, demasiadamente, presente em todo seu trabalho intelectual.

Segundo MacIntyre, o termo tradição, na idade moderna, ganhou uma conotação negativa, ou seja, a mesma perdeu o seu valor. No entanto, muitos pesquisadores atuais voltaram a trabalhar o conceito de tradição, pois ela não possui o caráter de atraso, negação de mudanças e empecilho do progresso da ciência, como pensavam os iluministas. É na tradição que se reconhece o progresso da humanidade. Isso porque, o modelo iluminista não possui um fio condutor que leve a um único fim, sendo que, na tradição existe este fio que conduz a um télos comum. Isso implica dizer que, no iluminismo foi instaurado, de uma forma mais clara, o relativismo e, com a tradição, um télos. Dessa forma, pode-se, com maior facilidade, falar de ética.

Tratar do assunto tradição é tocar o tríplice enraizamento da razão prática, que é o nexo entre filosofia, história e sociologia, pois é impossível falar de tradição sem olhar a história do pensamento humano interligado com as práticas sociais, que são a evolução deste mesmo pensar. Isso quer dizer que, falar de um bom progresso sem olhar como o pensamento humano se desenvolveu é impossível. E isso só se da tradição, pois, como já foi salientado, a tradição possui um télos comum. E é nela que a ciência se desenvolve, pois a mesma possui um caráter dinâmico de discussão de ideas, onde um conceito pode e deve ser derrubado para surgir outros, e assim existir a evolução.

MacIntyre encontra a ideia, anteriormente exposta, na filosofia de Aristóteles. Isso porque, o filósofo grego construiu a sua filosofia a partir de questões vigentes da sua época. Através de embates sobre, o que é o bem, como educar, o que são as virtudes, ou seja, existem diversos tipos de questionamentos que, certamente existe um fim comum. Sendo assim, vale ressaltar o caráter dinâmico da tradição encontrado na filosofia aristotélica, fortemente ligado ao télos.

Um traço de grande relevância na antiguidade é que, antes de o jovem ser admitido como cidadão da polis, ele era submetido a uma severa educação, com a finalidade de descobrir o que de mais precioso ele possuía, para ser colocado em comum. Parece não ter elo com o assunto, no entanto, é importante destacar deste raciocínio dois pontos de grande valor. O primeiro é que o jovem, antes de se tornar cidadão, deve conhecer o que de melhor ele faz, ou seja, o que de mais virtuoso ele tem. O segundo é que, ao descobrir isto, ele o deve colocar a serviço da polis. Neste sentido, as virtudes particulares, devem estar à disposição de todos, claro, para atingir o télos. Um pouco disso pode ser encontrado na “Ética a Nicômaco” que é o livro que trata mais claramente das virtudes dirigidas a um único fim.

Para estar mais claro aos olhos do leitor, MacIntyre trata das virtudes em três diferentes níveis, que são: prática, a incorporação da concepção de télos e a tríade da tradição. No que tange a prática, pode-se dizer que uma boa ação só é bem desenvolvida quando o sujeito praticante a faz com excelência, ou seja, não é pelo fato de redigir um pequeno texto que o sujeito será considerado bom. A prática deve vir acompanhada da virtude, quer dizer, fazer algo é fazer bem e, claro, dentro das regras e padrões instituídos com o fim de haver o avanço daquela prática. Dentro deste assunto, é válido lembrar o segundo nível que é a incorporação da concepção de télos, que se refere a unicidade das práticas para se atingir um único fim. Trata-se de unicidade e não de uniformidade, ou seja, práticas diferentes possuem o mesmo télos. Por fim, é salutar lembrar o terceiro nível de virtude, que é o enraizamento com tríade citada anteriormente, a história, sociologia e a filosofia. Dessa forma, MacIntyre quer afirmar que o homem não é um ser historicamente isolado, quer dizer, ele faz parte de um contexto histórico, social e reflexivo. E isso implica afirmar que a identidade do sujeito não está separada dos papéis e do status social e histórico em que ele está embrenhado.

Nota-se no parágrafo anterior que, todos os três níveis de virtudes estão voltados a um télos e que todos se dirigem para a efetivação de uma boa vivência na comunidade. Dessa forma, é importante destacar que a tradição das virtudes possui um valor inestimável, pois ela, a tradição, faz com que os homens abandonem o relativismo iluminista e se ligue a um télos, onde o está em jogo é a evolução científica e o bem-estar. Por último, faz-se preciso ressaltar que, a tradição das virtudes só sobrevive naquelas comunidades cujos vínculos históricos com o seu passado estejam forte, pois é somente analisando o passado, que pode-se tecer algo melhor para o futuro. 


[1] Título retirado do artigo de Helder Buenos Aires de Carvalho, intulado: “Alasdair MacIntyre e o retorno às tradições morais de pesquisa racional”, presente no livro: “Correntes Fundamentais da Ética Contemporânea”, organizado por Manfredo A. de Oliveira.

[2] Graduando em filosofia pela Universidade Federal de Goiás (UFG).

 
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Sobre este autor(a)
Curso Superior de Graduação Tecnológica em Gestão de Recursos Humanos (FMB). Graduando em Filosofia pela Universidade Federal de Goiás (UFG).
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