Bullying na escola: A intervenção do Psicólogo Escolar
 
Bullying na escola: A intervenção do Psicólogo Escolar
 


Bullying significa: humilhar, intimidar, ofender, agredir. O que para muitos era "normal", coisa de criança e de adolescente é, na verdade, bullying - palavra em inglês que é usada com o sentido de zoar, gozar, tiranizar, ameaçar, intimidar, humilhar, isolar, perseguir, ignorar, ofender, bater, ferir, discriminar e colocar apelidos maldosos.

A gravidade é que esse padrão de comportamento está longe de ser inocente. Trata-se, na verdade, de um distúrbio que se caracteriza por agressões físicas e morais repetitivas, levando a vítima ao isolamento, à queda do rendimento escolar, a alterações emocionais e à depressão.

Nenhuma escola pode ignorar tal ocorrência, comumente perceptível em seus domínios. Cabe à escola coibir atitudes agressivas, protegendo tanto os agressores quanto os agredidos. De fato, ambos, agressores e agredidos, apresentam problemas psicológicos que, caso não tratado, podem explodir desastrosamente. O assédio moral e físico é intenso, deixando a vítima constrangida e assustada.

A educação do jovem no século XXI tem se tornado algo muito difícil, devido à ausência de modelos e de referenciais educacionais. Os pais de ontem, mostram-se perdidos na educação das crianças de hoje. Estão cada vez mais ocupados com o trabalho e pouco tempo dispõem para dedicarem-se à educação dos filhos. Esta, por sua vez, é delegada a outros, ou em caso de famílias de menor poder aquisitivo, os filhos são entregues à própria sorte.

Os pais não conseguem educar seus filhos emocionalmente e, tampouco, sentem-se habilitados a resolverem conflitos por meio do diálogo e da negociação de regras. Optam muitas vezes pela arbitrariedade do não ou pela permissividade do sim, não oferecendo nenhum referencial de convivência pautado no diálogo, na compreensão, na tolerância, no limite e no afeto.

A escola também tem se mostrado inabilitada a trabalhar com a afetividade. Os alunos mostram-se agressivos, reproduzindo muitas vezes a educação doméstica, seja por meio dos maus-tratos, do conformismo, da exclusão ou da falta de limites revelados em suas relações interpessoais.

Os professores não conseguem detectar os problemas, e muitas vezes, também demonstram desgaste emocional com o resultado das várias situações próprias do seu dia sobrecarregado de trabalhos e dos conflitos em seu ambiente profissional. Muitas vezes, devido a isso, alguns professores contribuem com o agravamento do quadro, rotulando com apelidos pejorativos ou reagindo de forma agressiva ao comportamento indisciplinado de alguns alunos.

A idéia Mostrada por Fante (2002) como projeto de intervenção denominado "projeto educar para a paz" é o de que as escolas devem desenvolver no aluno o conhecimento e a reflexão sobre a existência do fenômeno bullying e suas conseqüências na própria realidade escolar, para que eles aprendam quais são as atitudes que favorecem o desenvolvimento do comportamento bullying e como evitá-lo, a fim de transformar a escola num ambiente pacífico que estimule o bom relacionamento socioeducadonal, pois somente este conhecimento pode despertar no aluno a consciência crítica e poder de transformar. O Programa Educar para a Pazé fundamentado em princípios de solidariedade, tolerância e respeito às diferenças. Estuda-se a possibilidade de sua implantação em várias escolas particulares de todo o Brasil. Assim como nos colégios da rede pública, nestas acontecem casos de violência contra os colegas, os professores e até o patrimônio escolar é dilapidado, sob um tipo de visão muito comum entre crianças e jovens de hoje: "posso destruir porque estou pagando".

Para que se possa desenvolver estratégias de intervenção e prevenção ao bullying, é fundamental que a comunidade escolar esteja consciente da sua existência, e das conseqüências advindas deste tipo de comportamento. Sensibilizar todos os envolvidos na redução do comportamento bullying é imprescindível, já que o fenômeno é complexo e de difícil identificação, principalmente por manifestar-se de maneira sutil, implícita, e com a imposição do silêncio.

A intervenção deve iniciar-se pela capacitação de profissionais da educação, para que saibam identificar e conhecer as estratégias e prevenções disponíveis atualmente.

Fante (2005) cita seu programa "Educar para a Paz", que tem o objetivo de mostrar estratégias e atuar na intervenção e prevenção, adotando valores humanos.

De acordo com a autora, primeiramente são necessários a conscientização e compromisso de toda a comunidade escolar, para que estes reflitam sobre as diversas formas de violência escolar. Sugere-se a eleição de uma comissão, do coordenador e tutor do programa.

É necessário investigar a realidade escolar por meio de observação, anotações, divulgação de indicadores, exposição em jornadas sobre violência, para poder modificar a realidade escolar com estratégias de intervenção e prevenção, com medidas de supervisão e observação dos alunos solidários, serviço de denúncia, encontros semanais para avaliação e discussão sobre o andamento do trabalho, a execução de trabalhos que envolvam os assuntos vida escolar e vida familiar, entrevistas pessoais e em grupos com vítimas e agressores.

São de fundamental importância as orientações sobre convivência familiar. Após um período destas atividades, é interessante que, além da investigação constante sobre a realidade escolar, que se apresente à evolução conquistada, para que o programa seja revisto e mantido. Cavalcante sugere, para inibir o bullying, o esclarecimento do que é este comportamento, avisar que a prática não é tolerada, conversar com os alunos, e escutar suas sugestões ou reclamações, estimular os estudantes a informar os casos, reconhecer e valorizar as atitudes no combate ao problema, identificar possíveis agressores e vítimas e acompanhar seu desenvolvimento, interferir diretamente nos grupos, o quanto antes, para quebrar a dinâmica de bullying, prestar atenção nos mais tímidos e calados, pois geralmente as vítimas se retraem, realizar dinâmicas entre os alunos, estimulando o bom relacionamento.

O psicólogo deve transmitir à escola que é importante que ensinem os seus alunos a lidarem com suas emoções, dar espaço nas aulas, para a expressão do afeto, para que não se envolvam em comportamentos violentos, transformando-os em agentes disseminadores de uma cultura de paz que se estenda aos seus demais contextos de vida. Então, o verdadeiro combate à violência, se faz, de maneira eficaz, ao atacá-la na causa, com uma verdadeira educação, que ensine ao estudando a aprender erradicar de dentro de si mesmo os agentes causadores da violência; e liberar a essência construtora das virtudes, causas do bem, agentes da paz e antítese da violência; condição essencial para se achar os parâmetros éticos perdidos; e estabelecer os parâmetros éticos, os valores morais e espirituais entre os seres humanos.

Sabe-se que mudanças não ocorrerão num curto espaço de tempo, mas podemos colaborar para a formação de uma nova mentalidade, promotora da paz.

Para combatermos a violência no efeito, de modo preventivo, de acordo com Fante (2005), é preciso agir com um projeto planejado e bem estruturado por todos os integrantes do âmbito escolar, proporcionando:

1 Reflexão:

Fazendo uma profunda reflexão em todo o mundo acerca da violência múltipla, na família, na escola, no trânsito, nos esportes, na ecologia, etc. O psicólogo deve estimular a mudança de olhar, ele deve quebrar as barreiras e os paradigmas existentes e possibilitar uma mudança de comportamento e de atitudes eficaz.A mudança de olhar possibilita a transformação da realidade.

2 Dia D:

Instituir um dia de cada ano, para passar os nossos feitos negativos a limpo, refletir sobre os nossos defeitos, nossos erros, que quase sempre engendram violências; arrependermos de possuí-los e tomarmos atitudes sérias para emendarmos deles, combatê-los e erradicá-los, para o bem de nosso semelhante e da empatia da massa social.

3 Propostas de conscientização nos currículos escolares:

Incluir nos currículos escolares e programas de ensino, proposta de conscientização acerca da origem e conseqüência da violência entre os seres humanos; estabelecendo atividades educativas, profiláticas, etc., para enfrentamento e erradicação desta. Conscientizar o estudante a identificar através da observação, a presença da violência no cotidiano, na família, no trabalho, no trânsito, nos esportes, na escola, em todas as camadas sociais, na ecologia, em pessoas escolarizadas da mais alta formação intelectual, etc. Identificando preliminarmente, através da observação da violência existente em si mesmas, devido à presença do ego em cada um de nós. Levar o estudante a se conscientizar de que a violência é altamente disseminada pelos meios de comunicação de massa; de que é institucionalizada pelo sistema político, pelo sistema econômico dominante, etc; que, em conseqüência disto, a vida se toma mais difícil e complicada para todos nós; e de que a vida, enquanto valor divino, supremo, se toma cada vez mais desrespeitada e banalizada. Ajudar o estudante a se conscientizar de que os laços de amizades genuínas, de cooperação, de solidariedade, o espírito comunitário e o exercício de cidadania plena, estão desaparecendo do nicho ecológico do ente humano, por causa da hipertrofiação do ego, da violência generalizada e da banalização da vida. Conscientizar o estudante acerca da perda dos parâmetros éticos, morais e espirituais entre os entes sociais componentes da massa humana; e ajudar o aluno a desenvolver atitudes positivas no sentido de reconquistar tais valores, que foram perdidos. E, repreensivamente é a maneira com que se combateu a violência até hoje. O Sistema possui todo um aparato, revestido adequadamente, com a ideologia dominante, para a execução desta função.

4 Ações integradas entre os profissionais:

Desenvolver ações integradas, envolvendo a família, a escola com todos os seus integrantes, todos os segmentos sociais, as instituições sociais, etc., no sentido de encaminhar soluções de combate a todo tipo de violência.

5 Conscientização para todos através dos veículos de comunicação:

Conscientizar a todos, através das escolas e dos veículos de comunicação, acerca de que a violência é algo que diz respeito a todos nós; porquanto são fruto e desmembramento das condições sociais, econômicas e da perversa política econômica do injusto regime capitalista, vigentes em nossos pais e no mundo.

Esta é uma proposta pronta idealizada por Cleo Fante. Mas na realidade não existe uma fórmula pronta para o combate ao bullying, ou a qualquer outra forma de violência.

Deste modo o psicólogo escolar só conseguirá intervir neste contexto do bullying no âmbito escolar se ele tiver dois princípios fundamentais para sua prática educativa: Capacidade de Empatia e Eros Terapêutico. Ele deve estar envolvido na luta pelo combate ao bullying com toda a sua dedicação e amor ao trabalho e principalmente o amor e o prazer em querer ajudar o outro. De nada adiantaria as teorias ou os projetos contra o bullying se nada for posto em prática.

Outro fator imprescindível em um projeto de intervenção é a questão da humanização. Reconhecendo a necessidade da humanização estamos confirmando nossa desumanização, que é uma realidade que vem desde o holocausto nazista e a escravidão. Humanizar é tornar o homem capaz de ser mais, como disse Freire (2005). Temos a necessidade de nos humanizar, pois temos consciência que somos incompletos. Risco que o animal não corre, por não ter consciência de sua incompleticidade, de um lado, por não poder animalizar o mundo, de outro, por não poder desanimalizar o outro. Para uma educação verdadeira humanista, devemos desvendar os mitos com os quais se pretende manter o homem desumanizado, esforçando-se para desocultar essa realidade. Desocultação que permitirá ao homem externar sua real vocação: a de transformar a realidade. E para poder transformar a realidade, deve-se conhecê-la muito bem, criticá-la, resenhá-la.

O modelo humanizado de aprendizagem propõe a superação de todo e qualquer reducionismo do tipo "estímulo-resposta", podendo ser expresso pelo seguinte paradigma: Estimulação - Elaboração  Expressão. Humanizar é ver o outro de maneira holística, integrada. O processo da educação terá unidade quando toda a atividade cognitiva se projetar na vida, de tal modo que "aprender a pensar" vem a ser a base do "aprender a viver". Tal integração de todos os elementos educativos exige, por sua vez, a integração de todos os objetivos da educação. A esta idéia corresponde um sistema tridimensional de objetivos que contempla todas as manifestações da vida humana, abrangendo o campo dos conhecimentos, como também o campo das aptidões e dos valores, todos integrados na unidade do processo educativo. Assim, qualquer atividade pedagógica, para que alcance sua integridade, deve proporcionar algum conhecimento, desenvolver alguma aptidão e proporcionar algum valor.

Diante desta realidade vemos que somente o psicólogo que realmente for comprometido com seus valores e princípios humanistas e tiver sua criança interior viva, conseguirão êxito na sua tarefa.

Antes da conscientização de qualquer pessoa, ele próprio deve estar consciente de seu dever ante esse problema e da sua habilidade e competência para solucioná-lo.

Ele deve proporcionar a conquista da liberdade humana, ou seja, propiciar uma libertação de todos os medos interiores que atormentam e impelem o indivíduo a afetar os outros de maneira negativa. Só assim as pessoas deixariam de violentar umas as outras e passariam a se vincular mais, a se afetar mais com sentimentos positivos e saudáveis. Talvez, dessa forma, poderíamos dizer que estaria extinto qualquer tipo de violência.

Para tanto, o psicólogo deve estar inteiramente comprometido com sua prática terapêutica e pedagógica, e, concomitantemente possuir: criatividade para elaborar os projetos; flexibilidade para ouvir as duas faces da moeda; sensibilidade para deixar nascer o desejo pela mudança; ousadia para querer modificar; altruísmo para mobilizar esse desejo nos outros; idealismo para nunca deixar de sonhar; amizade para conquistar a confiança de todos; amor para alimentá-lo nessa lida e, coragem para enfrentar os desafios e conquistar a vitória.

Referências

ALVES, Rubem. Educação dos Sentidos. Campinas: Verus Editora, 2005.

CHALITA, Gabriel. Pedagogia do Amor. São Paulo: Editora Gente, 2005.

CHALITA, Gabriel. Pedagogia da Amizade. Bullying: o sofrimento das vítimas e dos agressores. São Paulo: Editora Gente, 2008.

FANTE, Cleo.Fenômeno Bullying. São Paulo: Verus, 2005.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. São Paulo, Paz e Terra, 2005.

SAIANI, Cláudio. Jung e a Educação: Uma analise da relação professor/aluno.

TAYLOR, Maureen. Bullying e Desrespeito: Como Acabar com Essa Cultura na Escola. Artmed, 2006.

 
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Sobre este autor(a)
Psicóloga clínica junguiana, pós graduada em Gestão de Pessoas e Psicologia Organizacional, atualmente mestranda em Psicologia Clínica, Núcleo de Estudos Junguianos da PUC/SP.
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