Bases teóricas do pensamento conservador
 
Bases teóricas do pensamento conservador
 


As noções, concepções e propostas conceituadas como conservadoras têm como ponto de convergência as críticas em relação ao sistema político-social instaurado após a Revolução Francesa. Tudo que tinha relação com a tradição Iluminista européia passou a ser alvo de severas críticas.

Esse movimento que HOBSBAWN (1995) denomina de onda conservadora teve sua origem no século XIX, a partir de uma revisão crítica das propostas de Liberdade, Igualdade e Fraternidade apresentadas pelos revolucionários de 1789. Essa reação conservadora teve como alvos centrais todos aqueles preceitos que lembrassem o Liberalismo, o sufrágio universal, o Estado leigo, a Razão e a Democracia.

Um dos mais destacados representantes do pensamento conservador foi, segundo BERLIN (1991), Joseph de Maistre. A restauração católica era a grande meta de J. Maistre, ou seja, o resgate dos valores, crenças e doutrinas da tradição originárias na fé e na crença dos valores da escolástica da Idade Média. Portanto, as mudanças implementadas a partir da Revolução Francesa eram identificadas como as grandes responsáveis pelos problemas e desequilíbrios da sociedade moderna.

Joseph de Maistre refutava a própria concepção de modernidade. Suas idéias tinham como base a fé, a tradição e os mistérios da origem divina. Assim, qualquer explicação que não tivesse como base os preceitos do Catolicismo mais conservador era visto como um atentado a mais pura fé religiosa e, portanto, uma aproximação das forças satânicas da Razão.

Essas teorias conservadoras circularam, principalmente, pela Europa durante todo o século XIX. Seus formuladores além de se oporem a perda de importância do papel da Igreja em relação ao Estado, também analisavam criticamente o sufrágio universal. Os defensores dessas concepções acreditavam no poder divino dos reis e defendiam que a administração do governo deveria ser de inteira responsabilidade da Monarquia. Tendo a Idade Média como referência, criticavam o caráter laico do Estado republicano.

Como um fervoroso militante das causas católicas J. Maistre empregou grande parte de seu tempo e esforços para se contrapor aos conceitos do Iluminismo e da Ilustração. Joseph Maistre pode ser visto como um representante símbolo de um sentimento e de uma postura crítica mais geral em relação às artes, à filosofia, às ciências, à literatura, enfim, a todos os aspectos que surgiram no período das Luzes. Esse elenco de posturas, defendidas de maneira ardorosa, que estavam na contramão das propostas do Liberalismo, do Iluminismo, do Racionalismo podem ser indicadas, segundo BERLIN (1991), como a base do futuro pensamento fascista.

Outros preceitos ideológicos, sociológicos e filosóficos que foram utilizados pelos adeptos do ideário conservador e autoritário foram o Irracionalismo e a Teoria das Elites. De um modo geral, essas teorias defendiam que o poder político deveria ser exercido apenas por uma parcela da população que tivesse conhecimento técnico, preparo espiritual ou capacidade de comando. Essa superioridade se manifestaria através do carisma, da origem racial ou da competência em controlar a estrutura burocrática do Estado. Podem ser apontados como membros desse grupo de pensadores: Mosca, Pareto, Le Bom, Sorel, Bérgson e Schopenhauer.

            Essas teorias ganharam mais adeptos ao serem readaptadas ao novo contexto histórico das décadas finais do século XIX e iniciais do século XX. Nesse período ocorreu um incremento no campo da biologia.  As descobertas de Darwin e Mendel, na área da genética e da evolução das espécies, serviram de inspiração para o desenvolvimento das teorias racistas. Entre os ideólogos mais famosos do racismo podemos citar: Gobineau, Vacher de Lapouge, Chamberlain e Rosemberg.

  Outro ponto fundamental para se compreender a origem da elaboração do pensamento fascista é em relação ao crescimento das manifestações nacionalistas. Durante o século XIX, a idéia de Nação surgiu como uma forma de evolução natural dos Estados do antigo regime monárquico, no processo de consolidação da ideologia liberal na perspectiva de solidificar o sistema capitalista no continente europeu. Essa idéia rapidamente espalhou-se pelos quatro cantos do mundo.

A idéia de cada país identificar-se com símbolos próprios que os diferenciem de seus vizinhos ou inimigos é algo que, atualmente, parece normal e natural. Entretanto, essa idéia é historicamente um movimento típico da modernidade. O trabalho dos modernos Estados ao longo do século XIX e início do século XX foi de criar, recriar ou inventar tradições e símbolos para identificar e marcar cada país e nacionalidade.

Como já dissemos, as propostas conservadoras do século XIX foram atualizadas para formar a base ideológica e filosófica dos regimes fascistas europeus. Assim, no inicio do século XX, ainda atônita em face dos horrores da Primeira Guerra Mundial e da grave crise econômica gerada no período pós-guerra, parcelas destacadas da população encontraram nesse ideário conservador as explicações e caminhos alternativos à grave crise social e política.

Outro fator que colocou em alerta as forças políticas conservadoras foi o crescimento do movimento comunista internacional, sobretudo, a partir da Revolução Russa. O receio de uma Revolução Mundial foi outro importante fator largamente utilizado pelos partidos da direita radical para angariar apoio dos setores empresarias e religiosos para a causa conservadora.Os fantasmas de 1789 e 1917 se somaram para edificar novas representantes do perigo eminente da revolução proletária.

Outro importante evento que deixaria profundas marcas no quadro europeu daquele momento foi a Crise de 1929. A Grande Depressão Econômica aliada à reação conservadora, aos novos nacionalismos e à propaganda anticomunista propiciou o cenário ideal para o surgimento dos partidos conhecidos como fascistas, que tinham como base um forte sentimento contrário às idéias e propostas Liberais e Comunistas.

Em vários países, especialmente na Europa, surgia a noção de que apenas regimes que privilegiassem um sistema baseado no fortalecimento militar e na centralização do Estado e que fossem dirigidos por um líder carismático seriam capazes de solucionar os problemas econômicos e barrar a ascensão da propaganda comunista. O ideário conservador chegou a seu apogeu quando países como Alemanha, Itália, Portugal, Croácia, Hungria e Espanha acabaram aderindo a essas propostas.

 

 
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Sobre este autor(a)
Doutor em História Social pelo Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Possui mestrado em Políticas Sociais pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF). É professor do departamento de História do Centro Universitário São Camilo - Campus Espírito Santo e do curso de dir...
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