AVALIAÇÃO EMANCIPATÓRIA-DIAGNÓSTICA E SEU VALOR PARA A EFETIVA APRENDIZAGEM
 
AVALIAÇÃO EMANCIPATÓRIA-DIAGNÓSTICA E SEU VALOR PARA A EFETIVA APRENDIZAGEM
 


Resumo

O presente artigo trata de uma análise da avaliação da aprendizagem, levando em conta sua função diagnóstica e social. Enfoca a utilização da avaliação como ferramenta capaz de possibilitar a autonomia dos indivíduos em meio ao processo de desenvolvimento social e intelectual.

No decorrer da história da educação surgiram diversos paradigmas educacionais, muitos estudiosos deram considerável contribuição ao que diz respeito aos processos de aprendizagem, objetivando o estudo de como se caracteriza e se constitui a construção do conhecimento nos seres humanos.

No Brasil a educação esteve há muito tempo aprisionado a práticas e metodologias tradicionais, onde os conteúdos em sua maioria eram vivenciados de forma fragmentada e descontextualizada. Perpetuou-se em nossas escolas a cultura da transmissão de conhecimentos, de repasse de informações e conceitos pré-estabelecidos e imutáveis.

Nas últimas décadas, essas práticas educacionais tornaram-se insuficientes para dar conta da verdadeira essência do processo educacional, onde o foco passou a ser o educando e não mais o educador. As verdades absolutas de outrora já não eram mais capazes de justificar as infinidades de práticas pedagógicas desumanas e irreflexivas.

Mesmo vivendo um momento de profundas transformações no sistema educacional brasileiro. Mudanças que são reflexo de um acelerado movimento sócio-político, avanço tecnológico e cultural em todo o mundo. Nesse contexto, a escola precisa repensar sua prática, sua existência numa sociedade pós-moderna que busca a transformação do profissional de ensino, partindo de uma proposta sociointeracionista.

Em meio às transformações dessa sociedade surge um novo modelo educacional, mais humano, comprometido com a formação do profissional cidadão, capaz de sobreviver na atual sociedade envolta pelas novas tecnologias, mas que apóia seu crescimento como indivíduo nas experiências colhidas através das relações sociais. O novo modelo educacional que surge das experiências mal sucedidas do nosso passado em educação sugere que o educador tenha seu perfil modificado a fim de atender as demandas da sociedade atual, apela pela sensibilidade dos profissionais da educação para que estes possam desenvolver no discente muito mais do que os aspectos cognitivos e psicomotor, mas, sobretudo a afetividade e as relações sociais. Esse profissional, agora mais completo e sensível é capaz de unir conhecimento às várias linguagens flexibilizando o processo de ensino e aprendizagem e tornando-o constante por toda a vida.

Essa "nova educação" agora se preocupa com a inclusão social, adere às novas tecnologias, numa proposta interdisciplinar. Atende as expectativas dos indivíduos possibilitando o sucesso e a permanência na escola, visa o desenvolvimento pleno do educando para que o mesmo possa interagir e transformar a sociedade.

Na perspectiva de uma avaliação mais humanizadora e emancipadora depositam-se as esperanças de construção de uma sociedade mais igualitária e preparada para as futuras transformações que possam surgir. Onde os indivíduos construam por meio da pluralidade das diferenças e das relações sociais, experiências mais humanas para povoar no íntimo de cada um, uma sociedade mais justa e digna.

A função social da escola

A escola é uma instituição primordial no processo de formação do homem porque possui o seu caráter político, uma vez que esta atende não só os apelos sociais, mas também do Estado, perpetuando assim um conjunto de valores e atitudes que produzem a sociedade de classes. A instituição escolar é um ambiente de transmissão de saberes sistematizado que objetiva de forma sutil intensificar as competições entre os indivíduos, classificando-os como bons ou ruins na aquisição do conhecimento.

Entretanto, Freire (1996, p.52) afirma que (...) "ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção". Acreditamos que a escola deve estar voltada para a formação intelectual e moral, auxiliando na formação humana do indivíduo, o orientado no papel que desempenhará na sociedade da qual faz parte, respeitando assim a diversidade cultural dos indivíduos envolvidos nesta.

Atualmente, em nossa sociedade existe a predominância de um pensamento reducionista e errado, que concebe a educação tradicional praticada nas escolas como uma forma eficiente de gerir o ensino e os resultados produzidos por este. Tal visão enfoca os aspectos: disciplina e exigência, como características positivas da escola tradicional. Um sistema voltado para o controle e manipulação de indivíduos, mas que nos presenteou por muitos anos com exorbitantes números de repetência e evasão. Esse mesmo pensamento incutido na sociedade perpetua a idéia de que a solução para a concretização de uma educação de qualidade pode estar ligada à estruturação de um sistema de avaliação eficaz, que produza números e respaldo para justificar as ações dos educadores. Nesta visão de escola e de avaliação os testes e provas são vistos como momentos ímpares para detectar os níveis de desenvolvimento dos discentes. Segundo Hoffmann (2003), as notas e provas existem como "Redes de Segurança", que permitem aos professores, a família e a sociedade deter certo controle sobre o aluno.

As instituições escolares mantiveram durante muito tempo a falsa concepção de que a preparação e formação ideal para os alunos consistiriam apenas em garantir que estes educandos pudessem atingir certos percentuais em notas e médias.

Recentemente, as discussões acerca do perfil que a escola deve apresentar como instituição responsável pela formação humana leva-nos a uma intensa reflexão sobre a sua responsabilidade no direcionamento do processo de ensino e aprendizagem, tendo em vista que as ações educativas devem visar à preparação da autonomia moral e intelectual dos indivíduos. A escola, um ambiente essencialmente social e socializador deverão proporcionar aos alunos condições para que estes desenvolvam as competências necessárias, estabelecendo relações significativas por meio do grande número de informações as quais tem acesso.

Diferentemente da função seletiva e propedêutica que outrora a escola assumiu hoje suas ações devem perpassar a simples seleção e classificação de sujeitos. Como uma instituição que detém a responsabilidade de alterar o curso de vidas, a escola precisa estar voltada para a formação integral dos alunos, isso implica necessariamente no desenvolvimento de todas as capacidades humanas, sejam elas: motora, sociais e cognitivas."o objetivo do ensino não centra sua atenção em certos parâmetros finalistas para todos, mas nas possibilidades pessoais de cada um dos alunos" (ZABALA, 1998.p.197).

Dessa forma, a avaliação deixa de estar voltada unicamente para os resultados produzidos pelo discente, passa a focar o processo de ensino e aprendizagem levando em conta a singularidade dos alunos de forma a não conceber o enquadramento destes em níveis universais de desenvolvimento, afinal cada indivíduo possui características pessoais e sócio-culturais próprias de sua existência, sendo necessário adaptar os conteúdos e objetivos de ensino para melhor atender a tal diversidade.

O ambiente escolar é, sem dúvida, um local de multiplicidade cultural, impregnado de diferentes visões e concepções, onde convivem as mais diversas mentes inquietas, que buscam mesmo que de forma inconsciente vivenciar a experiência de partilha e crescimento em meio a esse misto de concepções. Portanto, a escola deve saber dialogar com as diferenças, levar em conta o dialogismo e as convergências de pensamento, cultura e valores que povoam o universo escolar, concebendo a educação como uma ação acolhedora a todos os pensamentos e experiências de vida.

Cabe a escola adequar-se as mudanças sociais e estruturais para melhor atender a sua clientela. Rever antigas práticas para ressignificar e inovar suas ações por meio do planejamento em conjunto envolvendo todos aqueles que compõem a escola. Essa característica própria da gestão democrática deve ser a premissa básica para as demais ações e encaminhamentos a serem tomados por todos os segmentos da escola. Manter o diálogo, a partilha e a socialização de experiências produz uma real evolução na prática educativa.

É também responsabilidade da escola oportunizar um currículo contextualizado com a realidade dos aprendentes, de forma a trabalhar com estes sujeitos os saberes informais internalizados ao longo de suas vivências. Os conteúdos devem ser flexíveis e possibilitar o diálogo das diferentes disciplinas em um movimento interdisciplinar que proporcione aos alunos acionar seus saberes informais e construir competências para resolver problemas e questionamentos. Os conteúdos a serem trabalhados devem levar em conta o constante movimento social da realidade, deve privilegiar as constantes transformações do mundo no qual vivemos.

Assim, o ensino voltado para a formação integral deve dar conta de trabalhar os diferentes tipos de conteúdos: conceituais, procedimentais e atitudinais. Pois, apenas uma formação abrangente que dê conta desses conteúdos poderá proporcionar um significativo crescimento do educando nas diversas dimensões.

O lócus educacional deve ser um espaço onde o educando sinta segurança de expor suas experiências para auxiliar no processo de desenvolvimento da aprendizagem, e o educador por sua vez, deverá estar atento para que isto se concretize. É o que Silva (2004, p.32) denomina como "Pedagogia do Encantamento",

A pedagogia do encantamento parte da premissa também de que a educação é um processo de envolvimento das diversas dimensões do ser humano (religiosa, intuitiva, racional, instintiva, etc.) na encarnação de práticas educativas que visem contribuir para a consolidação de uma sociedade justa e amorosa, comprometida com a ética e a beleza. Ávida por felicidade.

Apenas dessa forma, será possível proporcionar aos educandos uma aprendizagem significativa, capaz de moldar seres humanos críticos, ansiosos pela descoberta dos saberes advindo das constantes modificações sociais. Somente a escola e aqueles envolvidos diretamente no trabalho realizado pela educação podem contribuir de forma consistente para a transformação da sociedade atual. Por meio da conscientização e modelagem dos indivíduos em formação podemos almejar uma vida mais digna através de uma sociedade mais justa e igualitária.

O perfil do professor mediador

A educação brasileira tem percorrido diferentes caminhos nas últimas décadas. Muitos paradigmas alicerçados em pensamentos tradicionalistas e reducionistas perderam credibilidade dando lugar a novas concepções e visões a respeito de como deve ser a educação. Cresceu a preocupação com uma educação mais humanizadora e mais completa, capaz de atender as necessidades de uma sociedade evoluída, marcada pela globalização e o advento das novas tecnologias. As orientações a respeito de como deve proceder às ações educativas para uma melhor adequação as transformações sociais surgem da incapacidade e insuficiência que a educação tradicional produziu ao longo dos anos.

O número de seminários e congressos destinados a discutir alternativas para solucionar problemas de aprendizagem aumentou consideravelmente. Os governos, representações sociais, estudiosos e educadores voltaram suas atenções para os problemas sociais e pedagógicos enfrentados pela educação nacional. Vivemos em um momento de avanço no que diz respeito a mudanças de posturas e uma maior reflexão sobre a realidade educacional do país.

É preciso levar em consideração que as discussões sobre as novas concepções de ensino não fizeram parte da cultura de formação de muitos profissionais da educação. Nem sempre houve uma maior sensibilidade para discutir questões de ordem social e humana nos cursos de graduação ou nas formações de professores. Perdemos muito tempo nos detendo em aspectos puramente técnicos por acreditar que estes eram a condições fundamentais para que houvesse uma maior produção de conhecimento em sala de aula. Privilegiamos de forma demasiada questões como: procedimentos, planejamento, conteúdos. Assim, falhamos por não refletir sobre as questões afetivas e histórico-sociais que influenciaram os problemas de aprendizagem do educandos.

Essas características que marcaram a formação profissional dos educadores brasileiros ainda hoje influenciam nas práticas educativas nas instituições escolares. As experiências desses professores enquanto estudantes também ajudaram a reforçar tais atitudes, muitas vezes tomadas de forma irreflexiva e repetitiva. É fundamental entender que o misto de crenças e visões sobre o que deve ser a educação na concepção dos educadores também contribuiu para tornar o processo educativo, e consequentemente a avaliação um território ainda cheio de incertezas e muita polêmica.

Devem-se levar em conta as vivências individuais dos alunos, para um melhor ajustamento das práticas de ensino, necessitamos também refletir sobre as diferentes experiências educacionais e de formação que os professores trazem consigo. É imaturo acreditar que podemos conseguir de forma homogênea uma mudança substancial de postura daqueles que fazem a educação. Estamos falando também de pessoas, iguais aos alunos (foco de nossa preocupação e interesse). Ambos possuem suas experiências e seus saberes informais, seus desprazeres e insucessos no trajeto de formação intelectual."Se os entendimentos dos alunos decorrem de sua experiência de vida, o mesmo acontece com o educador. Daí a tarefa avaliativa ser uma verdadeira charada." ( HOFFMANN,2003.p.44)

Existe diversas maneira de interpretar o que o aluno quis dizer em determinados momentos. As experiências do educador e o seu conhecimento irão influenciar diretamente no momento em que este estiver atribuindo significado ao que foi produzido pelo educando. Por isso, podemos dizer que as vivências advindas do formador (professor), podem interferir na formação que este proporcionará aos aprendentes.

Contudo, o professor eficiente e de fato comprometido com a sua responsabilidade frente à educação, é capaz de fazer de suas angústias e insucessos um trampolim para buscar através do desenvolvimento intelectual de seus alunos, a sua própria realização profissional. Afinal, também não se podem justificar as imperfeições da educação na atualidade por meio das mazelas que atingiram o sistema educacional ao longo do tempo.

Já avançamos no que diz respeito a reflexões consistentes, e acima de tudo em mudanças reais em nossas práticas atuais. Atualmente, já começamos a traçar um novo perfil para o educador, onde este deve estar voltado para os processos individuais e de assimilação dos discentes, tendo em vista que cada pessoa reage de forma diferente em contato com o objeto do conhecimento. É o que Jean Piaget chamou de "Teoria do Conhecimento". Por meio da psicologia genética, Piaget definiu os estágios de desenvolvimento das crianças e adolescentes.

Através das contribuições de Piaget houve uma considerável mudança na postura de muitos educadores por meio das discussões e debates promovidos por estudiosos da área. Dessa forma, passou-se a observar o processo de aprendizagem como etapas de evolução do intelecto humano a partir de motivações que servem para conduzir os indivíduos em busca da apropriação do conhecimento.

O professor como mediador do processo de aprendizagem deve preocupar-se com a organização do currículo e dos programas, afim de que estes estejam elaborados de forma a atender aos interesses dos alunos no estágio de desenvolvimento no qual se encontram. Nessas condições o educador terá condições de conduzir seu trabalho pedagógico visando à promoção e desenvolvimento dos educandos. A avaliação assume então, a função de diagnosticar as falhas e imperfeições ocorridas durante o processo de ensino, lançando mão de alternativas que possam sanar as dificuldades encontradas.

É também imprescindível à prática docente, a utilização de instrumentos bem elaborados, além do planejamento e organização das ações do educador, evitando assim o seu despreparo e o espontaneísmo das técnicas de ensino. Cabe ao professor investigador, organizar e promover momentos ricos de troca de experiências que possam gerar conhecimento. Ser reflexivo e criar alternativas pedagógicas objetivando o desenvolvimento do educando nas dimensões cognitiva, social, afetiva, etc.

Para melhor conduzir o processo de ensino e aprendizagem é importante fazer uma avaliação inicial dos alunos, conhecendo suas características individuais e seus conhecimentos relevantes. A avaliação inicial permitirá ao professor verificar os esquemas de conhecimentos que os alunos possuem a cerca de determinados conteúdos. A partir dessa primeira avaliação será possível estabelecer um plano de ação para trabalhar os blocos de conteúdos de forma a adequá-los aos níveis de desenvolvimento nos quais os alunos se encontram. Sendo assim, a avaliação inicial pode representar um instrumento de ajuste de estratégias didáticas que podem facilitar o processo de ensino e aprendizagem.

Neste tipo de prática educativa, o professor utiliza as construções dos alunos, inclusive os erros produzidos por estes, para investigar como os educandos estão formulando suas hipóteses. Apenas assim, é possível fazer as intervenções necessárias e suprir as deficiências dos discentes.Nessa perspectiva, o erro é visto como uma seta que aponta a direção a ser seguida pelo professor para mediar à construção dos conceitos e hipóteses dos alunos. O educador então, será capaz de ajustar suas ações pedagógicas às necessidades dos alunos à medida que o processo educativo se desenvolve, fazendo as intervenções necessárias.

Essa é a função real do professor enquanto agente transformador da educação e mediador do processo de aprendizagem, capaz de oportunizar momentos de aprendizagem significativa. O real educador, comprometido com uma educação de qualidade consegue enxergar na avaliação muito mais que um recurso para analisar seu aluno. Ele consegue de fato promover a cidadania dentro e fora dos muros da escola, pois sabe da importância de sua função e da contribuição social que a educação é capaz de propiciar.

A função social da avaliação

Apesar de existirem diferentes concepções acerca de quais devem ser os objetivos da avaliação, e mesmo tendo ciência de que as diversas tendências trilham caminhos variados, sabemos que todas recaem sobre um objetivo maior, primordial: fazer do ato de avaliar um momento mais coerente e justo, possibilitar por meio da avaliação uma educação emancipadora, mais humana, mais completa.

Para se conceber uma avaliação diferenciada, que de fato dê conta das insuficiências e erros que há muito tempo está sendo vivenciada no sistema educacional brasileiro faz-se necessário adotar algumas mudanças de posturas a fim de dinamizar esse processo, tornando-o mais flexível e passível de promover uma maior aproximação entre professor e aluno.

As mudanças nas práticas avaliativas podem surgir inicialmente da reflexão e partilha de situações vivenciadas pelos educadores em suas diferentes realidades. Mesmo as experiências mal sucedidas e insuficientes podem nos dar maiores indícios sobre o direcionamento que devemos tomar em busca de um maior aperfeiçoamento de nossas ações na hora de avaliar. Compartilhar experiências tendo a sensibilidade e humildade de perceber os avanços e retrocessos em nossas condutas enquanto facilitadores do processo de ensino e aprendizagem é fundamental para reajustar as estratégias avaliativas.

Contudo, apenas a reflexão e socialização de experiências não podem garantir que haja uma mudança significativa na forma de avaliar dos professores. É necessário também um maior aprofundamento teórico sobre o tema. Conhecer quais são os principais entraves que podem dificultar a prática avaliativa, quais as formas que melhor podem se adequar à realidade dos alunos e suas experiências enquanto seres em processo de formação intelectual e moral.

É necessário repensar as ações em sala de aula, auto-avaliar nossas práticas enquanto professores, porque a reflexão é o primeiro passo para buscarem alternativas mais ajustadas e coerentes. A avaliação diagnóstica parte dessa premissa. Busca identificar onde houve rupturas ou falhas no processo de aprendizagem a fim de traçar soluções palpáveis para solucionar problemas reais.

Segundo Hoffmann, se faz necessário enfatizar a importância a importância da avaliação tal como ela deve ser, um instrumento reflexivo que auxilia na mudança de postura para alcançar um maior desenvolvimento. "... Tentamos várias vezes descobrir melhores soluções para determinado problema e amadurecemos a partir de algumas tentativas frustradas. Ora, se tal é o sentido da avaliação na vida, esse não é o sentido da avaliação na escola." (2003, p.148)

Hoffmann destaca que é comum em nossa prática cotidiana, irrefletidamente nos pegarmos muitas vezes avaliando nossas ações e valores, dessa forma, buscamos melhorar nossas vivências. Contudo, quando pensamos na avaliação escolar fragmentamos esse processo e o reduzimos ao simples ato de constatar por meio de recursos escritos e objetivos o que restou para os alunos daquilo que tentamos ensinar.

Para que possa assumir de fato sua função enquanto mecanismo responsável pelo direcionamento da ação educativa, a avaliação deve priorizar o olhar investigativo e curioso sobre o discente. A prática educacional aliada a uma avaliação completa e de qualidade deve buscar subsídios para melhor atender os indivíduos para os quais seus objetivos estão voltados. Entender melhor de onde estes sujeitos partiram em que estágios intelectuais se encontra, quais as suas necessidades e anseios, e naturalmente saber que estratégias pedagógicas devem ser utilizadas para garantir que estes alunos possam avançar.

Não buscamos aqui, conhecer as realidades dos discentes simplesmente para classificar estes alunos segundo critérios de classificação ou qualquer tipo de enquadramento social ou psicológico. "Em todo exercício classificatório de seres humanos revelamos nossas concepções. Humanas, sociais, morais. Revelamos até onde vão nossas concepções democráticas e igualitárias. Classificar é julgar pessoas humanas." (Arroyo, 2004, p.357)

Entendemos que a avaliação pautada na pura classificação e exclusão, não promove alterações na realidade social de nossos alunos, pelo contrário, apenas reafirma a insuficiência da educação enquanto esfera que durante muito tempo foi incapaz de promover cidadania e autonomia aos alunos.

A consolidação de uma pedagogia diferenciada aliada a um método avaliativo consistente e eficaz deve estar atrelada à concretização de um projeto político-pedagógico que articule a realidade social dos educandos a uma prática pedagógica mais social e multidisciplinar. A instituição escolar como elemento gerenciador de posturas pedagógicas deve estar aberta a discussões e possíveis transformações de concepções e práticas insuficientes. A escola é por natureza um ambiente que deve acolher as diversas formas de pensamento a fim de reconstruir suas ações embasadas no movimento dialético que caracteriza as relações de aprendizagem. Essa multiplicidade cultural, envolta em tensões e divergências deve ser vista como uma oportunidade rica para reconstruir as práticas docentes e garantir mudanças positivas.

Entendemos que a materialização do projeto político-pedagógico bem elaborado, pensado em conjunto com os diversos segmentos da escola poderá auxiliar na construção de um currículo flexível e contextualizado, capaz de englobar as necessidades e carências dos discentes, tendo em vista que, por meio da elaboração deste, junto aqueles que compõem o universo pedagógico e social da escola serão possível elencar conteúdos que de fato possam gerar aprendizagens significativas que promovam não apenas uma formação conteudista, mas, primordialmente política. De acordo com Freire (1987, p.86): "Será a partir da situação presente, existencial, concreta, refletindo o conjunto de aspirações do povo, que poderemos organizar o conteúdo programático da educação ou da ação política."

A função social da avaliação então, consiste em compreender como os sujeitos estão acomodando os saberes referenciais, e qual a importância que estes conhecimentos podem implicar na vida social e política destes indivíduos. Caso haja uma incompatibilidade na adequação destes conteúdos as vivências sociais dos alunos, o programa pedagógico deve ser repensado para que possa de fato atender as necessidades dos sujeitos em processo de formação. A avaliação possui caráter essencialmente político e libertador. Deve ser entendida como instrumento de progressão, evolução, amadurecimento de idéias e conceitos. Ação orientadora e motivadora para descomplicar os entraves da prática pedagógica.

A fim de garantir uma avaliação de qualidade, é necessário que haja uma maior preparação dos educadores no que diz respeito aos momentos em que estes irão avaliar seus alunos. "A avaliação da aprendizagem é angustiante para muitos professores por não saber como transformá-la num processo que não seja uma mera cobrança de conteúdos aprendidos" de cor", de forma mecânica e sem muito significado para o aluno" ( MORETTO, 2001.p.93)

Um dos grandes problemas relacionados à avaliação diz respeito a pouca preparação dos professores nos cursos de formação , onde pouco é discutida a questão da avaliação como prática pedagógica indispensável a uma educação de qualidade. O despreparo destes profissionais os leva muitas vezes a avaliar os alunos de forma fragmentada e descontextualizada.

A avaliação deve possuir caráter processual e contínuo, levando em conta as construções cotidianas dos alunos. Para tanto, deve estar alicerçada em procedimentos e ações planejadas evitando que possam ocorrer improvisações. O professor necessita saber quais são os momentos certos para avaliar, quais os métodos mais oportunos a serem aplicados a cada momento, além de saber interpretar os resultados coletados nessas avaliações, evitando assim julgamentos arbitrários e irresponsáveis. Este tipo de avaliação privilegia os aspectos qualitativos sobre os aspectos quantitativos, caracterizando-se como uma prática avaliativa a serviço da democratização e não da exclusão.

Muitos dos problemas ligados a execução de uma avaliação ineficiente e excludente deve-se ao fato de muitos educadores não compreenderem de fato o que o ensino e a avaliação devem priorizar. Alguém que não compreende muito bem sua prática profissional certamente terá grande dificuldade em compreender seus alunos e ajudá-los a compensar suas carências intelectuais. Segundo Morin (2003, p.97):

"De fato a incompreensão de si é fonte muito importante da incompreensão do outro. Mascaram-se as próprias carências e fraquezas, o que nos torna implacáveis com as fraquezas dos outros."

A avaliação da aprendizagem reflete o despreparo e falta de sensibilidade de muitos que atuam na educação como formadores de sujeitos sociais. Apesar de vivermos em uma época de certo avanço em relação às práticas tradicionais vivenciadas nas escolas, onde impera a era da globalização e da interligação de toda a humanidade, ainda não conseguimos desenvolver nos educadores um olhar mais humano sobre o outrem, seus problemas e atitudes, princípio básico da alteridade.

É necessário trabalhar nas mentes dos professores e pedagogos a compreensão dos indivíduos de modo desinteressado e sem julgamentos prévios. Analisando-os levando em conta a complexidade da condição humana. Desenvolvendo uma maior compreensão das diferenças culturais dos homens e suas diferentes visões de mundo e valores éticos.

Cabe a educação oportunizar essa reforma nas mentalidades, visando formar cidadãos com uma maior solidariedade intelectual, capaz de enxergar-se como parte de uma sociedade multicultura.

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Natural de carpina -PE. Possui Licenciatura em Pedagogia pela Universidade Federal de Pernambuco UFPE. Curso de Especialização em Docência Educacional pela Faculdade Santa Catarina-FASC, Mestranda em Educação, Área de Inovação Pedagógica pela Universidade da Madeira-UMa. Professora da faculdade Luso...
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