ATIVIDADES ECONÔMICAS, MEIOS GEOGRÁFICOS E SETORES DA ECONOMIA: EVOLUÇÃO E RETRAÇÃO
 
ATIVIDADES ECONÔMICAS, MEIOS GEOGRÁFICOS E SETORES DA ECONOMIA: EVOLUÇÃO E RETRAÇÃO
 


Valtey Martins de Souza[ii]

Esse trabalho tem como foco principal, os meios geográficos e os setores da economia, que as sociedades no decorrer de suas histórias, desenvolveram sobre esses meios. No primeiro momento, falarei do conceito de atividades econômicas, pois, as mesmas se encontram inclusas nos setores da economia.

Assim, para falar dos meios geográficos, que são meio natural, meio técnico e meio técnico-científico-informacional, utilizarei os conhecimentos disponibilizados por Santos (1992).

Na seqüência, irei tratar sobre os setores da economia, que podem ser entendidos como primário, secundário, terciário e quaternário.

Por fim, nas notas conclusivas, revisarei brevemente meus escritos e relacionarei os setores da economia e suas respectivas atividades econômicas, aos meios geográficos.

2. ATIVIDADES ECONÔMICAS E MEIOS GEOGRÁFICOS

É por meio das atividades econômicas1 que os seres humanos podem obter as coisas que precisam para suas vidas. Elas constituem a essencial fonte de emprego e renda para a população. É por meio delas, também, que o espaço é criado e transformado em função do processo produtivo geral da sociedade. Tanto a criação, quanto à transformação do espaço, depende dos recursos e das técnicas que os homens utilizam.

As técnicas, assim como a sociedades, passaram e passam por um processo evolutivo. E por intermédio dessa evolução no tempo e no espaço, a sociedade foi construindo uma história dos diferentes usos que faz do espaço, pois, nas palavras de Santos & Silveira (2001) a construção dessa história:

São as lógicas e os tempos humanos impondo-se à natureza, situações em que as possibilidades técnicas presentes denotam os conflitos resultantes da emergência de sucessivos meios geográficos, todos incompletamente realizados, todos incompletamente difundidos (p.31).

Para os autores citados acima, a periodização da evolução da técnica divide-se em três períodos distintos, o meio natural, o meio técnico e o meio técnico-científico-informacional.

Tabela 1 - A evolução dos meios geográficos

Os meios geográficos

Principais características

Meio Natural

- adaptação humana aos sistemas naturais;

- escassez de técnicas;

- poucas modificações no espaço.

Meio Técnico

-inovações técnicas;

-espaço mecanizado;

-profundas transformações espaciais.

Meio Técnico- Científico-Informacional

-profunda interação entre a ciência e a técnica;

-evolução do setor ligado a informação e a comunicação;

-mundialização do circuito espacial da produção;

-ideologia do consumo, do crescimento econômico e do planejamento.

Fonte: elaborado a partir de dados coletados em Santos & Silveira (2001), Moreira (2002) e Santos (1992).

2.1 meio natural

O meio natural2 é marcado pelos tempos lentos da natureza, e pela adaptação humana aos sistemas naturais. Esse período se caracterizou pela escassez de instrumentos artificiais necessários ao domínio desse mundo natural, e pode ser chamado também de pré-técnico.

Devido ao exposto acima, podemos entender que o espaço geográfico nesse período sofreu poucas modificações pela ação humana, pois se toda ação supõe uma técnica, e o referido período foi marcado pela escassez de técnicas, logicamente houve uma predominância do meio natural sobre o antrópico.

Dessa forma, Santos & Silveira (2001), com base em Galvão, entendem que os assentamentos humanos fundavam-se assim nas ofertas da natureza e, as localizações econômicas, resultavam da combinação entre as necessidades de cada produto e as condições naturais preexistentes. Assim, as necessidades humanas eram balizadas pela reprodução harmoniosa da natureza e os seres humanos procuravam se adaptar ao meio natural.

2.2meio técnico

Um segundo período, no entendimento de Santos & Silveira (2001), é aquele em que predominam os meios técnicos e o espaço é mecanizado. Pode-se chamar de meio técnico, o período a partir do qual a produção se tornou social. Esse período é marcado pelas inovações técnicas e o conseqüente aperfeiçoamento dos instrumentos de trabalho. É um período em que os assentamentos humanos não se fundam mais nas ofertas da natureza, e as condições econômicas não dependem exclusivamente de condições naturais preexistentes.

Nessas condições, a apropriação da natureza é intensificada em tal período, pois os instrumentos de trabalho tornam-se mais complexos, deixando de ser prolongamentos da mão do homem, em alguns casos, para se constituírem em verdadeiras próteses3 impostas a natureza.

Assim, é importante lembrar que por mais que as atividades humanas transformassem o espaço e a sociedade, nos seus mais diversos segmentos, ela não chega a eliminar a ação das forças naturais. Os espaços passam a se diferenciar uns dos outros pelo nível de mecanização e em função da extensão. Por isso, na percepção de Moreira (2002):

O período técnico vê a emergência do espaço mecanizado. Os objetos que formam o meio não são apenas objetos culturais: eles são culturais e técnicos ao mesmo tempo. Quanto ao espaço, o componente material é crescentemente formado do 'natural' e do 'artificial'. Mas o número e a qualidade de artefatos variam. As áreas, os espaços, as regiões, os países passam a se distinguir em função da extensão e da densidade da substituição, neles, dos objetos naturais e dos objetos culturais. ...(p.24).

Nesse sentido, a aceleração e a difusão das inovações técnicas, bem como a concepção de domínio da natureza pelo homem, tiveram o surgimento do Capitalismo4 como marco fundamental, nos séculos XV e XVI. Assim sendo, a cada período são implementadas novas transformações nas técnicas e, por conseqüência, no espaço também.

2.3meio técnico-científico-informacional

O terceiro período começa praticamente depois da Segunda Guerra Mundial, onde os grandes instrumentos políticos e os grandes provedores das idéias que iriam guiar a reconstrução ou a remodelação dos espaços nacionais, juntamente com a da economia, da sociedade e da política, foram às ideologias do consumo, do crescimento econômico e do planejamento.

Desse modo, o fim da referida guerra marca, também, o início de um novo rearranjo do capitalismo, abrindo-se perspectivas para a revolução científico-técnica. Era o momento, segundo Santos & Silveira (2001), de lançar a origem da dominação do mundo pelas firmas multinacionais, preparando assim todos os espaços mundiais para uma nova aventura que, na escala mundial, só iria frutificar plenamente trinta anos depois.

Portanto, esse novo período que é também uma nova fase do capitalismo, se diferencia dos anteriores devido à profunda interação da ciência e da técnica. A ciência, particularmente a pesquisa, tanto a aplicada quanto à pura, é colocada cada vez mais a serviço da descoberta de novas técnicas, quase exclusivamente voltadas para a produção. A ciência direciona-se, de modo geral, para o setor produtivo. Nunca a ciência e a técnica estiveram tão interligadas como nesse período.

Dessa forma, a relação do homem com a natureza passa a ser mediada pelas conquistas da técnica alimentada pela ciência. Segundo Santos (1992), esse período também se diferencia pela expansão e predominância do trabalho mental e de um movimento do capital à escala mundial, que atribui à circulação (movimento das coisas, valores, idéias) um papel basilar.

Assim, a produção diversifica-se extraordinariamente, objetivando a acumulação de riqueza e fomentada por uma verdadeira corrida tecnológica. O prazo para que os bens produzidos, inclusive os instrumentos de trabalho, se tornem obsoletos, impondo sua substituição por outros mais "modernos", passa a ser mais curto, ocasionando um consumo maior de recursos naturais.

Nesse contexto, as técnicas alimentadas pelas ciências, evoluíram de tal forma que provocaram um considerável avanço na tecnologia da informação e da comunicação, microeletrônica, computadorização, produtos intensivamente baseados em conhecimentos e padrões de consumo que são muito mais diferenciados e individualizados. Essa evolução tecnológica que privilegia a informação e a comunicação alterou profundamente as noções de tempo e de distância, pois, segundo as palavras de Moreira (2002):

... A quase instantaneidade nas transmissões de palavras, sons e imagens  por cabo, fibra óptica ou satélite  torna o mundo muito menor, com uma aparente proximidade entre as pessoas. Isso é facilitado pela generalização do uso do computador, o qual, conectado a uma rede, permite aos seus milhões de usuários comunicarem-se diretamente entre si a qualquer hora do dia ou da noite. ...(p.22).

Além disso, esse período também é marcado pela mundialização da produção, da circulação e do consumo, ou seja, de todo o ciclo de reprodução do capital, pois, com a derrocada do Socialismo5, ocorreu à internacionalização do capitalismo, que passa a atingir praticamente todo o planeta e recebe uma denominação especial: Globalização6.

Assim sendo, para o autor citado acima, os avanços tecnológicos, particularmente nos transportes e nas comunicações, possibilitaram as grandes corporações, decompor o processo produtivo e dispersar suas etapas em escala mundial. Tanto a produção quanto o consumo deixam de ser local para se tornarem mundiais.

Desse modo, com base em Conti citado por Moreira (2002), esse novo período conhecido como meio técnico-científico-informacional, que é uma nova fase do modelo produtivo, se diferencia dos outros pela profunda interação da ciência e da técnica, sendo que, a idéia de ciência, de tecnologia e de mercado global, deve ser encarada conjuntamente.

Nesse sentido, podemos entender que os sucessivos meios geográficos citados até aqui, foram produzidos pela relação do homem com a natureza. Portanto, na sua relação com a natureza, o homem, através do trabalho7, cria e transforma o espaço tentando obter as condições necessárias à sobrevivência da espécie humana. Nessas condições, o espaço geográfico enquanto produto do processo de trabalho da sociedade deve ser concebido como um produto histórico e social das relações que se estabelecem entre a sociedade e o meio circundante.

3. SETORES DA ECONOMIA

No entendimento de Moreira (2002), as atividades econômicas diversificaram-se à medida que o conhecimento humano e a tecnologia foram se aprimorando, tornando-se necessário dividi-las em três setores da economia. O setor primário, que engloba as atividades ligadas ao campo, como a agricultura, a pecuária e o extrativismo. O setor secundário, no qual as atividades industriais estão inclusas, e, o setor terciário, o qual inclui as atividades ligadas ao comércio e a prestação de serviços. Porém, Carvalho & Kaniski (2000) entendem que a partir da década de 1950 emerge outro setor, o quaternário, ligado à informação e a comunicação (ver Tabela 2).

No entanto, esses sucessivos setores da economia foram predominantes por um determinado tempo, perdendo parte de sua importância a partir das inovações da ciência e da técnica. O setor primário já foi predominante, empregando a maior parte da mão-de-obra ocupada, respondendo pela produção da maior parte da riqueza, porém, a evolução da ciência e da técnica faz emergir um novo modo de produzir baseado na produção em série e em massa, através do uso de máquinas e ferramentas. É a emergência do secundário, que ganha importância predominando por algum tempo como modelo hegemônico, trazendo no seu bojo, a especialização de trabalhadores, a descoberta de novos modos de produzir energia, etc.

Assim, tal modelo, por atuar também como poupador de mão-de-obra, é suprimido por um novo paradigma baseado no comércio e no setor de serviços, o terciário. Agora as atividades de maior relevância fazem crescer enormemente o número de produtos, mercadorias e pessoas circulando. Quando o terciário se torna insatisfatório devido ao avanço da técnica alimentada pela ciência, acontecem mudanças profundas fazendo emergir um novo paradigma tecno-econômico baseado em informação, isto é, na geração de serviços e na produção e transmissão da informação.

Tabela 2 - Os setores da economia e as principais atividades econômicas.

Setores da economia

Principais atividades econômicas

Primário

Agricultura, pecuária e extrativismo (atividades ligadas principalmente ao meio rural).

Secundário

Inclui as atividades industriais

Terciário

Inclui as atividades ligadas ao comércio e a prestação de serviços

Quaternário

Atividades ligadas à informação e a comunicação

Fonte: elaborada a partir de dados coletados em Vesentini & Vlach (2002) e Carvalho & Kaniski (2000).

3.1. atividades ligadas ao setor primário

No entendimento de Vesentini & Vlach (2002), as atividades econômicas mais antigas são as extrativas: a caça, a pesca e a coleta de frutos nas matas. Tais atividades poucas transformações causaram no espaço geográfico, pois, o extrativismo animal (a caça e a pesca) e o extrativismo vegetal (a coleta de frutos nas matas) eram praticados em pequena escala, somente para a sobrevivência da espécie humana.

Assim sendo, neste trabalho, o extrativismo passa a ser entendido como a atividade de extrair da natureza os recursos que a mesma disponibiliza ao homem, sendo que no extrativismo animal, como já citado anteriormente, é extraído da natureza, a caça e o peixe, e, no vegetal, são extraídos produtos vegetais que não foram cultivados pelo homem.Ainda falando de extrativismo, existe outro modelo segundo Moreira (2001), o extrativismo mineral, que consiste na extração de minerais úteis que existem na crosta terrestre.

Desse modo, se percebemos que as atividades extrativas poucas transformações causaram no espaço, o mesmo não pode ser dito quando do surgimento da agricultura e da pecuária, na chamada Revolução Neolítica, que nas palavras do autor citado acima, corresponde ao período em que o homem começou a cultivar a terra e a domesticar os animais, ao mesmo tempo em que passou a utilizar instrumentos de pedra polida. Sendo que, a criação de animais (pecuária) e o cultivo de plantas úteis aos homens (agricultura), foram às primeiras atividades econômicas pré-industriais a modificar com mais intensidade o espaço, pois, o referido período coincide também com a época em que o homem deixa de ser nômade e passa a sedentário, se fixando a terra. Tal período corresponde também à época em que o homem passa a utilizar novos instrumentos, como os de pedra polida.

Dessa forma, o aumento da produção de alimentos e a produção de excedentes, só foram possíveis devido ao aperfeiçoamento das técnicas e dos instrumentos. Em suma, a alimentação agora não dependia mais exclusivamente das atividades predatórias, mas estava garantida pela agricultura e a criação de animais, dando então, segurança ao sustento e reprodução da vida.

Nesse contexto, as atividades ligadas ao setor primário da economia (aquele que produz para suprir as necessidades básicas, como a alimentação), predominaram durante muito tempo, deixando de ser a atividade econômica principal apenas nos séculos XIV e XV, com a transição para o capitalismo.

3.2. atividades ligadas ao setor secundário

As modificações no espaço provocadas pelas formações sociais na prática do extrativismo, da agricultura e da pecuária no período pré-capitalista, foram pequenas se comparadas às do período a partir da Revolução Industrial8. A Sociedade Moderna ou Industrial9 foi a que mais modificação causou na natureza até hoje. Segundo Vesentini & Vlach (2002), a sociedade moderna, também chamada sociedade industrial, modificou a natureza num grau nunca visto anteriormente.

Assim sendo, Barrios (1986) em suas palavras nos revela que as formações sociais, em sua evolução, passam de uma situação de simples ocupação e aproveitamento do espaço (adaptação passiva) para uma situação de modificação cada vez mais ampla e intensa desse espaço (adaptação ativa).

Desse modo, na percepção da autora citada acima, a transformação social do espaço circundante é decorrente da ampliação dos conhecimentos científicos e da disponibilidade de instrumentos de trabalho cada vez mais poderosos e eficientes.

Nessas condições, o setor da economia no qual estão inclusas as atividades industriais, é aquele que trouxe no seu bojo elementos como máquinas e ferramentas, trabalhadores especializados, produção em série e energia, entre outros. Perdurou como sinônimo de desenvolvimento do século XVIII até o século XX. Nesse período, esse setor econômico fez emergir um novo modo de produzir e uma nova sociedade, a chamada sociedade moderna ou industrial, pois, produzir através da indústria se tornou moderno e bastante difundido em quase todo o mundo.

Desta forma, a Sociedade Moderna ou Industrial, tem estado em um constante processo de transformação do espaço, tanto para extrair recursos, quanto para produzir, transportar e consumir mercadorias. No entanto, a indústria nem sempre foi moderna, ela passou por um processo evolutivo, vindo da manufatura, segundo Moreira (2002), e os motivos foram à inovação das técnicas e a organização do trabalho, pois,

A evolução da manufatura para indústria deveu-se principalmente a dois motivos: a organização do trabalho, caracterizada pela divisão e especialização das etapas do processo produtivo, e as inovações técnicas da chamada Revolução Industrial (p.85).

Para esse mesmo autor, os instrumentos de trabalho, no início do século XVIII, haviam encarecido de tal modo que os artesãos e os trabalhadores das manufaturas sentiram dificuldades para adquiri-los. Nem todas as pessoas podiam adquirir os instrumentos de trabalho, apenas algumas que tinham um poder aquisitivo maior, como os ricos comerciantes, ou seja, os burgueses.

Devido ao exposto acima, os antigos artesãos e os trabalhadores manufatureiros viram-se obrigados a venderem suas forças de trabalho à burguesia em troca de salários, em decorrência de, principalmente, não serem mais os possuidores dos instrumentos necessários para o trabalho. A partir daí, a burguesia decidiu concentrar a produção e, por conseqüência, os trabalhadores em um determinado espaço, para poder ter um maior controle sobre a produção e a mão-de-obra. Esse espaço de concentração passa a ser a fábrica10.

Por isso, a conseqüência desse controle exercido pela burguesia, em relação aos trabalhadores, foi a perca do domínio da sua força de trabalho e da produção.

Nesse contexto, no período conhecido como pré-industrial, a divisão social do trabalho11 não era tão diversificada, porém, a partir do surgimento da indústria moderna na segunda metade do século XVIII, se diversifica de tal forma que os trabalhadores passam a se especializar nas distintas tarefas oferecidas nas fábricas. Na divisão do trabalho o processo de produção é decomposto, de modo que cada operação ou tarefa seja realizada por um ou mais trabalhadores. No entendimento de Singer (1989), essa divisão social do trabalho é possível devido à especialização dos diversos grupos na execução das distintas tarefas, todas contribuindo para a produção e circulação de determinada quantidade de produtos, que podem ser bens ou serviços. Essa especialização do trabalho, aliada a mecanização, acabou aumentando consideravelmente a produtividade do trabalho, os lucros da burguesia e a alienação12 das forças produtivas.

Assim, devido a essa diversificação da divisão social do trabalho, alteram-se também, as relações entre os diferentes espaços, se intensifica a divisão territorial do trabalho13. A possibilidade da especialização produtiva é criada com a difusão dos transportes e das comunicações. Os meios rápidos e eficientes de transporte possibilitam as regiões se especializarem, não mais precisando produzir tudo para a sua subsistência.A relação cidade-campo, por exemplo, já não é a mesma, pois, o papel de produtor de bens para abastecer a cidade, já não é de exclusividade do campo. A cidade intensifica a produção para seu próprio consumo e também do campo. O meio urbano produz bens industrializados (carros, móveis, sapatos, bebidas, etc.) e presta serviços (escolas, repartições públicas, hospitais, bancos, etc.). O meio rural produz alimentos e matérias-primas para as indústrias.

Desse modo, foram alteradas também, as relações entre os espaços vizinhos. Hoje, uma cidade pode manter relações intensas com outras muito distantes, mesmo fora de seu país, secundarizando o intercâmbio com sua vizinha imediata.

Portanto, com base no entendimento de Santos (1996):

...A melhoria das estradas e dos veículos, o encontro de combustíveis mais baratos representam modernizações que permitem a diminuição dos custos. De modo geral, o preço do transporte aumenta menos que o dos demais fatores da produção e a redução do custo das viagens possibilita às pessoas escolher onde adquirir bens e serviços, que freqüentemente vão buscar em lugares mais distantes, mas onde os preços praticados oferecem maiores atrativos... (p.56).

Nesse sentido, o autor citado acima, entende que o mundo encontra-se organizado em subespaços articulados dentro de uma lógica global. Devido à crescente especialização regional, com os inúmeros fluxos de todos os tipos, intensidades e direções têm de falar de circuitos espaciais da produção14 e não mais de circuitos regionais de produção. É o que o referido autor chama de especialização produtiva, que depende de maior inserção da ciência e da tecnologia para que aumente o número, a intensidade e a qualidade dos fluxos que chegam e saem desse espaço.

Em suma, passa a ser criada uma tendência ao aumento do movimento derivado da diminuição relativa dos preços dos transportes, de sua qualidade, diversidade e quantidade. Cresce enormemente o número de produtos, mercadorias e pessoas circulando, aumentando a importância das trocas, pois elas não apenas se diversificam como se avolumam.

3.3atividades ligadas ao setor terciário

Ao nos debruçarmos sobre Moreira (2002), entendemos que o setor terciário da economia é o setor que, nos países industrializados, tende a empregar a maior parte da mão-de-obra e corresponde ao comércio e aos serviços, como transporte, educação, saúde, comunicação e sistema financeiro.

Assim sendo, segundo o autor citado acima, devido ao desenvolvimento de novas tecnologias e a informatização, o setor terciário é o que tem apresentado um crescimento mais acentuado nos últimos anos. O setor secundário, geralmente, tem adotado tecnologias poupadoras de mão-de-obra, fazendo com que boa parte desses trabalhadores migre para o terciário, no entanto, essa força de trabalho que migra, agora necessita exercer um trabalho mais criativo em vez de executar tarefas mecânicas.

Dessa forma, o referido setor assume importância decisiva, particularmente com os serviços de pesquisa, com a produção de tecnologia, com a propaganda e o marketing15, além do comércio.É a chamadaterceirização da economia, em que o setor terciário passa a comandar os demais setores, a utilizar a maior parcela da mão-de-obra ocupada e a responder pela maior parte da produção de riqueza dos países. Junto a esse processo, ocorre em todos os outros setores, a terceirização. Tomemos o setor secundário como exemplo, pois em tal setor, muitas indústrias contratam indústrias menores, especializadas, para realizar parte de sua produção.

Nesse contexto, o mencionado setor da economia tem apresentado as características citadas no parágrafo anterior, que são características de uma sociedade pós-industrial, dirigida pelas altas finanças, impulsionada pela informática e pela robótica, preocupada com a produtividade e voltada para o consumo. As características citadas até então, marcam também uma crescente desigualdade sócio-econômica, onde parte da mão-de-obra ociosa passa a fazer parte da economia informal, pois, a informática e a robótica passam a atuar, também, como poupadoras de mão-de-obra.

3.4atividades ligadas ao setor quaternário

A expansão da economia provocou a transferência das atividades produtivas de um setor para o outro, causando certo "inchaço" no terciário, que passa a não mais responder aos anseios da sociedade. A partir desse momento emerge, paulatinamente, a sociedade pós-industrial.

Assim, ao nos debruçarmos sobre Carvalho & Kaniski (2000), notamos que o início da chamada era pós-industrial, ocorre a partir da década de 1950, marcando o começo dos esforços científicos, tecnológicos e políticos no sentido de informatizar a sociedade, fazendo surgir um novo setor econômico baseado na geração de serviços e na produção e transmissão da informação: o quaternário.

Portanto, com base no entendimento de Targino (1995), o surgimento do quaternário foi possibilitado pela chamada revolução tecnológica, que provocou alterações profundas na configuração social [e espacial] do ocidente, como a descentralização da economia, a alteração das práticas culturais, a democratização da informação e a redefinição do trabalho.

Desse modo, no período atual, as economias dos países influenciam e são influenciadas umas pelas outras, pois, acontecimentos isolados passam a afetar a todos os países que estão ligados por diferentes relações. Como a produção e o consumo agora são mundializados, as grandes corporações estão presentes em quase todos os lugares do planeta, agindo como um grande sistema, onde ocorrem fluxos de todos os tipos, intensidades e direções.

Nessa conjuntura, a telemática16 atua de forma a provocar alterações nas práticas culturais, numa tentativa de unificar as diversas culturas existentes em um mundo cada dia mais globalizado, pois, independentemente da localização geográfica, a informática influencia nos processos de difusão da informação. No entanto, tais avanços tecnológicos também provocam fragmentação, acarretando a diferenciação entre os espaços e culturas em vez de torná-los iguais. Concomitantemente a essas novas tecnologias de informação, a mídia, de modo geral, atua como agente de primeira grandeza, difundindo costumes e culturas, como o chamado "consumismo".

Nesse sentido, agora estamos em um tempo que é o da televisão e da telerrealidade, em que as culturas tendem a extrapolar o real imediato, o aqui agora, emergindo no fluxo de um tempo virtual, de imagens virtuais, consolidando o advento das novas tecnologias de comunicação.

Nessa abordagem, essas novas tecnologias da informação tendem a conduzir à formação de uma nova sociedade de consumidores, de sujeitos que ligam seus terminais para consumir informações insignificantes ou informações sobre mercadorias que poderão ser consumidas mais rapidamente, sendo que também se pode adquiri-las com o mínimo de esforço.

Devido a essa nova configuração, Carvalho & Kaniski (2000), ao analisarem Sánchez Gamboa, notam que:

... As informações utilizadas nos processos produtivos, na tomada de decisões, na geração de novas tecnologias são rigorosamente controladas. Entretanto, as informações que geram dispersão, confusão, distração, divertimento, lazer ou veiculam um modus vivendi, ideologias desmobilizadoras e concepções fantasiadas do mundo são democraticamente divulgadas... (p.36).

Dessa forma, ao falar das análises acima, entendemos que nos revelam que as informações geralmente estão carregadas de estilos de vida, de visão de mundo, de ideologias, de valores e de contravalores. Assim, seus conteúdos devem sempre estar direcionados por interesses humanos, ou seja, interesses dos grupos que controlam essas informações.

Assim sendo, no âmbito do trabalho, percebe-se que as novas tecnologias de comunicação provocaram e continuam provocando mutações. Segundo Targino (1995), os escritórios convencionais são substituídos pelo espaço doméstico, não sendo agora mais necessário se ter um horário fixo de trabalho, pois, o mesmo pode ser feito em qualquer hora do dia e da noite com os mais diversos profissionais das diferentes áreas de trabalho, se comunicando eletronicamente com os clientes em todas as etapas operacionais, via computador, fax, telefone, teleprocessadores de informação.

No entendimento da autora citada no parágrafo anterior, o uso dessas novas tecnologias de comunicação fornece:

... possibilidades de maior produtividade, possível melhoria de qualidade do produto, em face dos índices mais baixos de interferências externas, permitindo, ainda, que pais com filhos pequenos possam aliar trabalho e assistência maternal/paternal. Representa também, economia de tempo, de custos de transporte, de instalações físicas e despesas daí decorrentes, além de minorar o tráfego de veículos e a poluição ambiental ... (p.203).

No entanto, essas novas formas de organização e relações de trabalho, provocam um crescente isolacionismo do indivíduo em seu território, diminuindo a riqueza da troca mútua e coletiva advinda dos contatos face a face. Além disso, a utilização do espaço doméstico como ambiente de trabalho pode provocar a eliminação das fronteiras entre a intimidade e a vida profissional.

Desse modo, esse novo setor da economia desponta como um novo modo de organizar o espaço e as relações travadas nele. Sendo que, como um rearranjo do capitalismo, perdurará por um período da história da sociedade humana e será modificado quando não mais responder aos anseios dessa mesma sociedade.

4. BREVE CONCLUSÃO

Nesse trabalho, sentimos a necessidade de conceituar atividades econômicas, depois falamos dos meios geográficos, sendo eles, o meio natural, caracterizado pela adaptação humana aos sistemas naturais, escassez de técnicas e poucas modificações no espaço; o meio técnico que apresenta as inovações técnicas, o espaço mecanizado e profundas transformações espaciais como principais características; e o meio técnico-científico-informacional que dentre suas principais características estão profundas interações entre a ciência e a técnica, a evolução do setor ligado a informação e a comunicação, a mundialização do circuito espacial da produção, e a ideologia do consumo, do crescimento econômico e do planejamento.

Falamos ainda nesse trabalho, dos setores da economia, que é composto pelos setores primário, secundário, terciário e quaternário. O primeiro desses setores apresenta as atividades ligadas principalmente ao meio rural, como principais atividades econômicas. O segundo é aquele que inclui as atividades industriais. O terceiro está relacionado com as atividades ligadas ao comércio e a prestação de serviços. E por fim, o quarto setor da economia em que as atividades ligadas à informação e a comunicação são as atividades econômicas principais.

Nessas condições, adotei como objetivo final, tentar relacionar os sucessivos meios geográficos aos setores da economia. Em minha opinião, no período em que prevalecia o meio natural, as principais atividades econômicas desenvolvidas eram aquelas ligadas ao setor primário, como a agricultura, pecuária e extrativismo, por exemplo. No momento em que o meio técnico prevalecia como hegemônico, as atividades econômicas centrais ligavam-se ao setor secundário, como aquelas ligadas às indústrias. Por fim, na atualidade, onde o meio técnico-científico-informacional desponta como central, as atividades econômicas se ligam ao terciário e quaternário, pois, aquelas vinculadas ao comércio e a prestação de serviços se encontram cada vez mais atreladas à informação e a comunicação.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

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1 Moreira (2002) define como atividades econômicas, aquelas exercidas pelo homem e que envolvem de alguma maneira a produção, a circulação e o consumo de bens.

2 Santos & Silveira (2001) entendem como meio natural, os pedaços da crosta terrestre aproveitados pelos grupos humanos para perpetrar sua base material nos primórdios da história.

3 Substituto artificial de um elemento natural.

4 Moreira (2002) nos explica que Capitalismo é um sistema sócio econômico cujas atividades econômicas estão desandadas para a venda de produtos, com o objetivo de obter lucro, que, por sua vez, deve ser reaplicado na produção. Esse sistema tem como base a influencia ou no predomínio do capital, isto é, todo bem passível de ser aplicado na produção ou que é capaz de gerar renda a ser usada para obter nova produção. Tradicionalmente, é marcado pela existência de dois grandes segmentos ou classes sociais: os donos do capital ou capitalista, com equipamentos e máquinas (meios de produção), e aqueles que só dispõem de sua força de trabalho para sobreviver (proletários).

5 Japiassú & Marcondes (1996) entendem que esse termo que designa, sobretudo a partir do século XIX, diferentes doutrinas políticas, todas partilhando de uma proposta de mudança da organização econômica e política da sociedade, visando o interesse geral, contra o interesse de uma ou mais classes privilegiadas, com base nas idéias de igualdade e justiça social. Distingue-se o Socialismo Democrático, que prega essas mudanças por via institucional, através de reformas defendidas e realizadas como parte do processo democrático, do Socialismo Revolucionário, que defende a necessidade de mudanças profundas através de um processo revolucionário de alteração da sociedade.

6 Vesentini & Vlach (2002) utilizam esse termo para denominar a internacionalização crescente dos países e economias do globo terrestre. Pode-se constatar o avanço da globalização no aumento constante do comércio e do turismo internacionais, dos investimentos de capitais de um país em outro, da expansão de tecnologias mundiais como as telecomunicações (telefones, fax, televisão, etc.) ou a internet, do aumento das empresas multinacionais, etc.

7 Moreira (2001) entende esse termo como a atividade de transformar recursos naturais em bens capazes de satisfazer necessidades humanas, ou seja, o fazer produtivo. Já Santos (1996) entende que o trabalho é o aproveitamento, sobre a natureza, da energia do homem, diretamente ou com prolongamento do seu corpo através de dispositivos mecânicos, no propósito de reproduzir a sua vida e a do grupo. Outra concepção sobre o mesmo termo nos é revelada por Japiassú & Marcondes (1996), que entendem o trabalho como sendo em um sentido genérico, atividades através da qual o homem transforma o mundo, a natureza, de forma consciente e espontânea, para satisfazer suas necessidades básicas (alimentação, habitação, vestimenta, etc.). Outro entendimento sobre o referido conceito nos é dado por Marx citado por Japiassú & Marcondes (1996), afirmando que o trabalho é a condição imprescindível da existência do homem, uma necessidade eterna, o mediador da circulação material entre o homem e a natureza. Comte citado por Japiassú & Marcondes (1996), entende que a fonte inicial de toda riqueza material, constitui a nossa ação real e útil sobre o mundo exterior, ou seja, o trabalho produtivo.

8 Tal expressão tem sido utilizada para designar um conjunto de transformações econômicas, tecnológicas e sociais que se iniciou na Inglaterra na segunda metade do século XVIII.

9 No entendimento de Vesentini & Vlach (2002), esse tipo de sociedade baseia-se na produção em grandes quantidades com o uso de máquinas, ou seja, na atividade industrial. Tal sociedade nasceu na Inglaterra, espalhou-se pela Europa e depois por todo o mundo.

10 Ao nos debruçarmos sobre Sposito (2001), entendemos que esse termo designa o aglomerado industrial constituído por instalações, equipamentos e trabalhadores voltados para a alteração de matérias-primas.

11 Repartição ou separação das tarefas por indivíduos de uma determinada sociedade.

12 Esse termo nos é revelado por Japiassú & Marcondes (1996), que o entendem como condição do indivíduo que não mais se pertence, que não detém o controle de si mesmo ou que se vê privado de seus direitos basilares, passando a ser considerado uma coisa.

13 Repartição espacial das atividades econômicas.

14 Santos (1996) percebe por circuito espacial da produção, as diversas etapas pelas quais passaria um produto, desde o começo do processo de produção até chegar ao consumo final.

15 No entendimento de Ferreira (1986) esse termo é entendido como o conjunto de estudos e medidas que equipam estrategicamente o lançamento e a manutenção de um produto ou serviço no mercado consumidor, garantindo o bom êxito comercial da iniciativa.

16 Targino (1995) entende esse termo como sendo a associação da tele(comunicação) + (infor)mática, que trata da manipulação e utilização da informação mediante o uso combinado da informática, dos meios audiovisuais e das telecomunicações.


[i] O presente artigo foi elaborado em 2009 e é a adaptação de "As atividades econômicas e a transformação do espaço", que é o primeiro capítulo do Trabalho de Conclusão de Curso  TCC, intitulado "Atividades Econômicas e Atividade Madeireira na Amazônia: o caso de São Domingos do Araguaia", apresentado para obtenção do título de Licenciatura Plena em Geografia pela Universidade Federal do Pará, em Brejo Grande do Araguaia no ano de 2004.

 

 
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