APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA SEGUNDO AS TEORIAS DE VYGOTSKY.
 
APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA SEGUNDO AS TEORIAS DE VYGOTSKY.
 


APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA SEGUNDO AS TEORIAS DE VYGOTSKY.

Ivany Lima de Almeida [1]

 

RESUMO: Este artigo objetiva realizar um estudo sobre o processo de aprendizagem e desenvolvimento da criança segundo as concepções de Vygotsky. Serão abordadas as seguintes temáticas: a aprendizagem promove o desenvolvimento; a importância da interação social; a cultura como sistema simbólico de representação da realidade; o papel da escola e do professor como mediação no processo de aprendizagem da criança e aprendizagem e desenvolvimento através do brinquedo. Nesse sentido, este trabalho está dividido em dois capítulos, sendo que no primeiro capítulo abordaremos sobre a aprendizagem e o desenvolvimento, ressalta também a importância da interação social e da cultura para a aprendizagem da criança. No segundo capítulo, relataremos sobre o papel da escola e do professor no processo de aprendizagem da criança, em que o educador deve saber mediar e proporcionar um ambiente que estimule positivamente esta aprendizagem, ressaltando também a importância do brinquedo na aprendizagem e desenvolvimento. Todavia, através deste trabalho percebe-se a importância das ideologias de Vygotsky para a educação, especialmente no que se refere à aprendizagem e o desenvolvimento da criança.

Palavras-chaves: Aprendizagem. Desenvolvimento. Educador. Criança. Vygotsky.

 

 INTRODUÇÃO

 

Nos últimos anos, cresceu o interesse de educadores, acadêmicos e até mesmos nos cursos de graduação pelos trabalhos de Vygotsky, uma vez em que estes contêm potencial interdisciplinar que permite relacionar o individual com o coletivo, encontra-se também ideologias que podem servir de suporte para a resolução de problemas educacionais típicos da educação infantil.

 Este projeto objetiva buscar através da teoria Vigotskiana, entender como se dá o processo de aprendizagem e desenvolvimento da criança, visando enriquecer nossa formação como educador infantil.

Para desenvolver este projeto na área da psicologia, escolhemos tal tema devido ao fato de estarmos cada vez mais em busca de conhecimentos relativos à criança, onde através desse estudo estaremos obtendo um amplo conhecimento sobre aprendizagem e o desenvolvimento do mesmo. Como educador-aluno é de suma importância abordar tais conceitos, uma vez em que suas idéias trazem contribuições para o meio educacional, enfatizando a interação da criança com o meio social,  da criança com o meio social para o meio educacional, enfatizando a interação da criança com o meio social, gerando aprendizagens.

Nesse sentido, faz-se necessário um breve relato sobre a biografia de Lev Semyonovitch Vygotsky, professor e pesquisador, nasceu em orsha, pequena cidade da Bielorrusia em 17 de novembro de1896, é originário de uma família de princípios educativos, este fato deu estímulo intelectual, fazendo-o interessar-se pela reflexão e estudo em várias áreas do conhecimento. Viveu na Rússia e foi um psicólogo importante para o nosso século, fundou um laboratório de psicologia no Instituto de  treinamento de professores, atuou intensamente na área da educação, contribuindo com estudos sobre o aprendizado e o desenvolvimento e morreu de tuberculose em 1934, deixando para o campo educacional, contribuições no que se refere aos educadores, sua ideologia se reverte de suma importância, pois trás para o campo educacional uma visão integrada de conhecimentos.

Este artigo está dividido em dois capítulos, sendo que no primeiro capítulo abordaremos sobre a aprendizagem e o desenvolvimento, em que Vygotsky fala que a aprendizagem promove o desenvolvimento através das interações estabelecidas com as pessoas, ressalta também a importância da interação social e da cultura para a aprendizagem da criança, onde a mesma participa de forma interativa na construção de sua própria cultura e sua história, modificando a si e aos demais com quem se relaciona.

No segundo capítulo, relataremos sobre o papel da escola e do professor no processo de aprendizagem da criança, em que o educador deve saber mediar e proporcionar um ambiente que estimule positivamente esta aprendizagem, ressalta também a importância do brinquedo na aprendizagem e desenvolvimento da criança, sendo que através do brinquedo ela recria sua realidade, interpretando suas ações, trazendo esses significados para sua vivência.

Dessa maneira faremos um aprofundamento de suas teorias em favor dessa pesquisa, de forma que possamos repensar nossa prática como educadores, reconstruindo enquanto cidadãos e atuar como sujeitos de produção de conhecimento. Para que possamos, mais do que acumular currículos ou sugerir propostas á realidade da educação infantil em que atuamos efetivamente participar da construção e consolidação de sua aprendizagem e desenvolvimento.

           

 

 

1 .0- A APRENDIZAGEM PROMOVE O DESENVOLVIMENTO

 

Conceituando aprendizagem e desenvolvimento, segundo as ideologias de Vygotsky, podemos dizer que aprendizagem é o produto da ação dos adultos que fazem a mediação no processo de aprendizagem das crianças, sendo um aspecto necessário e fundamental no processo de desenvolvimento. O desenvolvimento é o resultado da convivência social, pelo processo de socialização, e depende da aprendizagem no meio social, principalmente aquela sistematizada no meio escolar.

            Há muitos anos se estudava sobre o desenvolvimento, psicólogos, teóricos dessa linha de pensamento, inclusive da aprendizagem humana, sempre tiveram seu olhar voltado para o pensamento filosófico que norteou a busca do conhecimento, no qual este pensamento também é sentido nos estudos psicológicos ao longo dos anos.

Nessa linha de pensamento, o desenvolvimento do indivíduo é como resultado de um processo sócio-histórico, onde a aprendizagem impulsiona esse desenvolvimento. A origem das mudanças que ocorrem no homem, ao longo do seu desenvolvimento, está na sociedade, na cultura e na sua história. É um ser histórico porque constrói a história, e ao longo da vida acumula, transforma e é transformado pelas ideologias e experiências adquiridas por seus antepassados.

Para explicar e compreender as especificidades do desenvolvimento da criança, o modelo histórico-cultural fundamenta-se em uma compreensão dialética da relação entre o biológico e o social, considerando que a criança não pode ser representada nem pela máquina e nem pelo organismo vivo, mas como um ser simbólico através das relações sociais.

Em resposta à sua abordagem genética, Vygotsky estudou a origem e o desenvolvimento psicológicos ao longo da história da espécie humana e individual. O desenvolvimento humano, o aprendizado e as relações entre desenvolvimento e aprendizado, são os principais temas abordados por ele.

Apesar de vygotsky não ter formulado uma ideologia estruturada do desenvolvimento humano, ele desenvolveu reflexões e pesquisas importantes sobre o mesmo. De acordo com sua ideologia, aprendizagem e desenvolvimento estão inter-relacionados desde o primeiro dia de vida da criança. O aprendizado está relacionado ao desenvolvimento, sendo que é este quem possibilita o despertar de processos internos de desenvolvimento, o que não ocorreria sem o contato do indivíduo num certo ambiente cultural. Portanto, a aprendizagem promove o desenvolvimento. Vale ressaltar que o desenvolvimento fica impedido de ocorrer na falta de situações propícias ao aprendizado. Contudo, o desenvolvimento pleno da criança depende do aprendizado que recebe num certo meio cultural, a partir da interação com outros indivíduos da sua espécie, ou seja, um indivíduo criado num ambiente que não tem acesso ao sistema de escrita e nem ao meio letrado, não se alfabetizará. Entretanto, o aprendizado é necessário e universal ao desenvolvimento das características psicológicas do ser humano. Por isso, o aprendizado e o desenvolvimento ocupam lugar de destaque em sua obra.

Em seu cotidiano, a criança vivencia experiências, conceitos, valores e idéias do seu meio cultural e social.

Embora o aprendizado da criança se inicie antes de freqüentar a escola, o aprendizado escolar é de suma importância, pois, introduz novos elementos em seu desenvolvimento.

Para entender a relação entre desenvolvimento e aprendizagem, em Vygotsky, torna-se necessária a compreensão do conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal. A psicologia sempre esteve preocupada em detectar o nível de desenvolvimento real do indivíduo, ou seja, o que a criança é capaz de fazer sozinha, referente a conquistas que já estão consolidadas e o que já aprendeu e domina.

Tomemos como exemplo a escola, que tende a valorizar apenas o nível de desenvolvimento real dos alunos, ou seja, valorizam o que sabem e não o processo que levou à aquisição do conhecimento, por isso os professores ao dar uma tarefa, pede que o aluno não converse, não consulte e não interaja com ninguém. Se essas questões fossem respondidas com a mediação do professor ou colega mais experiente, seriam respostas, mais positivas. Por isso, Vygotsky aponta a existência de um outro nível de desenvolvimento, o potencial, ou seja, quando a criança não consegue realizar determinada tarefa, mas é capaz de fazer com a ajuda de outra pessoa mais experiente. Isso revela o seu nível de desenvolvimento proximal, isto é, o nível que se situa entre o desenvolvimento real e o potencial, ou seja, o caminho que a criança irá percorrer para desenvolver funções que estão em processo de amadurecimento e que se tornarão funções consolidadas no seu nível de desenvolvimento real.

[...] a distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes. (Vygotsky 1989, p. 97)

 

 

Estes conceitos devem ser considerados na prática pedagógica: a criança só conseguirá realizar algo, se este estiver dentro da zona de desenvolvimento proximal dela, portanto, não adiantaria um professor ensinar ao pré-escolar a matemática do ensino fundamental, pois tais conceitos não estão iniciados em sua zona de desenvolvimento proximal, o ensino dessa habilidade seria completamente sem efeito.

Oliveira (1995, p.60) também comenta essa teoria. Segundo ele, a zona de desenvolvimento proximal refere-se ao caminho que o indivíduo vai percorrer para desenvolver funções que estão em processo de amadurecimento, e que se tornarão funções consolidadas, estabelecidas no seu nível de desenvolvimento real. A zona de desenvolvimento proximal é, pois, um domínio psicológico em constante transformação; aquilo que uma criança é capaz de fazer com a ajuda de alguém hoje, ela conseguirá fazer sozinha amanhã. É como se o processo de desenvolvimento progredisse mais lentamente que o processo de aprendizado; o aprendizado desperta o processo de desenvolvimento que aos poucos, vão tornando-se parte das funções psicológicas consolidadas do indivíduo.

A explicação dessas concepções é de suma importância para o ensino escolar. Essas concepções trazem implicações decisivas para a prática pedagógica e familiar com a criança, e está centrada no processo de interação-interlocução adulto-criança, e das crianças entre si. É justamente nas atividades realizadas em colaboração, e no esforço partilhado, que a criança se apropria das habilidades e conhecimentos culturais e escolares, ou seja, se desenvolve culturalmente.

Para a criança que freqüenta a escola, o aprendizado é o elemento central no seu desenvolvimento. E o professor deve tomar como ponto de partida o nível de desenvolvimento real da criança, em um dado momento, e em relação a um determinado conteúdo a ser desenvolvido, e como ponto de chegada, os objetivos estabelecidos pela escola adequados à faixa etária e ao nível de conhecimento e habilidades de cada grupo de crianças, levando-se em conta, o nível de desenvolvimento potencial da criança.

Com isso, o professor tem o papel explícito de intervir na zona de desenvolvimento proximal dos alunos causando avanços que não ocorreriam sem essa interferência. Portanto, a intervenção de outras pessoas, no caso da escola, os professores é fundamental na promoção do desenvolvimento da criança.

            Vygotsky ressalta a importância do papel da escola e do professor para a aprendizagem da criança, isso faz com que cada vez mais tomemos consciência do nosso tratamento para com a criança e seus direitos. Como conhecedores e aprendizes desse processo devemos buscar através de brincadeiras, jogos, imitação, meios de proporcionar a aprendizagem e posterior desenvolvimento da criança. Uma vez em que tais estudos contribuem para nossa formação profissional e acadêmica, temos suas teorias como grandes contribuições em nossa formação e nas práticas educativas.

 

1.1– A Importância da Interação Social

 

Entende-se por interação social a influência recíproca exercida entre os membros de uma sociedade.

Para esse autor, o sujeito não é apenas ativo, mas interativo, porque constitui conhecimentos e se constitui a partir de relações intra e interpessoal. É na troca com outro sujeito e consigo próprio que se vão internalizando conhecimento. Então, o conhecimento se dá de fora para dentro.

A principal razão de seu interesse no estudo da infância, está na tentativa de explicar como o processo de desenvolvimento é socialmente construído.

Vygotsky fala da ação recíproca, existente entre o organismo e o meio do fator humano, presente no ambiente, pois, o modo de agir, de pensar, de sentir, de valores e conhecimentos e idéias, depende da interação do ser humano com o meio físico e social.

Portanto, pode-se dizer que a interação social é importantíssima para a aprendizagem e desenvolvimento intelectual da criança, pois, Vygotsky afirma que é na relação social do “eu” com o “outro” que ocorre o desenvolvimento, e é na interação com o meio social que se dá a aprendizagem. O processo de interação social é a comunicação humana, pois é no compartilhamento entre vários grupos que se criam novos pensamentos e com isso, novas aprendizagens. Desde seu nascimento, o bebê está em constante interação com os adultos, que não só asseguram sua sobrevivência, mas também faz sua mediação com o mundo. Através das intervenções constantes do adulto, os processos psicológicos mais complexos começam a se formar, onde a partir daí, as conquistas individuais resultam de um processo compartilhado. Quando internalizados, estes processos começam a ocorrer sem a intermediação de outras, pessoas.

... O caminho do objeto até a criança e desta até o objeto passa através de outra pessoa. Essa estrutura humana complexa é o produto de um processo de desenvolvimento profundamente enraizado nas ligações entre história individual e história social (Vygotsky, 1984, p. 33).

 

Desse modo, ao internalizar as experiências fornecidas pela cultura, a criança reconstrói individualmente os modos de ação realizados externamente e aprende a organizar os próprios processos mentais.

Todavia, as falhas qualitativas na interação social podem ocorrer formas negativas na criança, de como operar a realidade, se apropriar do mundo e de construir sua personalidade, pois o homem constrói o conhecimento a partir da interação mediada pelo cultural e por outros sujeitos.

            Vários autores contribuem com as teorias de Vygotsky, assim como Pierre Janet, que mostra que, a construção social do individuo é uma história de relações com outros, pelas interações face-a-face e por relações sociais mais amplas.

Portanto, para Vygotsky, o desenvolvimento do ser humano se dá a partir das constantes interações com o meio social em que vive, dando sentido às informações, onde a partir daí passa a recriar e gerar novas informações.

 

1.2– A cultura como sistema simbólico de representação da realidade

 

 

            Entende-se por cultura o sistema de valores, de costumes e instruções de um determinado grupo social.

Vygotsky também ressalta a importância do meio cultural e das relações entre indivíduos no processo de desenvolvimento da pessoa, apontando a herança cultural nesse. A interação da criança com o meio social e com sua cultura, gera relações de aprendizagem e desenvolvimento. Porque as características do ser humano não nascem com o indivíduo, mas sim com a interação do homem com o seu meio sócio-cultural, onde o ser humano transforma o seu meio, e transforma-se a si mesmo. 

Nesse sentido, a criança sempre nasce simultaneamente duas vezes: biologicamente e socialmente, o que equivale a dizer que a criança ao nascer, já se encontra inserida numa classe social, num grupo cultural, e isso será determinante no seu processo de desenvolvimento e na constituição de suas peculiaridades psíquicas e comportamentais. Nesse sentido, as concepções de Vygotsky sobre o processo de formação de conceitos, remetem à questão cultural na construção de significados, e a formação das funções psíquicas como internalização do indivíduo mediada pela cultura. Onde são construídas ao longo da história social do homem, em sua relação com o mundo, com diferentes culturas.  

            Os pais introduzem as crianças à sua cultura, dando significado  às tradições culturais que se formam ao longo dos tempos.

Ao nascer, a criança se integra em uma história e uma cultura: a história e a cultura de seus antepassados, próximos e distantes, que se caracterizam como peças importantes na construção de seu desenvolvimento. No decorrer dessa construção estão presentes: as experiências, os hábitos, as atitudes, os valores e a própria linguagem daqueles que interagem com a criança, em seu grupo familiar, também nessa construção se faz presente a história e a cultura de outros indivíduos com quem a criança se relaciona e a escola. Isto é, a criança participa de forma interativa na construção de sua própria cultura e sua história, modificando a si e aos demais com quem se relaciona. Nessas interações a criança aprende bem antes de entrar na escola, atribuindo significados a diferentes ações e vivências. Embora essa aprendizagem seja importante para o seu desenvolvimento, a aprendizagem escolar, de acordo com Vygotsky, tem valor significativo: “produz algo fundamentalmente novo no desenvolvimento da criança”. (1987: 95)

...a cultura não é pensada por Vygotsky como um sistema estático ao qual o indivíduo se submete, mas como uma espécie de ‘palco de negociações’ em que seus membros estão em constante processos de recriação e reinterpretação de informações, conceitos e significados. (DeLa Tailleet al.1991.)

            Nessa linha de pensamento, Vygotsky aponta que a cultura fornece ao indivíduo representações da realidade. Ou seja, significações que permite construir a interpretação do mundo real. Percebe-se ainda que a cultura é um fator relevante para a educação, pois a importância da atuação dos outros membros do grupo social na mediação entre a cultura e o individuo, é essencial no processo de desenvolvimento, e no processo de recriação e reinterpretação. Onde a aprendizagem e o desenvolvimento ocorrem através da interação com outras pessoas. 

Contudo, Vygotsky foi influenciado pelos marxistas onde o homem constrói suas habilidades, e a origem da sociedade que através do trabalho que ao mesmo tempo transforma a natureza e se transforma, pois o homem se relaciona com seus semelhantes e a natureza, que são mediados pelo trabalho construindo a sua história no contexto social e cultural, afirmando que as origens das atividades psicológicas mais sofisticadas devem ser procuradas nas relações sociais do indivíduo com o meio externo, e que o ser humano não é um produto do seu contexto social, mas sim um criador desse contexto, para entender a relação entre o biológico e o natural que através da sociedade e a história molda a estrutura humana. A origem do homem é historicamente e relacionada ao trabalho social, emprego de instrumentos e o surgimento da linguagem são as diretrizes que foram construídas e aperfeiçoadas pela humanidade que fazem a mediação entre o homem e o mundo dominando o meio ambiente e o seu comportamento.

            Portanto, é na relação da criança com o seu meio cultural que ela apropria de conhecimentos e se relaciona com outros grupos transmitindo e obtendo costumes que lhes são próprios, o que contribui para a construção do seu contexto sócio-cultural.

 

2.0– O PAPEL DA ESCOLA E DO PROFESSOR COMO MEDIAÇÃO NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM DA CRIANÇA.

 

 

            Vygotsky, abordou a educação escolar, como imprescindível para a realização plena do desenvolvimento dos indivíduos, por abordar conteúdos de forma sistematizada com intencionalidade de acesso ao conhecimento formal, e as crianças passam a conhecer concepções científicas e as identificam com o funcionamento do seu próprio corpo. No meio educacional as crianças passam a interagir esses conhecimentos com sua realidade, possibilitando novas formas de pensar e agir, passando a transformar-se. (conhecimento científico, para Vygotsky, são os conceitos aprendidos na escola).

A relação ensino-aprendizagem é um sistema complexo, pois envolve fatores sociais, políticos e econômicos que contribuem para a dinâmica na sala de aula.

Nos meios educacionais ainda prevalece a ideologia de que o desenvolvimento é pré-requisito para a aprendizagem, ao contrário, para Vygotsky,  os processos de desenvolvimentos são impulsionados pelo aprendizado.

Na atividade escolar é interessante destacar a interação entre os alunos na qual contribui significativamente no desenvolvimento da criança. Desde então, entende-se que a aprendizagem exige planejamento e constante reorganização por parte da escola, levando-se em conta que, cada um tem sua própria identidade e cultura, mas que mesmo assim precisam estar unidos com o pensamento focado em objetivos comuns. O papel central e ativo do professor na organização do ambiente é de uma rotina capaz de incentivar as interações e brincadeiras entre as crianças e dar apoio às suas iniciativas e atividades, isso com o apoio dos projetos educacionais, que devem ser contínuos a fim de obter essa atração das crianças pela novidade, e com isso, um melhor desenvolvimento. A experiência cotidiana de professores com crianças de diferente faixa etária de seu grupo dá condições para planejar, organizar rotinas, ambientes e atividades interessantes e variadas no decorrer dos dias, e que a mediação do educador com o aluno seja de acordo com a necessidade de cada um. O educador deve saber mediar as experiências da criança de modo a contribuir positivamente para o seu desenvolvimento e aprendizagem, nesse sentido, deve auxiliar a criança a utilizar as diferentes linguagens para aprender sobre si e sobre o mundo que a cerca. É importante que o professor se comprometa com o bem estar e o desenvolvimento da criança com qualidade fazendo uma relação indissociável entre educar e cuidar.

O processo de interação entre a escola e a família constitui relações essenciais no desenvolvimento da criança, pois para ela sobreviver no mundo que a espera depende da mediação de outras pessoas mais experientes, no sentido de interagir e apreender novos caminhos, ultrapassando assim, as diversidades e diferenças no meio sócio-histórico. Essa relação criança, escola e família são importante para o conhecimento de si próprio, pois é na interação com outros sujeitos e com outros grupos sociais que a criança constrói sua identidade.

O professor não é o centro do processo que “ensina”, ele é o agente mediador desse processo, pois o aluno deve ir em busca de seus objetivos, a fim de adquirir mais conhecimentos. Nessa mediatização o professor incentiva-os e propõe desafios ajudando-os a resolvê-los, realizando atividades em grupo em que aqueles que estiverem mais adiantados poderão cooperar com os demais. Com suas intervenções estará contribuindo para o fortalecimento de funções ainda não consolidadas, ou para a abertura de zonas de desenvolvimento proximal. O educador não é o único mediador, isto é, aquele que ajuda a criança a alcançar um desenvolvimento que ela ainda não atinge sozinha, também contribui para essa mediação os colegas mais experientes.

Portanto, é possível através dessa interação do aluno com o meio, fazer um ambiente de estímulo para que o sujeito desenvolva os seus aspectos cognitivos. Mas também é preciso detectar aquilo que os alunos conseguem fazer sozinho. Em outras palavras é necessário examinar a zona de desenvolvimento proximal dos alunos e partir para uma complexidade maior intervindo por meio da linguagem numa interação rica de construção do saber.

Por sua vez, vale lembrar que os alunos vêm de meios sócio-culturais diferentes e que são herdeiros de toda evolução humana a que estão submetidos. Além disso, eles possuem capacidades cognitivas diferentes, a sala possui uma heterogeneidade ampla em que cada um de seus membros tem sua história diversificada.

Portanto, a escola não deve permanecer no nível de desenvolvimento real do aluno, reproduzindo conhecimento que o aluno já é capaz de adquirir sozinho é necessário que haja na escola espaço para transformação e desenvolver seu potencial. Assim ela deve estar aberta às diferenças e ao erro, as contradições e a colaboração mútua.

A ação docente só terá sentido se for realizada no plano da Zona de Desenvolvimento Proximal, ou seja, escola e educadores devem estar cientes de que não têm função de ensinar aquilo que o aluno pode aprender sozinho, mas fazer com que os conceitos apreendidos na convivência social venham a evoluir para tornarem-se conceitos científicos sistemáticos e formais, adquiridos pelo ensino, o que faz com que o docente cumpra seu papel de mediador.

Vygotsky detalha sua explicação, refletindo sobre o ambiente, intencionalmente mediado de significados, que é a escola: - lócus de aprendizagem sistematizada e de potencialização das conquistas culturais sobre os modos de pensamento do cidadão... a transformação é resultante de uma longa série de eventos internos de desenvolvimento, constituidores do sujeito. (VASCONCELOS, 1995, p.51)

 

Nessa linha de pensamento, podemos dizer que na Educação Infantil, o professor como elemento central do saber, deve estimular de forma positiva as crianças que estão começando sua caminhada na vida escolar, pois o bom aprendizado deve começar da base, que é a Educação Infantil, dando sustentação ao desenvolvimento da criança.

O educador deve criar um ambiente democrático, sem hierarquias, buscando uma relação de igualdade entre os alunos, propiciando a criatividade e o interesse infantil de forma que se relacionem transformando e sendo transformados pelas suas relações com os demais, principalmente os mais capazes. Sendo assim, o professor atua somente como mediador nesse processo dando possibilidades à aprendizagem das crianças.

 

2.1 – Aprendizagem e desenvolvimento através do brinquedo

            O brinquedo é uma forma de diversão, objeto de entretenimento das crianças, um domínio da atividade infantil que tem claras relações com o desenvolvimento: o brinquedo, quando comparado com a situação escolar às vezes parece ter pouca função nos processos de desenvolvimento. No entanto, o brinquedo também cria uma zona de desenvolvimento proximal na criança, tendo enorme influência em seu desenvolvimento.

            Portanto, para Vygotsky o brinquedo não é só um objeto de entretenimento, de alegria e prazer que proporciona à criança; o brinquedo vai além e supera as expectativas, pois ao brincar e ao manusear um brinquedo a criança aprende, desenvolvendo-se consigo mesma e apreende regras impostas pela sociedade que mais tarde terá de cumprí-las, pois há vários brinquedos que exigem regras. Além de dar motivação para ela conhecer ainda mais tudo a sua volta. 

   Assim, o brinquedo cria uma zona de desenvolvimento proximal na criança, no brinquedo, a criança sempre se comporta além do comportamento habitual de sua idade, além de seu comportamento diário: no brinquedo, é como se ela fosse maior do que é na realidade. Como no foco de uma lente de aumento, o brinquedo contém todas as tendências do desenvolvimento sob forma condensada, sendo, ele mesmo, uma grande fonte de desenvolvimento (VYGOTSKY, 1988, p. 117).

 

A brincadeira é uma fonte de prazer no dia-a-dia das crianças, mas de acordo com Vygotsky, o brincar também tem outras funções importantes no desenvolvimento infantil. Pois é no brincar que se constitui a interação de vários fatores que marcam determinado momento histórico, onde a ação dos indivíduos, através dos jogos e brincadeiras se transforma continuamente, onde a criança brinca para conhecer-se a si própria e aos outros em uma relação de troca, onde aprendem normas, hábitos, conhecer os objetos em sua volta, desenvolver a linguagem e a narrativa, trabalhar com o imaginário, e tudo para obter um melhor conhecimento de seu mundo.

Nessa linha de pensamento a realização de jogos e brincadeiras na primeira infância envolve naturalmente o movimento. É importante para a criança interagir com os objetos, com as pessoas, explorando seu próprio corpo e o espaço físico. Uma das funções da brincadeira é permitir à criança o exercício dos movimentos.

Na visão sócio-histórico, a brincadeira e o jogo é uma atividade específica da infância, em que a criança recria a sua própria realidade. Portanto o jogo e a brincadeira é uma atividade social, onde além de ser prazerosa é uma atividade humana criadora, na qual a imaginação, a fantasia e a realidade interagem na produção de novas possibilidades de interpretação, expressão e de ação pelas crianças, assim como formas de construir relações sociais com outros sujeitos, crianças e adultos. Assim, no espaço das ações lúdicas, a criança recria sua vivência cotidiana, reproduz modos culturais de ação com objetos e modos de relação interpessoal.

Vygotysky, ainda afirma que é enorme a influência do brinquedo no desenvolvimento de uma criança. É no brinquedo que a criança aprende a agir e interagir por meio do exterior para seu interior.

Portanto as brincadeiras que são oferecidas à criança devem estar de acordo com a zona de desenvolvimento em que ela se encontra e a estimula para o desenvolvimento do ir além; desta forma, pode-se perceber a importância do professor conhecer a teoria de Vygotsky.

No processo da educação infantil, o papel do professor é de suma importância, pois é ele quem cria os espaços, disponibiliza os materiais, participa das brincadeiras, ou seja, faz a mediação da construção do conhecimento. Portanto, é necessário que o professor procure ampliar cada vez mais as vivências da criança com o ambiente físico, com brinquedos, brincadeiras e com outras crianças.

Quando Vygotsky discute o papel do brinquedo, refere-se especificamente à brincadeira do “faz-de-conta”, como por exemplo, brincar de escolinha, de ser mamãe ou papai, de médico, entre outros. Onde esse tipo de brincadeira serve como representação de uma realidade ausente, mas cheia de significados. Ele referiu-se a vários brinquedos, mas o faz-de-conta é privilegiado em seus trabalhos sobre o brinquedo no desenvolvimento.

Essa situação imaginária é também regida por regras, e são essas regras que fazem com que a criança se comporte de forma mais avançada do que aquela habitual para sua idade.

            Contudo, é importante a criança estar sempre em contato com brinquedos e brincadeiras o que fará com que ela se desenvolva de forma dinâmica e prazerosa, construindo sua identidade e autonomia.

 

3.0- CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Diante desses fatos ressaltados anteriormente, podemos concluir que as teorias Vygotskyana são de suma importância para nossa prática pedagógica. Suas idéias são seguidas em diversos contextos escolares, onde propõem uma escola que faça o aluno avançar, e que destaca o papel do professor como condutor do processo, atuando na zona de desenvolvimento proximal do aluno.

            Os trabalhos de Vygotsky propõem reflexões que nos orientam a ser um cidadão critico. Seguindo suas idéias, professores promovem as intermediações do conhecimento e simulam o avanço do aluno, valorizando o universo social e histórico da criança. Através desse universo, a criança estabelece relações com indivíduos de sua cultura e de outras, construindo sua aprendizagem, levando-o ao desenvolvimento.

 Os conceitos aprendidos na educação escolar trazem novas formas de pensamento no meio em que a criança vive, e a relação de ensino-aprendizado traz fatores de ordem social, política e econômica que é constituída dentro da sala de aula com apropriação da cultura e das características humanas.

É graças a essas contribuições teóricas que se pode hoje trabalhar visando ultrapassar a metodologia pedagógica na repetição de conceitos. O que tem encorajado inúmeros educadores a inovarem sua prática pedagógica, no sentido de buscar compreender a realidade de seus alunos tanto do ponto de vista psicológico, cognitivo, afetivo quanto no sócio-cultural. Esse trabalhar visa uma educação significativa e construtiva a qual possa conduzir o aluno a ser sujeito consciente de sua autonomia social. Percebe-se que essas teorias são valiosas para resolver diversos males que afligem o contexto educacional.

Os estudos realizados sobre as ideologias Vygotskyana fizeram com que crescessem a nossa bagagem teórica, contribuindo para nossa prática pedagógica como educador infantil, levando-nos a compreender o aluno da forma como ele é, e não da forma com que nós compreendermos o mundo.

            Contudo, constatamos que o professor como mediador no processo de aprendizagem, deve desenvolver estratégias que leve os alunos a resolver de maneira independente o que antes não era capaz de resolver sozinho, estimulando a criança através do brinquedo, respeitando seus valores culturais e as aprendizagens ocorridas nas interações sociais, onde ela se apropria da realidade ocorrendo mais rápido seu desenvolvimento. Essas idéias estão contribuindo para nossa pratica nas salas de educação infantil, levando-nos a refletir sobre a nossa atuação diante dessas crianças.

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[1] Graduada em Licenciatura Plena em Pedagogia para Educação Infantil pela UNEMAT e pós-graduanda em Educação para a Infância: Educação Infantil e os Anos Iniciais do Ensino Fundamental pela Universidade Cândido Mendes/Wpós.

 
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