ANÁLISE ESTILÍSTICA DO POEMA DE GONÇALVES DIAS ''CANÇÃO DO EXÍLIO''
 
ANÁLISE ESTILÍSTICA DO POEMA DE GONÇALVES DIAS ''CANÇÃO DO EXÍLIO''
 


APRESENTAÇÃO

O presente trabalho tem por finalidade tecer comentários em forma de análise do Poema Canção do Exílio de Gonçalves Dias, tomando por via o emprego dos seguintes componentes: a técnica versificatória, as estruturas rítmicas, estróficas, rimicas; além da exploração dos fonemas através das aliterações e assonâncias.Examinando o léxico e suas conotações e efeitos vocativos; frases verbais e nominais, os tempos do verbo, a pontuação expressiva. E ainda, os processos de coesão etextual, bem como o caráter intertextual, e também o largo emprego de dêiticos.

Procuraremos observar tais aspectos e aponta-los no poema, partindoda fala de um teórico, se possível para fundamentar a nossa. Os verso ora devem aparecer integralmente, ora fazendo referencia ao número. Antes da análise propriamente, optamos por uma contextualização e definição dos termos a serem trabalhado, segundo alguns autores.

INTRODUÇÃO

A canção do exílio com suas características românticas de saudosismo, nacionalismo, exaltação a natureza e visão idealizada da pátria, tornou-se uma espécie de símbolo da nacionalidade brasileira. Seu criador Gonçalves Dias, estava a frente do seu tempo, pertencendo a 1a geração do movimento romântico, já apresenta em sua obra traços de temas da 3a geração. Com todas as características que possui em seu bojo, (a idealização embutida em cada verso, beleza e sentimentalidade, as ricas comparações), o poema em foco foi um dos mais parafraseados da literatura brasileira, sendo portanto um ótimo pretexto para análise dos componentes que serão definidos a seguir, dentre outros.

BASES TEÓRICAS E DEFINIÇÕES

Para BALLY a Estilística estuda os fatos da expressão da linguagem, organizada do ponto de vista do seu conteúdo afetivo, isto é, a expressão dos fatos, da sentimentalidade pela linguagem e a ação dos fatos da linguagem sobre a sensibilidade.(Martins cintando Taoite, p. 4)

Verso- Frase ou seguimento frasal em que há um ritmo.

Estrofe- aglomerado de versos, separadas por um espaço em branco.

Assonância - rima

aliteração  repetição de dado fonema numa frase ou vocábulo.

Dêiticos  pronome que tem a função dêitica.

Dêixis  função indicativa própria de certas unidades lingüísticas. Os demonstrativos (este, aquele), são signos dêiticos porque não significam, apenas mostram. Esta é a natureza intrínseca do pronome eu e tu (Câmara 1998)

ANÁLISE DO POEMA

"A compreensão de uma obra literária, é o da tentativa dedesvendar os mistérios da criação da mesma e os efeitos dessa obra sobre os leitores." (Martins, p.09).

Para Martins(opcit) o poemase nos apresenta como uma sucessão temporal de sons (os significantes) veiculado a um conteúdo espiritual (os significados), o que se percebe pela musicalidade e sendo um verdadeiro canto a exaltação da vida e da alma. Como significante totais temos a obra, o poema, a estrofe, o verso, o vocábulo, e como significante parciais temos o ritmo, a entonação, a sílaba, o acento. " A primeira função da estilística é investigar oselementos parciais". Com os quais procuraremos encabecear a nossa análise.

O ritmo e a melodia fazem com que esse poema passe a ser considerado por muitos uma espécie de hino á pátria, as rimas e a pontuação favorecem a musicalidade:

Minha terra tem palmeiras

Onde canta o Sabiá;

As aves que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.

(...)

A utilização da palavra Sabiá grafada com letra inicial maiúscula, possui um significado especial, simbólico ao pássaro.

É possível visualizar a simplicidade na construção do poema, sendo notória a forma como sãocompostas as rimas, até com palavras monossílabas:

(...)

Que tais não encontro eu cá;

...

Prazer encontro eu lá;

(...)

O poema é composto de cinco estrofes - três quartetos e dois, com vinte e quatro versos, obedecendo à métrica clássica Alexandrina de oito e/ou nove silabas em cada verso, nos quais não há abuso de imagens e da utilização de versos brancos e versificação diversa. Nos /so /céu/tem / ma / is /es/ tre/ las. Note-se que o sentido de exílio é salientado pela repetição de versos chaves, os quais, seguindo o sabor clássico, o modelo utilizado é comedido nos adjetivos, de forma que, podendo aparecer na 2a estrofe, não surge, aparecendo apenas em:

(...)

Sem que desfrute os primores,

(...)

Estabelecendo um paralelo entre as estrofes, os dois primeiros compõem o primeiro quarteto, que retorna no terceiro representando o tema principal. A sugestão principal é estabelecer diferenças entre a terra natal e o lugar de desterro, tanto físico quanto psicológico. Há sempre a repetição dos versos como em uma ladainha. Nos dois últimos sextetos, há repetição do material exposto.

No que concerne aos sinais de pontuação, para (Livro de estilística da biblioteca), ajudam a construir a entonação que o autor pode ter pretendido para o seu texto, mas são muito pobres em relação à riquíssima gama de tom da voz humana. O ponto final, a virgula, o ponto-e-vírgula, o travessão e os parênteses, os pontos de interrogação e exclamação, as reticências, sugerem diferentes inflexões. Em seu poema, Dias, é pródigo; não há presença de sinais reiterados (!!!,???) bem como combinados (?!,???). Percebe-se que não há nenhum chamamento ou crítica, isso ocorre porque o poeta é nacionalista, ufanista. É evidente no verso quinze o uso do travessão para enfatizar idéias e emoções do autor, prática comum aos autores românticos:

(...)

Em cismar _ sozinho _ , à noite.

(...)

O emprego da dêixis em Canção do Exílio deve ser vista, levando-se em consideração o contextoe não somente o verso, como é costumeira a analise, fazendo-se necessário portanto considerar que a presença da deixis se manifesta através de elementos não-deiticos na significação das palavras (Ilari 2002: 64):

(...)

Sem qu'indaaviste as palmeiras

Ondecanta o Sabiá.

(...)

Em que o advérbio de lugar onde se comporta como um elemento virtual da deixis. Da mesma formapresença de "antonímias":

(...)

Que tais não encontro eu cá

Em cismar _ sozinho _ , à noite

Mais prazer encontro eu lá.

(...)

Podemos visualizar no poema a classificação desses elementos como dêiticos, só podem ser interpretados dessa forma se houver uma conexão com a situaçãodeterminada, em que se precisa da informação anterior. De forma que só assim é possível visualizar que Onde reporta se a minha terra, cá Portugual e láo Brasil.

Gonçalves Dias é "Pórtico", omite epígrafes e outros elementos paratextuais importantes, procedendo-se a atomização e a fragmentação que disjunta o texto e anulam características genéricas estéticas, com sérios danos para a unidade discursiva, conseqüentemente afetando a organização dos planos isotópicos e alterando o sentido. Despreza a importância da codificação do começo e do fim de uma obra em termos de relação estrutural e portanto de coesão.

Os versos de canção do exíliosão prezadas como pertencendo a um dos primores da literatura; são uma contribuição à perfeição da poesia em que ocorrem.O autor delas poderia ter fornecido a informação dada por elas, dizendo: "Tudo é melhor no Brasil".Mas pela linguagem que ele usa, não somente nos informa, mas nos faz sentir o que tem a nos dizer. Para isto contribuem as repetições, "nosso, nossas...", "mais", e o emprego das palavras mais expressivas no plural, dando a impressão da abundância das coisas aqui.Pelo poder da linguagem, mais do que pelo assunto tratado, "Canção do Exílio" viverá enquanto viver o povo brasileiro.

Relacionado ao aspecto fonológico percebemos a presença de dois elementos,a Aliteração (queconsiste na repetição do mesmo fonema consonântico, de forma a obter um efeito expressivo)e a assonância(repetição dos mesmos sons vocálicos, em situação de sílaba tônica).

Quando usada sabiamente, a aliteração ajuda a criar uma musicalidade que valoriza o texto literário. Mas não se trata de simples sonoridades destituídas de conteúdo. Geralmente, a aliteração sublinha (ou introduz) determinados valores expressivos, nem sempre facilmente destrutíveis.

Neste caso da nossa análise, a acumulação aliterativa cria um efeito musical tão intenso que nos leva a colocar num plano secundário o conteúdo. No entanto, em condições normais a aliteração põe em evidência as palavras afectadas e, portanto, sublinha o seu valor expressivo. Por vezes, permite mesmo estabelecer associações pouco evidentes entre palavras. Sendo um recurso que incide sobre a matéria fónica, o seu principal efeito é de natureza "musical", como facilmente se percebe pelos exemplos apresentados. Por outro lado, o timbre das vogais pode reforçar o valor significativo das palavras envolvidas. Por vezes, a assonância combina-se com a aliteração. Isso acontece, por exemplo, no terceiro exemplo, onde encontramos, a par da assonância do "e" a aliteração do "s".

Encontramos a presença das Aliterações e Assonâncias em todos os versos do poema, destacamos a estrofe:

(...)

Nosso céu têm mais estrelas

Nossas várzeas têm mais flores

Nossos bosques têm mais vida

Nossa vida mais amores

(...)

Aliteração em nos versos:Assonância nos versos:

5 m 5 e

6 s6 o

7 s7 o

8 s / m8 o

Segundo (Martins 2000:62) os sinais de pontuação ajudam a reconstituir a entoação que o autor pode ter pretendido para o seu texto, mas são muito pobres em relação á riquíssimas gamas de tons da voz humanas. O ponto final, a vírgula, o travessão, os parênteses, os pontos de interrogação e de exclamação, as reticências sugerem diferentes inflexões, mas tem em comum a indicação de uma pausa, precedida de queda, suspensão ou elevação da voz. Dado o seu valor efetivo, além do exclusivamente lógico, ligado á sintaxe, a pontuação não segue regras absolutas, e varia muito com os escritores, sendo alguns mais pródigos e outros mais econômicos com relação a esses sinais.

No poema não há presença de sinais retirados(!!!;???) bem como o combinado (?!;???) percebe-se que não há um chamamento e nenhuma crítica, isto ocorre porque o poeta é um nacionalista, ufanista, é evidente nos versos da 2 estrofe. Na linha 15 o uso do travessão é para enfatizar idéias e emoções do autor,prática comum aos autores românticos.

(...)

Em cismar ____ sozinho, á noite, ___

Mais prazer encontro eu lá

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o sabiá.

(...)

Buscando analisar as frases nominais e verbais e os tempos do verbo, percebemos que no poema apareceu com maior freqüência o presente do indicativo na 3a pessoa do singular, em seguida opresente do indicativo na 1a pessoa do singular. Há a presença de verbos em todos os versos, o verbo é apresentado no infinitivo pessoal (cismar), imperativo negativo (Não permita Deus), presente do subjuntivo (Sem qu'inda aviste as palmeiras). Não há presença da segunda pessoa do singular e do plural.

Na primeira estrofe, os verso 1 e 2 apresentam os verbos na 3a pessoa singular do pres. Ind.tem e canta .Nos versos 3 e 4apresentam verbos na 3a pes. plu. pres. ind. gorjeiam. Na segunda estrofe em 5 e 7 apresentam se a 3a pes. do singular dopres. ind.tem eem 6 e 8no plural; têm. Na terceira estrofe, os versos 9 e 10 apresentam os verbos na 1a pes. sing; porém os modos e tempos verbais são diferentes.No verso 9 esta no infinitivo pessoal cismar, e no verso 10, no pres. do ind. Encontro. Nos versos11 e 12na 3a pes. sing. pres. ind. têm e canta. Observe que as estrofes 9 e 10 combinam em pessoa e numero, os versos 11 e 12 em pessoa, numero, modo, tempo.

Na quarta estrofe há uma variedade nas conjugações, os versos 13,17, 18 apresentam o verbo na terceira pessoa do sing. pres. ind. Os versos 15 e 16 apresentam se na 1a pessoa do sing, porém em tempos e modos diferentes.

Nota-se que a primeira e a segunda estrofe apresentam uma relação entre os versos, em tempo, modo, número, e pessoa. Nas estrofes 3, 4 e 5, há uma variação nessa combinação, onde alguns versos combinam apenas em numero e pessoa, outros em modo e tempo e poucos em tempo, modo, numero e pessoa.

REFERÊCIAS BIBLIOGRÁFICAS

JUNIOR, I. Matoso Câmara. 1998. Dicionário de Lingüistica e Gramática. 19ed. Petropolis. Vozes.

ILARI, Rodolfo e GERALDI, João Vanderley. 2002. Semântica.10 ed. São Paulo: Ática, p.64

MARTINS, Nice Santanna. Ano. Introdução a Estilística.A expressividade na Língua Portuguesa. 3ed. São Paulo: T. A. Queiroz, p. 1-25.

http://pwp.netcabo.pt/0511134301/alitera.htm15:00h

http://pwp.netcabo.pt/0511134301/assonan.htm 16:22h

 
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Sobre este autor(a)
Sou professor há 10 anos, tenho graduação em Letras e Pos-graduação em EJA - Docencia do Ensino Superior e Ensino Lingua e Literatura Brasileira. Atualmente trabalho com Formação de professores e leciono no Ensino Publico.
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