ANÁLISE DOS DISCURSOS QUE CONSTITUEM A OBRA MENINA BONITA DO LAÇO DE FITA
 
ANÁLISE DOS DISCURSOS QUE CONSTITUEM A OBRA MENINA BONITA DO LAÇO DE FITA
 


ANÁLISE DOS DISCURSOS QUE CONSTITUEM A OBRA MENINA BONITA DO LAÇO DE FITA

Daniely Araújo da Silva
Daniely Felix de Andrade
Nicássia Paulino dos Santos

Resumo:
O presente artigo tem os seguintes propósitos: (1) descrever como a escritora Ana Maria Machado constroi os discursos relativos à consciência negra, ao conceito de beleza e o respeito às diferenças, em uma das suas obras literárias mais conhecidas; e (2) analisar como as marcas linguísticas presentes no seu livro materializam esses discursos. No que concerne ao corpus, analisamos a obra de Literatura Infantil Menina bonita do laço de fita, fundamentando-nos teoricamente em autores como Mussalim (2006), Orlandi (2002), Cavalcanti (2002), Aguiar (2001), Faria (2004) e Vale (2001). Este trabalho foi elaborado visando contribuir para a reflexão de como o livro, da renomada autora Ana Maria Machado, aborda os discursos especificados anteriormente.

Palavras-chave: Literatura Infantil. Marcas linguísticas. Discursos. Sujeito. Interdiscurso.

Abstract:
This article has the following purposes: (1) describe how the writer Ana Maria Machado builds the discourse on the black consciousness, the concept of beauty and respect for differences, in one of his best-known literary works, and (2) examine how marks present in the language your book materialize these discourses. With regard to the corpus, we analyze the work of Children's Literature Girl Pretty ribbon and the reasons for the theory by authors such as Mussalim (2006), Orlandi (2002), Cavalcanti (2002), Aguiar (2001), Faria (2004) and Vale (2001). This work was prepared to contribute to the understanding of how the book, the renowned author Ana Maria Machado, addresses the discourses specified above.

Keywords: Children's Literature. Brands language. Speeches. Subject. Discourse.



1. INTRODUÇÃO

Historicamente, o nosso país vive numa realidade discriminatória e preconceituosa para com os sujeitos afro-descendentes, que hoje compõem uma grande parcela da população brasileira. Esse universo racista também provoca impactos no cotidiano escolar, evocando nos alunos a produção de discursos e atitudes discriminatórias, bem como fazendo com que esses mesmos discursos sejam permeados por um conceito de belo, que as crianças produzem (conscientemente) e reproduzem (inconscientemente) a partir do que ouvem e veem frequentemente em casa, na mídia, na rua, na escola etc.
Com base nisso, é necessário que desde a mais tenra idade as crianças tenham uma educação anti-racista e que permita: a desconstrução do preconceito e dos estereótipos de beleza e leve a uma consciência negra e ao respeito mútuo. Nessa perspectiva, a Literatura Infantil (LI) pode ser um instrumento complementar para esta educação, e a obra Menina bonita do laço de fita pode ser um recurso significativo e interessante para se trabalhar essas questões com as crianças.
Portanto, optamos por analisar os discursos presentes no referido livro de LI, tendo em vista a importância dessa obra, que possui um enredo diferente e ganhou várias premiações no âmbito da Literatura, e o fato de ter sido escrito por uma autora de renome, como é Ana Maria Machado.
De modo geral, visamos analisar quais os discursos que permeiam a respectiva obra, tendo o intuito de alcançar os seguintes objetivos específicos: descrever como a autora constroi neste livro os discursos inerentes à consciência negra, ao conceito de beleza e o respeito às diferenças; e analisar as marcas discursivas que materializam esses discursos no livro em questão.
O presente trabalho encontra-se dividido em seis itens, referentes aos seguintes tópicos: (1) introdução; (2) aspectos metodológicos; (3) fundamentação teórica ? (3.1) literatura infantil, (3.2) diferença entre discurso e texto, (3.3) sujeito, (3.4) interdiscurso; (4) análise dos dados ? (4.1) descrição da obra, (4.2) discursos que permeiam o livro, (4.3) marcas linguísticas discursivas; (5) considerações finais; e (6) referências bibliográficas.

2. ASPECTOS METODOLÓGICOS

O presente trabalho é de caráter descritivo e interpretativo, sendo fundamentado em algumas referências bibliográficas da linha de Análise do Discurso Francesa. Desse modo, analisamos os discursos ? inerentes à consciência negra, ao conceito de beleza e o respeito às diferenças ? que são materializados na linguagem (verbal e não-verbal), da obra de Ana Maria Machado, revelando como as marcas linguísticas presentes no livro constituem os discursos citados anteriormente.
O corpus analisado foi um livro de Literatura Infantil, da referida escritora, intitulado Menina bonita do laço de fita. Tal análise foi realizada em duas etapas. Durante a primeira etapa, realizamos a leitura da obra na íntegra. E, na segunda, identificamos algumas marcas linguísticas presentes na obra, que justificam os discursos que foram analisados.
Como já foi mencionado, a autora do corpus deste artigo é Ana Maria Machado, uma escritora de renome que, segundo dados do seu site oficial, nasceu em 24 de dezembro de 1941, na cidade de Santa Tereza/RJ. Iniciou sua carreira pintando (e faz isso até os dias de hoje), passando a trabalhar como escritora. Após ter sido exilada, em 1969, começou a trabalhar como jornalista, mas abandonou a carreira no ano de 1980. A partir daí, ela voltou a se dedicar aquilo que mais gostava: escrever livros, tanto os voltados para adultos como os infantis.
Os números da escritora impressionam: 33 anos de carreira, mais de 100 livros publicados no Brasil e em mais 17 países, somando mais de dezoito milhões de exemplares vendidos. Sem esquecer os inúmeros prêmios que a mesma recebeu, sendo que o mais recente foi ganho em 2003, quando Ana Maria foi eleita para a ocupação da cadeira nº. 1 da Academia Brasileira de Letras/ABL (Disponível em http://www.anamariamachado.com/biografia.html. Acesso em: 12 de outubro de 2009).
De acordo com outras informações do mesmo site, a obra Menina Bonita do Laço de Fita pode ser considerada uma das mais premiadas e traduzidas, em diversos países, de toda a bibliografia de Ana Maria Machado. Segundo palavras da própria autora, a ideia da história deste livro surgiu a partir de uma brincadeira que ela, e seus dois filhos mais velhos (Rodrigo e Pedro), e mais morenos, faziam com a sua filha recém-nascida (Luísa), que era branquinha e havia ganhado um coelhinho branco de pelúcia.
Assim, eles costumavam brincar com a caçula usando o coelhinho para fazer cócegas na pequenina, questionando: Menina bonita do laço de fita, qual o segredo para ser tão branquinha?; e respondendo coisas do tipo: é por que caí no leite; porque comi arroz demais; porque me pintei com giz etc.. Ao final da brincadeira, sempre respondiam, mais ou menos assim: Não, nada disso, foi uma avó italiana que deu carne e osso para ela...
Finalmente um dia, o esposo da escritora, cuja profissão era músico, ouvindo e observando este momento de descontração, sugeriu que daria para Ana escrever uma música ou uma história com a brincadeira. A autora se agradou da opinião do marido, porém, ela teve o seguinte pensamento: escrever sobre (...) uma menina linda e loura, (...) Branca (...), já estava gasto demais. E nem tem nada a ver com a realidade do Brasil. Então a transformei numa pretinha, e fiz as mudanças necessárias: a tinta preta, as jabuticabas, o café, (...).
Após essa explanação acerca da autora e do livro, que serão analisados neste trabalho, partiremos para o tópico relativo à fundamentação teórica, que contém alguns subtópicos que se relacionam com a linha de análise deste artigo.

3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

3.1 Literatura Infantil

Sabemos que a Literatura Infantil (LI) contribui de forma bastante eficaz para o desenvolvimento sociocognitivo, emocional, lúdico etc. das crianças, pois dentre as várias possibilidades de leitura existentes - história em quadrinhos, charges, revistas, jornais etc. - a leitura LI é um tipo peculiar direcionado a um público que se encontra em um estágio particular do desenvolvimento cognitivo, psíquico, social, físico, motor etc.
Portanto, se a nossa pretensão é formar alunos que sejam leitores reflexivos e conscientes, isso dependerá do que nos dispusermos a fazer para as crianças hoje. Isso se justifica pelo fato de que:
Contar histórias para as crianças vai muito além de diverti-las, porque enquanto a linguagem informativa trabalha com a palavra para explicar o mundo objetivo, o texto literário é portador de um discurso específico com a finalidade de educar, instruir, permitindo muitas leituras e construções, não estabelecendo o compromisso com o real (CAVALCANTI, 2002, p. 36).
No que diz respeito à conceituação e caracterização da LI, iremos encontrar diversas perspectivas teóricas acerca dessas questões. Aguiar (2001, p. 16-17) afirma que o livro infantil, enquanto modalidade artística possui as características estéticas que envolvem a literatura de uma forma geral (...), e pelo simples adjetivo (infantil) que lhe é atribuído, não significa que o seu valor é menor, nem que seu significado seja precário. A autora apresenta ainda várias definições de Literatura Infantil, sob o olhar de autores como: Zilberman (1981); Meireles (1984); Sosa (1978); e Bettelheim (1980). Porém, elegemos aqui a conceituação de LI para esse último autor, que afirma o seguinte: (...) a obra infantil é aquela que, enquanto diverte a criança, oferece esclarecimentos sobre ela mesma, favorecendo o desenvolvimento da sua personalidade (...) (BETTELHEIM, 1980 apud AGUIAR, 2001, p. 18).
Também é válido ressaltar que, segundo Aguiar (2001), Monteiro Lobato foi o primeiro autor da LI brasileira que, em 1921, deu voz às crianças através das personagens, reproduzindo o universo questionador e imaginário delas, desafiando novas descobertas. Porém, em se tratando de Ana Maria Machado, pode-se dizer que ela deu continuidade à proposta de Lobato, demonstrando sua preocupação em escrever para um público tão peculiar e especial, que é o infantil.
Com base na breve explanação feita anteriormente, destacamos aqui a importância da Literatura Infantil para a formação de leitores competentes. Dessa forma, (...) é importante que o educador tenha uma visão abrangente do desenvolvimento linguístico e intelectual infantil, para que possa adequar o texto ao leitor (...) (AGUIAR, 2001, p. 58).

3.2 Diferença entre discurso e texto

Tendo em vista a nossa proposta de trabalho, destacamos algumas considerações sobre o discursos, uma vez que, devido ao caráter polissêmico (diferentes sentidos) da linguagem, que materializa as ideologias presentes nos discursos, torna-se necessário enfocar algumas visões sobre a distinção entre o discurso e o texto.
O discurso pode ser apontado como sendo um aparelho ideológico, por meio do qual ocorrem os conflitos entre as diferentes posições sociais (Exemplo: dominante X dominado). Já o texto seria considerado não como um discurso, mas como a relação dos discursos de distintas posições (MUSSALIM, 2006).
Além disso, o discurso é o ambiente onde se estabelece a relação entre a língua e a ideologia, compreendendo assim o sentido da língua. Entende-se também que o discurso não estaciona na interpretação ou em uma só verdade, pois ele visa à compreensão de como o objeto de estudo faz sentido, e como ele está investido de significados para os sujeitos (ORLANDI, 2002).
Nesse sentido, Orlandi (2002) afirma que os discursos são produzidos a partir de determinadas condições de produção, as quais incluem os sujeitos, a situação e a memória discursiva. Segundo a autora, pode-se entender essas condições de produção em dois sentidos: estrito ? contexto enunciativo ? e amplo ? contexto sócio-histórico e ideológico.

3.3 Sujeito

Mussalim (2006) destaca a existência de três fases da AD (Análise do Discurso), as quais compreendem procedimentos e objetos de análise diferenciados. Em decorrência disso, haverá uma concepção de sujeito para cada noção de discurso.
Para a autora citada (op. cit.), na AD-1, o sujeito é entendido como assujeitado, já que é submisso às normas que delimitam o discurso que ele enuncia. A AD-2 compreende o sujeito com sendo uma função, já que ele se posiciona num lugar social de onde ele enuncia (Exemplo: lugar de mãe, aluno, professor etc.) Por fim, para a AD-3, o sujeito é visto com um ser clivado, isto é, fragmentado, dividido, entre o consciente (produz o seu próprio discurso) e o inconsciente (reproduz os discursos pré-existentes propósito deste trabalho, abordamos a concepção de sujeito inerente à terceira fase da AD, a qual entende que o sujeito é complementado na interelação com o outro.
Cabe aqui ressaltar também o que Orlandi (2002) defende, os estudos discursivos visam estudar a relação entre o sujeito e os elementos exteriores que influenciam no seu desenvolvimento linguístico. Partindo dessa ideia, é cabível afirmar que não há discurso sem sujeito e não há sujeito sem ideologia (PÊCHEUX, 1975 apud ORLANDI, 2002, p. 17). O sujeito é influenciado pelos aparelhos ideológicos, que em suma são responsáveis pela produção dos discursos elaborados pelos sujeitos em determinadas situações enunciativas.

3.4 Interdiscurso

O interdiscurso poderia ser basicamente compreendido como o cruzamento (relação/espaço de trocas) de vários discursos, mesmo havendo a predominância de um em relação ao outro (MUSSALIM, 2006).
Segundo Orlandi (2002), existem três conceitos importantes para a área da Análise do Discurso: o interdiscurso, o intradiscurso e a intertextualidade. Em resumo, pode-se dizer que o interdiscurso é a relação entre os discursos ditos anteriormente. Já o intradiscurso seria o discurso enunciado pelo próprio sujeito, aquilo que ele mesmo diz. A intertextualidade, por sua vez, implica na relação entre diferentes textos, o que não significa que há uma relação intradiscursiva no intertexto, porque vários textos podem se relacionar sem que necessariamente haja uma relação entre diferentes discursos. Em outras palavras, pode existir uma intertextualidade entre textos que apresentem um mesmo discurso.
Portanto, como veremos neste artigo, na respectiva obra de Ana Maria Machado é perceptível a existência de um ou mais interdiscursos, já que a obra revela a relação entre alguns discursos, os quais serão analisados a seguir.

4. ANÁLISE DOS DADOS

4.1 Descrição da obra

Quanto à tipologia textual, podemos classificar o livro de LI, Menina bonita do laço de fita, como integrante do conjunto das narrativas curtas, que são obras escritas por determinados autores que elaboram os textos infantis breves, com enredo simples e com uma intrínseca relação discurso X imagem (VALE apud SARAIVA, 2001). Essa obra pode ser indicada (...) à pré-leitores, a crianças recém-alfabetizadas e àquelas com pouca experiência de leitura (VALE apud SARAIVA, 2001, p. 48).
Como nos bons livros infantis ilustrados, o texto e a imagem se articulam de tal modo que ambos concorrem para a boa compreensão da narrativa (...) (FARIA, 2004, p. 39), Ana Maria Machado faz isso com muita competência, pois nesta sua obra, as ilustrações têm muita qualidades, se relacionando (ora diretamente, ora indiretamente) com o texto escrito e sempre contribuindo para dar ênfase à história, destacando momentos importantes da narrativa e facilitando a sua compreensão pelo leitor (FARIA, 2004).
Em síntese, a narrativa curta presente no livro analisado revela um episódio típico do mundo infantil, narrando a história de uma linda menina de olhos pretos, cabelos enrolados e pele escura, que despertou a admiração de um coelho branco que desejava, quando casasse, ter uma filha como ela.

4.2 Discursos que permeiam o livro

Visando alcançar o primeiro objetivo deste artigo ? descrever como se constituem os discursos na obra de Ana Maria Machado ? analisamos o livro infantil Menina Bonita do Laço de Fita. Considerando o caráter polissêmico da linguagem, pudemos notar que a obra é permeada por alguns discursos, que produzem diferentes efeitos de sentidos. Desse modo, identificamos a presença de três discursos na referida obra, que assumem uma interdiscursividade, pois um se relaciona com o outro.
Primeiramente, podemos afirmar que o texto "dialoga" com o discurso da consciência negra, uma vez que a autora utiliza como protagonista uma menina de olhos escuros, cabelos encaracolados e pele negra, o que se desvia da "normalidade literária", presente nos contos de fadas tradicionais por exemplo.
Apesar da história iniciar com a expressão Era uma vez (...) (MACHADO, 2005, p. 02), o enredo relata a história de uma personagem que não se assemelha aos esteriótipos da maioria dos livros. E, embora a menina seja negra, ela não se incomoda, aparentando sempre a imagem de uma criança extrovertida, criativa e esperta e que está sempre se expressando de alguma forma, dançando, lendo, desenhando. Isso pode ser notado, por exemplo, nas ilustrações das páginas 06, 07 e 09.
Nesta narrativa infantil, a autora deixa nas entrelinhas um discurso que valoriza a auto-estima da pessoa negra, que, independentemente da sua cor, merece respeito. Assim, ela busca despertar no leitor uma consciência não-preconceituosa e anti-racista, que é algo fundamental, tendo em vista que vivemos diariamente situações de discriminação contra a população afro-descendente.
Em seguida, percebemos nesta obra a presença de um discurso relativo ao conceito de beleza, que se opõe ao padrão que é imposto pela sociedade através dos aparelhos ideológicos - escola, família, mídia, livros, brinquedos etc. - que ditam um modelo de beleza focado na branquidade, cujos parâmetros são: pele branca, olhos claros, cabelos lisos etc. Além disso, autora destaca a beleza natural da menina, pois ainda por cima a mãe gostava de fazer trançinhas no cabelo dela e enfeitar com laço de fita colorida. Ela ficava parecendo uma princesa das Terras da África, ou uma fada do Reino do Luar (MACHADO, 2005, p. 03).
Portanto, o conceito de belo mais evidenciado pela autora segue parâmetros não-convencionais. E, além da figura da menina negra, no livro também é destacada a figura materna, de uma (...) mulata linda e risonha (...) (MACHADO, 2005, p. 14), revelando uma imagem estética positiva da mulher negra.
Além disso, percebemos na obra também que apesar da personagem principal ser uma criança negra, o coelho branco demonstra admiração por ela, o que é uma atitude pouco aceitável para a maioria das pessoas, já que a beleza da menina não se enquadra no padrão ditado pela sociedade.
Por fim, notamos que o livro evidencia o discurso do respeito às diferenças, estabelecendo uma relação interdiscursiva com o discurso da consciência negra. Portanto, a autora procura dialogar com um sujeito do discurso (o negro) que na maioria das vezes é discriminado e não se aceita, adotando um discurso de inferioridade, pessimismo e baixa estima, que é assumido às vezes de forma consciente e/ou inconsciente, através de determinadas situações enunciativas que o mesmo estabelece no seu dia-a-dia.
Sendo assim, Ana Maria busca evidenciar a necessidade de se respeitar às diferenças do outro e a auto-aceitação da imagem que se tem de si mesmo, pois a autora fortalece a ideia de que cada sujeito é único e especial, o que independe da sua descendência étnico-racial.

4.3 Marcas linguísticas discursivas
Com a pretensão de atingir o nosso segundo objetivo neste artigo ? analisar com as marcas linguísticas materializam os discursos de Ana Mª. Machado ? fizemos uma sucinta análise acerca desses aspectos, e percebemos que a escritora utiliza de elementos linguísticos (verbais e não-verbais), através dos quais deixa transparecer os seus discursos.
Em se tratando dos elementos não verbais, identificamos que, no decorrer das ilustrações deste livro, a autora utiliza-se da imagem de personagens (pessoas e animais ? coelhos) de diversas cores, demonstrando sua preocupação em valorizar as diferenças, independentemente da cor que cada um tem. Podemos ter como exemplo uma das ilustrações, que é seguida do seguinte trecho: (...) tinha coelho pra todo gosto: branco bem branco (...), preto malhado de branco e até uma colha bem pretinha (...) (MACHADO, 2005, p. 20). Ana Maria também fez uso das ilustrações para dar ênfase à figura da personagem principal, que mesmo sendo negra despertou a "paixão" do coelhinho branco que (...) pensava: - Ah, quando eu casar quero ter uma filha pretinha e linda que nem ela... (MACHADO, 2005, p. 06). Ao utilizar o vocábulo pretinha, a autora não discrimina a menina, mas mostra de forma consciente o quanto a cor da pele não diminui o valor da mesma.
No que concerne ao uso dos recursos linguísticos verbais (texto escrito), pontuamos algumas observações. A escritora sempre usa palavras e/ou expressões que valorizam e exaltam a imagem da menina negra, como dotada de beleza, a exemplo dos trechos: Era uma vez uma menina linda, linda (...) (MACHADO, 2005, p. 02); (...) O coelho achava a menina a pessoa mais linda que tinha visto em toda a vida (...) (MACHADO, 2005, p. 06).
Além disso, a autora recorreu também às figuras de linguagem, a exemplo das comparações, que ela utiliza tanto para despertar o imaginário infantil, como para enfatizar características da menina (olhos, cabelos e pele). Percebemos isso na seguinte parte: (...) Os olhos dela pareciam duas azeitonas pretas (...). Os cabelos eram enroladinhos e bem negros, feito fiapos da noite. A pele era escura e bem lustrosa, que nem o pêlo da pantera negra (...) (MACHADO, 2005, p. 02).
Ana Maria utiliza também do recurso da repetição para ressaltar o desejo do coelho em ser da cor da menina, e para destacar a criatividade da pequena, que mesmo não sabendo o que responder vai inventando respostas para o coelho, que repetidas vezes questiona: Menina bonita do laço de fita, qual é teu segredo pra ser tão pretinha? (MACHADO, 2005).
Em suma, verificamos, através do jogo texto X imagens que a escritora vai marcando nesta sua obra, os discursos que ela defende, deixando transparecer a mensagem de que a cor da pele é resultante da descendência familiar, e que a beleza não estar no ser "preto ou branco", mas sim na essência de cada sujeito, que merece ser respeitado mesmo com suas diferenças.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como afirmamos na introdução, este artigo se desencadeou a partir da observação dos discursos que são veiculados na obra Menina bonita do laço de fita. Para tanto, analisamos os dados coletados com o intuito de verificar como a escritora Ana Maria Machado constroi os discursos relativos à consciência negra, ao conceito de beleza e o respeito às diferenças, enfatizando como as marcas linguísticas contidas no seu livro materializam esses discursos.
Sob essa perspectiva, nosso trabalho mostrou que Ana Maria usou em seu livro recursos linguísticos verbais (comparações, repetições, palavras, expressões etc.) e não-verbais (ilustrações) para retratar a figura da beleza negra, que ainda é discriminada e desvalorizada pelos aparelhos ideológicos da sociedade.
Os resultados obtidos na análise, desenvolvida no presente artigo, contribuem para que os sujeitos possam refletir sobre os estereótipos de beleza, de cor e a falta de respeito ao diferente, questões estas que são ditadas pela sociedade e materializadas nos discursos. Portanto, este artigo revelou o quanto a Literatura Infantil pode servir à desconstrução dos discursos preconceituosos e contribuir para a disseminação de discursos que valorizem os sujeitos como eles são, seja qual for sua descendência e sua aparência estética.

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGUIAR, Vera Teixeira (Coord.) ET AL. Era uma vez na escola: formando educadores para formar leitores. Belo Horizonte: Formato Editorial, 2001.

CAVALCANTI, Joana. Caminhos da literatura infantil e juvenil: dinâmicas e vivências na ação pedagógica. São Paulo: Paulus, 2002, p. 35-74 (Pedagogia e Educação).

FARIA, Maria Alice. Como Usar a Literatura Infantil na Sala de Aula. São Paulo: Contexto, 2004, p.23-53.

MACHADO, Ana Maria. Menina bonita do laço de fita. São Paulo: Ática, 7. Ed., 2005, 24 p., il. color: Claudius, Coleção Barquinho de Papel.

MUSSALIM, Fernanda. Análise do Discurso. In: MUSSALIM, Fernanda e BENTES, Anna Christina. Introdução à Linguística ? domínios e fronteiras. São Paulo: Cortez, 2006, p. 101-142.

ORLANDI, Eni Puccinelli. Análise do Discurso: Princípios e procedimentos. Campinas, SP: Pontes, 4. ed., 2002, p. 15-55.

VALE, Luiza V. Pires. Narrativas Infantis. In.: SARAIVA, Juracy Assmann (Org.). Literatura e Alfabetização: do plano do choro ao plano da ação. Porto Alegre/RS: Artmed, 2001, p. 43-49.

http://www.anamariamachado.com. Acesso em: 12 de outubro de 2009.
 
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Sobre este autor(a)
Sou Licenciada em Pedagogia, pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e Especialista em Linguística Aplicada ao Ensino de Português, pela FIP (Faculdades Integradas de Patos). Atualmente, sou professora efetiva da Prefeitura Municipal de Queimadas-PB.
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