Análise do ultimo capítulo de Presença de Anita
 
Análise do ultimo capítulo de Presença de Anita
 


Em vista, tem que se ter em mente a linguagem formal que Donato escreve sua obra, o português erudito faz com que sua obra torna-se um clássico da nossa literatura, um romance proibido para a década de quarenta, época em que foi escrito.Mário Donato acabou sendo excomungado da Igreja Católica, sendo considerada uma obra devassa sob a égide dos defensores da moral e dos bons costumes, sendo rejeitada pelo clero de Belo Horizonte e de Porto Alegre.
O excitante romance de Donato inspirou o autor de novelas Manoel Carlos a escrever outra versão da Presença de Anita, com características originais, somente o último capítulo discorre em pólo oposto ao original.
Obra que causa impacto sobre a vagabundagem de uma menina, aparentemente donzela, que vive um romance proibido com Eduardo, quarentão, casado com Lúcia. Mario Donato traz a luz da verdade um comportamento típico desta idade que acontece com quase todos os homens, um distúrbio psíquico se volta para o renascimento tardio da adolescência e visa buscar aventuras amorosas, morosidade em relação à senilidade e ao matrimônio, tenta resgatar libidos, agora mais aguçados pela idade, e comete um abuso sexual sem limites e cujo termino seria uma tragédia e tormento para a pacata vida de Eduardo, que até então vivia confortavelmente, não especificamente no matrimônio.
Levando em conta, o pessimismo de Donato, é notória a loucura de Eduardo no fim do romance, sua imaginação fértil criando uma nova realidade como conseqüência desta aventura. A ilusão criada pelo protagonista do romance desperta um estudo aprofundado dos conceitos de filosofia e psicologia, para entender o que Donato quer realmente especificar neste último capítulo, onde floresce o domínio do mundo ilusório, onde verdadeiramente acontece à projeção mental deliberada e perturbada da vítima, Eduardo.
O texto lógico do autor não distorce nenhuma reflexão psicológica nos capítulos anteriores, apenas sustenta algumas alucinações ao qual o leitor nem se dá conta devido o jogo de situações dramáticas em que está envolvido. Tudo explode em uma escala astronômica nos arremates finais do drama, é onde sucede a realidade surreal, onde o autor mergulha na fantasia em que o protagonista é o principal e talvez o único foco.
Mas o que dizer da presença de Anita, o que Donato quer insinuar com presença, independente de especulação filosófica e sim psíquica, a presença imaterial de Anita, como espectro fantasioso da imaginação fértil de Eduardo. A presença considerada nos capítulos anteriores denota uma presença de vulgaridade e libido sexual na tenra idade da jovem, que vive no mais esplendoroso clima de sexualidade e paixão.
Na esquina, Eduardo resolvido (resoluto) olha última vez para a janela do sótão. Nessa hora, in hic hora, do latim, no exato momento, no instante presente, os vidros não se abriram (descerrar), a face e somente a face de Anita aparece para Eduardo, depois das flores afastadas Eduardo a vê completamente. Na verdade não havia flores, ou qualquer objeto na hora em que Eduardo vê Anita, já morta, o autor usa estas alegorias para dar sustento ao assunto, mas na verdade Eduardo não conseguiu ver nada em derredor, pelo susto em que sua mente depara em relação à miragem. Anita se apresenta por completo e não somente o rosto e posteriormente o corpo.
Ela desce até ele, fantasiosamente ela paina no ar, como é agregado ao poder dos espectros de flutuarem e suas mãos estavam crispadas, é o mesmo que encrespar ou franzir.
O fantasma diante dele, já maior que ele; o fantasma de Anita era superior a estatura física de Eduardo, mas esta representação é simbólica. Eduardo não repara nesses detalhes, o que acontece é que ao abismar com esta visão, a mente independente da altura, é dotado de superioridade em relação a nossa condição de humanos mortais.
..."chorava, tudo em torno contagiado pela sua desesperação, vibrando como uma lâmina de vidro que se estilhaça", o fantasma de Anita, estava desesperado mediante o pessimismo da consciência de Eduardo, onde ele refletia no espírito desencarnado dela todo o seu desespero e o som da lâmina de vidro consiste numa alegria fantasiosa pelo impacto da presença do espírito.
O susto e o assombro diante do fato fez Eduardo ficar atordoado e recluso, levando-o a escorregar na intenção de fugir, ele escorrega na gana de escapar e resvala a cabeça, onde Anita lhe ampara, há uma contradição nesta passagem, espíritos desencarnados não possuem o poder sobre as entidades físicas, o autor deve ter se equivocado para deixar incólume a vida de Eduardo, a verdade seria que ele não tivesse escorregado e sim derrapado e ameaçado cair. Esta afirmação vale também pelas vezes que Anita esbofeteava-o no rosto, onde o próprio vocábulo lusitano comprova o fato, "... soluçava histericamente, quer dizer, histeria corresponde a uma psicopatia onde se caracteriza por um estado mórbido de autoconsciência, falta de controle sobre atos e emoções, entende-se que a fúria do fantasma era reflexo da consciência de Eduardo, os espectros estão diluídos das operações conscientes em todos os sentidos.
"... os traços todos demudados pela violência dos sentimentos que agitavam", a face de Anita mudava de acordo com o ódio do seu amado, a cada sequência de pensamento de fundo sentimental de Eduardo constituía o espírito que poderia oscilar deste a brandura até a violência.
"... repelia com a sua febre, eu era gelo, mais fria que gelo", pode se entender que febre não remete somente a temperaturas altas, o que se pode conceber que febre está relacionada com o que é muito quente ou muito frio.
A força que possuía no bojo, que está mais para a parte mais íntima de uma coisa, âmago, na alegoria algo de humano estava presente no fantasma de Anita, ela suga as energias de Eduardo, pois os espíritos desencarnados que ficam à mercê da carência da luz espiritual, onde encontra a plenitude de paz, ficam necessitados de energia e se apossam dos vivos para sugar-lhe as energias para se autossustentarem.
"... aquele torvo e esfumaçamento impiedoso lhe diluía as pernas modeladas pelo vento sob o manto, e logo o busto de seios ausentes, borrando-o e deixando ver através dele", o espírito de Anita tende-se a diluir e sumir por completo da imaginação de Eduardo, mas anseia pela resposta final, que deseja que o amado parta com ela, onde Eduardo sente no âmago do seu espírito que Anita era lhe retirada, lembrou do trem que visava pegar e partir e a Vitoriosa, ou seja, a amante posterior a Anita, ela descruza os braços com o sinal de recebê-lo e Eduardo grita ao espectro ? "não" ? o repelão de raiva faz o fantasma sacudir em oposição a presença de Eduardo.
Anita esperava, obviamente pela palavra final do amado, depois da negação, o fantasma esmaece, ou seja, a sua face perde a cor e o vigor, diluindo-se completamente reduzindo ao fundo a nuvens e somente suas mãos ainda persistem em resistir, mas dá um arranco derradeiro, sumindo-se no nada, compreendendo o nada para o fato é que o fantasma apaga a luz da imaginação de Eduardo. Em últimas palavras, deduz se que o fantasma de Anita não passava de uma mera construção mental e que Eduardo viveu um profundo estado de loucura. A verdade é que Eduardo no fim do romance ficou completamente louco.
Enfim, se é delírio ou não, esta passagem dramática na obra Presença de Anita, sucede num ato extremo de loucura ou mesmo alucinações profundas, o que toda pessoa em juízo pode ser levado ou induzido a este estado anormal de conceber a realidade e passar a construir um mundo imaginário. Os argumentos de Donato, sob a esférica lógica se enquadram na categoria de redução ao absurdo, este fato, para a realidade concreta é um absurdo incontestável.
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Revisado por Editor do Webartigos.com


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Sobre este autor(a)
Guilherme Paixão Campelo ou também conhecido pelo cognome de Brancobilly é filósofo, escritor e professor. Escreve artigos para vários sites e blogs, além de escrever para o blog http://rendecosi.blogspot.com.br/. Autor de dois livros: Reflexões para uma Nova Filosofia - do Pensamento a Evolução do ...
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