ANÁLISE DO MÉTODO DIALÉTICO SOCRÁTICO
 
ANÁLISE DO MÉTODO DIALÉTICO SOCRÁTICO
 


Introdução

1.1 O que é o Elenchos em uma perspectiva morfológica?

O termo Elenchos em seu sentido mais antigo é encontrado nos poemas homéricos, e é utilizado pelo poeta grego para explicitar certa vergonha sofrida por algum personagem que em determinada situação deveria demonstrar sua força. Ao invés disso a personagem se depara com a desonra, sendo que sua atitude perante a circunstância foi contrária ao que seria esperado de um herói. Em segundo momento o Elenchos assume outro significado em Píndero, onde o termo ao qual estamos tratando significará teste ou prova, e servirá de revelação da verdadeira natureza de uma coisa. Por conseguinte, nos poetas trágicos (Ésquilo, Sófocles, Eurípides), o Elenchos é usado como interrogação, questionamento; e busca fazer com que o interlocutor analise a si mesmo, um auto-exame das atitudes ou discursos proferidos. No século V a.C os pontos principais que caracterizará a utilidade do Elenchos estará ligado aos procedimentos do judiciário grego, onde o objetivo apriori é de obter do réu um caráter de inocência ou culpabilidade, e a preocupação será em específico o convencimento de terceiros. Por fim, o Elenchos é o método filosófico pelo qual Sócrates tem como finalidade á verdade, uma purificação por meio da refutação, o melhor bem que se faz ao interlocutor, quando o mesmo reconhece a própria ignorância, fazendo-o buscar outro sentido para aquilo em que acredita. Diferente do sistema judiciário onde o procedimento é mondógico, e quer o convencimento de terceiros, ou seja, um júri, Sócrates utiliza o Elenchos necessariamente em diálogos na perspectiva de um discurso braqueológico, ou seja, um discurso curto, visando uma contradição não absoluta e o convencimento do próprio interlocutor, fazendo-o entender que ele não sabe sobre aquilo que acha saber.        

1.2 Qual a finalidade do Elenchos?

É importante ressaltar que a refutação não é a finalidade deste método. A dialética explicitada nos diálogos de primeira época de Platão, mais específico no "Laques" e na "Apologia", tem como finalidade a não-refutação, mas sim averiguar a concordância sobre aquilo que o interlocutor afirma saber e sua ação. Isto é determinado quando Sócrates faz uso prático de sua filosofia dialogando com o interlocutor, e visa atingir o ponto principal de seu método, que é a harmonia do logos (razão) e do érgon (ação). Frequentemente deturpado, muitas vezes mal interpretado, é dito por alguns comentadores que a finalidade do Elenchos seja a princípio a refutação. Mas é perigoso afirmar que o Elenchos Socrático seja necessariamente refutação, visto que Sócrates procura achar alguém que saiba aquilo que discursa e que não se contradiz. Exemplo disso há um trecho na "Apologia" quando Sócrates elogia os artífices na ciência do artesanato, concluindo que sobre as questões referentes aos artesãos, são eles sábios mais que Sócrates, "a bem dizer, nada, e certeza de neles descobrir muitos belos conhecimentos" (Platão, Apologia, 22c-22d). Não há lugar no "Laques" ou mesmo na "Apologia" para a maiêutica, pois evidentemente trata-se de diálogos de primeira época, onde encontramos a filosofia do "não saber socrático"; nestas obras "conhecer não é recordar", sendo esta uma perspectiva de uma filosofia platônica de terceira época desenvolvida no diálogo "Fedon".

Voltando o foco á questão principal, para que Sócrates faça uso do Elenchos, implica dizer que há uma necessidade de ferramentas para se chegar á verdade ou convencer e refutar o interlocutor, tais como: o silogismo e a epagogé. Ambos têm o mesmo objetivo, diferenciando-se em alguns aspectos. A rigor, tanto um como o outro são meios para examinar através de premissas e conclusões a linguagem e a ação até que se chegue a uma concordância ou á refutação do interlocutor. O silogismo ao qual Sócrates recorre é também muitas vezes mal interpretado. Alguns o tomam como puramente retórico, outros confundem como uma determinação da sofística. Mas se analisarmos com mais precisão o que Sócrates faz, e o que ele vai chamar de filosofia, não é puramente retórica e nem mesmo um método sofista, e é de fato diferenciado em virtude da pretensão de obter á verdade sem a preocupação de ludibriar o interlocutor.

Para que o silogismo seja efetivado, Sócrates sempre se posiciona como perguntador, e por meio da eróteses, ou seja, da arte da pergunta, averigua por um conjunto de premissas se há uma contradição naquilo que o interlocutor acredita como verdadeiro. É preciso que o interlocutor aceite as proposições demonstradas e analise a si mesmo. Se for constatada uma contradição, logo é fundamental a refutação, pois é o maior bem que se pode fazer a alguém que acha saber, mas não sabe daquilo que acha saber. Este silogismo usado por Sócrates é bastante específico no que diz respeito á sua finalidade. Diferente do Aristotélico, o silogismo de Sócrates aponta para que o discurso racional (logos) precisa essencialmente concordar com a ação (érgon). Somente desta forma, pode-se chegar a verdade.

A epagogé é também uma forma de silogismo que parte na maioria das vezes do particular para o geral, sendo que as premissas são fundamentadas através de exemplos, sobre os quais Sócrates utiliza de adágios práticos do cotidiano, ou seja, exemplos do dia a dia, visando facilitar a compreensão e preparar o cenário para uma possível refutação, induzindo o interlocutor a achar uma definição universal. Geralmente Sócrates faz isso com ele próprio, quero dizer, ele mesmo cita exemplos universais como a da "velocidade" no "Laques", para incentivar o interlocutor a fazer o mesmo.

Esclarecida estas questões, voltemos o foco do Elenchos em relação á virtude para o diálogo "Laques". É importante entender a priori, resumidamente, como a discussão é convertida por Sócrates para o campo intelectual, já que a princípio não é sobre a virtude ou a uma parte dela, a coragem, que Lisímaco pede conselho.

1.3 O que é a Virtude? Pode ela, ser ensinada?

Ora alguém nos aconselhou também esta disciplina, por ser belo para um jovem aprender a combater com as armas, e até louvava o atleta que acabais de ver em ação, incitando-nos a que viéssemos apreciá-lo. (...). A vossa parte, agora, é, pois, aconselhar-nos sobre esta disciplina. Parece-vos que ela deve ser aprendida ou não? E quanto ás outras, que disciplina ou exercício considerais aconselhável para um jovem? A respeito da nossa associação, é dizer o que vos parece. (Platão, Laques, 179e-180a).

A questão a princípio não é sobre a virtude. Lisímaco busca conselho se a hoplomaquia, que é o combate com as armas, poderá ela educar os jovens e os tornar perfeitos. O homem grego antigo se preocupa bastante com a concepção da honra, e em relação ao nome tornar-se imortal, como por exemplo, o do herói Aquiles que preferiu desdenhar a morte em vez de viver com desonra. Lisímaco demonstra esta preocupação e a compartilha com os convidados de "demo", e após assistirem a uma apresentação de Estisilau, reputado mestre de hoplomaquia, Lisímaco coloca em xeque a importância da disciplina na educação dos filhos, se ela pode os tornar melhor.

Nícias e Laques são convidados a dar conselho tendo em vista suas competências no campo político e militar, entretanto, ambos tomarão posições diferentes quanto á questão. Nícias afirmará que o combate com as armas é disciplina fundamental a favor da educação dos jovens, exaltando a beleza do corpo que tal atividade proporciona e que aspirará, segundo Nícias, os jovens em tudo o que se diz respeito à estratégia (181e-182d). Laques ao contrário baseando-se na própria experiência, argumenta que os Lacedemônios, os mais cotados e interessados no que diz respeito á guerra, não se interessam pela hoplomaquia, e ridiculariza Estisilau por um feito que lhe ocorreu em um combate naval. Neste momento do diálogo, onde é predominante a necessidade de alguém decidir pela melhor proposta, Sócrates é chamado para dar o voto de "Minerva". Ele é convidado pelos próprios interlocutores e também por Lisímaco para decidir sobre o assunto. Contudo, Sócrates diz: "Mas então ó Lisímaco, é aquilo que a maioria de nós aprovarmos que tencionas seguir?" (Platão, Laques, 184c) Sócrates quer deixar claro que não é a maioria que deve decidir, não é pelo simples fato da maioria concordar sobre uma opinião que se pode chegar a uma solução verdadeira, pois educar os jovens se trata de uma ciência.

Não será então preciso começarmos por aqui, por saber, enfim, o que é a virtude? Se nem sequer conhecermos exatamente o que porventura é a virtude, de que modo poderemos dar conselho a alguém sobre a melhor maneira de a alcançar?

(Platão, Laques, 190-b)

Deste modo ele convence os interlocutores de que a aplicação deva ser em torno de quem é possuidor de tal ciência, ou seja, quem pode tornar melhor a alma dos jovens, e começa sugerir o princípio da competência, uma auto-avaliação dos interlocutores. É importante ressaltar que há uma necessidade dos interlocutores permitirem serem refutados por Sócrates. Este é um ponto fundamental para que o Elenchos opere de modo eficaz. Aceito por todos, Sócrates obtêm passe livre para utilizar seu método filosófico. É como se Sócrates estivesse preparando os interlocutores e os que estão a sua volta, para a questão principal que os levou até o ginásio: Descobrir o que é a virtude, em específico a coragem, pois se trata de combate de armas, se ela pode ser ensinada, e quem pode ensiná-la.

Laques inicia o debate dizendo ser fácil definir o que é a coragem, que segundo ele, "é aquele que decidir, na linha de combate, enfrentar o inimigo a pé firme." (Platão, Laques, 190-e).Mas o que Sócrates deseja é uma definição universal, e demonstra isso por meio de exemplos e argumentos, Laques demora em perceber que precisa afirmar um conceito universal, mas finalmente entende a proposta julgando ser a "coragem uma perseverança da alma". (Platão, Laques, 192-c)

Todavia, Sócrates diz que nem toda perseverança parece ser coragem. E começa a estruturar um silogismo, partindo da primeira premissa de que a coragem é bela, e a perseverança, acompanhada de sensatez, bela e boa. Mas acompanhada de insensatez é má. Logo, uma coisa que é bela não pode ser por natureza má. Por conseguinte, Sócrates parece querer melhorar a definição de Laques declarando ser a perseverança acompanhada de sensatez, bela e boa. Laques consente com tudo. Sócrates por meio da epagogé cita exemplos de alguém que persevera em gastar dinheiro, sabendo que ao gastar, ganhará mais. Em seqüência faz alusão á perseverança insensata de um jovem qualquer que recusa a se alimentar bem. Laques concorda que nenhum destes é corajoso por ser só perseverante, mas julga ser corajoso quem no campo inimigo ousa resistir sem apoios e sensatez, sendo apenas perseverante. Sócrates pergunta se tal coisa bela como a coragem pode ser má e prejudicial, concorda Laques que é vergonhosa. Sócrates chega à conclusão que os atos não estão de acordo com as palavras, volta a ressaltar que os que perseveram sem técnica não sabem o que dizem, ou seja, o especialista é a quem se deve dar crédito, Laques é refutado.

Sócrates clama por Nícias, e como se estivesse em uma guerra necessitado de socorro, pede-lhe que exponha sua opinião acerca do que vem a ser a coragem.

Vá lá, Nícias, diz-lhe, em conformidade com a tua afirmação, que espécie de sabedoria poderá ser a coragem. Por certo que a aulética não é.

(Platão, Laques, 194-e).

Nícias, bastante hábil em retórica, começa a sugerir a coragem como uma sabedoria, "á ciência do que é perigoso e do que é favorável". (Platão, Laques, 194-e) Neste ponto Laques intervém, e até faz um esforço para refutar Nícias por analogia, mas só diz "disparates", e não há concordância por parte do interlocutor. Muito pelo contrário, Nícias defende-se bem da refutação de Laques por meio de uma aparente arte sofística, a retórica. Mas Sócrates põe-se a averiguar se Nícias sabe o que está falando, e através da epagogé. Ora, se a coragem trata-se de uma ciência, é preciso que de igual modo como às outras ciências, tais como: a medicina, agricultura e a estratégia, (neste momento é utilizado a epagogé) por se tratarem de coisas idênticas e abarcam o presente, passado e o futuro, logo, a coragem não pode ser a ciência do que é perigoso e do que é favorável, pois ela só corresponde ao futuro, consequentemente, a ciência do que é perigoso e do que é favorável correspondem a um terço do que é a coragem. (Platão, Laques, 199-a). Sócrates acha uma contradição, e logo refuta seu interlocutor. O tema central fica sem resposta, mas apesar da aporia, todos são unânimes em concordar que há uma necessidade de voltar á escola. O significado de aprender neste texto como já foi dito, não é "recordar", mas reconhecer a própria ignorância, e a partir dela começar uma busca pela verdade, que é o sentido da filosofia, ou seja, amor á verdade e ao conhecimento.

Conclusão

Colocada apriori a questão do método dialético utilizado por Sócrates para atingir a veracidade do que seja a coragem com relação à estrutura do Elenchos e sua função, conclui-se que é incabível atribuir outro método pelo qual Sócrates possa empregar, tendo em vista uma análise dentro dos primeiros diálogos de Platão, no caso deste trabalho, o diálogo "Laques". Sendo assim, fica claro o intuito deste trabalho em afirmar que o Elenchos é a identificação de Sócrates como filósofo e também como pessoa que sabe cumprir com sua própria vida tanto o érgon como o logos.

 
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Graduando pela Universidade Federal de Uberlândia.
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