Análise Do Conto Vestida De Preto De Mário De Andrade
 
Análise Do Conto Vestida De Preto De Mário De Andrade
 


O livro Contos Novos de Mário de Andrade Mário, publicado postumamente, em 1947, expressa a maturidade artística do autor. Mário de Andrade faz, nessa obra, um profundo mergulho na realidade psíquica e social do ser humano. Investiga a vida interior da personagem, embasando-se na teoria psicanalítica de Freud, principalmente nas narrativas de cunho memorialistas. Dentre os nove contos que integram a obra, nos deteremos apenas ao primeiro conto, Vestida de Preto, narrativa memorialista que evoca a infância e a adolescência.

Mário de Andrade inicia o conto Vestida de Preto questionando a classificação da narrativa, pois como afirma "Tanto andam preocupados em definir o conto que não sei bem se o que vou contar é conto ou não, sei que é verdade." A própria afirmação do narrador em dizer que "Tanto andam agora preocupados em definir o conto (...)". remete-nos a uma reflexão histórica acerca do conto. Realmente, houve mudanças estruturais entre o conto tradicional e o conto moderno. No primeiro as ações e os conflitos passam pelo desenvolvimento até chegarem no desfecho. No segundo volta-se para uma complexidade causada pelos novos tempos, advindos da Revolução Industrial, que leva à fragmentação dos valores, das pessoas e, conseqüentemente, das obras. Conforme Sean O'Faolain, o conto passa a representar a aventura vivenciada pela mente, o suspense emocional ou intelectual chegando ao clímax a partir de elementos interiores da personagem. Ocorre o desmascaramento do herói pelo narrador ou pelo próprio herói.

Segundo Gotlib, o que define ser um conto bom ou ruim é o procedimento do autor, e não propriamente o elemento isolado. Nessa idéia, a autora cita Cortazar que afirma: "Um conto é significativo quando quebra seus próprios limites com essa explosão de energia espiritual que ilumina bruscamente algo que vai muito além da pequena e às vezes miserável história que conta." (Cortazar, apoud Gotlib, 1987 p. 68).

Julio Cortazar afirma ainda que conto pode ser relato de um acontecimento, relato de um acontecimento falso ou fábula que se conta às crianças para diverti-las. Partindo desse ponto de vista, poderíamos dizer que o conto Vestida de Preto seria um relato de um acontecimento, porém como afirma Gotlib, o conto não se refere só ao acontecimento. Não tem compromisso com o evento real. Nele a realidade e a ficção não têm limites precisos. Sendo assim, essa narrativa de Mário poderia ser uma mistura entre o real e o fictício.

Como literatura não é relato ou documento, temos portanto um conto literário, no qual o autor dá vida a um narrador que se encarregará de contar a história. Considerando esse aspecto, podemos afirmar que Vestida de Preto é essencialmente literário e não documental, mesmo que haja a mistura entre real e fictício.

Greimas, nos anos 60, juntamente a outros teóricos, reexamina os princípios de Propp acerca do conto maravilhoso. Greimas reduz as funções sugeridas por Propp em apenas duas: a ruptura da ordem e a alienação e a restituição da ordem. Partindo dessa consideração, pode-se dizer que o conto Vestida de Preto narra exatamente esses aspectos levantados por Greimas, pois, trata-se da história de um amor que surge na infância e que é interrompido por uma Tia que julga a atitude das crianças como algo feio e pecaminoso. Porém, a reconstituição da ordem ou a união do par amoroso não acontece.

De acordo com Paulillo, 1980, Vestida de Preto e Tempo de Camisolinha são contos marcados pela criação católica do autor. Em relação ao primeiro, Juca e Maria são expulsos do paraíso assim como Adão e Eva. "(...) o travesseiro cresceu como um danado dentro de mim e virou crime. Crime não, "pecado" que é como se dizia naqueles tempos cristãos." (ANDRADE, 1999, p.20).

Também no trecho seguinte temos a presença da religiosidade e do pecado:

(...) Durasse aquilo uma noite grande, nada mais haveria porque é engraçado como perfeição fixa a gente. O beijo me deixara completamente puro, sem minhas curiosidades nem desejos de mais nada, adeus pecado e adeus escuridão! Se fizera em meu cérebro uma enorme luz branca, meu ombro bem que doía no chão, mas a luz era violentamente branca, proibindo pensar, imaginar, agir. Beijando." (ANDRADE, p.21, 1999).

De acordo com Paulillo, existe um contrate entre "escuridão" que se relaciona ao mal, e a luz conotando a pureza e a perfeição.

As crianças são expulsas do quarto pela Tia Velha de quem Juca afirma "Nunca gostei de Tia Velha", subentendendo que a Tia sempre foi responsável por atrapalhar suas aventuras de criança. A Tia é portanto a antagonista da narrativa, assim como em outros episódios da vida do menino não abordados pela narrativa.

Com a chegada da Tia no quarto, após chamar a atenção das crianças e mandarem elas saírem, Juca percebe que "o que estávamos fazendo era completamente feio." (ANDRADE, 1999, p.21). E ainda:

"Tia Velha  eu sempre detestei Tia Velha, o tipo da bondade Berlitz, injusta, sem método  pois Tia velha teve a malvadez de escorrer por mim todo um olhar que só alguns anos mais tarde pude compreender inteiramente. Naquele instante, eu estava só pensando em disfarçar, fingindo uma inocência que poucos segundos antes era real"

No momento o protagonista não entendeu aquele olhar, apenas quando cresceu e adquiriu experiência sobre o erótico é que descobriu a sua significação. Que a Tia condenava pecaminosa a ação das crianças porque o mundo dos adultos é cheio desses "pecados". Mundo dos adultos porque o próprio Juca afirma que suas ações eram inocentes e que só deixaram de ser a partir do olhar de reprovação da Tia.

"Fomos saindo muito mudos, numa bruta vergonha, acompanhados de tia Velha e os pratos que ela viera buscar para a mesa de chá." (ANDRADE, 1999, p.21). Após esse momento de vergonha e humilhação vivenciadas pelas crianças, Maria passou a trata Juca com muita indiferença e Juca nunca entendia o porque.

Juca sabia que por mais que gostasse de Maria, não casaria com ela, pois a família proibiu o casamento de uma irmã de Maria com um rapaz porque ele era pobre. Juca era pobre, portanto concluiu que não teria possibilidade de casar-se com Maria.

Maria, tornou-se uma namoradeira, como relata a passagem: "Maria, por seu lado, parecia uma doida. Namorava com Deus e todo o mundo (...)". Maria fica noiva de um diplomata riquíssimo, casa-se vai para a Europa. Juca sempre confuso, mas tinha a "Rose pra de-noite, e uma linda namoradinha oficial, a Violeta." (ANDRADE, 1999, p. 23).

Maria volta cinco anos depois e Juca ouve da mãe dela que "Pois, é, Maria gostou tanto de você, você não quis!... e agora ela vive longe de nós." (ANDRADE, p. 24). Juca entra em conflito interior novamente, percebeu que amava era Maria e não Rose e nem Violeta. Maria estivera perto do divórcio porque tinha um caso com um pintor. "Maria falada, Maria bêbada, Maria passada de mão em mão, Maria pintada nua..." (ANDRADE, 1999, p. 24).

Mas Juca teve que visitá-la e foi até a casa de seus pais.

"Maria estava na porta, olhando pra mim, se rindo toda, vestida de preto. Olhem: eu sei que a gente exagera em amor, não insisto. Mas se eu tive a sensação da vontade de Deus, foi ver Maria assim, toda de preto vestida, fantasticamente mulher." (ANDRADE, 1999, p. 25).

Maria representa a figura erótica e profana e Juca deixa-se levar pelo pensamento pecaminoso: "Um segundo me passou na visão devorá-la numa hora estilhaçada de quarto de hotel, foi horrível." Porém, mais uma vez o personagem é tomado pela consciência religiosa que o leva à auto-condenação por causa dos seus pensamentos.

Quanto ao papel erótico exercido por Maria, percebe-se que existe uma condenação quanto ao seu comportamento, como afirma Durigan:

A censura institucional e o controle exercido pela sociedade às representações sexuais não pressupõem um conceito elaborado a partir de características detectadas e extraídas das práticas e das representações. Essas formas de vigilâncias ligam e subordinam as representações eróticas às conveniências do momento, determinadas por outros valores: político, econômico, moral." (DURIGAN, 1985, p.26).

Nesse processo de condenação do comportamento de Maria, tido como imoral, a presença da religiosidade exerce uma forte pressão, pois Maria e Juca vivem uma situação erótica, porém individualizada, o que é condenado pela igreja. Cito novamente Durigan para esclarece essa situação:

"O outro, em sua relação erótica, não é ator de um espetáculo predeterminado; participa fundamentalmente como sujeito do processo em que duas subjetividades diferentes se encontram, relacionam-se e se mantêm individualizadas durante todo o processo, ao contrário do que apregoa a moral cristã, com a história de anulação de dois corpos em favor da unidade, de duas subjetividades em favor de uma." (DURIGAN, 1985, p.21-22).

Sendo assim, além de não viverem em matrimônio, a individualidade dos prazeres, o de Maria em provocar e o Juca em admirar são condenados pela moral cristã como o próprio personagem afirma, depois de sentir o desejo de "devorá-la", "foi horrível", esse desejo é condenado porque é proibido pela igreja.

Naquele silêncio que se prolongava, devido aos pensamentos de Juca. Maria disse: "_ Ao menos diga boa-noite, Juca...!", Juca consegue dizer: "Boa-noite Maria, eu vou-me embora... (...) Nunca mais vi Maria, que ficou pelas Europas, divorciada afinal (...). Mas dentro de mim, Maria... bom: acho que vou falar banalidade." (ANDRADE, p.25).

Por mais que sentisse desejo de abraçar Maria, Juca correu com medo de seus próprios atos, como se a figura de Maria representasse o perigo. Mas nunca esquece de Maria que faz parte dos quatro amores eternos da sua vida.

Na narrativa destacam-se três planos temporais: o primeiro, retrata o passado, marcado por verbos no imperfeito do indicativo, "estava", "era", etc.; o segundo plano que é narrado em pretérito perfeito, dá à narração um cunho histórico, "veio", "ficou", etc.; e o terceiro plano, na ordem temporal do narrador, utiliza-se o presente do indicativo, traduzindo a consciência do fazer literário, "Acho que", "vamos por ordem".

O espaço é restrito, quando crianças, os fatos ocorrem na casa da Tia Velha e no segundo momento, sala da casa dos pais de Maria. Alguns conflitos e passagens que aparecem no conto, de acordo com afirma Moisés, "o que importa num conto é aquela(s) personagem(ns) em conflito, não a(s) dependente(s); o espaço onde o drama se desenrola, não os lugares por onde transita a personagem, e assim por diante." (MOISÉS, 2006, p.49). Daí a irrelevância da vida de Maria na Europa em contrapartida com o reencontro entre ela e Juca.

Em Vestida de Preto Mário de Andrade, assim como em outras narrativas de Contos Novos, trabalha com aspectos introspectivos, uma vez que o conflito se localiza na mente do narrador-personagem, conflitos iniciados na infância e que retornam na adolescência.

REFERÊNCIAS:

GOTLIB, Nádia Battella. Teoria do Conto. São Paulo: Ática, 1987.

MOISÉS, Massaud. A criação literária: prosa I. 20ª ed. São Paulo: Cultrix, 2006.

ANDRADE, Mário de. Contos Novos. 17ª ed. Rio de janeiro: Itatiaia, 1999.

PAULILLO, Maria Célia Rua de Almeida. Mário de Andrade Contista. São Paulo: USP, 1980. (dissertação de Mestrado em Literatura Brasileira)

DURIGAN, Jesus Antônio. Erotismo e literatura. Série princípios. São Paulo: Ática, 1985.

 
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Sobre este autor(a)
Acadêmica do 7º Semestre do curso de Letras da Universidade do Estado do Mato Grosso (UNEMAT). Desenvolve pesquisa na área de Literatura Brasileira, em especial literatura pruduzida em Mato Grosso e na área de ensino de língua espanhola.
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