Análise discursiva das canções de Cazuza: ideologia, Brasil e o tempo não pára
 
Análise discursiva das canções de Cazuza: ideologia, Brasil e o tempo não pára
 




 
    




Juliane Seidel Moraes





ANÁLISE DISCURSIVA DAS CANÇÕES DE CAZUZA: IDEOLOGIA, BRASIL E O TEMPO NÃO PÁRA







Trabalho de conclusão do curso de especialização em Lingüística e Estudo da Língua e Literaturas





                                                 CRUZ ALTA – RS, 2008

Juliane Seidel Moraes










ANÁLISE DISCURSIVA DAS CANÇÕES DE CAZUZA: IDEOLOGIA, BRASIL E O TEMPO NÃO PARA







Trabalho de conclusão do curso de especialização em Lingüística e Ensino da Língua e Literaturas da Universidade de Cruz Alta.







Orientador: Profª Dr. Maria Cleci Venturini













                                        CRUZ ALTA – RS, SETEMBRO 2008











































Dedico este trabalho de conclusão do curso de especialização a minha tia Eni Seidel.





































“Não adianta querermos ser claros.
A lógica não convence, a explicação nos cansa.
O que é claro não é preciso ser dito.”

                                     Cassiano Ricardo.

AGRADECIMENTOS



    

     Agradeço o incentivo, o convívio, a compreensão e a amizade das pessoas que colaboraram comigo durante este período de estudo, e principalmente a professora e orientadora Maria Cleci Venturini, por seu apoio e inspiração no amadurecimento dos meus conhecimentos e conceitos que me levaram a execução e conclusão deste trabalho.    

































SUMÁRIO



RESUMO ....................................................................................................................... 07
ABSTRACT ................................................................................................................... 08
INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 09
1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: ANÁLISE DO DISCURSO...................................... 11
1.1 Sujeito e formação ideológica............................................................................... 14
1.2 Formação discursiva e formação imaginária..................................................... 19
1.3 Funcionamento da memória: Interdiscurso e intradiscurso.............................. 23
2 CORPUS E CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO .............................................................. 26
2.1 Cazuza .................................................................................................................... 27
2.2 Contexto social, político e cultural ...................................................................... 29
2.2.1 Ditadura Militar.................................................................................................... 30
2.2.2 Milagre Econômico.............................................................................................. 31
2.2.3 Música popular Brasileira................................................................................... 32
3 ESTUDO DO CORPUS: ANÁLISE DAS MÚSICAS .................................................. 36
3.1 Álbum Ideologia...................................................................................................... 37
3.2 Álbum O Tempo não Pára...................................................................................... 37
3.3 Análise da música Ideologia................................................................................. 38
3.4 Análise da música Brasil....................................................................................... 42
3.5 Análise da música O Tempo não Pára................................................................. 45
CONCLUSÃO................................................................................................................ 49
REFERÊNCIAS.............................................................................................................. 51
ANEXOS ....................................................................................................................... 53




RESUMO



ANÁLISE DISCURSIVA DAS CANÇÕES DE CAZUZA: IDEOLOGIA, BRASIL E O TEMPO NÃO PARA

Autora: Juliane Seidel Moraes
Orientador: Profª Dr Maria Cleci Venturini



         O objetivo deste trabalho é olhar discursivamente as canções contidas nos álbuns “Ideologia” e “O Tempo não pára” de Cazuza do ano de 1988, buscando os procedimentos discursivos e os efeitos de sentidos produzidos por essas canções em relação ao contexto sócio-histórico, que constituem as condições de produção dessas canções. Ancoramos nossas posições na Análise de Discurso de linha francesa, desenvolvida a partir dos anos 60, na França por Michel Pêcheux. No Brasil, a principal representante desse campo disciplinar é Eni Orlandi, professora da Unicamp. Nesse campo teórico não há preocupação com os conteúdos (o que o texto significa), mas com os processos de sua constituição (como ele significa). O sentido relaciona-se às condições de produção dos discursos e com a interpelação dos sujeitos pela ideologia. Assim, nossas análises centram-se nos conceitos de sujeito, formação ideológica formação discursiva, formação imaginária e interdiscurso.


Palavras-Chave: Sujeito, formação discursiva, ideologia.
 











ABSTRACT
 
 
 
DISCOURSIVE ANALYSIS IN THE CAZUZA’S SONGS: IDEOLOGY, BRAZIL AND THE TIME DOESN’S STOP
 
Author: Juliane Seidel Moraes
Advisor: Profª Dr Maria Cleci Venturini
 
 
 
        The purpose of this work is to look critically the songs of the álbuns “Ideologia” and “O Tempo não Pára” by Cazuza in 1988, looking for the discoursive procedures and the sense effects produzed by these songs in relation to the social-historic context, that constitute the conditions of prodution of these songs. Our positions were based in the French Discourse Analysis, developed in 60s in France by Michel Pêcheux. In Brazil the main representant of this subject is Eni Orlandi, professor from Unicamp. In this theoric part there isn’t worry with the subjects (what the text means), but with the process that constitute the text. (how is it meaning). The sense is related to the conditions of discourse prodution and with the interpelation of the subjects by the idelology. So, the analysis are centred in the concepts of discoursive formation, ideologic formation, and interdiscourse.


Key-words: subject, discoursive formation, ideology







INTRODUÇÃO





        Neste trabalho toma-se o discurso como objeto e a linguagem de que tratamos não é a mesma que serve para comunicar, mas aquela, que segundo Orlandi (2005) serve para comunicar e também para não comunicar. Trata-se do funcionamento da linguagem entre interlocutores. Nesse contexto, o sujeito é uma das principais noções e não se refere ao sujeito empírico, mas a posições ocupadas por ele na formação social, onde ele é interpelado pela ideologia e atravessado pelo inconsciente.
        O interesse pelo estudo de textos vem de muito tempo, mas a partir da década de 60 tiveram início pesquisas centradas no discurso, que não consiste somente em fazer uma interpretação semântica, mas buscar como os “enunciados fazem sentido”. Não se trata de buscar os conteúdos dos textos, mas os efeitos de sentido advindos dele, isto, o modo como ele significa.
       O tema deste estudo é o movimento do discurso nas canções de Cazuza. Observamos que elas, em sua maioria refletem a realidade social do país daquele período, isto é, trata-se de poesia engajada, fortemente ligada ao político e ao ideológico, no entanto, a análise não se centra no que o “texto” diz, mas como ele diz o que diz.
        Nosso Corpus constitui-se de três canções: “Ideologia”, “Brasil” e “O Tempo não Pára”. Para analisá-las na perspectiva discursiva, recortamos cada uma delas em seqüências discursivas de referências (Sdr´s).
        Para que este trabalho pudesse se concretizar, tomamos como base teórica os princípios da Análise do Discurso de linha francesa, desenvolvida a partir de Michel Pêcheux, na década de 60 e 70 na França e de Eni Orlandi, no contexto brasileiro. As noções que ancoram as análises são: formação discursiva, formação ideológica, formação imaginária e interdiscurso. Na perspectiva discursiva a língua funciona em relação à história, não como um tempo datado e um espaço marcado, mas como historicidade. A língua de que trata a Análise de Discurso refere à exterioridade, o que está fora dela, mas que significa pela memória, segundo Orlandi (1996).
         Após a fundamentação teórica, em que se trabalham as noções, que sustentam as análises, buscamos contextualizar essas músicas, explicitando as condições sócio-históricas delas, pois é em relação a esse contexto que elas significam. Interessa-nos, nessa perspectiva, os efeitos de sentido dos discursos, a partir das seqüências discursivas de referência (Sdr´s).
Os principais objetivos, deste trabalho, foram analisar as letras das músicas, tomando-as como textos que encaminham a discursos, com vistas a buscar não o sentido, mas procedimentos e os efeitos de sentido que decorrem da organização da língua na história. Com isso, sinalizamos que o sentido não está no texto, mas na prática discursiva de sua textualização.
A interpretação se dá não de dentro do texto, nas redes que o constituem, pelas filiações do sujeito ao que é externo, segundo Orlandi (1996) a redes de memória, que referem ao contexto social, histórico e político. Não importam os dados, mas os fatos, que inscrevem os dizeres na historicidade, possibilitando a entrada do texto na ordem do discurso.  
           Estruturamos este trabalho em três partes, além da introdução e as considerações finais. Na primeira parte enfocamos a análise de discurso e as noções que a constituem como disciplina. Na segunda, enfocamos as condições de produção do discurso, as quais são de suma importância para a interpretação do texto. Na terceira parte, analisamos as músicas de Cazuza (O tempo não Pára, Ideologia e Brasil).
      
      







1 ANÁLISE DO DISCURSO


O trabalho com texto e com o discurso exige, em primeiro lugar, que se assuma uma posição teórica e a partir dela se delineie os enfoques a serem dados ao trabalho. Olhamos o Corpus recortado a partir da Análise de Discurso de orientação francesa, que surgiu no final dos anos 60 com Michel Pêcheux (1938 -1983), o qual estudou filosofia na escola Normal Superior de Paris e formou-se em 1963 e em 1966 passou a fazer parte do Departamento de psicologia.
Pêcheux (1997) teoriza a linguagem como uma materialidade lingüística, cujo centro é o sujeito interpelado pela ideologia e atravessado pelo inconsciente.   A Análise do Discurso, doravante trataremos como “AD”, é definida como uma prática discursiva que se insere no campo da lingüística (ciência que estuda a linguagem), mas não se restringe a ela, posto que trabalha a língua na história, isto é, ao que exterior a ela. Segundo Orlandi (1996, p. 39) o efeito de exterioridade, por sua vez, é que compõe ou torna possível, a nosso ver, a relação real/realidade”.
O autor tem o mérito histórico de ser reconhecido como o fundador da AD, em sua forma acabada como foi conhecido na França, situando-a em três direções: na lingüística de Saussure (teoria lingüística), no materialismo histórico de Marx (teoria da sociedade) e na psicanálise de Freud (teoria do inconsciente). Foi em 1968 que teve início a renovação do pensamento político e social, a ciência sofre influência do materialismo histórico, campo de filiação das primeiras publicações de Pêcheux.
       Segundo Orlandi (1996a, p. 25) a AD trabalha no entremeio e mostra que não há separação entre a linguagem e a sua exterioridade constitutiva. Ela diz que a disciplina

[...] a sua crítica até o limite de mostrar que o recorte de constituição dessas disciplinas que constituem essa separação necessária e se constituem nela é o recorte que nega a existência desse outro objeto, o discurso, e que coloca como base a noção de materialidade, seja lingüística seja histórica, fazendo aparecer uma outra noção de ideologia, possível de explicitação a partir da noção mesma de discurso e que não separa linguagem e sociedade na história.
    
        A AD se estrutura no espaço entre a lingüística e as ciências sociais. Ela permite trabalhar a busca de sentidos e de suas determinações histórico-sociais. Liga a linguagem com a exterioridade, questiona o que fica fora da lingüística trabalhando na contradição das outras disciplinas aproveitando a outra para se fazer existir. Pensada como disciplina da interpretação, ela discute seus pressupostos é capaz de construir “procedimentos expondo o olhar-leitor a níveis opacos à ação estratégica de um sujeito” (Pêcheux,1999, p.14).
        Essa forma de os sujeitos produzirem sentidos, filiando-se a formas discursivas que já estão aí, faz parte do jogo discursivo que os sujeitos assumem, ao empregarem a língua na vida social, seus enunciados estão ligados aos acontecimentos de sua existência histórica.
        Conforme Orlandi (1996a, p.99), ”A análise do discurso trata a questão, da interpretação restituindo a espessura à linguagem e a opacidade aos sentidos”. Ela propõe, então, uma distância, uma desautomatização da relação do sujeito com o sentido. Isso significa que o sentido não é transparente, pois se constitui de furos que rompem com o mesmo, constituindo o diferente.
        O sujeito manifesta-se através do discurso, cujo objeto principal é a língua, portanto, na análise nesta perspectiva não nos prendemos exclusivamente aos fatores lingüísticos, pois a relação com o exterior (interdiscurso) e com a ideologia é constitutiva do sentido.
        Segundo Pêcheux (2002, p.53) “todo enunciado é intrinsecamente suscetível de tornar-se outro, diferente de si mesmo, se deslocar discursivamente para derivar para um outro”, o sentido não é único, pois é determinado pela história, portanto pode ir para outro.
        A AD pretende produzir conhecimentos para que se entenda o discurso enunciado pelo sujeito, relacionando os sentidos do interdiscurso, que é onde se constrói os sentidos que ficam na memória da sociedade, a AD vale-se desses objetos de conhecimento, sob as influências sócio-históricas.
        Segundo Orlandi (1996a, p.29) “(...) o funcionamento do discurso, isto é, para explicitarmos as suas regularidades, é preciso fazer intervir a relação com a exterioridade, ou seja, compreendermos a sua historicidade”, o discurso não se constrói sozinho ele precisa de fatores histórico-sociais para adquirir sentido.
        Para construir essa noção de discurso que Pêcheux apoiou-se na lingüística (Saussure), sendo a língua pensada como sistema, “deixa de ser compreendida como tendo a função de exprimir sentido; ela torna-se um objeto do qual uma ciência pode descrever o funcionamento” (Pêcheux, 1997, p.62). É através da língua que se origina um discurso, mas não é ela o seu objeto principal, mas sim, como já foi citado:  o discurso. As palavras não pertencem a quem as fala e elas também não significam por si, só significam pela história e pela língua relacionada ao exterior.
        Segundo Orlandi (2003, p.33), “todo dizer, na realidade, se encontra na confluência de dois eixos: o da memória (constituição) e o da atualidade (formulação). É desse jogo que se tiram os sentidos.”. Então, para que haja sentido é necessário um enunciado ligada a memória e ao funcionamento da língua na história.
        Como destacamos, os sentidos se constituem através do processo sócio-histórico de sua produção. Segundo Pêcheux (1997 p.32):
       Cada Formação Ideológica (FI) constitui um conjunto complexo de atitudes e de representações que não são individuais nem universais, mas que se relacionam mais ou menos diretamente a posições de classes em conflito umas em relação às outras.
        Pêcheux salienta que a formação ideológica, se relaciona a uma determinada classe em oposição às demais. E esta formação ideológica pode ter várias formações discursivas. Sabe-se que para haver um discurso é necessário que haja um sujeito e esse sujeito necessita de uma ideologia para que seu discurso traga sentidos. Pode-se considerar que todos os sentidos são possíveis, mas, há sempre um que se sobressai, tornando-se o dominante ao outro atribuímos legitimidade, e este é fixado, muitas vezes, como o sentido oficial.
        Conforme Orlandi (1996b, p.111) “A AD procura tipificar os discursos das diferentes formações discursivas, procura destacar constantes juntamente no lugar em que o lingüístico e o social se articulam (discurso).” É o discurso que trás sentidos que são construídos por meio de palavras já existentes na memória, ditas por alguém em algum lugar e tempo da história, pois sua produção se dá na história por meio da linguagem que é por onde a ideologia materializa-se, desta forma, não se pode distanciar o sujeito da história e da ideologia juntamente com a relação que ele possui com a língua.


1.1    Sujeito e Formação Ideológica


Para a AD, enquanto campo teórico, o texto é uma unidade de análise e encaminha para uma dispersão de discursos, em um funcionamento em que o sentido e a interpretação dependem das filiações dos sujeitos envolvidos em uma rede de memória. Nessa perspectiva, os sujeitos não são vistos como indivíduos, mas como posições em uma determinada formação social. Como sujeitos, são interpelados pela ideologia e inscritos em uma formação discursiva, que sinaliza o que ele pode e deve dizer, de acordo com Pêcheux (1997).
O sujeito é histórico, social e descentrado. É duplamente dividido pela interpelação pela ideologia e pelo atravessamento pelo inconsciente. Não está alienado do mundo social, pois existe no coletivo, não como indivíduo. De acordo com Pêcheux (1997) ancorado em Althusser “é a ideologia que interpela o indivíduo em sujeito”, e este existem a partir do discurso. Outra tese de Pêcheux (idem) é que “não há discurso sem sujeito e nem sujeito sem ideologia”.
         Segundo Orlandi (2005), o sujeito não tem o poder de decidir os sentidos de seu discurso, mas está inserido no processo histórico em que o sentido encontra-se historicamente determinado. O sujeito não tem identidade própria, ele não é fixo, não é fonte do que diz, ele sofre uma interpelação da ideologia. Segundo Pêcheux e Fuchs (1997, p.168-169)

O sujeito caracteriza-se por dois esquecimentos: no esquecimento um, o sujeito tem a alusão de que é criador absoluto do seu discurso, a origem do sentido, apagando tudo que se remeta ao exterior de sua formação discursiva, no esquecimento dois, o sujeito tem a ilusão de que tudo que ele diz tem apenas um significado que será captado pelo seu interlocutor. Há o esquecimento de que o discurso caracteriza pela retomada do já dito, tendo o sujeito a ilusão de que sabe e controla tudo que diz.

       O efeito desses esquecimentos no discurso é a ilusão constitutiva do sujeito de ser dono de suas palavras, a origem do sentido. Essa ilusão o faz esquecer que há um conjunto de formulações esquecidas que determinam o discurso e o sentido dele. Outra ilusão é de que o dizer só pode ser um. Trata-se do esquecimento relacionado à enunciação, pela qual o sujeito não percebe as paráfrases constitutivas do dizer. Assim, o sujeito funciona e se estrutura na contradição que está presa à ilusão de autonomia imposta pela ideologia.
        Orlandi (2005, p. 49) afirma que “se não sofrer os efeitos do simbólico,ou seja, se ele não se submeter à língua e à história, ele não se constitui, ele não fala, e não produz sentidos”. Podemos entender, disso tudo, que sujeito não tem poder de dar sentidos ao discurso, pois nele existem e coexistem outros sentidos.  Orlandi (1998, p. 11) afirma que ele é “composto de vários “eus” é um eu pluralizado” por isso pode-se dizer que o sujeito é simbólico”.
A afirmação de Orlandi referenda o que diz Pêcheux (1997, p. 160) em relação ao sujeito e sua “dependência a um todo complexo das formações ideológicas”, cuja dependência o autor explica por meio de duas teses: a primeira é que o sentido muda “segunda as posições sustentadas por aqueles que as empregam” (idem, p. 160), isso significa que as palavras adquirem sentido por meio das formações ideológicas e em relação à formação discursiva que determina “o que pode ou deve ser dito. Nesse sentido, Pêcheux (ibidem, p. 160-1) afirma que:

[...] as palavras, expressões, proposições, etc., recebem seu sentido na formação discursiva na qual são produzidas: retomando os termos que introduzimos acima e aplicando-os ao ponto específico da materialidade do discurso e do sentido, diremos que os indivíduos são “interpelados” em sujeitos-falantes (em sujeitos do seu discurso) pelas formações discursivas que representam na “linguagem” as formações ideológicas que lhes são correspondentes.

 Com essas palavras, o autor referenda a constituição do sujeito como posição e não como um indivíduo empírico, que se constitui como o centro, o responsável pelo que é dito, uma vez que o sentido não provém dele, mas da FD. Mais adiante o autor retoma a questão do sujeito, da ideologia e sentido afirmando que

[...] se uma mesma palavra, uma mesma expressão e uma mesma proposição podem receber sentidos diferentes – todos igualmente “evidentes” – conforme se refiram a esta ou aquela formação discursiva, é porque – vamos repetir – uma palavra, uma expressão ou uma proposição não tem um sentido que lhe seria “próprio”, vinculado a sua literalidade.

Pêcheux explica a relação sujeito/ideologia/sentido em relação às mesmas palavras/expressões/proposições significam diferentemente quando tomadas por uma formação discursiva distinta e também que palavras diferentes podem ter um mesmo sentido, dependendo da filiação do sujeito a domínios do pensamento, que (idem, p. 161-2)
[...] se constitui sócio-historicamente sob a forma de pontos de estabilização que produzem o sujeito com, simultaneamente, aquilo que lhe é dado ver, compreender, fazer, temer, esperar, etc. É por essa via, como veremos, que todo sujeito se “reconhece” a si mesmo (em si mesmo e em outros sujeitos) e aí se acha a condição (e não o efeito) do famoso “consenso” intersubjetivo por meio do qual o idealismo pretende compreender o ser a partir do pensamento.

A dimensão do sujeito e da ideologia na perspectiva discursiva pode ser vista quando ele afirma que “não há discurso sem sujeito e nem sujeito sem ideologia”, amarrando o sujeito ao ideológico ao discurso, por fim ao sentido, que junta tudo pela interpretação.
A segunda tese de Pêcheux (1997, p. 162) é que toda a formação discursiva dissimula, pela transparência do sentido que nela se constitui, sua dependência com respeito ao “todo complexo com dominante” das formações discursivas, intrincado no complexo das formações ideológicas [...]”. Esta segunda tese encaminha para o trabalho com a ideologia (formações ideológicas) e também com as formações discursivas e imaginárias, posto que todas se relacionam ao sujeito, formando uma rede conceitual importante.  
         A ideologia, no entanto, é um termo que não nasceu com Pêcheux, nem com Althusser e também não nasceu com Marx, que representa nesse campo teórico a origem desse termo. Segundo Löwy (2003, p. 10) o termo ideologia foi criado por Destutt de Tracy, que publicou em 1801 o livro Elements d´Ideologie para denominar a ciência cujo, como a gênese das idéias, as quais são, segundo ele são “o resultado da interação entre o organismo vivo e a natureza, o meio ambiente” (idem, p. 11).  Marx utilizou o termo no sentido político, segundo Marcondes Filho (1991, p. 15), “para tratar da luta existente entre a classe dos trabalhadores e a classe dos proprietários [...]” Com o processo histórico-social o termo assumiu diversas variações, portanto este trabalho apresentará principalmente o sentido corrente na AD, que provêm da releitura que Althusser fez de Marx. Centramos nossas reflexões no sentido dado por Michel Pêcheux e Eni Orlandi à releitura realizada por Althusser.
       Antes de Pêcheux o termo ideologia era utilizado para ocultar as divisões que se encontravam na sociedade e na política, invertendo os efeitos e as causas simulando realidades. Ela representava a relação entre formas invertidas (marxismo), ou seja, inversão de pensamentos que se originaram das contradições sociais que deveriam ocultar sua própria contradição.  A ideologia, nesse funcionamento, é a principal responsável pelo conjunto de idéias, conceitos, pensamentos e visões de mundo que prevalecem em uma sociedade, pois ela é encarregada de orientar as ações sociais, e principalmente política dos indivíduos ou grupos sociais, agindo através do convencimento mascarando a realidade.
        Com o surgimento de vários autores que a discutiram, este modo de pensar sofreu transformações. Pêcheux (1997) vai pensar nas relações entre discurso e ideologia, partindo das contribuições do materialismo histórico, mostrando o importante papel que a ideologia representa no processo de interdição dos sentidos no discurso, tomado “como efeitos de sentido entre os interlocutores”.
Orlandi (1996a, p. 31), como dizemos anteriormente, relê Pêcheux e se constitui no nome brasileiro que representa a Análise de Discurso de orientação francesa. Ela retoma os conceitos formulados pelo pensador francês e, muitas vezes, os transforma, para serem usados mais apropriadamente nos estudos discursivos da atualidade. Em relação à ideologia, ela afirma que

[...]  podemos dizer que não há discurso sem sujeito nem sujeito sem ideologia. A ideologia, por sua vez, é a interpretação de sentido em certa direção, direção determinada pela relação da linguagem com a história em seus mecanismos imaginários. A ideologia não é, pois, ocultação, mas a função da relação necessária entre linguagem e o mundo. [...] Há uma contradição entre mundo e linguagem e a ideologia é trabalho desta contradição.

        Nessa perspectiva, não é possível determinar os sentidos do discurso, pois depende do que já foi construído historicamente conforme a relação de poder assumido ou não pelo sujeito em relação à FD a que ele se assujeita. O funcionamento da ideologia depende dessa relação que determina o caráter material do sentido. Segundo Pêcheux (1997, p.146) pela relação da ideologia com a formação discursiva

[...] a instância ideológica existe sob a forma de formações ideológicas (referidas aos aparelhos ideológicos de Estado), que, ao mesmo tempo possuem um caráter “regional” e comportam posições de classe: os “objetos” ideológicos são sempre fornecidos ao mesmo tempo que a “maneira de se servir deles” – seu “sentido”, isto é, sua orientação, ou seja, Os interesses de classe aos quais eles servem – o que se pode comentar dizendo que as ideologias são práticas de classes (luta de classes) na Ideologia.

       Pêcheux na citação acima destaca a regionalização do funcionamento das ideologias, no sentido de que cada formação social mantém diferentes tipos de relações dentre elas: religião, escola, política, mas essas relações não são, segundo Pêcheux (idem, p. 146), abstratas, ao contrário, por serem regionais, elas realizam-se concretamente e pelas “relações de desigualdade-subordinação entre essas regiões que constituem a cena ideológica de classes”.
        As formações sociais são hierarquizadas e nelas existe o que domina e o que é dominado.  Os indivíduos por ocuparem “posições” nos grupos sociais são interpelados em sujeitos pela ideologia. De acordo com Pêcheux (idem, p. 153) a ideologia constitui evidências. Para ele

Como todas as evidências, inclusive aquelas que fazem com que uma palavra `designe uma coisa´ ou `possua um significado´  portanto inclusas as evidências de `transparência´ da linguagem), a evidência de que vocês e su somos sujeitos – e que isto não constitua um problema – é um efeito ideológico, o efeito ideológico elementar.


       Os discursos em geral (políticos, religiosos, entre muitos outros) constituem-se pela evidência de realidade, pela inscrição do sujeito a FD´s.  Para Orlandi ( 1996a, p. 48)

A ideologia, aqui, não se define como conjunto de representações, nem muito menos como ocultação da realidade. Ela é uma prática significativa; sendo necessidade de interpretação, não é consciente - ela é efeito da relação do sujeito com a língua e com a história em sua relação necessária, para que se signifique. O sujeito, por sua vez, é o lugar historicamente (interdiscurso) constituído de significação.

        Mesmo que um sujeito não pertença à determinada classe social, ele pode através do discurso evidenciar uma identificação ideológica com essa classe. Isso ocorre porque o sentido não existe em si, mas se constitui a partir das posições ideológicas colocadas em jogo no processo sócio-histórico de produção do discurso.
        Discursivamente, a ideologia aponta para a necessidade de atribuições de sentido e interpretações, é através da interpretação que os sentidos se materializam. Nesse funcionamento, o sujeito constituído pela ilusão de ser a fonte do sentido direciona o dizer de forma a atingir o outro, por meio do qual se significa e é significado. O sentido, portanto, existe através do sujeito e do seu assujeitamento a uma FD, que se concretiza na ligação da língua na história.


1.2 Formação Discursiva e Formação Imaginária


           Segundo Indursky (2007, p. 163), com a obra Arqueologia do Saber, na qual Foucault (1969) diz que a formação discursiva, doravante trataremos como FD, “se estabelece a partir de determinadas regularidades do tipo ordem, correlação, funcionamento e transformação. As regras de formação determinam condições de existência, coexistência, modificações e desaparecimento de uma repartição discursiva dada”.
No mesmo ano Pêcheux busca estabelecer as bases da disciplina AD com a obra “Análise Automática do Discurso”, na qual retoma essa noção, transformando-a. Para Pêcheux (1997a, p. 166-7)

[...] as formações ideológicas [...] comportam necessariamente, como um de seus componentes, uma ou várias formações discursivas interligadas que determinam o que pode ou deve ser dito [...] a partir de uma determinada posição em uma dada conjuntura, isto é,  numa certa relação de lugares no interior de um aparelho ideológico, e inscrita numa relação de classes. Diremos então, que toda a formação discursiva deriva de condições de produção específicas, identificáveis [...]


Isso significa que a FD, desde o início relaciona formação ideológica e posição-sujeito em relação ao discurso e às condições de produção. Para ele a FD existe no interior das relações de classes e fornecem elementos para a constituições de novas FD´s e com elas novas relações ideológicas.  A dificuldade encontrada nesse conceito se refere às fronteiras existentes entre FD´s, as quais parecem ser fechadas, estanques, ficando difícil saber onde termina e onde tem início uma nova FD.
Em 1975, Pêcheux (1997) retoma essa noção e a relaciona ao interdiscurso, enquanto memória. Passa a ver a FD em relação aos modos como o sujeito se identifica à forma-sujeito. Destaca que o sujeito desdobra-se em dois, um que é responsável pelo que é dito e corresponde ao sujeito da enunciação, o locutor, que diz eu e a “quem é atribuído o encargo pelos conteúdos colocados” – portanto o sujeito que “toma posição” com total conhecimento de causa, total responsabilidade, total liberdade, etc (idem, p. 214)”. O segundo termo representa o sujeito universal “sujeito da ciência ou do que se pretende como tal”. Trata-se do sujeito com “S” maiúsculo, que corresponde ao interdiscurso, ao que todo mundo sabe.
A partir desses desdobramentos, o autor coloca três modalidades de identificação entre o sujeito e a FD, ou à forma-sujeito. A primeira modalidade refere-se ao bom-sujeito é determinado pelo sujeito universal e aceita plenamente os saberes e dizeres que constituem o interdiscurso. A segunda modalidade é a do “mau-sujeito”. No discurso o sujeito da enunciação ou o locutor,

[...] toma posição que consiste, desta vez, em uma separação (distanciamento, dúvida, questionamento, contestação, revolta) com respeito ao que “o sujeito universal lhe dá a pensar”, luta contra a evidência ideológica, sobre o terreno dessa evidência, evidência afetada pela negação, revertida em seu próprio terreno.


        Para Indursky (2007, p. 168) a segunda modalidade de identificação, que caracteriza a contra-identificação é importante, “pois é através dela que são introduzidas as diferenças e as divergências no âmbito da formação discursiva”. O mau-sujeito contrapõe-se, mas permanece na mesma FD. Isso significa que não há unanimidade e que o mesmo sujeito pode ocupar várias posições e também que ele não é cego a determinações.
Essa segunda modalidade de identificação coincide, segundo a mesma autora, com o conceito de interdiscurso, como exterioridade. Dentro da AD, as FD´s reiteram  sentidos, mas, necessitam do sentido outro para que estabeleça o sentido mesmo. Uma FD não existe sem o outro, e esse outro, segundo Pêcheux (idem) é o seu exterior.  Pêcheux (1997, p. 216) reitera que “aquilo que definimos como interdiscurso continua a determinar a identificação ou a contra-identificação do sujeito com uma FD, na qual a evidência de sentido lhe é fornecida, para que ele se ligue a ela ou a rejeite”.
A terceira modalidade de identificação funciona como desidentificação com as organizações políticas próprias da FD.  Pêcheux (idem, p. 217) diz que essa terceira modalidade caracteriza “uma tomada de posição não-subjetiva” que acarreta a não aceitação daquilo que é determinado pelo sujeito universal. Assim, o sujeito rompe com a FD, constituindo o que o autor chama de transformação-deslocamento, que o faz migrar para outra FD. Segundo Pêcheux (idem, p. 217) [...] esse efeito de desidentificação se realiza paradoxalmente por um processo subjetivo de apropriação dos conceitos científicos e de identificação com as organizações políticas de tipo novo.
        A segunda e a terceira modalidades de identificação sinalizam para o fato de que a FD possui outras formações discursivas com as quais dialoga para a manifestação de uma ideologia e é através dela que se pode chegar onde o sujeito pretende , ela direciona os sentidos, funcionando como intermediária da língua e do discurso.
        Pêcheux conceitua FD como o que pode e deve ser dito numa FI, que é determinada por certas posições sociais. Desse modo, pode-se conhecer o cruzamento e o domínio dos discursos. Segundo Pêcheux (1997, p. 314) [...] na medida em que o dispositivo da FD está em relação paradoxal com seu exterior: uma FD não é um espaço estrutural fechado, pois é constitutivamente inválida por elementos que vem de outro lugar”.
        Os significados das FDs são determinados pelo exterior em sua relação com o interdiscurso, sozinha ela não traz sentido, necessita que já exista algo formulado, já dito, que vem através da historicidade do texto.   Conforme Pêcheux (1997 p.160)

As palavras, expressões, proposições, etc..., mudam de sentido segundo as posições sustentadas por aqueles que as empregam, o que quer dizer que ela adquirem seu sentido em referências às formações ideológicas [...] nas quais essas posições se inscrevem. Chamaremos, então, formação discursiva aquilo que, numa formação ideológica dada, isto é, a partir de uma posição dada numa conjuntura dada, determinada pelo estado de luta de classes, determina o que pode ser dito [...]

         Os sentidos constituem-se por meio de outras palavras já existentes na memória, ditas por alguém em algum lugar e tempo da história. Dessa forma não se pode distanciar o sujeito da história e da ideologia juntamente com a relação que ele possui com a língua, as palavras são perpassadas pela história possuindo sentidos diferentes.
        Segundo Pêcheux (1997, p.162)

(...) toda formação discursiva dissimula, pela transparência de sentido que nela se forma, a objetividade material contraditória do interdiscurso que determina essa formação discursiva como tal, objetividade material essa que reside no fato de que “algo fala” (ça parle) sempre “antes em outro lugar e independentemente”, isto é, sob a dominação do complexo das formações ideológicas.

         Destaca-se nesta citação de Pêcheux (idem, p. 162) que a FD tem uma dependência ao interdiscurso, como a memória que retorna ao eixo da formulação, o fio do discurso. Nesse sentido, o autor mostra a interdependência entre sujeito, formações ideológicas e formações discursivas e de todas elas com o interdiscurso, por ele denominado como a “memória do saber”. Conclui dizendo:

[...] o funcionamento da ideologia em geral como interpelação dos indivíduos em sujeitos (e, especificamente, em sujeitos do seu discurso) se realiza através do complexo das formações ideológicas (e, especificamente, através do interdiscurso intrincado nesse complexo) e fornece “a cada sujeito” sua “realidade”, enquanto sistema de evidência e de significações percebidas - aceitas – experimentadas.

Com essa citação encaminhamos para as questões da memória, que constituem os discursos, os sujeitos e o sentido, pelas implicações resultantes da relação entre as formações (ideológicas, discursivas e imaginárias).  
Pêcheux (1997a) aborda as formações imaginárias e diz que “o que funciona nos processos discursivos é uma série de formações imaginárias que designam o lugar que A e B se atribuem cada um a si e ao outro, a imagem que eles se fazem do seu próprio lugar e do lugar do outro”. Trata-se de projeções imaginárias, segundo Orlandi (2002, p. 38) que “permitem passar das situações empíricas – os lugares dos sujeitos – para as posições dos sujeitos nos discursos. Essa é a distinção entre lugar e posição.” Discursivamente não são os lugares, mas as posições do sujeito na formação social que determinam o dizer. No discurso, essas posições são determinadas pelo funcionamento da língua, cujas regras possibilitam a passagem do empírico para o discursivo. Orlandi (idem, p. 38) diz que

[...] mecanismos de funcionamento do discurso repousam no que chamamos de formações imaginárias. Assim, não são os sujeitos físicos nem os seus lugares empíricos como tal, isto é, como estão inscritos na sociedade, e que poderiam ser sociologicamente descritos, que funcionam no discurso, mas suas imagens que resultam de projeções.


    Nesse sentido, as imagens que o sujeito faz de si mesmo e do outro constituem as diferentes posições. Em nosso Corpus, não é o Cazuza, como pessoa, que compõe determinadas músicas e diz o que diz, mas o lugar que ele ocupa na FD. Essa posição advém da imagem que ele tem dele mesmo e daqueles que ouvem e cantam suas músicas, a partir da pergunta “Quem sou eu para lhe falar assim?”. Ao mesmo tempo, o autor constitui uma imagem de si mesmo, ele institui o outro e projeta uma imagem desse outro, pela questão “quem é ele para me falar assim ou para que eu lhe fale assim?”. São essas projeções que autorizam e legitimam os dizeres e determinam os sentidos.
    

1.3 Funcionamento da memória: Interdiscurso e intradiscurso


        Ao reconhecer que a FD é o lugar que se constrói os sentidos, aquilo que, uma formação ideológica determina o que pode e deve ser dito, considerando o interdiscurso o já dito, o que se fala antes em algum lugar,  que vai dar  sentido as palavras, sua formulação acontece por meio do que a memória discursiva determina como elementos do saber. Pode-se afirmar que o interdiscurso é o lugar da formação do pré-construído, pois uma palavra só terá sentido se ela já tiver sentido, e isso fica por conta do inconsciente e da história que se relaciona com a língua.
        Segundo Pêcheux (1997, p.166-167)

O interdiscurso enquanto discurso transverso atravessa e põe em conexão entre si os elementos discursivos constituídos pelo interdiscurso enquanto pré-construído que fornece, por assim dizer, a matéria-prima na qual o sujeito se constitui como ‘sujeito-falante’, com a formação discursiva que o assujeita.

        Esta relação do interdiscurso com a FD é inseparável , pois é na FD que se constitui o sentido e também o lugar de determinação do sujeito, o interdiscurso tem o poder de construir efeitos de sentido, juntando a posição dos sujeitos, cujos discursos são atravessados por ideologias em torno de uma questão social.
        O interdiscurso é parte das condições de produção do discurso e determina os dizeres a partir da relação do sujeito com a língua e a sua história, por meio da ideologia. Orlandi (2002, p.47), “afirma que a ideologia no discurso é vista não como ocultação, mas como “relação necessária entre linguagem e mundo”.
        A noção de interdiscurso se define a partir de uma exterioridade que vai se constituindo, Possibilita o trabalho de re – significação do sujeito através do que já foi dito, como se fosse um conjunto de formulações esquecidas que vão determinar o que se diz.  É lugar, onde há a repetição e funciona o sujeito universal. Segundo Pêcheux (1997, p. 216) “o interdiscurso continua a determinar a identificação ou a contra-identificação do sujeito com a formação discursiva [...]”. Ele entra em funcionamento no intradiscurso, fio do discurso, como memória, “aquilo que todo mundo sabe” e regula a partir das FD´s o sentido e as formas de identificação do sujeito.
    Segundo Orlandi (2002, p. 33) “o interdiscurso é todo o conjunto de formulações feitas e já esquecidas que determinam o que dizemos. Para que minhas palavras tenham sentido é preciso que elas já façam sentido. E isto é efeito do interdiscurso [...] É por isso que se concebe o sujeito como posição e se diz que ele não é o centro do dizer, pois tudo o que ele diz, já foi dito antes. No interdiscurso, entretanto, os dizeres não são imputados a um sujeito, mas a anônimos. Trata-se de conhecimentos já-dados como tal. Ainda segundo a mesma autora (1996b):

 o interdiscurso “fornece a cada sujeito a sua “realidade” enquanto sistema de evidências e de significações percebidas-aceitadas-experimentadas”. Aí se explica o processo de constituição do discurso: a memória, o domínio do saber, os outros dizeres já ditos ou possíveis que garantem a formulação (presentificação do dizer), sua sustentação. Garantia de legibilidade e de interpretação [...]

    O intradiscurso corresponde ao fio do discurso, aos sentidos que aparecem na materialidade do discurso. Nele está a memória, enquanto interdiscurso e também a atualidade.  O interdiscurso constitui a memória e o intradiscurso é o lugar material dessa memória, onde ela se transforma em discurso, em materialidade que pode ser liga e interpretada.
            A história existe a partir das relações de poder ligada às práticas sociais e, a historicidade é o modo que a história se inscreve num determinado discurso. A historicidade garante a discursividade, isto é, a relação do entre o texto e trama dos sentidos que existe nele.
Um mesmo acontecimento histórico pode ser retomado diferentemente e também significar diferentemente. O sentido recuperado depende dos sujeitos e da inscrição deles a redes de memória. Isso significa que podemos encontrar sentidos diferentes nos discursos, é pela enunciação que outro sentido pode surgir no momento em que o sujeito interpreta através da história.
        Segundo Orlandi (1996a, p.56) “Pela análise da historicidade do texto, isto é, do seu modo de produzir sentidos, podemos falar que um texto pode ser – e na maioria das vezes o é efetivamente – atravessado por várias formações discursivas.”. A historicidade encontra-se nas entrelinhas de um discurso que nos possibilita a discursividade, os efeitos de sentido. Pode-se afirmar, conforme Orlandi (1996a, p. 57) que “a historicidade é função necessária do sentido no universo simbólico.”











2    CORPUS E CONDIÇÃO DE PRODUÇÃO




       Sabe-se que dentro da AD a língua não pode ser estudada separadamente de suas condições de produção, pois seus processos sofrem influências da historicidade que se modifica com o tempo. A primeira definição foi feita em 1969 por Pêcheux. Nesse texto (Pêcheux 1997a) ele diz que as condições de produção partem das regras e ações que os interlocutores estabelecem entre si, juntamente com uma série de informações imaginárias, isto é, a imagem que fazem do seu próprio lugar e do outro, e a imagem que os inter¬locutores fazem do referente, em que ele assume posições diferentes.
       Nessa perspectiva, as condições de produção se constituem no processo de enunciação, e são influenciadas pela ideologia que traz o contexto, portanto é preciso explorar o que já foi dito, buscando na historicidade os efeitos de sentido.  As condições de produção compreendem os sujeitos e a situação.  Segundo Pêcheux (1997, p.84),“as condições de produção do discurso fundam a estratégia do discurso” e estes elementos dão coerência à seqüência discursiva produzida.
Orlandi (2002, p. 30), sustenta que as condições de produção podem ser consideradas de duas maneiras: “em sentido estrito, e temos o contexto imediato; em sentido amplo, e temos o contexto sócio-histórico, ideológico”. O interdiscurso recobre o contexto sócio-histórico, em relação ao sentido e ao discursivo. Significa em relação aos discursos que retornam e às palavras, que segundo Orlandi “falam com outras palavras”.
         Neste capítulo, apresentamos um percurso da vida e da história de Cazuza. Fazemos isso porque entendemos que as condições de produção do discurso em sentido restrito, ou seja, a sua formulação e também em sentido amplo, as condições sócio históricas de sua produção, constituem o sentido, podendo a partir deles detectar os procedimentos discursivos de formulação do discurso.



2.1 Cazuza

        Nasceu no Rio de Janeiro no dia 4 de abril de 1958 com o nome de Agenor Miranda de Araújo Neto, mas ficou conhecido nacionalmente por Cazuza. Na definição do dicionário, "cazuza" é um vespídeo solitário, de ferroada dolorosa. Deriva daí, provavelmente, o outro significado que o termo tem no Nordeste: o de moleque. Foi por isso que João Araújo, de ascendência nordestina, certo de que sua mulher Lúcia teria um menino, começou a chamá-lo de Cazuza, mesmo antes de seu nascimento.
         Cresceu em Ipanema, habituado à praia. Os pais - ele, divulgador da gravadora Odeon; ela, costureira - não eram ricos mas o matricularam numa escola cara, o colégio Santo Inácio, dos padres jesuítas. Como às vezes tinham que sair à noite, o filho único se apegou à companhia da avó materna, Alice. Quieto e solitário, foi um menino bem-comportado na infância.  
        Teve dificuldade para descobrir que seu negócio era música. Antes de fazer sucesso foi funcionário da Som Livre, fez cursos de fotografias, trabalhou em peças teatrais. E foi exatamente em um espetáculo teatral, "Pára-quedas do coração" que se viu fazendo o que queria: cantar.
        No ano de 1981, conheceu Freját, Dé, Maurício Barros e Gutti Goffi que estavam procurando um vocalista para a formação da banda Barão vermelho. Surgia aí, um novo vocalista e uma nova banda. De início foi uma produção barata, mas agradou Caetano Veloso que veio a gravar “Tudo que Houver nessa vida”, música do primeiro álbum do Barão Vermelho.
        Desde o início da banda, Cazuza já começava a delinear um grande letrista e também cantor. Com sua rebeldia e seu lado bissexual assumido, nascia um novo poeta que em suas letras falavam de dores, sofrimentos e paixões, causando intenso impacto na população.
        Em 1983, foi lançado o segundo álbum, “Barão Vermelho 2”, vendeu mais que o anterior mas não fez tanto sucesso. A atenção estava focalizada no grupo. Cazuza e Frejat estavam se consolidando, tanto que Ney Matogrosso estrela nacional gravou a música da banda “Pro dia nascer feliz”,
        Mas o sucesso mesmo veio mais tarde com a música “Bete Balanço”, no terceiro disco da banda, “Maior Abandonado”, este vendeu mais de 60 mil cópias.
         Em 1985, Cazuza resolve seguir a carreira solo. No final do mesmo ano ele lança o CD “Cazuza”, tem uma ótima aceitação do público, seus shows mais elaborados fizeram com que o público reconhecesse seu valor. Nesse mesmo tempo descobre sua doença, vírus da Aids.
        Em 1987 foi para Boston realizar seu tratamento com AZT. Na sua volta gravou o disco “Ideologia” onde falava de suas experiências com a perspectiva da morte e ainda tocava em assuntos relacionados a questões sociais do país. No ano seguinte ganha o prêmio SHARP como melhor cantor de pop-rock e de melhor música pop-rock. O show "Ideologia", dirigido por Ney Matogrosso viaja por todo o país, vira um programa na Rede Globo e é gravado para ser transformado em um disco, "Cazuza ao vivo, o tempo não pára". Este disco vende mais de 560 mil cópias e é o registro dos maiores sucessos de sua carreira.
        Em 89 gravou o álbum duplo "Burguesia" que viria a ser seu último registro musical.
        De acordo com os críticos musicais, Cazuza foi a maior novidade dos anos 80, surpreendeu a música popular brasileira, num português atual e espontâneo, cheio de gírias, e num estilo marcadamente pessoal, a poesia típica do rock.
        Sua ideologia era de mudança. Nada de partido político. Era coisa de mudar o Brasil, em qualquer dimensão. Morreu de Aids no Rio de Janeiro, em 7 de julho de 1990, com 32 anos de idade.
        Enfim, Cazuza foi o representante daqueles que acreditam que valia a pena viver seguindo apenas suas próprias regras.
Neste texto buscamos analisar discursivamente suas canções. Recortamos três músicas suas. Elas foram produzidas no ano de 1988, durante um período que o  Brasil saía de um longo ciclo ditatorial e vivia um clima de democracia ainda incipiente, mas suficiente para liberar as energias contidas. A primeira música a ser analisada é “Ideologia!”, logo, “Brasil” e finalizando “O tempo não pára”.  




2.2  Contexto social, político e cultural

       Na perspectiva discursiva, especificamente para a AD, a linguagem só se realiza quando inserida em um contexto histórico-social. Para entender um discurso, é necessário que se leve em conta suas condições de produção, sua exterioridade que se dá pelo funcionamento da memória, como interdiscurso, o que todo mundo sabe e pelo intradiscurso, a formulação. Segundo Orlandi (1996b, p. 197)

(...) ao explicitar o funcionamento desse fenômeno lingüístico a que chamamos discurso, ao mostrarmos como um texto funciona, o analista de discurso fornece subsídios metodológicos para a prática de produção e leitura. Sem esquecer que o traço fundamental desse funcionamento é a relação do texto com outros textos, com a situação, com os interlocutores, ou seja, com suas condições de produção.


        Para analisar um discurso, não se deve pensar apenas naquele texto, mas sim, nos outros textos que se encontram nas entrelinhas através da história. Assim, nas músicas “Ideologia”, “Brasil” e “O Tempo não pára”, buscaremos os efeitos de sentido, pelas condições de produção, que incluem as FD’s, ideológicas e imaginárias, bem como a relação com a exterioridade pelo interdiscurso. Neste último constitui-se pela historicidade ligada aos acontecimentos da época no Brasil, que constituem a memória na formação social, aquilo que significa antes e que não é imputado a um sujeito, mas a uma voz, dita sem nome.
        As letras das canções foram produzidas no período do fim da ditadura e da abertura da democracia. Fatos históricos, políticos que nos levam a questionar o que levou o autor a escrever sobre esses fatos sociais que marcaram este período, principalmente na Música Popular Brasileira.
        Na letra da primeira canção a ser analisada, “Brasil”, faz um ataque direto a classe dos anos 80 que viva o paraíso na terra da ditadura. A segunda música a ser analisada é “Ideologia” que traz em seu discurso a situação do País na época.  E por fim a análise da música “O tempo não para” período este que coincide com o pós – modernismo, sendo que, as duas primeiras contêm no álbum “Ideologia”, e a última no álbum “O tempo não para”, lançados em 1988.
        Será possível, através destas canções, refletir principalmente a década de 80 através dos enunciados do autor que nos apresenta fatos sociais, históricos e ideológicos através de seus discursos.
        Não basta apenas uma letra de música para que surjam efeitos de sentidos, é necessário todo um contexto determinado pelo seu autor através do modo como ele vai passar ao público, nessas canções pode-se perceber que o autor tentou transmitir a sociedade o seu sentimento de luta e revolta, mas acima de tudo amor pelo seu país, que poderá ser visto mais adiante durante as análises.
      
2.2.1 Ditadura militar

        Durante o período ditatorial no Brasil (1964-1985), após a derrubada de João Goulart, o país encontrava-se numa situação caótica, apresentava uma inflação muito grande e uma má distribuição de renda.   Foi uma época de estagnação política e cultural, um campo fértil de preconceitos. Confrontos entre os movimentos populares e conservadores, com a vitória dos conservadores, foi decretado o golpe militar.
        As autoridades que assumiram o governo, decretaram que a eleição para presidente seria indireta, e o direito de governo seria válido por 10 anos.
        Em 11 de abril de 1964, Humberto de Alencar Castelo branco assume o governo após ser eleito pelo congresso. De início anulou qualquer ato do governo anterior e decretou que qualquer um que se opor a isso irá ser punido, cassou os direitos políticos de mais de 300 pessoas além de demitir mais de 10 mil funcionários públicos.
        Passaram pelo poder do regime militar: Arthur da Costa e Silva (1967-1969), Ernesto Geisel (1974-1979) e João Baptista Figueiredo (1979-1985). Os principais objetivos desses governantes foram: levar o Brasil a grande crescimento econômico, controlar a inflação, diminuir as diferencias de desenvolvimento das regiões, diminuir o déficit da balança de pagamentos, incentivar a exportação e atrair capitais estrangeiros.  Porém, não tiveram muito sucesso, o déficit da balança e as diferenças regionais não diminuíram e também, a inflação chegou a 223% no ano de 1984 no governo de Figueiredo.
        Durante este período, houve aumento de multinacionais no Brasil, e junto, graves situações, pois os estrangeiros levavam mais dólares do que traziam, desenvolviam seus projetos com o dinheiro do povo Brasileiro. Assim o governo teve que editar atos constitucionais para que pudesse contornar esta situação. O ato mais repressivo foi visto pelos jovens como o fechamento de resistência pacífica ao regime.  Políticos, estudantes e trabalhadores ficaram contra o governo e lutaram contra essa repressão.
        Em qualquer movimento de rebeldia e contestação que acontecesse, o responsável era punido com a censura, tortura, expulsão, perda de direitos e até a morte. Com isso a imprensa e as artes foram impedidas de manifestações culturais.
        Durante 10 anos foram imensas as manifestações para que acontecesse a abertura que teve início em março de 1974 no governo de Ernesto Geisel com a proposta de um “aperfeiçoamento democrático”.
        Em 1979 Figueiredo assume o governo e continua esse processo de abertura, iniciando com o processo de anistia (instrumento de redemocratização), que possibilitou a volta de inúmeros exilados.
        Após muitos protestos e lutas populares, no ano de 1982 o povo volta a escolher seu governo. Mas, somente em 1989 voltou a normalidade democrática que elegeu Fernando Collor de Mello. Seu plano visava diminuir o consumo, assim acreditava que o povo gastaria menos e então haveria uma queda nos preços. Também queria dar abertura na economia, baixando as tarifas de exportação, além de diminuir o déficit através de uma reforma administrativa com a ajuda das privatizações das estatais. Mas seus planos fracassaram, perdeu a confiança e em dezembro de 1992 sofreu impeachment e renunciou a presidência, assumida por Itamar Franco.

2.2.2 Milagre Econômico

        Milagre econômico surgiu durante o período ditatorial entre os anos de 1969 e 1973. O crescimento econômico teve um grande salto após o governo de Juscelino Kubitschek entre 1956 e 1961 com o Plano de Metas.
        O plano de metas focalizava em diversos setores: no setor de energia, a ampliação do fornecimento; no transporte, pretendia ampliar e melhorar as estradas de rodagem e estímulo às montadoras de automóveis; na alimentação maiores investimentos no setor de alimentos para aumentar a oferta; nas indústrias de base maiores investimentos no setor; na educação queria melhoria e ampliação do ensino público; e também a construção de Brasília, incentivo ao desenvolvimento do Brasil centra.
        Mesmo não conseguindo cumprir com todas essas metas propostas por ele, a economia do país teve um grande crescimento, anunciando uma tentativa de resolver os problemas que incomodavam o país. Instaurou-se no país um pensamento de Brasil potente, que se fortalece com a conquista da terceira copa do mundo no México em 1970, levando todos acreditarem nessa hipótese de poder no Brasil.
      
2.2.3 Música Popular Brasileira (MPB)

        Segundo o 12º Centro Regional de Desenvolvimento da Educação e
Núcleo de Tecnologia Educacional de Quixadá no Ceará , a música brasileira teve início a partir de 1500, apesar de os índios já terem sons musicais tempos antes. O primeiro músico de renome e da maior importância na evolução da música brasileira foi Francisco de Vacas (1530-!590), morador do Espírito Santo, natural de Portugal.
        A partir do século XVIII, a modinha abrasileirada encantava a corte com suas melodias. Por volta de 1870, os violões e cavaquinhos deram um toque de Brasil nas melodias européias, surgindo o choro, destacando Joaquim Antonio Calado, Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga.  No século XX surgiram diversos grupos de choro, os mais famosos grupos foram  os de Benedito Lacerda e Pixinguinha. Ainda no início do século XX, surgiram as bases do samba, o carnaval começa a se formar. O primeiro samba foi composto por Ernesto dos santos, juntamente com a primeira gravação de Pixinguinha.
        A partir de 1958 inicia a Bossa Nova, um estilo sofisticado e suave, tendo destaque Elizeth Cardoso, Tom Jobim e João Gilberto. A Bossa Nova avança e faz sucesso fora do Brasil.
        A Música Popular Brasileira (MPB) surge num momento de declínio da Bossa Nova com a música de Vinícius de Moraes “Arrastão”.
        Graças a grandes eventos da música popular brasileira surgem também diversos nomes da MPB como: Milton Nascimento, Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso etc...  Ela teve início  com um perfil marcadamente nacionalista, mas foi mudando e incorporando elementos de procedências várias, até pela pouca resistência, por parte dos músicos, em misturar gêneros musicais. Neste mesmo período surge a Jovem Guarda, apontando como principais cantores Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléia. Após o golpe de 64, a música de protesto obteve muito sucesso, pois ela dizia a verdade da realidade brasileira. Caracterizava-se pela inconformidade e pela agressividade.
        Segundo Miranda (2004, p.69)

Talvez não seja exagerado afirmar que o fim da ditadura militar e a passagem ainda tortuosa para a ordem democrática marcam, na esfera da música popular, uma tomada de consciência muito peculiar das nossas desilusões históricas, fixada que está na reflexão sobre as relações interpessoais e de poder no âmbito da vida cotidiana.

        Posteriormente em 1967 surgiu o Tropicalismo, movimento este inspirado na exposição da Tropicalha do artista plástico Hélio Oiticica no museu do Rio de Janeiro. Segundo Villaça (2004, p.144) o movimento surgiu a partir das idéias de Caetano e Gilberto Gil

O salto para que o grupo baiano abraçasse a idéia de ser tropicalista foi impulsionado pelo entusiasmo de Caetano e Gilberto Gil ( que nutriam o desejo declarado de revolucionar a música popular) e pelos estímulos dos artigos e manifestos que criaram uma expectativa diante do nome e definiram como sendo traços principais a intenção de expor as contradições do país, o deboche, o discurso fragmentário, a utilização da colagem e da alegorização entre moderno e arcaico, local e universal, etc.

        As letras das canções do período do Tropicalismo, fundiam com a tradição da MPB, as canções apresentavam um modo diferente de ver o Brasil, deixavam de lado o discurso explicitamente político.  
        O discurso pós-moderno invertia conceitos como a “Tradição, Família e Propriedade”. Questionavam também diversas rotulações, preconceitos e ufanismo.
        A partir da década de 70 diversos músicos iniciaram sua carreira de sucesso como: Gal Costa, Alceu Valença, Elba Ramalho, Djavan, etc...
        No ano de 1980 inicia-se o sucesso de outros estilos musicais como o rock, o punk e a New Wave. A temática desses estilos musicais era forte, com temas sociais marcantes. Surgem então, grandes nomes da MPB: Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Titãs, Ira, Barão Vermelho, Cássia Eller entre tantos outros.
        A música foi um dos principais elementos de expressão cultural da década de 80, pois as letras das canções traziam contestações e inconformismo da sociedade, fazendo através da música, uma reivindicação levando o povo brasileiro a repensar a situação política e social do país.
        O gênero predominante dos anos 80 foi o rock, mostrava através de seus sons de guitarra sentimentos de milhares de jovens e também da classe média., conquistando assim o mercado brasileiro.
        O rock tornou-se a música de uma cultura pós-moderna, sem regras para tentar expressar o que sente, questionando valores, estilos e formas de pensar e de agir.
        A MPB criou letras alienadas, idealistas e românticas. Neste mesmo tempo acontecia no Brasil a campanha Diretas-Já que foi um movimento de redemocratização do país, e tem seu auge com o Plano Cruzado e era Collor, e que trouxe grandes movimentos de protestos políticos e sociais. Esse recorte privilegia a idéia de que o rock “oitentista” andou lado a lado com as esperanças de transformação do país com a abertura democrática.
        A partir do ano de 1990 há um grande crescimento da música sertaneja com as duplas Chitãozinho e Chororó, Zezé di Camargo e Luciano, entre outros. Nesta mesma época destacam-se no cenário do rap: Gabriel O Pensador, O Rappa, Planet Hemp, Pavilhão 9 etc...
        O século XXI inicia com Charlie Brow Jr, Skank, Cpm 22 e diversas outras bandas de rock que trazem na sua temática assuntos voltados aos adolescentes.
       O Brasil na década de 80 vivia ainda sob forma da ditadura.   Esta década foi marcada pelas manifestações populares, multidões saíam às ruas para manifestar seus direitos e suas vontades.  Pode-se dizer que um dos mais importantes acontecimentos foi a manifestação “Diretas Já” que tomou conta do Brasil. Multidões de todos os estado brasileiros foram as ruas pedir por eleições diretas para presidente.
        Outro movimento de grande efervescência foi na música, principalmente nas bandas de rock que tinham como objetivo encontrar uma maneira nova de ser jovem conhecido como rock “Geração Coca-Cola”.
        Mas, o grande acontecimento que encerrou a década foi a vitória do movimento “Diretas Já”, o povo pode votar para presidente, trazendo de volta a democracia depois de mais de 20 anos.
        Foram anos marcados de um lado com muita luta e esperança e de outro a descrença, pois foram anos e anos de silêncio e repressão perdendo aos poucos suas esperanças de um Brasil melhor.
        





















3 ESTUDO DO CORPUS : ANÁLISE DAS MÚSICAS



        As letras das canções, objeto de estudo, foram escolhidas de acordo com os períodos relatados anteriormente. Pode-se perceber, nas letras das músicas em questão que o sujeito declara uma certa indignação diante dos fatos acontecidos no Brasil a partir de 1964. Fica claro em seus discursos, a sua luta por um Brasil melhor distante da ditadura, uma sede de um Brasil democrático, distante da desigualdade e exclusão social, que é possível perceber através da linguagem a sua ideologia.
        A idéia dessas manifestações encontradas nas músicas, é a de “luta”, no caso pela democracia, pelos direitos de cidadão e por um Brasil melhor, o sujeito nos remete a pensar que o Brasil se encontra defasado pelo poder.
        Assim, pode-se perceber que o sujeito, o discurso e as formações discursivas estão juntas para que se forme um sentido. Neste caso, esta relação nos leva a crer que o sujeito deste discurso estava interpelado pela formação ideológica relacionada à mudança de um Brasil comandado pelos que tinham mais poder, para um Brasil democrático, distante de preconceitos e de desigualdades, pois através desta luta por melhorias encontrada em seu discurso pode-se perceber o amor pelo seu país.
        As condições de produção levam-nos a refletir tais realidades que passam a dar sentidos ao discurso, mostrando nas letras das músicas que o sujeito pelo funcionamento da ideologia constitui uma realidade, que possibilita visualizar a formação social, dando-nos a impressão de que não há relação com o exterior e de que o discurso encaminha apenas para um sentido. No entanto, esses sentidos, de acordo com Pêcheux (1997) sempre podem ser outros, depende da inscrição do sujeito.
        Assim, analisaremos as músicas conforme as seqüências discursivas (SD) a seguir, primeiramente as músicas do álbum Ideologia que são: “Ideologia” e “Brasil”, logo a música do segundo álbum “O tempo não pára”, intitulada:”O tempo não pára”.



3.1 Álbum “Ideologia” – 1988


















         Este álbum lançado em 1988, intitulado com nome de uma das músicas compostas por Cazuza e Frejat chamada “Ideologia”, disco esse de cunho político que gerou grande polêmica, até mesmo sua capa era muito comentada pois misturava suásticas (símbolo místico, no Brasil seu uso é considerado crime (para fins nazistas) com estrelas de David (vem da expressão Mage David que significa proteção durante combates). Foi o primeiro trabalho do autor após descobrir o vírus da Aids.

3.2 Álbum “O Tempo não para”- 1988











       Também no ano de 1988, Cazuza lança o disco intitulado “O tempo não pára”, título de uma música que contém neste álbum. Mostra Cazuza já fragilizado pela doença, mas com força para lutar pela vida.

3.3 Análise da música Ideologia
       
         Primeiramente analisaremos a música Ideologia composta por Cazuza e Frejat no ano de 1988. Na letra desta canção, há evidências de que o sujeito que se responsabiliza pelo dizer faz parte de uma geração de jovens sem ideologia, geração esta que viveu a partir dos anos 60 e que pelo contexto sócio-histórico do Brasil é uma geração de sujeitos que foi marcado pela repressão. A eles não era dado o direito de ser partidário, de escolher de filiar-se a um partido político e não a outro.  

                                   SDR1 - “O meu partido
                                                 É o coração partido
            E as ilusões estão todas perdidas
                    Os meus sonhos foram todos vendidos
         Tão barato que eu nem acredito
                                                  Eu nem acredito
                          Que aquele garoto que ia mudar o mundo
                                                  (mudar o mundo)
                               Freqüenta agora as festas do ‘Grand monde’

        No primeiro verso da canção, o sujeito representa-se como “eu”, e tudo que se refere a ele, é colocado como “meu(s)” e “eu”, simulando que se refere a um sujeito empírico, a uma pessoa. No entanto, pelas condições de produção e pela histórica, sabemos que os sujeitos desse período foram impedidos de falar, de se manifestar. A eles foi imposto o silêncio, pelos atos institucionais, pela repressão. Esse feito de sentido pode ser depreendido da relação entre as palavras VENDIDOS E PERDIDOS.
    A relação entre as duas podem significar a falta de resistência, de alguns, que assumiram cargos no governo militar, delatavam os companheiros, entregando-os aos algozes. Assim, toda a idéia de liberdade constituída se perde. Essa relação traz para o fio do discurso um efeito de desesperança quando o sujeito anuncia que “agora“ freqüenta as festas do “Grand Monde”, antes quando ainda lutava, quando havia esperança não participava, e ao freqüentar esse lugar ele reafirma que foi derrotado pelo poder e passa comemorar com eles a desigualdade social.
    AQUELE GAROTO QUE IA MUDAR O MUNDO pode estar remetendo a um discurso anterior, da guerra do Vietnã, em que os jovens americanos foram para a guerra, para lutar pelos ideais da nação, mas foram mortos e não retornaram.  No Brasil, ao invés de morrer, de lutar para mudar o mundo, os jovens, ou uma parte deles, aceitaram as regalias dadas a quem participa do poder.

                                    SDR2 - Meus heróis morreram de overdose
                                                 Meus inimigos estão no poder
                                                 Ideologia
                                                 Eu quero uma pra viver
                                                 Ideologia
                                                 Eu quero uma pra viver

        A relação existente entre HERÓIS e OVERDOSE, sinaliza para a realidade dos jovens dos anos 80, os quais se perderam nas drogas e morreram vítimas delas. Aqueles que eram admirados, não conseguiram lutar, fugiram para um outro mundo. A sua forma de resistir foi entregar-se ao devaneio. No entanto, aqueles que subordinam, repreendem, prendem, estão mandando no país. O efeito de sentido que tem aí é de falta de motivos para “viver”, a ideologia é tomada como razão para alguém continuar pelo menos a viver e talvez .a lutar.
    De um lado a overdose encaminha para a morte, mas de outro, pode encaminhar para a luta tão intensa, que os levou a serem presos pelos repressores. Segundo Pêcheux (1997) o sentido depende da filiação dos sujeitos a FD’s, as quais determinam o que pode e deve ser dito. Esse período que constitui os anos 80, foi o período em que os hippies predominaram. Eles eram jovens, e o seu lema era “faça amor, não faça guerra”. Essa era, uma forma de viver, que se sustenta afinal, em uma ideologia.
    No entanto, os líderes desse grupo morreram de overdose. A sua forma de fazer amor e de ser livre, era viver sem as leis que vinham das instituições. Eles não as admitiam. Tudo fica bem pior, quando o regime político do país é totalitário e existe só uma forma de sobreviver, e ela se materializa no obedecer, no calar, no aceitar. Quem não faz isso, não sobrevive.
Na SDR2, a palavra “ideologia” nos remete à mudança, que apesar de fracassado, ele ainda quer um motivo para continuar. Talvez isso seja uma ironia, uma forma de protestar pela música. Sabemos que nos períodos ditatoriais as palavras “adquirem” sentidos diversos, dependendo dos sujeitos e da filiação deles a determinadas formações ideológicas. É por isso que, overdose, talvez não se relacione a drogas. Não há um “sentido”, mas a possibilidade de “efeitos de sentido”.
O jovem que canta a música ideologia, pelas projeções imaginárias que realiza, sabe quem é ele e também quem são os sujeitos que ouvem a sua música. Portanto, esses sujeitos participam de um mesmo universo e assim sendo, os “heróis” são comuns a eles, a mudança que pretendem também.

                                    SDR3 - O meu prazer
                                                 Agora é risco de vida
                                                 Meu sex and drugs não tem nenhum rock´n´roll”

        Nesta SDR, o discurso pode referir-se à proliferação da AIDS, doença adquirida justamente pelo sexo livre. A RELAÇÃO PRAZER x RISCO DE VIDA pode estar remetendo a sua doença adquirida, mas não significa que está falando de Cazuza, mas sim dos sujeitos interpelados pela formação discursiva de jovens adeptos do grupo “Faça amor, não faça guerra”, cuja liberdade está cerceada por eles mesmos. Essa repressão não é exercida pelos militares. Ela talvez seja conseqüência da busca de liberdade, da forma que os jovens encontraram para “resistir”, para sinalizar o seu descontentamento.  
    Pensar na relação SEXO X MORTE encaminha para Cazuza, intérprete da música, mostra que estamos atribuindo um sentido a partir do lugar que hoje ocupamos, pois sabemos que, nesse período, muitos jovens morreram de AIDS e que ele mesmo foi uma das vítimas da doença. Sabemos também, pela história, que a maior incidência de morte ocorreu entre homossexuais e que Cazuza era um deles. E também que o sexo realizado era promiscuo. Nossa filiação a redes de memória encaminha a isso, mas podemos pensar que o artista, não encontra lugar para viver em um mundo marcado pelo poder, pela repressão, pela proibição.

                                     SDR4 - Pois aquele garoto que ia mudar o mundo
                                                  (Mudar o mundo)
                                                  Agora assiste a tudo em cima do muro

        Aqui, através do verbo no passado “ia” remete a sujeitos que pretendiam, mas não fizeram. Estar EM CIMA DO MURO, significa não assumir uma posição, significa dissimular. Não assumir um lugar e lutar por ele e pela ideologia a que encaminha. Essa seqüência reencaminha a outra que “meus heróis morreram de overdose” e também aos garotos que “iam” mudar o mundo, mas sumiram, foram mortos, jamais encontrados. Portanto, não há como dizer que o sentido é um. É o trabalho da ideologia que faz com que “o sentido pareça dado”. Talvez remeta ao jeito “malandro de ser” do jovem que não se compromete. No entanto, é difícil dizer.
Ninguém nos garante que estar EM CIMA DO MURO refere ao político, pode estar relacionado ao modo de viver, à opção sexual, às escolhas religiosas, entre outras.
    Nesse texto há a relação Ideologia como presença – heróis morreram de overdose, tinham uma questão pela qual lutar, e ideologia como ausência, como a falta de perspectiva para viver.  Há um efeito de desesperança, talvez de medo, Não há como dizer que o sentido é um. De qualquer forma, o sujeito que responde pelo dizer, mostra-se como um “mau sujeito”, ele se contrapõe à forma-sujeito, instaura a dúvida e a contradição.
                                       
3.4 Análise da música Brasil
       

        A letra Brasil, atualiza o dilema e o radicalismo do momento, pois aquele que freqüentava as festas do “grand Mond” não é mais nem convidado.
                                    
                                     SDR1 -  Não me convidaram
                                                   Para esta festa pobre

      Nesta primeira estrofe da canção, inicia com um advérbio de negação “não” que sinaliza para a exclusão das festas. O sujeito usa de ironia ao mencionar “festa pobre”, desdenhando as reuniões de pessoas de poder e de alta renda. A negação e a festa pobre remete à falta de conteúdo ideológico já manifestado na música anterior, pois, segundo Orlandi (2002) as palavras e os discursos dialogam com outros discursos e com outras palavras. Entram em rede pela repetição, próprio das paráfrases.

                                     SDR2 – Que os homens armaram
                                                   Para me convencer
                                                   Apagar sem ver
                                                   Toda essa droga
                                                   Que já vem armada
                                                   Antes de eu nascer

        A festa pobre foi armada e nela se vislumbra o trabalho da ideologia que se relacionam com convencimento. Assim, a palavra “armaram” pode remeter a “dar armas” e através delas, pelo medo, convencer. Pode significar também a dissimulação. A festa pode não ser “festa”, mas uma sessão de “tortura”, em que as pessoas são obrigadas a convencer alguém a ser ou a dizer algo.
A armação pode remeter também à dívida do Brasil, ao fato de o país não ter autonomia, porque “deve” para os países ricos e eles determinam o que ele pode ou deve fazer/dizer. A palavra droga, também é dúbia, contraditória, pode encaminhar para filiações outras, nem sempre à calamidade do poder, mas talvez à calamidade do uso da droga.

                                     SDR3 –“Fiquei na porta
                                                   Estacionando carros”

        Através do verbo “fiquei”, tem o efeito de sentido de uma ação concluída, mas também pode significar exclusão. Os outros entraram, foram “convidados”, mas eu não posso chegar até a porta, mas ficar nela, realizando um serviço. Pode também significar que alguns podem desfrutar das riquezas, dos prazeres, outros devem servir, olhar, estacionar carros, ser espectador da festa, que talvez seja pobre, pela forma como se realiza. A pobreza pode não estar referida à riqueza, mas à promiscuidade, ao falso moralismo, à traição.
    O discurso, como efeito de sentido entre interlocutores, segundo Pêcheux, sinaliza para a interpretação relacionada às condições sócio-históricas e ao efeito do dado como fato, ao que ele faz retormar no discurso, aos espaços que ele trabalha.

                                      SDR4 – “O meu cartão de crédito
                                                     É uma navalha”

        A relação cartão de crédito e navalha pode referir à inflação, ao fato de que o sujeito compra, mas o juro que vem nessa compra, por ser realizada em torno do cartão de crédito, pode fazer com que ele não possa pagar. Talvez a relação CARTÃO DE CRÉDITO X NAVALHA esteja significando que ter liberdade, pode significar a morte pelas opções sexuais, pelo modo de vida, pelo uso de drogas e pelo uso das armas dadas pela própria sociedade, pelo sistema.
    Em relação a isso não se pode esquecer as condições sócio-históricas do período de formulação e circulação desse texto, cujo cenário era de resistência, cuja forma constituia-se de “fazer amor”, não “fazer a guerra”, incluindo as relações de sexo livre e também do consumo de drogas livre.

                                      SDR5 - Brasil!
                                                   Mostra a tua cara
                                                   Quero ver quem paga
                                                   Pra gente ficar assim
                                                   Brasil

                                      SDR6 - Qual é o teu negócio?
                                                   O nome do teu sócio?
    
Brasil, mostra a tua cara.  Mostrar a cara tem o efeito de sentido de ser transparente, de desnudar-se. Talvez mostrar a cara signifique mostrar quem está dominando, quem está “mandando” reprimir, criar a recessão. Esse “quero ver quem paga para a gente ficar assim”, faz retormar um discurso anterior, que envolveu Allende, cujo país sofreu o desabastecimento, a miséria, a recessão, tudo para derrubar o governo, o qual segundo a versão da história, cometeu suicídio, mas talvez tenha sido morto. Quem manda no contexto chileno de Allende são os Estados Unidos.
Essas seqüências falam com outras, anteriores, que retornam aqui. A relação NEGÓCIO X SÓCIO sinaliza para uma “construção”, uma simulação, que gera lucros e que causa a pobreza porque isso é bom para um grupo, para facções. Significa ausência de ideologia que encaminha para o melhor para todos e sinaliza para desonestidade, desesperança. Entretanto a palavra negócio tem vários sentidos, depende do sujeito que lê e das filiações dele. Não há certeza, há questões, não conteúdos, mas efeitos.
        
                                      SDR7 – “Não me convidaram”
                                                   “Não me ofereceram”
                                                   “Não me elegeram”
                                                   “Não me sortearam”
                                                   “Não me subornaram”

                Estas seqüências de “não”, reforça a idéia de exclusão, de estar fora. Estar fora pode significar muitas coisas: estar fora do país (ter sido exilado, ser preso político), estar fora da família (não ser aceito, ser discriminado), estar fora da formação social (ser marginalizado). Não ser eleito pode fazer emegir regimes totalitários, onde não há eleição, mas pode significar também não ser escolhido, estar à margem. Temos que lembrar que no período ditatorial, as pessoas eram “escolhidas” e não eleitas pelo voto.
SORTEAR E SUBORNAR pode encaminhar para o aleatório, quer um pode ser ELEITO, desde que dê vantagens, que aceite o suborno, o logro.  

                                      SDR8 – “Será que é o meu fim?”

        O MEU FIM – pode inscrever o sentido em vários domínios do saber. Pode relacionar ao fim dos jovens, acometidos de doenças, mortos por overdose ou relacionar-se ao regime, que prende, mata, faz desaparecer. Pode referir também ao país, aos caos do momento político. Ainda pode significar o fim de um regime político (o da ditadura militar).

                                      SDR9 – “Em nenhum instante eu vou te trair
                                                     Não, não vou te trair”

        Será que esse trair refere à pátria? Talvez não. Não há como saber de intenções, do que o autor pretende. Pode estar referindo a uma seita religiosa, a um Deus, a um amor, a uma pessoa, a um crença. Como o título da música é Brasil, o trabalho da ideologia evidencia, que não vai trair o país. Mas nada garente esse sentido.  


3.5 Análise da música O tempo não pára



        De início, nos deparamos com sinais que ficaram da ditadura, através das palavras “disparo”, ”metralhadora”. No entanto, não são somente os militares que usam metralhadoras. Os bandidos também a utilizam e o pior é que às vezes, são os próprios militares que as fornecem. Esses são os que traem o Brasil, a sociedade, os marginalizados.

                                     SDR1 - Disparo contra o sol
                                                  Sou forte, sou por acaso
                                                  Minha metralhadora cheia de mágoas
                                                  Eu sou um cara

         Os verbos “disparo” e “sou” encaminha a um “eu”, mas o eu em AD não é um sujeito empírico, mas um sujeito coletivo, que ocupa uma posição que sustenta o seu dizer e a sua forma de viver. As evidências de homogeneidade permitem pensar que é um sujeito individual, que é Cazuza. Na verdade o sujeito é sempre tomado e significa pelo outro, aquele com quem vive, e também com o inconsciente, que o atravessa.
    A metralhadora cheia de mágoas pode sinalizar para o fato de que ele “fala’, ele canta, mas esse canto e a crítica que o constitui, está magoado, destruído, pois ele é um cara, anônimo, um entre tantos.  
 

                                     SDR3 - Dias sim, dias não
                                                  Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
                                                  Da caridade de quem me detesta

        A caridade de quem me detesta, a sobrevivência, a pobreza, talvez a doença, a rejeição.  Sobrevivendo, não significa viver, mas viver apesar de. Não estar em relação com o regime, mas também com a vida pessoal, com a vida dos jovens.

SDR4 – “A tua piscina tá cheia de ratos
                              Tuas idéias não correspondem aos fatos
                                                     O tempo não pára”

          Por trás desse glamour representada pela palavra piscina  está a podridão representada por ratos. A dissimulação, o trabalho da ideologia está nas TUAS IDÉIAS QUE NÃO CORRESPONDEM AOS FATOS. Sinaliza para o discurso inflamado, pelas aparências de paz, que escondem mortos, desaparecidos, exilados.
Pode estar referindo simplesmente à burguesia, às aparências que a sustentam. De qualquer forma o poder e a realidade, as aparências e a verdade dela são contraditórias. O fato de o tempo não parar pode significar que um dia as coisas vão mudar, que o tempo tudo transforma, tudo muda.
                                       
 SDR5 – “Eu vejo o futuro repetir o passado
                             Eu vejo um museu de grandes novidade”

        O tempo não pára talvez encaminhe para a repetição, para o mesmo. Quer dizer, as revoluções se fizeram, mas elas estão nos museus, fazem parte do estabilizado, não significam para os sujeitos. A repetição é tomada como novida, mas constituem o mesmo.
                                    SDR6 – “Eu não tenho data para comemorar”

        Não ter data para comemorar significa não ter passado, não se inscrever em uma memória, pode referir ao não engajamento, talvez à morte por overdose. Talvez um longo período sem festas, marcado pelo mesmo regime, pela repetição de um mesmo regime, que não se acaba.  

                                    SDR7 – “Nas noites de frio é melhor nem nascer
                                                   Nas de calor é matar ou morrer”

         Este trecho demonstra que o sujeito tem a seu lado certo, sua opinião definida e que não está frio nessa batalha,e se for para ficar frio, “é melhor nem nascer” e , “nas de calor” se escolhe é tudo ou nada, o povo se submete ao poder ou se glorifica dessa maneira ele explica o “ser” brasileiro: aquele que realmente sabe o que quer.

                                      SDR8 – “Te chamam de ladrão de bicha maconheiro”

         O cidadão é o marginal. No contexto militar ser “bicha” e ser “maconheiro” é estar fora. Mas quem é chamado por esses adjetivos? O cidadão? O governo? Os que resistem?

                                     SDR9 – “Transformam o país inteiro num puteiro
                                                    Pois assim se ganha mais dinheiro”

        A palavra “puteiro” encaminha para o caos, para um país sem leis, uma anarquia. Mas o que é anarquia? A inflação? A resistência? A vida dos jovens? Os relacionamentos gays? O uso de drogas? Os militares? Os subornos? É comprar tudo de fora? É não valorizar o produto brasileiro?
                                                    
       
             




























CONCLUSÃO






        As músicas analisadas, o sujeito que as canta, o momento sócio-histórico de sua constituição e circulação encaminham o sentido para determinada direção. No entanto, cabe lembrar, que esse período foi um dos mais produtivos no meio artístico. Isso se deve justamente à repressão, que exigia o silêncio e o desejo de dizer, de engajar, de chamar à luta, à resistência que fazia-os falar. Esse falar se dava pela criação de mundos, pela simulação, pelas transferências de sentidos, pela personificação.
O sentido, sempre era outro, a overdose, talvez não remetesse à droga. A doença talvez não fosse a AIDS, o sexo poderia não ser sexo. Tudo depende dos sujeitos que lêem e das formações discursivas que os interpelam. Ser artista é poder dizer, mas ser artista é também morrer. Relacionar o sujeito que assina a música e o sentido do texto, é reduzir o discurso a um conteúdo. É cair na armadilha do “toma lá dá cá”. Será que Cazuza era tão óbvio, tão transparente? Será que Brasil é o país? Será que o cara é ele? Sou eu? Ou são os jovens que integraram o movimento “Faça amor, não faça a guerra”?
Quem é o “garoto que queria mudar o mundo?” Será algum jovem político? Um presidente? Um senador? Alguém que morrer por causa do regime totalitário? Que tempo é esse que não pára? O tempo da história ou o tempo da memória?
Diante disso tudo  vale lembrar: o sujeito é sempre ideológico. Segundo Pêcheux, ele é também coletivo, significa pelas posições que ocupa, mas não ocupa apenas uma posição. Ele é dividido, não é o centro do dizer. Nele fala não só o consciente, mas também o inconsciente.
        Considerando as condições de produções das seqüências discursivas analisadas nas músicas, a relação entre a formação ideológica e a formação discursiva sinaliza para a inscrição do sujeito a FD´s.  
       Nosso objetivo, com este trabalho, foi buscar os procedimentos discursivos e os efeitos de sentidos produzidos por essas canções em relação ao contexto sócio-histórico, que constituem as condições de produção delas. Ancoramos nossas posições na Análise de Discurso de linha francesa, desenvolvida a partir dos anos 60, na França por Michel Pêcheux  e Eni Orlandi,  
Em relação aos procedimentos discursivos, podemos dizer que as palavras, as expressões encaminham para sentidos outros e que retornam nesse discurso, constituído pelas letras das músicas outros discursos, fazendo trabalhar espaços discursivos outros, os quais dependem do sujeito e da relação dele com esses espaços. As condições de produção da formulação do discurso e da circulação dele podem encaminhar para um sentido e não para outro. No entanto, é impossível engessar o sentido, dizer que ele é um e não outro. O trabalho da ideologia no discurso fica patente, também pela inscrição de Cazuza a um tempo, a um espaço e a uma relação de Cazuza como jovem, com a política e com as instituições. Será que a indignação dele é com a condição do Brasil ou com a condição dos jovens desse período?
        


      













REFERÊNCIAS
    




BUARQUE  de Holanda, Aurélio. Novo Dicionário Aurélio. 1°. ed. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1976.

CAZUZA, Ideologia. Rio de Janeiro: Polygram, 1988. 1 CD.

_______ O Tempo não pára. Rio de Janeiro: Polygram, 1988. 1 CD.

FILHO, Ciro Marcondes. Ideologia. 7ª. Ed. São Paulo: Global, 1991 (Coleção para entender).

LÖWY, Michael. Ideologias e Ciências Sociais: elementos para uma análise.  16ª. Ed. São Paulo: Cortez, 2003.

INDURSKY, Freda. Formação discursiva. Ela merece que lutemos por ela?  In: INDURSKY, Freda & FERREIRA, Maria Cristina Leandro. Análise do Discurso no Brasil: mapeando conceitos, confrontando limites. São Carlos, Claraluz, 2007.

ORLANDI, Eni P.Interpretação: Autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico. Rio de Janeiro: Vozes , 1996.

_____________ A Linguagem e se Funcionamento: as formas do discurso. 4. ed. Campinas – SP: Pontes 1996.

_____________ Discurso e Sujeito. São Paulo: Editora Puc, 1988.

_____________ Análise do Discurso: princípios e procedimentos. São Paulo: Pontes, 2005.

___________ Discurso Fundador. A formação do país e a construção da identidade nacional. Campinas: Pontes, 1993.

PÊCHEUX, M. Análise do Discurso: três épocas (1983). In: GADET F.; HAK, T. (Orgs.) Por uma Análise Automática do Discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. Trad. de Eni P. Orlandi. Campinas: Unicamp, 1997 a.

_____________. Semântica e Discurso: uma afirmação do óbvio. Campinas: Editora da Unicamp, 1997b.

_____________O papel da memória. In: Achard, Pierre (orgs). Papel a memória. Campinas, SP, 1999.

_____________. O Discurso, estrutura ou conhecimento. Campinas: Pontes, 2002.

MIRANDA, W. Melo. Brutalidade Jardim: tons na noção na música brasielira. In: Decantando a República, v2:inventário histórico e político da canção popular brasileira/Berenice Cavalcante, Heloisa Maria Murgel Starling, José Einsenberg (orgs) .São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004.

UNIVERSIDADE DE CRUZ ALTA. Normatização de teses, disertações e trabalhos academicos da Universidade de Cruz Alta – Unicruz. 3.ed.Cruz Alta: Unicruz, 2006.







ANEXOS




Ideologia

“O meu partido
É o coração partido
E as ilusões estão todas perdidas
Os meus sonhos foram todos vendidos
Tão barato que eu nem acredito
Eu nem acredito
Que aquele garoto que ia mudar o mundo
(mudar o mundo)
Freqüenta agora as festas do ‘Grand monde’

Meus heróis morreram de overdose
Meus inimigos estão no poder
Ideologia
Eu quero uma pra viver
Ideologia
Eu quero uma pra viver

O meu prazer
Agora é risco de vida
Meu sex and drugs não tem nenhum rock´n´roll
Eu vou pagar a conta do analista
Pra nunca mais ter que saber quem eu sou
Pois aquele garoto que ia mudar o mundo
(Mudar o mundo)
Agora assiste a tudo em cima do muro

Meus heróis morreram de overdose
Meus inimigos estão no poder
Ideologia
Eu quero uma pra viver
Ideologia
Eu quero uma pra viver”


Brasil

Não me convidaram
Pra esta festa pobre
Que os homens armaram
Pra me convencer
Apagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada
Antes de eu nascer...

Não me ofereceram
Nem um cigarro
Fiquei na porta
Estacionando os carros
Não me elegeram
Chefe de nada
O meu cartão de crédito
É uma navalha...

Brasil!
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil!
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim...

Não me convidaram
Pra essa festa pobre
Que os homens armaram
Pra me convencer
Apagar sem ver
Toda essa droga
Que já vem malhada
Antes de eu nascer...

Não me sortearam
A garota do Fantástico
Não me subornaram
Será que é o meu fim?
Ver TV a cores
Na taba de um índio
Programada
Prá só dizer "sim, sim"

Brasil!
Mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil!
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim...

Grande pátria
Desimportante
Em nenhum instante
Eu vou te trair
Não, não vou te trair...

Brasil!
Mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil!
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim
Confia em mim
Brasil!!!



O Tempo Não Pára

Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara

Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára

Eu não tenho data pra comemorar
Às vezes os meus dias são de par em par
Procurando uma agulha num palheiro

Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros
Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro

 
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